quarta-feira, 28 de maio de 2014

ATOS 21.23-24 É UMA ORDENANÇA PARA OS CRISTÃOS?

“Faze, portanto, o que te vamos dizer: estão entre nós quatro homens que, voluntariamente, aceitaram voto; toma-os, purifica-te com eles e faze a despesa necessária para que raspem a cabeça; e saberão todos que não é verdade o que se diz a teu respeito; e que, pelo contrário, anda também, tu mesmo, guardando a lei”.

Recentemente chegou ao meu conhecimento, via Facebook, uma prática ocorrida numa seita subcristã. Alguns homens, usando a passagem em questão, fizeram um voto ao Senhor e rasparam as suas cabeças. De acordo com os seus proponentes, estão fazendo um propósito de 40 dias de jejum e oração, durante os quais estão procurando conhecer a vontade de Deus. Baseiam tal atitude também em 2Crônicas 20, passagem que narra a vitória de Josafá sobre os moabitas e amonitas. A ligação estabelecida, ao menos implicitamente, é que, por força do propósito de oração e jejum durante 40 dias, é necessário que as cabeças sejam raspadas. Difícil compreender é a ligação entre a passagem de Atos dos Apóstolos e a de 2Crônicas. Assim, vou me limitar a fazer algumas observações a respeito da passagem de Atos, muito embora, algumas possam ser aplicadas também à passagem do Antigo Testamento.

Por que me incomodar com isso?
É comum encontrarmos pessoas afirmando que criticar tais práticas é falta de amor, de caridade, é não ter amor para com muitas almas que estão indo para o inferno e etc. É dito também que quem critica tais práticas não merece ser chamado de pastor e é até mesmo chamado de falso profeta. Então, por que se incomodar com tal prática?

Eu me incomodo com isso, primeiro, porque tenho visto pessoas que eu amo, de verdade, sendo enganadas com essa e com muitas outras práticas antibíblicas e supersticiosas. Vejo irmãos que cresceram comigo na igreja sendo seduzidos por um “canto de sereia” que nada mais faz do que espalhar erros e heresias no meio do povo de Deus. E a Palavra de Deus afirma muito claramente que um falso evangelho é anátema, maldito (Gálatas 1.8-9). Assim, todos aqueles que estão debaixo do ministério daqueles que disseminam essas coisas estão, a bem da verdade, debaixo de um ministério maldito.

Eu fico incomodado com isso, em segundo lugar, porque a Palavra de Deus ordena que batalhemos diligentemente pela fé que, uma vez por todas, foi entregue aos santos (Judas 3). De acordo com a Palavra Sagrada de Deus, é preciso fazer com que esses falsos mestres se calem e parem de espalhar essas abominações (Tito 1.11). É interessante que na passagem de Tito o apóstolo Paulo tem em mente exatamente falsos pregadores judaizantes, que estavam pervertendo a fé de muitas pessoas. O que mais vejo nessas seitas é uma judaização e uma perversão da fé cristã.

Em terceiro lugar, incomoda-me que, em nome do politicamente correto muitas pessoas deixam de exercitar o discernimento, suspendendo, assim, o julgamento a respeito dessas práticas. Incomoda-me que os advogados e proponentes desses erros apelem, quase que imediatamente, ao jargão mal aplicado do “quem é você para julgar? Só Deus pode fazer isso!” E, assim, os erros vão se perpetuando e pessoas simples continuam a ser enredadas na malignidade das falsas doutrinas.

Assim, escrevo porque sou convicto da necessidade de combater o erro, de chamar a heresia por aquilo que ela é: pecado, abominação, iniquidade e mentira de Satanás. Escrevo porque amo, de verdade, as pessoas simples que estão se deixando enganar. Escrevo porque amo a verdade. Escrevo porque amo, acima de todas as coisas, o Senhor, que nos entregou um evangelho simples, coerente, racional e que deve ser crido, não tornado em objeto de superstição.

Consideração inicial sobre a interpretação de Atos dos Apóstolos
Atos dos Apóstolos é um livro que possui como gênero literário a narrativa. Isso deve ser levado em consideração, pois, de acordo com Grant Osborne, passagens narrativas “devem ser proclamadas como tais”.[i] O que isso significa? Significa que ela não possui como propósito estabelecer ou prescrever práticas e normas para a Igreja, mas tão simplesmente contar/narrar/descrever o que aconteceu durante o período da Igreja Primitiva. Os estudiosos Leland Ryken, Philip Ryken e James Wilhout destacam que, o propósito implícito de Atos dos Apóstolos é: “Oferecer um relato minucioso da origem e do desenvolvimento inicial da Igreja cristã, enfatizando o papel do Espírito Santo ao gerá-la e no ministério fiel de indivíduos centrais”.[ii] Com base nisso, os mesmos autores fazem a seguinte advertência:

A primeira coisa que precisa ser dita é que, como o livro de Atos estabelece princípios e diretrizes gerais de como os cristãos devem comportar-se individualmente e como igreja, a abordagem do livro é a narrativa, com o resultado de que não temos justificação alguma para concluir que cada ação registrada é algo que será direta e literalmente seguido em épocas futuras da igreja.[iii]

Princípios até podem ser extraídos, porém, nunca poderão ser apresentados como deveres ou prescrições para a igreja dos nossos dias. Por exemplo, Atos dos Apóstolos narra que, pouco tempo após o Pentecostes, os cristãos vendiam todas as suas propriedades e depositavam os valores aos pés dos apóstolos (2.45; 4.37). Esses textos não têm a intenção de dizer que isso deve ser feito nos nossos dias. O princípio da liberalidade, do desapego aos tesouros terrenos pode, perfeitamente, ser aplicado. O que não se pode é dizer que porque eles vendiam todas as suas propriedades e depositavam os valores aos pés dos apóstolos os membros das igrejas devem fazer o mesmo nos nossos dias. Atos dos Apóstolos também narra que o apóstolo Paulo, após o naufrágio que sofreu, estando na ilha de Malta, tendo atirado à fogueira um feixe de gravetos, foi picado por uma víbora (28.3). Ninguém, em sã consciência, entende que esta passagem ensina que devemos pegar em serpentes, uma vez que o próprio Senhor Jesus disse que quem cresse nele poderia fazer tal coisa (Marcos 16.18).[iv]

Assim, concluir de Atos 21.23-24 que os cristãos de hoje devem, ao fazerem algum voto, raspar a cabeça é confundir tanto a natureza quanto o propósito do texto e seu gênero literário. É fazer uma leitura equivocada e descuidada. É primar pela ignorância e pelo erro. Até entendo que, muitas vezes, há o desejo de encontrar algo que seja aplicável á realidade dos nossos dias. Mas, como alerta o estudioso Walter Kaiser Jr.: “O desejo de encontrar o que é prático, pessoal, desafiador e individualmente aplicável é louvável; métodos que essencialmente nos permitem desconsiderar a narrativa em si, entretanto, deixam muito a desejar”.[v]

O que está acontecendo em Atos 21.17-26?
Para interpretar uma narrativa devidamente, dentre outras coisas, é imprescindível atentar para a cena que está sendo apresentada. Na verdade, a cena é “a característica mais importante da narrativa”.[vi] É na cena que o autor insere uma série de ações e falas dos personagens, que devem ser devidamente analisados pelo intérprete. Atos 21.23-24 está inserido dentro de um contexto que vai desde o versículo 17 até o versículo 26. Esta passagem narra o que aconteceu tão logo o apóstolo Paulo chegou a Jerusalém, após a sua terceira viagem missionária.

O versículo 17 mostra que, ao chegar, Paulo e seus companheiros foram recebidos pelos irmãos de Jerusalém com alegria. No dia seguinte, Paulo e seus companheiros se encontram com os líderes da igreja em Jerusalém, a saber, Tiago e os presbíteros, que ouviram atentamente o relatório da terceira viagem missionária de Paulo. O apóstolo “contou minuciosamente o que Deus fizera entre os gentios por seu ministério” (v. 19). A reação dos líderes da igreja foi a de glorificar a Deus (v. 20). Além disso, eles alertaram a Paulo, de que estava correndo um boato, no sentido de que o apóstolo Paulo estava ensinando os judeus a “apostatarem de Moisés, dizendo-lhes que não devem circuncidar os filhos, nem andar segundo os costumes da lei” (v. 21). Obviamente, não foi isso que o apóstolo Paulo ensinou. Ele anunciou, em Éfeso e em outros lugares, que a lei mosaica encontrou o seu cumprimento na pessoa de Jesus Cristo. Não obstante, os judeus trataram de distorcer o ensinamento de Paulo, considerando-o um desviado e acreditando que o seu objetivo era desviar os judeus.

É com base nisso e no meio dessa cena, que Tiago e os presbíteros da igreja em Jerusalém oferecem a Paulo um CONSELHO.

O que, de fato, aconteceu em Atos 21.23-24?
Os versículos 23 e 24 são a resposta ao questionamento apresentado no versículo 22: “Que se há de fazer, pois? Certamente saberão da tua chegada”.

O verso 23 começa assim: “Faze, portanto, o que te vamos dizer”. É importante que se compreenda que as palavras dos líderes da igreja em Jerusalém, nos versos 23 e 24, são um CONSELHO dado ao apóstolo Paulo, uma proposta feita, no sentido de mostrar aos judeus que ele não era um apóstata, muito menos alguém que tinha a intenção de fazer os judeus apostatarem. Assim, trata-se de um conselho, nada mais que isso.

Eis o conselho: “estão entre nós quatro homens que, voluntariamente, aceitaram voto”. Tiago e os demais líderes falam de quatro judeus que aceitaram voto. O texto não especifica que voto foi feito pelos quatro homens em questão. O comentarista Simon Kistemaker, afirma que, dada a referência a raspar a cabeça no versículo seguinte, é muito provável que o voto mencionado seja o de nazireu.[vii] A razão para isso é que, durante o período do voto, o nazireu não poderia passar lâmina sobre o seu cabelo. Mas, ao findar esse período, ele raspava o seu cabelo e o oferecia ao Senhor, queimando-o juntamente com a oferta pacífica: “O nazireu, à porta da tenda da congregação, rapará a cabeleira do seu nazireado, e tomá-la-á, e a porá sobre o fogo que está debaixo do sacrifício pacífico” (Números 6.18).

O mais importante a se notar no versículo 23, é que o mesmo não fala de algo que os cristãos devem fazer. Nele, Tiago e os presbíteros dizem a Paulo que quatro homens fizeram voto ao Senhor. Literalmente, o texto diz: “estão conosco quatro homens, tendo voto sobre si mesmos”. O texto está falando de algo que já havia sido feito, há algum tempo, não o que deveria ser feito. Aqueles quatro homens já haviam aceitado, voluntariamente, o voto de nazireu. Não se tratava de algo que eles ainda fariam.

No versículo 24 nós encontramos instruções adicionais: “toma-os, purifica-te com eles e faze a despesa necessária para que raspem a cabeça”. Paulo não é ordenado fazer o mesmo voto daqueles quatro homens. É dito que ele se purifique juntamente com eles. Assim, “os rituais de purificação para os mesmos e para ele não podiam ser os mesmos”.[viii] Kistemaker faz uma descrição de como seria a purificação do apóstolo Paulo:

Paulo tinha chegado a Jerusalém depois de sair de um território gentio e estava cerimonialmente impuro. Ele tinha de se submeter à purificação levítica antes de que pudesse ser o benfeitor dos quatro nazireus e participar de suas cerimônias. Para ele, os dias prescritos de purificação duravam uma semana. No terceiro dia da semana, ele foi aspergido com água da expiação (v. 26); uma segunda aspersão foi feita no sétimo dia (v. 27). Depois, quando os sacrifícios fossem marcados para serem oferecidos, Paulo iria cobrir as despesas dos quatro nazireus. Ele podia participar da cerimônia somente se ele próprio estivesse limpo segundo a lei levítica. No sétimo dia da purificação de Paulo, o tempo de abstenção dos nazireus tinha também terminado (comparar com Nm 6.3). E se Paulo procurava obter o cerimonial de purificação de uma semana, ele não precisava raspar a cabeça.[ix]

Fica claro, então, que os líderes da Igreja em Jerusalém não estavam estabelecendo o preceito de que Paulo deveria fazer um voto e raspar a sua cabeça. Em vez disso, os líderes simplesmente ofereceram um conselho no sentido de que ele tomasse quatro homens que haviam feito o voto do nazireado, e se purificasse com eles, ao final dos dias do voto. Muito menos o texto estabelece a prescrição ou o padrão para que os cristãos façam um voto e raspem as suas cabeças. Um detalhe, é que no voto que é feito nas seitas judaizantes subcristãs, o ato de fazer o voto inclui o raspar o cabelo logo no início. O texto de Atos mostra que raspar a cabeça era a cerimônia de encerramento do voto. Nada mais contrastante.

Acrescente-se a isso o fato de que, o propósito do conselho oferecido pelos líderes da Igreja em Jerusalém nada tem a ver com o propósito do voto feito pelos adeptos das seitas dos nossos dias: “e saberão que não é verdade o que se diz a teu respeito; e que, pelo contrário, andas também, tu mesmo, guardando a lei” (v. 24). O propósito era simplesmente provar aos judeus que Paulo não era um desviado, um apóstata. Os adeptos das seitas judaizantes dos nossos dias fazem tal voto, como eles mesmos dizem, para entenderem a vontade de Deus para suas vidas. Sobre isso, a única coisa que tenho a dizer é: Leia a Bíblia. Isso é suficiente para fazer com que alguém compreenda a vontade de Deus.

Conclusão
Após o que foi visto, podemos concluir com segurança que, a passagem usada pelos adeptos dessas religiões judaizantes, que se passam por comunidades cristãs, não serve de fundamento para o estabelecimento da sua prática de fazer voto ao Senhor e, como cerimônia que acompanha o voto, raspar a cabeça daqueles que aceitam o voto. O texto narra algo que ocorreu no século 1º, não prescreve uma prática para a igreja do século 21. A passagem não diz que aqueles quatro homens fariam um voto juntamente com Paulo. Ela conta que aqueles quatro homens já haviam feito o voto do nazireado. Se os adeptos dessas seitas judaizantes tivessem um mínimo de coerência na sua interpretação da Bíblia, não raspariam seus cabelos, mas sim os deixariam crescer durante um longo período, ao final do qual, finalmente passariam a navalha sobre suas cabeças. O texto não ensina que Paulo deveria atender ao conselho dos líderes da Igreja em Jerusalém para compreender a vontade de Deus, mas para testemunhar da sua firmeza aos judeus.

Conclui-se que Atos 21.23-24 é tomado como pretexto para o estabelecimento de práticas que não têm mais lugar no meio da Igreja cristã. Conclui-se que os adeptos das seitas judaizantes fazem qualquer coisa para enganar os incautos, inclusive usar a Bíblia [de forma indevida, é claro!].



[i] Grant R. Osborne. A Espiral Hermenêutica.: Uma Nova Abordagem à Interpretação Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009. p. 282.

[ii] Leland Ryken, Philip Ryken e James Wilhout. Manual Bíblico Ryken: Um Guia para o Entendimento da Bíblia. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2013. p. 511.

[iii] Ibid. p. 524. Ênfase acrescentada.

[iv] A passagem de Marcos não apresenta uma promessa de Cristo para os nossos dias. Antes, trata-se de uma promessa feita e aplicada aos apóstolos somente.

[v] Walter C. Kaiser Jr. e Moisés Silva. Introdução à Hermenêutica Bíblica. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 66.

[vi] Ibid. p. 67.

[vii] Simon Kistemaker. Comentário do Novo Testamento: Atos. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 352. O estudioso F. F. Bruce é de opinião semelhante: “Quatro membros da igreja tinham feito um voto de nazireu, e chegara a hora de cumpri-lo. Isso incluía cortar ou rapar o cabelo, que tinham deixado crescer durante o tempo do voto, e a apresentação de um sacrifício apropriado no templo”. Cf. F. F. Bruce. Paulo, o Apóstolo da Graça: Sua Vida, Cartas e Teologia. São Paulo: Shedd Publicações, 2008. p. 338.

[viii] Ibid. p. 353.

[ix] Ibid.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

SETE PROBLEMAS COM A EXPIAÇÃO UNIVERSAL ARMINIANA

Pr. Joel R. Beeke
Joel R. Beeke

Na teologia do Arminianismo nos é dito que Cristo morreu para tornar possível que todas as pessoas sejam salvas, se assim elas desejarem. Esta é uma rejeição da visão Reformada, que afirma que Cristo morreu para, verdadeiramente, salvar um povo em particular escolhido por Deus. O Arminianismo é, de longe, a visão mais popular acerca da expiação na Igreja Cristã de hoje. Não obstante, sérias objeções devem ser apresentadas contra a redenção universal arminiana, que são estas:

· Ela calunia os atributos de Deus, dentre os quais, o seu amor. O Arminianismo apresenta um amor que, na verdade, não salva. É um amor que ama e então, se recusado, transforma-se em ódio e ira. Não é o amor que permanece imutável de eternidade a eternidade. Ela calunia a sabedoria de Deus. Deus faria um plano para salvar todos, mas não o cumpriria? Ele seria tão tolo a ponto de seu Filho ter pagado a salvação para todas as pessoas se sabia que seu Filho não obteria aquilo pelo que pagou? Eu me sentiria tolo se eu fosse numa loja comprar algo, e então saísse sem ele. No entanto, o Arminianismo nos pede para acreditarmos que essa é a verdade da salvação – que o pagamento foi feito, uma redenção, e, ainda assim, o Senhor se afastou sem aqueles que ele redimiu. Essa visão calunia a sabedoria de Deus. Ela calunia o poder de Deus. O universalismo arminiano nos obriga a acreditar que Deus era capaz de realizar o aspecto de merecimento da salvação, mas que o aspecto de aplicação é dependente do homem e seu livre-arbítrio. Ele nos pede para acreditar que Deus operou a salvação de todas as pessoas, até certo ponto, mas não salvou ninguém. Ela calunia a justiça de Deus. Cristo satisfez a justiça de Deus para todas as pessoas? Será que Cristo recebeu a devida punição por todas as pessoas? Se sim, como Deus pode ainda punir alguém? É justiça punir uma pessoa pelos pecados de outra e mais tarde punir novamente o infrator inicial? Dupla punição é injustiça.

· Ela desabilita a divindade de Cristo. Um Salvador derrotado não é Deus. Este erro ensina que Cristo tentou salvar todos, mas não obteve êxito. Ele nega o poder e a eficácia do sangue de Cristo, uma vez que nem todos aqueles por quem Ele morreu serão salvos. Assim, o sangue de Cristo foi desperdiçado quando derramado por Judas e Esaú. Grande parte da sua obra, lágrimas e sangue foi derramada em vão.

· Ela mina a unidade da Trindade. Assim como os pais devem trabalhar juntos para conduzir uma família com eficácia, assim o Deus Triúno trabalhou, cada uma das três Pessoas, com propósitos e objetivos idênticos. Uma Pessoa não pode ter em mente salvar algumas pessoas, que a outra Pessoa não determinou salvar, mas é exatamente isso que, implicitamente, o universalismo arminiano ensina. Ele nega a eleição soberana do Pai, uma vez que Cristo teria morrido por mais pessoas do que Deus decretou salvar, fazendo, portanto, com que Cristo tenha uma agenda diferente da do Pai. Isso teria sido um anátema para Jesus, que afirmou que todo o seu ministério redentivo foi conscientemente designado para realizar um plano divinamente arranjado (João 6.38-39). Da mesma forma, a redenção arminiana nega o ministério salvador do Espírito Santo, uma vez que afirma que o sangue de Cristo tem uma aplicação mais ampla do que a obra salvífica do Espírito. Qualquer apresentação da salvação que faça com que a obra do Pai ou a obra do Espírito na salvação fiquem eclipsadas pela obra de Cristo contradiz a unidade inerente da Trindade. Deus não pode estar em contradição consigo mesmo. Arminianismo é universalismo inconsistente.

· Ela rejeita todos os outros pontos do Calvinismo. A visão arminiana da expiação rejeita a doutrina da depravação total do homem, ensinando que o homem possuía dentro de si a capacidade para receber e aceitar a Cristo. Ela rejeita a eleição incondicional, ensinando que Deus elege com base na fé prevista. Ela rejeita a graça irresistível, ensinando que a vontade do homem é mais forte que a vontade de Deus. Ela rejeita a perseverança dos santos, ensinando que o homem pode apostatar da fé.

· Ela diminui a glória de Deus. Se Deus faz todas as coisas na salvação, Ele recebe toda a glória. Mas se Deus pode fazer muito e não tudo, então a pessoa que completa a aplicação da salvação recebe ao menos alguma glória. É por isso que há tanta ênfase no evangelismo em massa sobre a livre vontade do homem. A expiação universal exalta a vontade do homem e avilta a glória de Deus.

·  Ela perverte o evangelismo. Hoje em dia ouvimos repetidas vezes mensagens evangelísticas, que dizem: “Cristo morreu por você. O que você vai fazer por Ele?” Porém, nunca encontramos na Bíblia que a alguém seja dito pessoalmente: “Cristo morreu por você”. Em vez disso, encontramos a obra de Cristo explicada e seguida por um chamado a todas as pessoas: “Arrependei-vos e crede no evangelho”. A mensagem não é: “Creia que Cristo morreu por você” ou “Creia que você é um dos eleitos”. A mensagem é: “Creia no Senhor Jesus Cristo e você será salvo”.

· Ela denigre a eficácia intrínseca da própria expiação. Os arminianos ensinam que a obra de Cristo induz o Pai a aceitar graciosamente o que Jesus realizou no lugar de uma completa satisfação da Sua justiça. É como se Jesus persuadisse ao Pai a aceitar alguma coisa menos do que demandado pela justiça. Foi por isso que Armínio afirmou que quando Deus salvou pecadores, Ele mudou-se do seu trono de justiça para o seu trono de graça. Todavia, Deus não possui dois tronos. O seu trono de justiça é o seu trono de graça (Salmo 85.10). O arminianismo esquece que a expiação não conquista o amor de Deus, mas, sim, que a expiação é a provisão do seu amor.

FONTE: Seven Problems withArminian Universal Redemption.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O ENFRAQUECIMENTO DA MENSAGEM DO EVANGELHO E SUAS CONSEQUÊNCIAS

Pr. Paul Washer
Paul Washer[i]
Um dos maiores crimes cometidos pela presente geração cristã é a sua negligência para com o evangelho, e uma negligência tal, que todas as nossas mazelas surgem. O mundo perdido não é tão endurecido para com o evangelho quanto é ignorante dele porque muitos daqueles que o proclamam também são ignorantes quanto às suas verdades mais básicas. Os temas essenciais que compõem o núcleo do evangelho – a justiça de Deus, a depravação radical do homem, a expiação pelo sangue, a natureza da verdadeira conversão e a base bíblica para a certeza – estão ausentes de muitos púlpitos. As igrejas reduzem a mensagem do evangelho a algumas afirmações de credo, ensinam que a conversão é uma mera decisão humana e pronunciam a certeza da salvação a qualquer um que faça a oração do pecador.

O resultado desse reducionismo do evangelho é abrangente. Primeiro, ele endurece ainda mais o coração do não convertido. Poucos dos “convertidos” modernos sequer chegam a fazer parte da comunhão da igreja, e aqueles que o fazem frequentemente se desviam ou têm uma vida marcada pela carnalidade. Incontáveis milhões andam por nossas ruas e se sentam nos bancos das nossas igrejas inalterados pelo verdadeiro evangelho de Jesus Cristo, convencidos ainda de sua salvação porque uma vez em suas vidas levantaram a mão em uma cruzada evangelística ou repetiram uma oração. Essa falsa sensação de segurança cria uma grande barreira que os impede de jamais ouvirem o verdadeiro evangelho.

Segundo, tal evangelho deforma a igreja, que vai de um corpo espiritual de crentes regenerados a um ajuntamento de homens carnais que professam conhecer a Deus, mas que por suas obras o negam. Com a pregação do verdadeiro evangelho, homens vêm à igreja sem precisar de entretenimento evangelístico, atividades especiais ou promessas de benefícios além dos oferecidos pelo evangelho. Aqueles que vêm o fazem porque desejam a Cristo e estão famintos por verdade bíblica, adoração sincera e oportunidade para servir. Quando a igreja proclama um evangelho inferior, ela se enche de homens carnais que têm pouco interesse nas coisas de Deus, sendo a manutenção de tais homens um fardo pesado sobre a igreja. A igreja então atenua as demandas radicais do evangelho em um moralismo conveniente, e a verdadeira devoção a Cristo dá lugar a atividades projetadas para suprir as necessidades de seus membros. A igreja se torna uma igreja baseada em eventos, em vez de centrar-se em Cristo, e cuidadosamente filtra ou repagina a verdade para que não ofenda a maioria carnal. A igreja deixa de lado as grandes verdades da Escritura e o cristianismo ortodoxo, tornando o pragmatismo (i.e., qualquer coisa que mantenha a igreja avançando e crescendo) a norma do dia.

Terceiro, tal evangelho minimiza evangelismo e missões a nada mais do que empreendimentos humanistas dirigidos por engenhosas estratégias de marketing, que são baseadas em um estudo cuidadoso da última moda. Após testemunharem por anos a impotência do evangelho antibíblico, muitos evangélicos parecem estar convencidos de que o evangelho não funcionará e que o homem de alguma forma se tornou um ser muito complexo para ser salvo ou transformado por uma mensagem tão simples e escandalosa. Há agora mais ênfase em entender nossa cultura decaída e seus modismos do que em entender e proclamar a única mensagem que tem poder de salvá-la. Como resultado, o evangelho é constantemente repaginado para corresponder às demandas que a cultura contemporânea considera mais relevantes. Esquecemo-nos que o verdadeiro evangelho sempre é relevante a todas as culturas porque é a palavra eterna de Deus para todo homem.



Em quarto lugar, tal evangelho traz descrédito ao nome de Deus. Pela proclamação de um evangelho inferior, os carnais e os não convertidos se achegam à comunhão da igreja e, graças à quase total negligência à disciplina bíblica da igreja, lhes é permitido que permaneçam sem correção ou reprovação. Isso suja a pureza e a reputação da igreja e faz com que nome de Deus seja blasfemado entre os incrédulos. No fim, Deus não é glorificado, a igreja não é edificada, o membro de igreja não convertido não é salvo e a igreja tem pouco ou nenhum testemunho para o mundo incrédulo.

FONTE: Paul Washer. O Poder do Evangelho e sua Mensagem. São José dos Campos: Fiel, 2013. pp. 9-10.


Permissão gentilmente concedida pela Editora Fiel.


[i] Trecho do prefácio à série Recuperando o Evangelho.
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