sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

OS 10 MELHORES LIVROS (E O PIOR!) DE 2015

Seguindo o exemplo de vários amigos decidi retornar com a lista dos dez melhores livros que li durante este ano. E em vez de “esquentar a cabeça” procurando determinar qual livro foi o melhor, resolvi listar os livros por ordem de leitura. Além disso, neste ano farei uma menção desonrosa, nomeando a pior leitura do ano.



01. HYDE, Daniel R. The Nursery of the Holy Spirit: Welcoming Children in Worship. Wipf & Stock.
            Neste livro o Pr. Daniel Hyde argumenta em favor da plena inclusão das crianças no culto solene, indo contra a difundida prática de retirá-las no momento do sermão, para o que chamam de “cultinho infantile”. O autor apresenta uma excelente investigação histórica e bíblica, além de oferecer excelentes conselhos práticos para que os pais ajudem seus filhos a compreenderem os sermões.


02. FERGUSON, Sinclair. The Trinitarian Devotion of John Owen. Reformation Trust.
            Excelente exposição do pensamento do grande puritano John Owen, sobre como o cristão desfruta de comunhão com cada uma das Pessoas da Santíssima Trindade. Melhor que ler a exposição feita pelo Dr. Sinclair Ferguson, só mesmo ler a obra do próprio John Owen, Comunhão com o Deus Trino. O livro foi publicado pela Editora Fiel e pode ser adquirido aqui.


03. TRUEMAN, Carl R. O Imperativo Confessional. Monergismo.
            Livro particularmente importante para membros de igrejas protestantes confessionais. Vivemos dias nos quais aumenta a infidelidade confessional e aos votos de ordenação. O Dr. Trueman apresenta a fundamentação bíblica do confessionalismo, sua importância e seus benefícios para a igreja.


04. REINKE, Tony. Lit! A Christian Guide To Reading Books. Crossway.
            Li este livro no início do ano e o recomendei a vários amigos. O livro é dividido em duas partes. A primeira apresenta uma teologia da leitura. Destaco a argumentação do autor em relação à importância da leitura em oposição ao apego contemporâneo a recursos visuais. Na segunda parte Reinke oferece vários conselhos práticos, por exemplo, como marcar os livros, como balancear a leitura com diferentes gêneros literários etc.


05. TRIPP, Paul David. Vocação Perigosa: Os Tremendos Desafios do Ministério Pastoral. Cultural Cristã.
            Leitura preciosa para todos aqueles que servem no Sagrado Ministério da Palavra. Paul Tripp tem uma capacidade única de nos levar às lágrimas e ao clamor por mais misericórdia e graça, a fim de não sermos engolidos por nossos próprios corações.


06. KÖSTENBERGER, Andreas J. Excellence: The Character of God and the Pursuit of Scholar Virtue. Crossway.
            Köstenberger trabalha a importância da busca pela excelência vocacional, moral e acadêmica por parte de todos aqueles que se ocupam da Teologia. Leitura recomendada aos meus amigos pastores/mestres.


07. BURROUGHS, Jeremiah. Adoração Evangélica. Os Puritanos.
            Diferente de outras obras a respeito do culto, esta não se preocupa tanto em definir quais elementos de culto são permitidos na adoração a Deus. Antes, o seu propósito está em como o adorador pode ouvir sermões, orar e receber os sacramentos de modo a santificar devidamente o nome do Senhor.


08. ESWINE, Zack. A Depressão de Spurgeon. Fiel.
            Crente não tem depressão? Homens de Deus não ficam deprimidos? Neste livro Zack Eswine analisa os escritos e sermões do Príncipe dos Pregadores para, a partir das suas próprias palavras, oferecer conselhos valiosos e esperança a todos aqueles que lutam contra a depressão, principalmente pastores.


09. WIKER, Benjamin. 10 Livros que Estragaram o Mundo. Vide Editorial.
            Se você deseja compreender melhor a terrível visão de mundo que fundamenta quinze obras amplamente lidas em nossa sociedade, então, este é o livro que você deve ler. De acordo com o autor, o mundo seria um lugar bem melhor se tais obras nunca tivessem sido escritas.


10. DALRYMPLE, Theodore. A Vida na Sarjeta. É Realizações.
            Minha sensação ao ler este livro foi a de que o autor não estava falando da realidade dos bairros pobres de Londres, na Inglaterra. Em muitas ocasiões eu tive a convicção de que ele estava descrevendo o caos moral no qual a nossa sociedade brasileira está mergulhada.

MENÇÃO DESONROSA - A PIOR LEITURA DO ANO!

- 1. CUNHA, Renato. Sob os Céus da Escócia. Reflexão.
            Ao longo do ano fiz algumas leituras que, simplesmente, não me empolgaram. Não obstante, a leitura de Sob os Céus da Escócia não apenas não me empolgou, mas, na verdade, despertou a minha indignação. Há muito tempo, desde a leitura de Eleitos, mas Livres, de Norman Geisler, eu não lia algo tão desonesto em seu método e em sua argumentação. O grande desejo do autor é provar que a Confissão de Fé de Westminster, João Calvino, John Knox e a maior parte dos puritanos ingleses e escoceses eram continuístas, de maneira que tanto ensinaram sobre como tiveram experiências com o dom de profecia.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O PROPÓSITO DO SHABBATH: DESCANSO OU DESCANSO ESPIRITUAL?


Um ponto que é essencial para a nossa compreensão acerca do dia do Senhor é entendermos qual é, exatamente, a natureza do descanso que nos é ordenado e providenciado pelo Senhor em seu dia. Isso envolve compreendermos se o domingo é um dia meramente voltado para o descanso físico, para o recompor das energias ou até mesmo para o ócio, a fim de enfrentarmos mais uma semana de trabalho, voltado para o descanso e o lazer com a família[i], ou se o domingo é um dia voltado para o descanso espiritual, isto é, para a devoção mais íntima, mais focada em Deus juntamente do povo de Deus.

Há alguns anos, quando estava ensinando a respeito do dia do Senhor houve quem protestasse dizendo ser o domingo o único dia que tinha para ir à praia e fazer um churrasco com a família. Eu acredito que não são poucas as pessoas que possuem este raciocínio, que entendem que o propósito do dia do Senhor é tão somente proporcionar o descanso, o repouso e o lazer necessários após uma estressante e estafante semana de trabalho, afinal de contas, no mandamento o Senhor Deus nos diz: “não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro” (Êxodo 20.10). Ao mencionar os servos e os animais se vê claramente que o dia de descanso tem em vista o descanso e o refazer do vigor e das forças. No entanto, a questão é: É apenas isso? O único propósito do dia do Senhor é proporcionar ao trabalhador um momento para dormir até mais tarde, ir à praia com a família, fazer um piquenique, etc?

Esta questão é de grande importância, pois como salienta o Pr. Ryan McGraw, pastor da Igreja Presbiteriana da Graça, em Conway, na Carolina do Sul:
O cerne do debate sobre o que é lícito no Shabbath é se o propósito do dia é descansar ou se é descansar “empregando todo o tempo em exercícios públicos e particulares de adoração a Deus” (Breve Catecismo de Westminster, P. 60). A maneira como você responde a esta pergunta determina como você observará o dia. Este ponto determina como você responderá a cada pergunta a respeito de quais pensamentos, palavras e obras são apropriados no Shabbath, bem como se recreações seculares que são lícitas nos outros dias também são lícitas no Shabbath. Se você crê que o propósito do dia é descansar, então a ênfase da sua guarda do Shabbath estará sobre aquilo que faz com que você se sinta mais descansado. Por outro lado, se você acredita que o propósito do Shabbath é consagrar um dia para o culto privativo, familiar e público, então você excluirá todas as práticas que são inconsistentes com o culto ou que não o promovem de forma imediata.[ii]
Por aquilo que as Escrituras revelam fica claro que o propósito do dia do Senhor não é apenas proporcionar descanso físico ao seu povo após uma semana de trabalho intenso. O descanso do dia do Senhor não pode ser igualado a inatividade ou ócio. No início da letra do quarto mandamento encontramos um indício de como o dia deve ser compreendido: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar” (Êxodo 20.8). Devemos atentar para o fato de que o descanso do Shabbath é um descanso santo. O dia deve ser santificado. Todos nós sabemos que quando algo é santificado isso significa dizer que o mesmo é retirado do seu uso comum para servir a um fim religioso ou piedoso. Quando algo é consagrado isso significa dizer que é separado por Deus para ele mesmo, para a fruição do próprio Deus, para o deleite e o agrado dele. A mesma ideia aparece, por exemplo, em Êxodo 31.15-17: “Seis dias se trabalhará, porém o sétimo dia é o sábado do repouso solene, santo ao SENHOR; qualquer que no dia do sábado fizer alguma obra morrerá. Pelo que os filhos de Israel guardarão o sábado, celebrando-o por aliança perpétua nas suas gerações. Entre mim e os filhos de Israel é sinal para sempre; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e tomou alento”. Assim, vejam que o dia é declarado um dia santo.

Além disso, está escrito em Êxodo 35.1-2: “Tendo Moisés convocado toda a congregação dos filhos de Israel, disse-lhes: São estas as palavras que o SENHOR ordenou que se cumprissem: Trabalhareis seis dias, mas o sétimo dia vos será santo, o sábado do repouso solene ao SENHOR; quem nele trabalhar morrerá”. Permitam-me citar também as palavras de um pastor presbiteriano chamado Robert L. Reymond a respeito da natureza do dia do Senhor como um “repouso solene”:
Nesta passagem é importante notar o significado da palavra “repouso” e as palavras seguintes “ao SENHOR”. “Repouso” não pode significar mera cessação de trabalho, muito menos recuperação da fadiga. Essa ideia também não é aplicável ao “descanso” de Deus em Gênesis 2.2-3. A primeira ideia é negada por nosso Senhor em João 5.17 onde ele afirma que o “Pai trabalha até agora”. A última é inapropriada à ideia de quem Deus é. “Repouso” significa o envolvimento numa nova atividade, no sentido de uma atividade diferente. Significa a cessação do labor dos seis dias e a tomada de diferentes labores apropriados ao dia do Senhor. O que esses labores do repouso do Sabbath são está circunscrito pela frase acompanhante “ao SENHOR”. Eles certamente incluem tanto o culto corporativo quanto o privado e a contemplação da glória de Deus.[iii]
Isso fica ainda mais claro quando observamos a posição do quarto mandamento no Decálogo. Essa posição coloca uma forte ênfase sobre a ideia de culto. Os primeiro quatro mandamentos tratam da nossa relação direta com Deus de modo geral e, mais especificamente, do culto que devemos prestar a ele. O primeiro mandamento trata do objeto de culto, o segundo da maneira do culto, o terceiro da atitude apropriada do culto, e o quarto do tempo separado exclusivamente para o culto.

O puritano Lewis Bayly, em sua obra A Prática da Piedade, uma obra que influenciou a ninguém menos que John Bunyan, autor da famosa obra O Peregrino, disse o seguinte: “Aquele que observa o Shabbath só descansando do seu trabalho comum, observa-o como qualquer animal. Mas a guarda desse dia como descanso é ordenada aos cristãos igualmente como ajuda à santificação. Assim também o trabalho é proibido por impedir o culto exterior e interior de Deus”.[iv]




[i] Na mente de muitas pessoas este é o único propósito do domingo. O dia foi estabelecido para ser aproveitado em família. Nesse caso, há uma dissociação do propósito intentado por Deus.

[ii] Ryan M. McGraw. The Day of Worship: Reassessing the Christian Life in Light of the Sabbath. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2011. pp. 25-26.

[iii] Robert L. Reymond. “Lord’s day Observance”. In: Contending for the Faith: Lines in the Sand that Strengthen the Church. Ross-shire: Christian Focus Publications, 2005. p. 181.

[iv] Lewis Bayly. A Prática da Piedade. São Paulo: PES, 2010. p. 265.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

DA NECESSIDADE DE COERÊNCIA ENTRE PREGAÇÃO E VIDA DO PREGADOR E A SUA INCAPACIDADE

Introdução

Não há tarefa mais importante para um Ministro do Evangelho do que expor as Sagradas Escrituras, a fim de alimentar o rebanho do Supremo Pastor, o Senhor Jesus Cristo. A tradição cristã reformada entende acertadamente que a fiel pregação é a Vox Dei, a voz de Deus falando ao povo da aliança reunido em assembleia solene no dia do Senhor. A Segunda Confissão Helvética, datada de 1562 e escrita por Heinrich Bullinger, em seu primeiro artigo afirma: “A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus”.[i] Tão séria e solene é a tarefa da pregação, que o apóstolo Paulo, escrevendo aos romanos, afirmou: “Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? [...] E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (10.13-15,17). É pela pregação da Palavra de Deus, como instrumento, que o Espírito Santo regenera o coração do pecador e o traz à fé em Jesus Cristo. Tiago, em sua epístola, afirmou que, segundo o querer de Deus, fomos gerados “pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (1.18).

Dada a magnitude da tarefa da pregação, o presente texto tem o objetivo de refletir, ainda que de maneira superficial, sobre a necessidade de coerência entre a pregação e a vida do pregador, bem como sobre a sua consciente incapacidade de viver o que prega à medida que mais se esforça por ser fiel ao Senhor.

“Você tem de viver aquilo que prega”

Tão grave e séria é a pregação, que a mesma não pode ser efetuada por qualquer um. Não é pregador aquele que, simplesmente, deseja pregar. É preciso ser comissionado e dotado para tal. Dessa perspectiva, como preceitua o Catecismo Maior de Westminster em sua resposta à pergunta 158, “a Palavra de Deus deve ser pregada somente por aqueles que têm dons suficientes, e são devidamente aprovados e chamados para o ministério”.[ii] Da perspectiva moral, a pregação deve ser empreendida por aqueles que são conhecidos por sua piedade, seriedade e zelo na vida cristã. Alguém caracterizado por escândalos e por uma vida notadamente desenfreada não deve ser chamado a pregar as Sagradas Escrituras. Há a premente necessidade de que o pregador seja alguém piedoso e sério em seu proceder. Escrevendo ao seu jovem pupilo Timóteo, o apóstolo Paulo afirmou a importância da coerência entre a Palavra pregada e a vida piedosa do pregador: “Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza” (1Timóteo 4.12). Em outra ocasião, Paulo deu o seguinte conselho a Timóteo: “Foge, outrossim, das paixões da mocidade. Segue a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o nome do Senhor” (2Timóteo 2.22). Timóteo deveria ter o devido cuidado para que a sua pouca idade não fosse usada como motivo para que a igreja o desprezasse e ao seu ensino. Certamente, abster-se daquelas que caracterizavam as paixões da mocidade o ajudaria, e muito, no cumprimento dessa tarefa. Além disso, o jovem pastor Timóteo tinha o dever de se tornar o “tipo” (τύπος), o padrão, o exemplo dos fiéis. Era necessária a harmonia entre pregação e vida, de modo que Timóteo pudesse se apresentar diante da igreja de Éfeso como um exemplo digno de ser imitado.

O dever do pregador de ser exemplo e de “viver o que prega” é algo que perpassa todas as eras, não se limitando apenas ao primeiro século. Timóteo não era o único a ter de atentar a isso. Todo pregador do evangelho deve andar dessa forma. O Pr. Joel Beeke se expressa nestes termos: “Nossa doutrina deve dirigir nossa vida, e nossa vida deve adornar nossa doutrina. Como pregadores, devemos viver o que pregamos e ensinamos”.[iii] São também pertinentes as afirmações do puritano John Owen e do pastor escocês Robert Murray McCheyne. O primeiro disse o seguinte: “Se um homem ensina corretamente e anda tortuosamente, se prostrará mais na noite de sua vida do que edificará no dia de sua doutrina”.[iv] Já McCheyne enunciou uma das frases mais conhecidas a este respeito: “A vida de um pregador é a vida de seu ministério... Em grande medida, segundo a pureza e perfeições do instrumento, assim será o sucesso. Não é tanto aos grandes talentos que Deus abençoa, quanto à semelhança com Jesus. Um ministro santo é uma terrível arma nas mãos de Deus”.[v]

Inegavelmente, quando um homem ocupa o púlpito e prega uma mensagem eloquente, concatenada, com uma excelente exegese da passagem, mas, sabidamente, tal pregador vive em hipocrisia, isso se constitui num grave pecado. O puritano Richard Baxter afirmou o seguinte sobre aqueles que pregam contra os exatos pecados que cometem: “É triste pormos a nossa igreja a dormir com a nossa prédica, mas é trágico pôr-nos a nós mesmos a dormir. Quão terrível é quando falamos tão longamente contra a dureza de coração dos ouvintes, e, contudo, ficamos endurecidos e surdos ao ruído das nossas próprias repreensões!”[vi] Em outro lugar Baxter diz que os pregadores devem cuidar de si mesmos, uma vez que os seus pecados possuem mais agravantes que os pecados dos outros homens.[vii] Quais são esses agravantes? O próprio Baxter responde:

(1) Você, mais do que os outros, peca contra o conhecimento porque você possui mais do que eles. Pelo menos, você peca contra mais luz, ou contra meios de conhecimento [...] (2) Seus pecados são mais hipócritas que os dos outros homens, por causa de como você fala contra tais pecados [...] (3) Seus pecados são mais traiçoeiros que os dos outros homens, por causa de como você tem engajado a si mesmo contra eles.[viii]

Baxter conclui a sua exortação com os seguintes questionamentos:

Com que frequência você tem proclamado o mal e o perigo do pecado e chamado pecadores a se voltarem dele? Com que frequência você o denunciou contra os terrores do Senhor? Seguramente, tudo isso implica que você o renunciou em si mesmo. Cada sermão que você prega contra ele, cada exortação, cada confissão dele na congregação se estabelecem como um compromisso, feito por você, de renunciá-lo. Cada criança que você batizou, e cada administração da Ceia do Senhor implicam na sua própria renúncia do mundo e da carne, bem como do seu compromisso com Cristo. Quão frequente, e quão abertamente, você testemunhou da natureza odiosa e abominável do pecado? E, ainda assim, você ainda se delicia nele, apesar de todas essas profissões e testemunhos dados por você? Oh! Que traição é fazer um rebuliço contra o pecado no púlpito e, depois de tudo, entretê-lo no coração, e dar-lhe o lugar que é devido a Deus, e ainda preferi-lo em vez da glória dos santos![ix]

“Eu Tento! Mas Não Consigo!”

Não há dúvida ou disputa alguma acerca da enorme necessidade de uma vida piedosa da parte do pregador ou, como se diz, que ele viva o que prega no púlpito. Não obstante, há ainda outra questão que deve ser considerada, que é a incapacidade do pregador de viver com perfeição aquilo que é anunciado por ele no púlpito. É a minha convicção particular que, não importa o quanto o pregador se esforce para viver uma vida piedosa, ele nunca viverá aquilo que prega. Com isso não estou querendo apresentar uma justificativa para que o pregador ou o Ministro do Evangelho deixe de cuidar de si mesmo e de lutar pela sua santificação pregando para si próprio e fazendo o devido uso dos meios de graça que Deus disponibiliza. Como penso já ter deixado claro no início da seção anterior, é imprescindível que hipócritas e homens conhecidos e marcados por maus hábitos sejam mantidos longe do púlpito.

O ponto que desejo salientar diz respeito à convicção que o próprio pregador deve possuir da sua incapacidade e do quanto do pecado interior ele ainda precisa mortificar, a fim de corresponder ao padrão apresentado pelas Sagradas Escrituras. Em minha própria experiência, a preparação de cada sermão é uma experiência extremamente humilhante. Recentemente fiz a exposição do Salmo 1 e ao refletir sobre como o Senhor Jesus Cristo é o homem justo do salmo, de como ele se absteve do pecado, de como ele amou e demonstrou grande zelo pela meditação na Palavra de Deus e de como ele foi como uma árvore frutífera cujo fruto produzido foi inteiramente do agrado do Pai, a minha oração foi “Senhor, tenha misericórdia de mim!” Ao expor Efésios 5.22-33 e observar o amor sacrificial de Jesus pela Igreja e a obrigação correspondente do marido de amar a sua esposa, minha reação é unicamente suspirar diante do Senhor, expressando o meu anelo de que ele me ajude nessa tarefa.

Recentemente me deparei com a expressão do mesmo sentimento por parte do Dr. R. C. Sproul. Falando sobre a experiência do profeta Isaías ao ver o Senhor assentado em seu trono e sendo adorado pelos serafins, Sproul diz o seguinte:

Todos pregadores são vulneráveis à acusação de hipocrisia. Na verdade, quanto mais fiéis à Palavra de Deus os pregadores forem, mais passíveis de tal acusação serão. Por quê? Porque quanto mais as pessoas forem fiéis à Palavra de Deus, mais elevada será a mensagem que pregarão. Quanto mais elevada a mensagem, mais distante estarão de obedecê-la. Eu tremo quando falo nas igrejas sobre a santidade de Deus. Posso antecipar as respostas das pessoas. Elas deixam o santuário convencidas de que estiveram na presença de um homem santo. Porque me ouviram pregar sobre santidade, elas assumem que devo ser tão santo quanto a mensagem que prego. É aí que clamo “ai de mim”! É perigoso assumir que porque uma pessoa é atraída a estudar a santidade, então ela é uma pessoa santa. Há aqui uma ironia. Estou certo de que a razão pela qual tenho um desejo profundo de aprender sobre a santidade de Deus é precisamente porque não sou santo. Sou um homem profano. Mas provei o suficiente da majestade de Deus para querer mais. Sei o que significa ser perdoado e ser enviado em uma missão. Minha alma clama por mais.[x]

O sentimento do Dr. Sproul é o meu sentimento. E é justamente por causa de quem eu sou que necessito pregar, primeiramente, a mim mesmo, a fim de poder pregar a outros. Todas as vezes em que subo no púlpito e prego as Escrituras não ajo como alguém impecável ou perfeito. Prego como um pecador que experimentou a doçura da Palavra, do conforto e das advertências vindos de Deus e que, portanto, entende que a sua congregação possui a mesma necessidade.

Um Pensamento Final

Por todo o arrazoado acima entendo muito bem quando alguém afirma que o pregador precisa “viver aquilo que prega”. Entendo que o verdadeiro mal está em ser um hipócrita e dissimulador, alguém que conscientemente anuncia ao povo aquilo que ele mesmo não pratica e nem possui o desejo de praticar. Não obstante, com relativa frequência o moto “Ele não vive o que prega!” é usado como uma espécie de justificativa deliberada para não se dobrar diante das exigências de Deus em sua santa Palavra.

É preciso que compreendamos que, independentemente do caráter do pregador a Palavra de Deus é a Verdade. Assim, mesmo que o pregador seja um flagrante hipócrita e dissimulado, caso a sua pregação esteja de acordo com aquilo que as Escrituras realmente ensinam, ninguém possui a permissão de não obedecer ao que Deus exige. Embora a vida piedosa do pregador seja importante e, por assim dizer, funcione como uma joia que adorna a exposição, a verdade não depende dela. A verdade por si só se autentica. A Palavra de Deus, em si mesma, é inspirada, inerrante, infalível e também autoritativa. Ela deve ser obedecida mesmo quando o pregador for um hipócrita desprezível. Da mesma forma como nem mesmo um anjo vindo do céu tem a permissão de pregar um evangelho falso, a igreja não tem permissão para desconsiderar a verdade dita por um impostor. É o que diz a Segunda Confissão Helvética no artigo já citado:

Portanto, quando a Palavra de Deus é pregada atualmente na igreja por pregadores legitimamente vocacionados, nós cremos que a própria Palavra de Deus é anunciada e recebida pelos fiéis; e que nenhuma outra Palavra de Deus pode ser inventada, nem esperada que venha dos céus: e que hoje o que deve ser considerado é a própria Palavra anunciada, e não o ministro que a prega, pois, embora este seja mau e pecador, contudo a Palavra de Deus permanece boa e verdadeira.[xi]

A minha súplica ao Senhor é que ele nos ajude a unirmos as duas coisas: exposição fiel das Escrituras e vida piedosa. Nas palavras do Pr. Joel Beeke: “Como ministros, devemos buscar a graça de edificar a casa de Deus com ambas as mãos – a mão da sã pregação e doutrina, e a mão de um coração santificado”.[xii] Amém, Pr. Beeke! Amém!


[ii] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. In: Símbolos de Fé. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. p. 198.
[iii] Joel R. Beeke. Espiritualidade Reformada: Uma Teologia Prática para a Devoção a Deus. São José dos Campos: Fiel, 2014. p. 336.
[iv] Ibid.
[v] Ibid. pp. 336-337.
[vi] Richard Baxter. O Pastor Aprovado. São Paulo: PES, 1996. p. 70.
[vii] Richard Baxter. “The Reformed Pastor”. In: The Works of Richard Baxter. Posição 7990. Edição Kindle.
[viii] Ibid. Posição 7990-8014. Edição Kindle.
[ix] Ibid. Posição 8014. Edição Kindle.
[x] R. C. Sproul. Deus É Santo: Como Posso me Aproximar Dele? São José dos Campos: Fiel, 2014. pp. 32-33.
[xi] A SEGUNDA CONFISSÃO HELVÉTICA. In: Joel R. Beeke e Sinclair B. Ferguson. Harmonia das Confissões Reformadas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 12. Ênfase acrescentada.
[xii] Joel R. Beeke. Espiritualidade Reformada: Uma Teologia Prática para a Devoção a Deus. p. 336.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

O CULTO: EVANGÉLICO OU REFORMADO?

Por W. Robert Godfrey

Um dos desafios de ser reformado nos Estados Unidos é descobrir a relação entre o que é evangélico e o que é reformado. Nos Estados Unidos o protestantismo é dominado pelos protestantes, evangélicos e carismáticos. Logo após esses grupos dominantes, outros que poderiam ser incluídos são os luteranos confessionais. Mas, onde os reformados se enquadram, particularmente em relação aos evangelicais, com quem, historicamente, temos estado mais intimamente relacionados?

Alguns observadores argumentam que os reformados confessionais são um subgrupo do movimento evangélico mais amplo. Certamente, ao longo dos séculos nos Estados Unidos, muitas vezes os reformados têm se aliado aos evangélicos, têm compartilhado muita coisa em comum com os evangélicos, e muitas vezes têm evitado criticar os evangélicos. Mas nós, reformados, somos realmente evangélicos?

Uma área em que as diferenças entre evangélicos e reformados pode ser examinada é a questão do culto. À primeira vista, podemos ver mais similaridades que diferenças. As liturgias em igrejas reformadas e evangélicas podem ser quase idênticas. Certamente os dois tipos de igrejas cantam canções, leem as Escrituras, oram, pregam e administram o batismo e a Ceia do Senhor. No entanto, será que essas semelhanças refletem apenas um acordo formal, ou elas representam um entendimento comum do significado e da função desses atos litúrgicos no culto?

Se observarmos de perto, acredito que veremos as diferenças substanciais entre evangélicos e reformados sobre culto. Essa diferença é clara em duas questões centrais: primeiro, a compreensão da presença de Deus no serviço litúrgico; e, segundo, o entendimento do ofício ministerial no culto.

A Presença de Deus no Culto
Pode parecer um problema estranho levantar a questão da presença de Deus no culto. Ambas as igrejas não creem que Deus está presente com o seu povo no culto? De fato, creem! Mas, como Deus está presente e como ele é ativo em nosso culto?

Parece-me que, para o evangelicalismo, Deus está presente no culto basicamente para ouvir. Ele não está longe. Pelo contrário, ele está íntima e amorosamente presente para observar e ouvir a adoração do seu povo. Ele ouve o seu louvor e as suas orações. Ele vê a obediente observância dos sacramentos. Ele ouve os testemunhos e o compartilhar. Ele atende ao ensino da sua Palavra, ouvindo para ter certeza de que o ensino é fiel e preciso.
O efeito desse sentido do culto evangélico é que a tensão está sobre a dimensão horizontal do culto. A sensação da comunhão terna e pessoal, e a participação entre os crentes no culto são cruciais. Tudo aquilo que aumenta a sensação de envolvimento, especialmente no nível das emoções, é bem provável que receba a aprovação. O culto deve ser inspirador e avivador. Então, Deus observará e se agradará.

A fé reformada tem uma compreensão fundamentalmente diferente da presença de Deus. Deus, de fato, está presente para ouvir. Ele ouve o louvor e as orações do seu povo. Mas ele também está presente para falar. Deus não está presente apenas como observador. Ele é um participante ativo. Ele fala na Palavra e nos sacramentos. Como cristãos reformados não acreditamos que ele fala direta e imediatamente a nós na igreja. Deus usa meios para falar. Mas ele fala real e verdadeiramente a nós através dos meios que ele designou para a sua igreja. Verdadeiramente, é Deus quem fala no ministério da Palavra – quando ela é propriamente pregada e ministrada em acolhimento e bênção. A Segunda Confissão Helvética diz apropriadamente: “A pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus”.

De acordo com o entendimento reformado, Deus também está presente de maneira ativa e falando nos sacramentos. Os sacramentos são muito mais sobre Deus do que sobre nós. Através deles Deus fala da realidade da presença de Jesus para abençoar seu povo à medida que confirma a verdade do seu evangelho e suas promessas por meio dos sacramentos.

O efeito desse entendimento do culto reformado é que a tensão é colocada sobre a dimensão vertical do culto. A dimensão horizontal não está ausente, mas o foco não está sobre ternos afetos e o compartilhar. Pelo contrário, está na comunidade como uma unidade encontrando com o seu Deus. Nossa comunhão primária um com o outro está nas atividades unificadas do falar a Deus com cânticos e orações, bem como no escutar juntos quando Deus fala conosco. A orientação vertical do nosso culto garante que Deus seja o foco da nossa adoração. A primeira importância de qualquer ato de adoração não está no seu valor para as pessoas, mas na sua fidelidade à revelação da vontade de Deus para o culto. Devemos nos encontrar com Deus apenas da maneira como o agrada. O nosso temor e a nossa alegria quando entramos na presença do Deus vivo para ouvi-lo falar é o que molda e energiza o nosso culto.

O Ofício Ministerial no Culto
A diferença entre a fé reformada e o evangelicalismo sobre a presença de Deus no culto está intimamente ligada às suas diferenças sobre o ofício ministerial no culto. Para o evangelicalismo, os ministros parecem ser vistos como membros talentosos e educados da congregação, chamados por Deus para liderar o planejamento e o ensino. Os ministros usam os seus talentos para facilitar o culto da congregação e instruir o povo. Os ministros não são vistos como falando em nome de Deus de forma distintiva ou como possuindo uma autoridade especial vinda de Deus. Pelo contrário, a sua autoridade reside apenas na confiabilidade do seu ensino, o que seria verdade em relação a qualquer membro da congregação.

O efeito dessa visão evangélica acerca do ofício ministerial é criar um caráter muito democrático para o culto, no qual a participação de muitos membros da congregação na liderança do culto é uma coisa boa. Quanto mais alguém possa compartilhar, melhor. Os muitos dons que Deus deu aos membros da congregação devem ser usados para edificação mútua. Mais uma vez, a dimensão horizontal do culto tem prevalecido.

A visão reformada do ofício ministerial é bem diferente. O ministro é chamado por Deus do meio da congregação para liderar o culto pela autoridade do seu ofício. Ele é examinado e separado para representar a congregação diante de Deus e para representar Deus diante da congregação. No grande diálogo da adoração, ele fala a Palavra de Deus para o povo e fala as palavras do povo para Deus, exceto nos casos em que a congregação como um todo levanta a sua voz em uníssono a Deus. Nós, que somos reformados, não abraçamos essa visão porque somos antidemocráticos ou porque acreditamos que o ministro é o único membro talentoso da congregação. Seguimos esse padrão porque acreditamos que ele é bíblico e o padrão de culto divinamente apontado.

O efeito dessa visão do ofício ministerial reforça a sensação de um encontro com Deus de uma forma reverente e oficial. Ela também garante que aqueles que lideram o culto público sejam chamados e autorizados para a obra de Deus. De maneira correta os reformados suspeitam de membros da congregação não treinados e não autorizados entregando mensagens mais longas ou mais curtas à congregação. No culto nos reunimos para ouvir a Deus, não as opiniões dos membros. A dimensão vertical do culto permanece central.

Conclusão
O contraste que eu tenho traçado entre o culto evangélico e reformado, sem dúvida, possui muitas nuances. Certamente eu tentei estabelecer meus pontos pintando com um pincel muito amplo. No entanto, creio eu que a análise básica está correta.

Uma grande dificuldade que nós, o povo reformado, temos em pensar sobre culto é que o nosso culto foi acomodado em muitos lugares segundo o padrão evangélico. Se apreciamos a nossa herança reformada no culto e, igualmente importante, se queremos comunicar a sua importância, caráter e poder a outras pessoas, precisamos entender o caráter distintivo do nosso culto.

Nosso propósito ao fazer este contraste não é humilhar os evangélicos. Eles são, verdadeiramente, nossos irmãos e amigos. Mas nós temos diferenças reais com eles. Se o culto reformado não deve se extinguir como os dinossauros, nós, como reformados, devemos chegar a um claro entendimento do que ele é e devemos nos comprometer de forma zelosa a ele. Para que isso seja alcançado, precisamos observar não apenas similaridades formais, mas, muito mais importante, precisamos ver as profundas diferenças teológicas que distinguem o culto evangélico do culto reformado.

terça-feira, 17 de março de 2015

JOÃO CALVINO OROU A PHILIP MELANCHTON APÓS A MORTE DESTE?

Hoje me deparei com um texto num blog católico romano, que afirmava que o reformador francês João Calvino, num determinado momento da sua vida, fez uma súplica a outro reformador que já se encontrava morto naquela ocasião, a saber, Philip Melanchthon (Aqui). O que chamou a minha atenção foi o fato de tal texto ter sido compartilhado no Facebook por um pastor protestante de orientação soteriológica arminiana. O que parece é que, neste caso, vigorou o princípio do "o inimigo do meu inimigo é meu amigo". Lamentavelmente, na ânsia de se opor ao calvinismo há muitos que recorrem a subterfúgios escusos, a ataques à pessoa do reformador fancês, mesmo que tais ataques tenham a sua origem nos romanistas. O que importa é se há um texto falando mal de Calvino ou "revelando" algo negro da sua história e do seu pensamento teológico. Destoam estes da postura do próprio Jacobus Arminius que, não obstante a rejeição do calvinismo, sabia reconhecer os pontos positivos do pensamento de João Calvino, a ponto de recomendar aos seus alunos a leitura dos comentários de Calvino, pois, de acordo com Arminius:

"Depois da leitura das Escrituras, e mais do que qualquer outra coisa, eu recomendo a leitura dos comentários de Calvino, pois afirmo que na interpretação das Escrituras Calvino é incomparável, e que seus comentários são mais valiosos do que qualquer coisa que nos tenha sido legada nos escritos dos pais - tanto assim, que atribuo a ele certo espírito de profecia no qual ele se encontra numa posição distinta acima de outros, acima da maioria, na verdade, acima de todos" (Em carta enviada a Sebastian Egbertsz).
De acordo com a postagem, a "súplica" de Calvino a Melanchthon foi a seguinte:
"Ó, Philip Melancthon, pois eu apelo a ti, que estais agora vivendo no seio de Deus, onde tu esperas por nós até que nós estejamos reunidos contigo no Santo Descanso. Uma centena de vezes tu dissesse, fadigado com o trabalho, e oprimido com a tristeza, tu deitastes em meu peito como um irmão, ‘Que eu possa morrer neste peito!’ Desde então eu tenho milhares de vezes desejado que isso fosse nosso destino para estarmos juntos" (Clear Explanation of the Holy Supper, in Reid’s Theological Treatises of John Calvin, S.C.M., London, p. 258).
Visando apresentar uma refutação a tal acusação, compartilho um texto escrito por James Swan, editor do Blog Beggars All: Reformation & Apologetics, intitulado John Calvin Prayed to Philip Melanchthon?

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Aqui está um daqueles boatos estranhos que tem circulado pela Internet já há alguns anos. É dito que Calvino orou a Melanchthon após a morte deste. Calvino declarou: “Ó Philip Melanchthon!... Eu apelo a você que vive na presença de Deus, com Cristo, e aguarda por nós ali até que estejamos unidos a você no abençoado descanso... Eu tenho desejado mil vezes que nosso destino fosse estarmos juntos!” Um contexto para esta citação pode ser encontrado aqui.

O livro retratado é intitulado Melanchthon in Europe: His Work and Influence Beyond Wittenberg (Melanchthon na Europa: Sua Obra e Influência Além de Wittenberg). Um dos capítulos mais fascinantes é o de Timothy Wengert, “We Will Feast in Heaven Forever: The Epistolary Friendship of John Calvin and Philip Melanchthon” (“Nós Festejaremos no Céu para Sempre: A Amizade Epistolar de João Calvino e Philip Melanchthon”). O capítulo de Wengert desafia o paradigma popular que diz que Calvino e Melanchthon eram amigos, apesar das suas diferenças. Wengert analisa a correspondência entre esses dois Reformadores dentro do contexto da etiqueta da escrita de cartas no período do Renascimento, concluindo que esses homens não eram tão amigos como parece. Ele argumenta que a amizade entre eles era “uma ficção literária imposta pelos próprios autores, especialmente Calvino, que tinha uma rede muito complexa de interações, as quais nem todas eram amigáveis” (p. 22).

A respeito dessa alegada oração de Calvino a Melanchthon, Wengert afirma:

Mesmo a reminiscência frequentemente citada de Calvino sobre a recente partida de Melanchthon deve ser vista estritamente dentro do contexto do Renascimento e da Reforma, onde ela apareceu. Calvino escreveu:
Ó Philip Melanchthon! Eu apelo a ti que agora vives com Cristo, no seio de Deus, e ali esperas por nós, até que sejamos reunidos contigo no abençoado repouso. Umas cem vezes, quando desgastado com labores e oprimido com tantos problemas, quiseste repousar familiarmente tua cabeça no meu peito, e dizer: “Que eu possa morrer neste peito!” Desde então, durante mil vezes, tenho desejado que seja concedido a nós viver juntos, pois certamente tu querias, então, ter tido mais coragem para as inevitáveis lutas, e terias sido mais forte para desprezares a inveja, e para reputares como nada todas as acusações. Assim, também a malícia de muitos, que com audácia reuniram para seus ataques, teria sido restringida pela tua gentileza, que eles chamam de fraqueza.
De fato, Calvino estava aludindo a certas tensões em seu relacionamento: a suposta tendência de Melanchthon a capitular e seu fracasso em apoiar Calvino diretamente. Calvino presumia força, e a maldade dos acusadores de Melanchthon. No entanto, vindo como veio, dentro de um tratado sobre a Eucaristia, também era uma tentativa de Calvino de descrever Melanchthon como um defensor da teologia eucarística do genebrino, algo que Melanchthon nunca foi durante a sua vida (p. 23).

Como demonstrado acima, ignorar contextos históricos pode levar a distorções. Eu apontei casos semelhantes deste tipo de erro há alguns anos: Carta de Lutero ao Papa Leão: “Eu reconheço a tua voz como a voz de Cristo” e a carta imaginária de Lutero ao Papa Leão X, em 6 de janeiro de 1519. Devemos lembrar de considerar a política e as polêmicas da Reforma quando mergulhamos profundamente na história. Aquilo que pode parecer dizer algo pode, na verdade, estar dizendo algo bem diferente.

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COMENTO: É lamentável que, na ânsia de se opor ao pensamento teológico de Calvino haja quem apele para leviandades. Como observei em outro lugar:

1. É interessante a citação que o próprio blog católico compartilha de um texto de Francis Nigel Lee: "Sobre a morte de Philipp, Calvino comoventemente LAMENTOU". Acredito que este lamento - não oração - pode ser entendido nos moldes da minha segunda observação:

2. O lamento de Davi por Absalão (2Samuel 18.33): "Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!"

Ambos os lamentos expressam um desejo:

1. "Desde então eu tenho milhares de vezes desejado que isso fosse nosso destino para estarmos juntos" (Calvino).

2. "Quem me dera que eu morrera por ti, Absalão, meu filho, meu filho!" (Davi).

Acredito que, em relação à segunda, ninguém vá afirmar que trata-se de uma oração. Por que fazer diferente em relação à primeira?


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ATUALIZAÇÃO: O historiador Philip Schaff, na sua obra History of the Christian Church, Vol. 8, § 90, reporta-se ao episódio não dando evidência alguma de entender que aqui Calvino estava orando a Melanchthon. Ele diz:

No dia 19 de abril de 1560, Melanchthon foi libertado da "fúria dos teólogos" e de todas as suas angústias. Um ano após a sua morte, Calvino, que ainda lutaria a batalha da fé por mais quatro anos, durante a fúria renovada da controvérsia eucarística com o fanático Heshusius, dirigiu este tocante apelo ao seu amigo santo no céu:
Ó Philip Melanchthon! Eu apelo a ti que agora vives com Cristo, no seio de Deus, e ali esperas por nós, até que sejamos reunidos contigo no abençoado repouso. Umas cem vezes, quando desgastado com labores e oprimido com tantos problemas, quiseste repousar familiarmente tua cabeça no meu peito, e dizer: “Que eu possa morrer neste peito!” Desde então, durante mil vezes, tenho desejado que seja concedido a nós viver juntos, pois certamente tu querias, então, ter tido mais coragem para as inevitáveis lutas, e terias sido mais forte para desprezares a inveja, e para reputares como nada todas as acusações. Assim, também a malícia de muitos, que com audácia reuniram para seus ataques, teria sido restringida pela tua gentileza, que eles chamam de fraqueza.
Quem, tendo em vista essa amizade, que era mais forte que a morte, pode acusar Calvino de falta de coração e de terna afeição?
Para Schaff, não se trata de uma oração, mas de tocante apelo feito em tom de lamento. 
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