sexta-feira, 15 de março de 2013

QUEM É A PEDRA?

Por D. A. Carson


QUEM É A PEDRA?

E SOBRE ESTA PEDRA... Agora, 'pedra' torna-se petra (feminino), e com base na distinção entre petros (acima) e petra (aqui), muitos tentam evitar identificar Pedro como a pedra sobre a qual Jesus edifica sua igreja. Alega-se que Pedro é uma mera 'pedra'; mas Jesus mesmo é a 'pedra', conforme Pedro mesmo atesta (1Pe 2.5-8; como, entre outros, Lenski, Gander, Walvoord). Outros adotam alguma outra distinção: e.g., 'sobre essa pedra da verdade revelada - a verdade que você acaba de confessar - edificarei minha igreja' (Allen). Contudo, se não fosse pela reação protestante contra os extremos de interpretação do catolicismo romano, seria duvidoso que muitos considerassem que 'pedra' fossem alguma outra coisa ou outra pessoa que não Pedro.

1. Embora seja verdade que, no grego antigo, petros e petra possam ter o sentido de 'pedra' e 'rocha', respectivamente, a distinção está grandemente limitada à poesia. Além disso, nesse caso, a base aramaica é inquestionável; e o mais provável é que kêpâ' tenha sido usado nas duas orações ('você é Kêpâ', e sobre esta kêpâ''), uma vez que a palavra foi usada para o nome e para 'pedra'. A Peshita (escrita em siríaco, língua cognata com o aramaico) não faz distinção entre as palavras nas duas orações. O grego faz a distinção entre petros e petra apenas porque tenta preservar o jogo de palavras, e, no grego, o feminino petra não pode servir muito bem como nome masculino.

2. A paronomásia de diversos tipos é muito comum na Bíblia e não deve ser diminuída (cf. Barry J. Beitzel, 'Exodus 3:14 and the Divine Name: A Case of Biblical Paronomasia' ['Êxodo 3.14 e o nome divino: um caso de paronomásia bíblica'], Trinity Journal [1980], p. 5-20; BDF, par. 488).

3. Se Mateus não quisesse dizer nada mais além de que Pedro era uma pedra em contraste com Jesus, a Rocha, a palavra mais comum a ser usada seria lithos ('pedra' de quase qualquer tamanho). Então, não haveria jogo de palavras - e esse é exatamente o ponto!

4. A objeção de que Pedro considera Jesus a rocha não tem fundamento porque as metáforas são normalmente usadas de formas variadas, até que se tornem estereotipadas e, às vezes, mesmo depois disso. Aqui, Jesus edifica sua igreja; em 1Coríntios 3.10, Paulo é um 'sábio construtor'. Em 1Coríntios 3.11, Jesus é a fundação da igreja; em Efésios 2.19,20, os apóstolos e os profetas são a fundação da igreja (cf. também Ap 21.14), e Jesus é a 'pedra angular'. Aqui, Pedro tem as chaves; em Apocalipse 1.18; 3.7, Jesus tem as chaves. Em João 9.5, Jesus é a 'luz do mundo'; em Mateus 5.14, seus discípulos são a luz do mundo. Nenhum desses pares de metáforas ameaça a singularidade de Jesus. Eles apenas mostram como as metáforas devem ser interpretadas principalmente em relação ao seu contexto imediato.

5. Nessa passagem, Jesus é o construtor da igreja e seria uma estranha mistura de metáforas incluir na mesma oração as que também o veem como a fundação da igreja.

Nada disso requer que as percepções conservadoras do catolicismo romano sejam endossadas (para exemplificar essas percepções, cf. Lagrange, Sabourin). O texto não diz nada a respeito da infalibilidade ou autoridade exclusiva dos sucessores de Pedro. Essas interpretações posteriores acarretam insuperáveis problemas exegéticos e históricos - e.g., depois da morte de Pedro seu 'sucessor' teria autoridade sobre o apóstolo sobrevivente, João. O que o Novo Testamento mostra é que Pedro foi o primeiro a fazer essa confissão formal e que a proeminência dele continua nos primeiros anos da igreja (At 1-12). Mas ele, junto com João, pode ser enviado pelos outros apóstolos (At 8.14), e ele tem de prestar contas de seus atos à igreja de Jerusalém (At 11.1-18) e é repreendido por Paulo (Gl 2.11-14). Em suma, ele é PRIMUS INTER PARES ('primeiro entre iguais'); e sobre a fundação desses homens (Ef 2.20), Jesus edifica sua igreja.

D. A. Carson. O Comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2010. pp. 431-432.

QUEM É A PEDRA?

Por William Hendriksen


O significado é: VOCÊ É PEDRO, ISTO É, ROCHA, E SOBRE ESTA ROCHA, ISTO É, SOBRE VOCÊ PEDRO, EDIFICAREI MINHA IGREJA. 'E eu disse a você, você é Kepha, e sobre esta kepha edificarei minha igreja'. Jesus, pois, está prometendo a Pedro que ele está para edificar sua igreja sobre ele! Eu aceito este ponto de vista.


Havendo dito isso, é necessário qualificar essa interpretação da seguinte forma. Jesus promete edificar sua igreja:

a. Não sobre Cefas como ele era por natureza, mas sobre ele considerado como um produto da graça. Por natureza esse homem era, em certo sentido, débil, muito instável, como já se indicou. Pela graça se tornara a mais corajosa, entusiasta e eficaz testemunha da verdade que o Pai lhe revelara com respeito a Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo. Foi nesse sentido que Jesus usou Pedro para edificar - reunir e fortalecer - sua igreja.

b. Não sobre Cefas considerado completamente isolado, mas sobre Cefas como o 'primeiro entre iguais' (Mt 10.2), isto é, sobre 'Pedro assumindo sua posição com os onze' (At 2.14). A autoridade que em 16.19 é delegada a Pedro é em 18.18 delegada aos Doze (ver também Jo 20.23). De fato, no exercício dessa autoridade a congregação local não deve ser desconsiderada (18.17).

Quando o Senhor disse as palavras registradas aqui em 16.18,19, ele certamente não quis dizer que Pedro agora podia começar a 'dominar' sobre os demais discípulos. Os demais não o entendiam dessa forma (18.1; 20.20-24), e Jesus certamente rejeitou tal interpretação (20.25-28; cf. Lc 22.24-30). Se Pedro mesmo houvesse concebido sua autoridade ou a de outros como a de um ditador, como poderia haver escrito uma passagem tão bela como 1Pedro 5.3?

c. Não sobre Cefas como fundamento primordial. No sentido primário ou básico do termo, só há um único fundamento, e esse fundamento não é Pedro, e, sim, o próprio Jesus Cristo (1Co 3.11). Num sentido secundário, porém, é inteiramente legítimo falar dos apóstolo, inclusive Pedro, como o fundamento da igreja, porque esses homens sempre estavam desviando a atenção de si mesmos para Jesus Cristo como o único e suficiente Salvador.

William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: Mateus. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. pp. 204-205.
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