quarta-feira, 22 de abril de 2015

O CULTO: EVANGÉLICO OU REFORMADO?

Por W. Robert Godfrey

Um dos desafios de ser reformado nos Estados Unidos é descobrir a relação entre o que é evangélico e o que é reformado. Nos Estados Unidos o protestantismo é dominado pelos protestantes, evangélicos e carismáticos. Logo após esses grupos dominantes, outros que poderiam ser incluídos são os luteranos confessionais. Mas, onde os reformados se enquadram, particularmente em relação aos evangelicais, com quem, historicamente, temos estado mais intimamente relacionados?

Alguns observadores argumentam que os reformados confessionais são um subgrupo do movimento evangélico mais amplo. Certamente, ao longo dos séculos nos Estados Unidos, muitas vezes os reformados têm se aliado aos evangélicos, têm compartilhado muita coisa em comum com os evangélicos, e muitas vezes têm evitado criticar os evangélicos. Mas nós, reformados, somos realmente evangélicos?

Uma área em que as diferenças entre evangélicos e reformados pode ser examinada é a questão do culto. À primeira vista, podemos ver mais similaridades que diferenças. As liturgias em igrejas reformadas e evangélicas podem ser quase idênticas. Certamente os dois tipos de igrejas cantam canções, leem as Escrituras, oram, pregam e administram o batismo e a Ceia do Senhor. No entanto, será que essas semelhanças refletem apenas um acordo formal, ou elas representam um entendimento comum do significado e da função desses atos litúrgicos no culto?

Se observarmos de perto, acredito que veremos as diferenças substanciais entre evangélicos e reformados sobre culto. Essa diferença é clara em duas questões centrais: primeiro, a compreensão da presença de Deus no serviço litúrgico; e, segundo, o entendimento do ofício ministerial no culto.

A Presença de Deus no Culto
Pode parecer um problema estranho levantar a questão da presença de Deus no culto. Ambas as igrejas não creem que Deus está presente com o seu povo no culto? De fato, creem! Mas, como Deus está presente e como ele é ativo em nosso culto?

Parece-me que, para o evangelicalismo, Deus está presente no culto basicamente para ouvir. Ele não está longe. Pelo contrário, ele está íntima e amorosamente presente para observar e ouvir a adoração do seu povo. Ele ouve o seu louvor e as suas orações. Ele vê a obediente observância dos sacramentos. Ele ouve os testemunhos e o compartilhar. Ele atende ao ensino da sua Palavra, ouvindo para ter certeza de que o ensino é fiel e preciso.
O efeito desse sentido do culto evangélico é que a tensão está sobre a dimensão horizontal do culto. A sensação da comunhão terna e pessoal, e a participação entre os crentes no culto são cruciais. Tudo aquilo que aumenta a sensação de envolvimento, especialmente no nível das emoções, é bem provável que receba a aprovação. O culto deve ser inspirador e avivador. Então, Deus observará e se agradará.

A fé reformada tem uma compreensão fundamentalmente diferente da presença de Deus. Deus, de fato, está presente para ouvir. Ele ouve o louvor e as orações do seu povo. Mas ele também está presente para falar. Deus não está presente apenas como observador. Ele é um participante ativo. Ele fala na Palavra e nos sacramentos. Como cristãos reformados não acreditamos que ele fala direta e imediatamente a nós na igreja. Deus usa meios para falar. Mas ele fala real e verdadeiramente a nós através dos meios que ele designou para a sua igreja. Verdadeiramente, é Deus quem fala no ministério da Palavra – quando ela é propriamente pregada e ministrada em acolhimento e bênção. A Segunda Confissão Helvética diz apropriadamente: “A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus”.

De acordo com o entendimento reformado, Deus também está presente de maneira ativa e falando nos sacramentos. Os sacramentos são muito mais sobre Deus do que sobre nós. Através deles Deus fala da realidade da presença de Jesus para abençoar seu povo à medida que confirma a verdade do seu evangelho e suas promessas por meio dos sacramentos.

O efeito desse entendimento do culto reformado é que a tensão é colocada sobre a dimensão vertical do culto. A dimensão horizontal não está ausente, mas o foco não está sobre ternos afetos e o compartilhar. Pelo contrário, está na comunidade como uma unidade encontrando com o seu Deus. Nossa comunhão primária um com o outro está nas atividades unificadas do falar a Deus com cânticos e orações, bem como no escutar juntos quando Deus fala conosco. A orientação vertical do nosso culto garante que Deus seja o foco da nossa adoração. A primeira importância de qualquer ato de adoração não está no seu valor para as pessoas, mas na sua fidelidade à revelação da vontade de Deus para o culto. Devemos nos encontrar com Deus apenas da maneira como o agrada. O nosso temor e a nossa alegria quando entramos na presença do Deus vivo para ouvi-lo falar é o que molda e energiza o nosso culto.

O Ofício Ministerial no Culto
A diferença entre a fé reformada e o evangelicalismo sobre a presença de Deus no culto está intimamente ligada às suas diferenças sobre o ofício ministerial no culto. Para o evangelicalismo, os ministros parecem ser vistos como membros talentosos e educados da congregação, chamados por Deus para liderar o planejamento e o ensino. Os ministros usam os seus talentos para facilitar o culto da congregação e instruir o povo. Os ministros não são vistos como falando em nome de Deus de forma distintiva ou como possuindo uma autoridade especial vinda de Deus. Pelo contrário, a sua autoridade reside apenas na confiabilidade do seu ensino, o que seria verdade em relação a qualquer membro da congregação.

O efeito dessa visão evangélica acerca do ofício ministerial é criar um caráter muito democrático para o culto, no qual a participação de muitos membros da congregação na liderança do culto é uma coisa boa. Quanto mais alguém possa compartilhar, melhor. Os muitos dons que Deus deu aos membros da congregação devem ser usados para edificação mútua. Mais uma vez, a dimensão horizontal do culto tem prevalecido.

A visão reformada do ofício ministerial é bem diferente. O ministro é chamado por Deus do meio da congregação para liderar o culto pela autoridade do seu ofício. Ele é examinado e separado para representar a congregação diante de Deus e para representar Deus diante da congregação. No grande diálogo da adoração, ele fala a Palavra de Deus para o povo e fala as palavras do povo para Deus, exceto nos casos em que a congregação como um todo levanta a sua voz em uníssono a Deus. Nós, que somos reformados, não abraçamos essa visão porque somos antidemocráticos ou porque acreditamos que o ministro é o único membro talentoso da congregação. Seguimos esse padrão porque acreditamos que ele é bíblico e o padrão de culto divinamente apontado.

O efeito dessa visão do ofício ministerial reforça a sensação de um encontro com Deus de uma forma reverente e oficial. Ela também garante que aqueles que lideram o culto público sejam chamados e autorizados para a obra de Deus. De maneira correta os reformados suspeitam de membros da congregação não treinados e não autorizados entregando mensagens mais longas ou mais curtas à congregação. No culto nos reunimos para ouvir a Deus, não as opiniões dos membros. A dimensão vertical do culto permanece central.

Conclusão
O contraste que eu tenho traçado entre o culto evangélico e reformado, sem dúvida, possui muitas nuances. Certamente eu tentei estabelecer meus pontos pintando com um pincel muito amplo. No entanto, creio eu que a análise básica está correta.

Uma grande dificuldade que nós, o povo reformado, temos em pensar sobre culto é que o nosso culto foi acomodado em muitos lugares segundo o padrão evangélico. Se apreciamos a nossa herança reformada no culto e, igualmente importante, se queremos comunicar a sua importância, caráter e poder a outras pessoas, precisamos entender o caráter distintivo do nosso culto.

Nosso propósito ao fazer este contraste não é humilhar os evangélicos. Eles são, verdadeiramente, nossos irmãos e amigos. Mas nós temos diferenças reais com eles. Se o culto reformado não deve se extinguir como os dinossauros, nós, como reformados, devemos chegar a um claro entendimento do que ele é e devemos nos comprometer de forma zelosa a ele. Para que isso seja alcançado, precisamos observar não apenas similaridades formais, mas, muito mais importante, precisamos ver as profundas diferenças teológicas que distinguem o culto evangélico do culto reformado.

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