quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

STEPHEN CHARNOCK SOBRE OS ATRIBUTOS DE DEUS

Joel R. Beeke e Mark Jones
O que Deus É (Quid Deus Sit?)[1]
O ser de Deus está necessariamente ligado aos conceitos de essência e existência. O primeiro é alvo de consideração na exposição de Charnock de João 4.24: “Deus é um Espírito”. “Ele não tem nada corpóreo, nenhuma mistura de matéria, nenhuma substância visível, nem forma física”.[2] Charnock observa que João 4.24 é o único lugar em toda a Bíblia onde Deus é explicitamente descrito como um Espírito, no mínimo nestas exatas palavras (totidem verbis). Se Deus existe, necessariamente Ele deve ser imaterial ou incorpóreo, visto que a matéria é imperfeita por natureza. Aqui Charnock, num estilo semelhante a muitos teólogos reformados ortodoxos, argumenta por meio da negação. Charnock afirma que Deus pode ser descrito de duas maneiras: por afirmação (Deus é bom) e por negação (Deus não tem corpo). “A primeira atribui a ele o que quer que seja excelente; a outra o separa de o que quer que seja imperfeito”.[3] Na visão de Charnock, o caminho da negação é o melhor modo para entender Deus; de fato, é o modo como comumente entendemos a Deus. Para descrever Deus, a palavra “mutável” se torna “imutável”, isto é, Deus não pode mudar.

Ao afirmar que Deus é um espírito, ao mesmo tempo se está afirmando o que Ele não é (isto é, Ele não tem corpo). Como oposto à existência material, o ser de Deus é não-composto. Além disso, porque Deus é um espírito, Charnock é capaz de mostrar como isso, necessariamente fala sobre os seus outros atributos. Por exemplo, sustentando a máxima reformada finitum non capax infiniti (o finito não pode conter o infinito), Charnock explica que se Deus não fosse um espírito, ele não poderia ser infinito; ou, positivamente, porque ele é um espírito, ele também é um ser independente que é ilimitado e imutável, e sua imutabilidade depende da sua simplicidade. O ponto que Charnock destaca nessa seção da sua exposição é que deve existir consistência entre a essência de Deus e seus atributos; de outra maneira, ele não pode ser Deus.[4] Ao começar com a espiritualidade de Deus, Charnock está em linha com a Confissão de Fé de Westminster, que faz da espiritualidade o primeiro dos atributos de Deus: “Há um único Deus vivo e verdadeiro, que é infinito em seu ser e perfeição, um espírito puríssimo, invisível, sem corpo” (2.1). Por estas razões, a defesa que Charnock faz de Deus como Espírito é um ponto de partida adequado para sua discussão dos atributos de Deus, a principal parte do seu discurso.

A Simplicidade de Deus
Esse título pode parecer estranho dado que o discurso de Charnock sobre os atributos de Deus não tem uma seção devotada explicitamente à simplicidade de Deus (simplicitas Dei). De fato, como Richard Muller observa, enquanto “o conceito de divina simplicidade era sustentado virtualmente por todos os teólogos ortodoxos dos séculos dezesseis e dezessete, ele não era invariavelmente discutido como um atributo separado em seus sistemas teológicos”.[5] Não existe dúvida, portanto, que Charnock afirme a simplicidade de Deus em muitos lugares. O conceito da divina simplicidade, que Deus é livre de toda composição, é afirmado por teólogos da Reforma e da Pós-Reforma.[6] Ele não é um ser composto como a soma das suas partes: “Deus é o mais simples ser; posto que é o primeiro em natureza, não tendo nada além de si, não podendo por qualquer meio ser pensado como sendo composto”.[7] Francis Turretin (1623-1687) explica a divina simplicidade ao refutar os socinianos, que rejeitaram esse conceito para poder rejeitar a doutrina da Trindade, e os remonstrantes, que negaram que a doutrina devesse ser afirmada como um artigo de fé visto que, como eles entendiam, as Escrituras silenciam sobre o assunto.[8] A simplicidade de Deus é um conceito elusivo, mas o modo de entender o que os teólogos reformados querem dizer por ele é por negação e afirmação. Negativamente, a simplicidade nega que exista alguma coisa e outra em Deus. Positivamente, a simplicidade afirma que o que quer que seja Deus é Deus. A simplicidade, então, é o atributo incomunicável de Deus “pelo qual a natureza divina é concebida por nós não apenas livre de toda composição e divisão, mas também como incapaz de composição e divisibilidade”.[9]

O entendimento de Charnock sobre a simplicidade de Deus reflete a posição básica da ortodoxia reformada. Em primeiro lugar, a simplicidade reflete a consistência dos atributos de Deus.[10] Mutabilidade é “absolutamente inconsistente com simplicidade”, pois se Deus “pudesse ser mudado por alguma coisa dentro de si mesmo, tudo em Deus não seria Deus”.[11] O poder de Deus também está ligado à sua simplicidade. Por mais simples que uma substância seja, mais poderosa ela é. Aqui, Charnock adiciona: “Onde existe a maior simplicidade existe a maior unidade; e onde existe a maior unidade existe o maior poder”.[12] Portanto, é incorreto argumentar que Deus é a soma de todos os atributos divinos. Em vez disso, os atributos são idênticos à essência de Deus. Charnock afirmou que a divina simplicidade é absolutamente essencial para o entendimento dos outros atributos divinos; de fato, todos os outros atributos divinos dependem deste conceito. Ao discutir os atributos divinos (por exemplo, sua imutabilidade e eternidade), o conceito de divina simplicidade é axiomático para o entendimento de Charnock da doutrina de Deus, como era para os teólogos escolásticos reformados.[13]

FONTE: Joel R. Beeke e Mark Jones. A Puritan Theology: Doctrine for Life. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2012. pp. 60-62.


[1] Veja o Breve Catecismo de Westminster, Pergunta 4.
[2] Charnock. Existence and Attributes. p. 107.
[3] Charnock. Existence and Attributes. p. 109.
[4] Charnock. Existence and Attributes. p. 111-113.
[5] Muller. Post-Reformation. 3:275.
[6] Para uma breve discussão desse conceito no pensamento de John Owe, veja Carl Trueman, John Owen: Reformed, Catholic, Renaissance Man. (Aldershot: Ashgate, 2007). pp. 38-39.
[7] Charnock. Existence and Attributes. p. 210.
[8] Francis Turretin. Institutes of Elenctic Theology. ed. James T. Dennison Jr., trans. George Musgrave Giger (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1992). 3.7.1.
[9] Turretin. Institutes. 3.7.3. Sobre atributos comunicáveis e incomunicáveis, veja Leigh. Treatise of Divinity. 2.22-23.
[10] Leigh também sustenta que porque Deus é o ser mais simples ele também deve ser incorpóreo. Treatise of Divinity. 2.24.
[11] Charnock. Existence and Attributes. p. 210.
[12] Charnock. Existence and Attributes. p. 415.
[13] A questão sobre se o conceito de divina simplicidade é consistente com a Trindade é respondida por te Velde: “Não é a existência de três Pessoas uma forma de composição? Os escritores ortodoxos reformados são unânimes em sua negação: as Pessoas não compõem, mas apenas distinguem (personae non componente, sed distinguunt). As três Pessoas não se relacionam umas com as outras como seres diferentes, mas como modos distintos de ser (modi subsistentiae) ou modificações”. Paths. p. 126.

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