sexta-feira, 27 de setembro de 2013

DA IMPORTÂNCIA DE UMA BOA BIBLIOTECA PASTORAL

Parte da minha biblioteca particular.
Por Eliseo Vila

Nenhum ser humano é capaz de armazenar em sua mente cada detalhe necessário para exercer uma profissão intelectual ou analisar a fundo um determinado tema. O cérebro humano retém os recursos básicos, o esqueleto da informação recebida durante o período de estudos. No entanto, para aprofundar o assunto e atualizar os conhecimentos adquiridos, é necessário recorrer aos livros. Portanto, todo profissional que se orgulha do seu trabalho, necessariamente, tem que dispor de uma biblioteca. Quanto mais ampla, melhor.

Esta máxima, aplicada ao pastor, adquire uma maior dimensão. O ofício de pastor é, sem dúvida, o mais versátil e complexo dentre todos os outros. Desde a preparação de um sermão à organização de um acampamento de jovens; de encorajar os idosos a disciplinar as crianças; de consolar os enfermos a tratar conflitos conjugais. Deve lidar com todas as classes de seres humanos: pobres, ricos, intelectuais, analfabetos, depressivos e otimistas. E precisa saber de tudo: teologia, história, ciência, literatura, geografia, pedagogia, sociologia, psicologia. Poucos profissionais têm de enfrentar um labor tão diversificado, e veem a necessidade de responder a perguntas tão díspares e vão exigir conhecimentos tão variados, como os pastores.

Podemos imaginar que qualquer homem, por mais sólida que tenha sido a sua formação ou anos de experiência acumulada, pode enfrentar um labor tão amplo e minucioso, sem a ajuda de uma boa biblioteca para lhe proporcionar informações detalhadas sobre o tema específico na hora certa?


Todos os grandes profissionais confiam boa parte do seu êxito à sua biblioteca. Médicos, advogados, engenheiros, arquitetos. Todos eles consideram como prioridade básica manter atualizada a sua biblioteca, o principal apoio para o seu trabalho diário. E a utilizam constantemente. Para consultar, para contrastar, para ampliar e reforçar os conhecimentos adquiridos. Para informar-se de novas técnicas, novas leis ou de novas descobertas. Para comparar umas teorias com as outras e, assim, chegar às melhores conclusões. Se isto é assim nas profissões seculares, o que diremos do ministério pastoral? Acaso o pastor não precisa fazer o mesmo?


FONTE: Eliseo Vila Vila. La Biblioteca Pastoral: Consejos Prácticos sobre su Importancia, Formación, Organización y Utilización. Barcelona, ES: Editorial CLIE, s/d. p. 5.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

AMÉM É COISA SÉRIA!

É comum ouvirmos a afirmação que o significado das palavras hebraica e grega traduzidas como “amém” é “que assim seja”. Ouvimos, por exemplo, que devemos finalizar nossas orações com um convicto “amém”, a fim de expressar nosso forte e sincero desejo de que Deus atenda nossas petições. E, de fato, a palavra pode ser entendida dessa forma. Edward Robinson diz que a palavra aparece “usualmente no final de uma oração, onde serve para confirmar as palavras que precedem” (Léxico Grego do Novo Testamento.Rio de Janeiro: CPAD, 2012. p. 46). Isso pode ser visto, por exemplo, em Neemias 5.13: “Também sacudi o meu regaço e disse: Assim o faça Deus, sacuda de sua casa e de seu trabalho a todo homem que não cumprir esta promessa; seja sacudido e despojado. E toda a congregação respondeu: Amém! E louvaram o SENHOR; e o povo fez segundo a sua promessa” (cf. Deuteronômio 27.15-26; 1Reis 1.36; 1Coríntios 14.16). Não é incorreto afirmar que dizer “amém” é uma expressão de desejo pela consecução daquilo que é pedido ou uma confirmação do que foi afirmado.

Entretanto, a palavra “amém” possui um significado mais solene. O estudioso Hans Bietenhard afirma: “Através do ‘amém’, aquilo que foi falado é afirmado como certo, positivo, válido e obrigatório” (Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 110). Trata-se, portanto, de uma afirmação de veracidade. Dizer “amém” é jurar que aquilo que foi afirmado na oração é expressão da verdade. Nesse sentido, quando suplicamos algo a Deus e dizemos “amém”, estamos expressando diante do Senhor que o nosso desejo é sincero e verdadeiro. Quando louvamos a Deus e finalizamos com “amém” estamos afirmando diante dAquele que sonda o nosso coração, que verdadeiramente o valorizamos e o consideramos como supremamente valioso.

Esse significado pode ser visto, por exemplo, em Isaías 65.16: “de sorte que aquele que se abençoar na terra, pelo Deus DA VERDADE é que se abençoará; e aquele que jurar na terra, pelo Deus DA VERDADE é que jurará”. A palavra hebraica traduzida pela Almeida Revista e Atualizada como “da verdade” é 'amên. Literalmente, o tetxo diz: “aquele que se abençoar na terra, pelo Deus DO AMÉM é que se abençoará; e aquele que jurar na terra, pelo Deus DO AMÉM é que jurará”. A ideia é que toda bênção e todo juramento terão a Deus como sua testemunha, Aquele que é a própria verdade, devendo, assim, serem feitos segundo a verdade e por coisas lícitas. Em Apocalipse 3.14, Jesus se identifica para o anjo da igreja de Laodiceia da seguinte forma: “Ao anjo da igreja em Laodiceia escreve: Estas coisas diz o AMÉM, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus”. Ao identificar-se como o “Amém”, Jesus está afirmando que o diagnóstico que ele apresentará a seguir é a mais pura expressão da verdade. Tudo o que ele tem a dizer é verdadeiro e, portanto, digno de crédito e de submissão da parte daqueles que ouvem. Gregory K. Beale diz que, “as três descrições ‘o Amém, a testemunha fiel e verdadeira’ não são distintas, mas geralmente se sobrepõem para sublinhar a ideia da fidelidade de Jesus ao testemunhar diante de seu Pai durante seu ministério terreno e sua continuidade como tal testemunha” (The Book of Revelation. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1999. p. 296). Simon Kistemaker, outro estudioso do Novo Testamento diz que, “o ‘Amém’ comunica a ideia daquilo que é verdadeiro, solidamente estabelecido e fidedigno”. (Comentário do Novo Testamento: Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 225).

De igual modo, quando desejava expressar de forma mais contundente a veracidade do seu ensinamento e como ele deveria ser levado a sério por seus discípulos, Jesus introduzia seus ditos no Evangelho de João com um duplo “amém”, que na nossa tradução aparece como “em verdade, em verdade vos digo”: “E acrescentou: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (1.51; cf. 3.3,5,11; 5.19,24,25; 6.26,32,47,53; 8.34,51,58; 10.1,7; 12.24; 13.16,20,21,38; 14.12; 16.20,23; 21.18). Todo o seu testemunho é verdadeiro. Nele não há engano. Nas suas declarações não existem mentiras. Ele é a verdade e tudo o que Jesus afirma é verdadeiro.

Isto posto, devemos compreender que quando fazemos nossas orações a Deus, louvando-o, bendizendo-o, fazendo súplicas e intercessões, e respondemos com o “amém”, estamos dizendo ao Deus da Verdade, ao Deus do Amém, que nossos desejos são sinceros, que nosso coração está tomado de santas afeições por suas perfeições, majestade e glória. Quando oramos e concluímos com o “amém”, dizemos ao Deus que sonda os nossos corações que tudo o que expressamos é verdadeiro. Por esta razão, devemos levar muito a sério o dever da oração. Devemos nos aproximar de Deus sabendo que ele não vê como vê o homem. Ele vê o coração. Ele sabe quando nossos desejos estão direcionados para outras coisas. Ele conhece a insinceridade dos nossos corações. Quando não somos sinceros ou quando somos indiferentes em nossas orações, o “amém” é uma mentira dita ao Deus que tudo sabe. Por isso, que ele nos guarde de toda mentira e nos preserve no caminho da verdade, para que nossas orações sejam, de fato e de verdade, nas palavras de Wilhelmus à Brakel, “a expressão de santos desejos a Deus, em nome de Cristo, que, por meio da operação do Espírito Santo, procede de um coração regenerado, junto com o pedido do cumprimento desses desejos” (The Christian’s Reasonable Service. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 1997. p. 446).

quarta-feira, 31 de julho de 2013

9 LUTAS ENVOLVIDAS EM SER ESPOSA DE PASTOR QUE TODO PASTOR DEVE CONHECER

Jeremy Bouma

“Ministério é um modo de vida que nos obriga constantemente a nos dedicarmos aos outros, sacrificando o nosso tempo, recursos e emoções. É uma vida que requer abnegação ao servirmos outros. E se não tivermos cuidado, ela pode nos deixar vazias, desanimadas e machucadas” (Cara Croft).

Nós, pastores, seríamos sábios em ler novamente a última linha. São palavras sábias, que nos foram dadas por Cara Croft, co-autora, juntamente com seu esposo, Pr. Brian, do importante novo livro The Pastor’s Family: Shepherding Your Family Through the Challenges of Pastoral Ministry (A Família do Pastor: Pastoreando Sua Família Através dos Desafios do Ministério Pastoral). É o manual que esperávamos para nos ajudar a pastorear nossa família com o mesmo cuidado e entusiasmo que pastoreamos nossas igrejas.
Thabiti e Kristie Anyabwile dizem que, “os pastores e suas famílias precisam de um livro como este... que fala das diversas exigências e expectativas que eles enfrentam e fornece orientação centrada no evangelho e focada na família”. E bem no centro há uma seção inteira sobre as exigências, expectativas e lutas que sua esposa encara.

Você conhece as lutas da sua esposa enquanto esposa de pastor? Porque se você ignora as lutas reais que sua companheira suporta enquanto está ao seu lado no ministério, ela ficará “vazia, desanimada e machucada”.

Deixei Brian fazer algo mais que falar nas duas últimas semanas (aqui e aqui). Então, eu pensei que poderia deixar Cara compartilhar. De modo útil, Cara identificou (ao menos) 9 lutas, que seria sábio memorizá-las e meditar por uma questão de servir às nossas ajudantes, enquanto elas fielmente servem conosco no ministério.

Se você é esposa de pastor, quais são as dificuldades que você encontrou ao apoiar e servir com seu esposo? Considere compartilhar sua história na seção de comentários.

9 Lutas em Ser Esposa de Pastor
Aqui está algo do que Cara diz sobre nove lutas enfrentadas por uma esposa de pastor.

1) Lidar com Expectativas Irrealistas
A lista de expectativas para as pessoas de pastores liderarem, participarem e cumprirem é interminável: ministério infantil, eventos da igreja, todos os serviços de culto, chás de bebê, funerais, casamentos, liderar pequenos grupos, hospedar missionários, e assim por diante. Cara escreve: “Uma vez uma esposa de um pastor me disse que a esposa do pastor deveria ser vista, mas isso não significa que nós temos que ‘fazer tudo’” (pp. 68-69).

2) Lutar Contra a Solidão
Embora o pastor e sua esposa sejam conhecidos por muitas pessoas, “há muito, muito poucas pessoas que realmente ‘sabem’ quem realmente somos”. Algo como acontece com o presidente e sua esposa. Devido a essa e outras razões, “é difícil escapar do fato de que a esposa do pastor pode ser muito solitária” (p. 72).

3) Ignorada, Esquecida
“...os ministérios dos nossos esposos são públicos e visíveis. Eles estão na frente do povo, pregando ou ensinando. Enquanto isso acontece, muitas vezes estamos no berçário ou nos bancos, tentando manter nossos filhos quietos. Enquanto os esposos estão fora de reunião e comungando com outros membros, frequentemente estamos presas em casa com filhos doentes! Nossas necessidades e nossas contribuições para a família e para a igreja tendem a passar despercebidas” (p. 75).

4) Aprender a Lidar com as Críticas
Cara diz que lidar com as críticas tem sido um dos seus maiores desafios: “Mas não é a crítica dirigida a mim que é difícil – é quando as pessoas criticam meu marido ou meus filhos” (p. 76). Quer as críticas sejam sobre os sermões, a liderança, a direção da igreja ou qualquer outra coisa, lidar com ela é difícil para a esposa do pastor.

5) Um Calendário Exigente
Cara descobriu que o ministério pastoral em tempo integral não é tão diferente da vida de um médico: “O meu médico de família e eu frequentemente nos condoemos quando discutimos as semelhanças entre nossas vidas e as programações caóticas que administramos” (p. 79). Sabemos disso e eles também: Pastores realmente não têm um dia de folga, e isso é difícil para as famílias.

6) Questões de Confidencialidade
Cara pontua de maneira útil que, quando compartilhamos informações com as nossas esposas sobre questões sensíveis na igreja sobre a organização, as pessoas e as famílias, a tentação de compartilhar essas informações com os outros aumentará na medida em que o conhecimento dos assuntos aumenta.

7) Você Não Tem Que Ser um Gigante Teológico
Aqui estão sábias palavras de Cara: “É importante para mulheres estar na Bíblia, aprendendo as Escrituras. Precisamos estudar a Palavra de Deus, mas não temos que ser gigantes teológicos só porque estamos casadas com um pastor” (p. 85). E pastores, saibam que existe uma pressão para que nossas esposas tenham as respostas teológicas que as pessoas estão procurando em nós.

8) Evite os Estereótipos
Todas as esposas de pastor possuem certas ideias sobre o que deveriam ser: “Tais ideias alimentam as expectativas que existem e colocamos em nós mesmas, bem como as que são colocadas sobre nós pela igreja. Precisamos lembrar que cada ministério é único e cada casamento é único, e Deus tem nos dotado de maneira singular para a posição e papel em que estamos inseridas” (p. 86).

9) Lutar as Batalhas Espirituais
Sabemos que a nossa luta não é contra “carne e ossos”, mas, sim, contra o próprio Satanás. E o ponto é que nossas esposas estão nessa mesma batalha assim como nós. Isso significa que elas necessitam estar em guarda e tomar medidas para vestirem toda a armadura de Deus e lutar. Isso também significa que o inimigo se voltará contra elas com a tentação, depressão, desânimo, e toda uma série de coisas que tentará derrotá-las, a fim de também nos derrotar.

A Alegria em Ser uma Esposa de Pastor
Esta é uma seção dura, especialmente se a sua resposta for “Mas, eu não tinha ideia!” Porém, enquanto cara deseja nos ajudar a entender e reconhecer as grandes lutas que nossas esposas travam, ela também reconhece que esse papel traz muitas alegrias:

Antes de qualquer coisa, estamos casadas com um pastor! Sim, eu sei que pode parecer óbvio, mas isso pode trazer alegria profunda. Estamos casadas com alguém que é duplamente responsável por cuidar das nossas almas, e nós temos a alegria e a bênção de ministrar a um dos servos escolhidos de Deus de uma forma única e especial. Nós providenciamos um lugar de refúgio e descanso para estes homens de Deus. Temos que incentivá-los em seu trabalho, colher dos seus conhecimentos e experimentar do seu cuidado em primeira mão (p. 90).

As possibilidades são de que nossas esposas se sintam da mesma forma! Por ser casada com um pastor as possibilidades de sua esposa são enormes. Que ela esteja extremamente feliz em oferecer um lugar de refúgio, conforto, paz, encorajamento e conselho para o seu importante papel.

Ou talvez não. Especialmente se um ou mais dos nove pontos acima estão sendo deixados sem solução e sem cuidado. Eu não sei quanto a vocês, mas desejo que esse papel seja para minha esposa uma alegria, não um fardo.

Mas isso acontecerá apenas quando estivermos conscientes e formos solidários às genuínas exigências e lutas que nossas esposas, a quem Deus designou como nossas ajudadoras no ministério, enfrentam.

Para finalizar, Brian Croft escreveu: “Pastores, vocês precisam entender que a mulher que dorme ao seu lado todas as noites e partilha a vida é aquela a quem Deus, em sua providência, apontou como sua esposa e companheira no ministério” (p. 90). Isso significa que você não somente deve “incentivar sua esposa a abraçar esse papel”, mas também deve incentivá-la e apoiá-la em meio às lutas que vêm com esse papel.

Eu sei que eu vou, agora que tenho uma maior apreciação por tais lutas.

FONTE: Engaging Church

terça-feira, 18 de junho de 2013

OS DEVERES DOS MEMBROS DA IGREJA PARA COM O SEU PASTOR #1

John Angell James
John Angell James[i]

É pela vontade e apontamento do Senhor Jesus Cristo, o glorioso Rei e Cabeça das Suas igrejas, que os seus membros devem se comportar em relação aos seus pastores como seus ministros, que vêm em nome dEle, carregam os mandamentos dEle e efetuam os negócios dEle; e que sejam tratados, em relação a qualquer coisa, de uma maneira que corresponda ao ofício que desempenham. Num sentido subordinado, eles são embaixadores de Cristo, e devem ser recebidos e estimados de uma maneira que corresponda à autoridade e glória do Soberano que os comissiona. Quem quer que os ofenda, insulte ou os negligencie, no exercício dos seus deveres oficiais, desobedece e despreza seu divino Mestre, que se ressente profundamente de todas as injúrias lançadas contra eles. Nenhum soberano terreno permite que seus mensageiros sejam rejeitados e insultados sem punição; muito menos o Senhor da igreja. Aqueles que entretêm baixos pensamentos a respeito do ofício pastoral negligenciam aridamente suas ministrações; quem fala com desdém dos seus ministros, quem excita um espírito de resistência aos seus conselhos, admoestações e reprovações, quem se esforça para diminuir aquela justa reverência, para que, por causa da sua obra, e em nome do seu Mestre, eles têm direito, certamente os despreza, e não apenas eles, mas a Ele que os enviou! E por tal conduta, eles certamente incorrerão no pesado desagrado de Cristo (Lucas 10.16; 1Tessalonicenses 5.13).

Mas, descendo aos particulares, os deveres dos membros da igreja para com seus pastores são:

1. Submissão à sua autoridade justa e bíblica.
É prontamente admitido que não bíblica e, portanto, dominação usurpada do ministério é a raiz de onde surgem o completo sistema da tirania papal; que, surgindo como uma árvore venenosa no jardim do Senhor, secou por sua sombra, e marcou por sua influência, quase todas as plantas e flores do Cristianismo genuíno. É questão de não arrependimento, portanto, nem de surpresa, se um ciúme incessante for mantido por aqueles que entendem os princípios da liberdade religiosa contra as usurpações da autoridade pastoral. Domínio sacerdotal, tal como aparece no Vaticano, é a mais detestável e a mais maldosa de todas as tiranias; mas quando ele aparece no pastor de uma igreja independente, ao mesmo tempo despojado de todos os elementos de poder e das armadilhas da majestade, o simples mimetismo de autoridade é mais ridículo do que alarmante, e não possui nenhuma semelhança com seu protótipo em Roma, a semelhança de como fez o pequeno, coaxante e saltador animal da lagoa com o boi do campo, cujo orgulho o fez inflar até que estourasse.

No entanto, ainda assim, existe uma autoridade pertencente ao pastor, pois ofício sem autoridade é um absurdo! “Lembrem-se daqueles que têm governo sobre vocês”, disse São Paulo aos Hebreus (13.7). “Obedeçam aos que governam sobre vocês e sejam-lhes submissos, pois eles cuidam das suas almas” (13.17). Àqueles “que se devotaram a si mesmo ao serviço dos santos, também se sujeitem a estes” (1Coríntios 16.15-16). Estas injunções são inspiradas, e requerem obediência e submissão das igrejas cristãs aos seus pastores. A autoridade dos pastores, entretanto, não é legislativa ou coerciva, mas simplesmente declarativa e executiva. Definir com precisão seus limites é tão difícil quanto marcar os limites das várias cores do arco-íris, ou os limites da luz e escuridão na hora do crepúsculo no hemisfério.

Este não é o único caso em que os limites da autoridade são deixados sem precisão definida pelas Escrituras. Os deveres da união conjugal são definidos da mesma maneira geral: o marido deve governar e a esposa deve se submeter. Mas ainda é difícil declarar onde, neste caso, autoridade e submissão terminam. Em cada um destes exemplos, a união é fundamentada sobre amor mútuo, confiança e estima e pode, portanto, ser racionalmente suposto que, sob estas circunstâncias, termos gerais são suficientes, e que não devem surgir lutas pelo poder. Se as pessoas veem a autoridade do seu pastor sendo empregada para o seu benefício, elas não se inclinarão a determinar por medições se ele ultrapassou os limites da sua autoridade. A própria circunstância da prerrogativa sendo assim definida deve, por um lado, fazer com que ele tema estendê-la, e de outro lado, torna a sua igreja cautelosa quanto a diminuí-la. É minha decidida convicção que, em algumas de nossas igrejas o pastor é reduzido muito abaixo do seu nível justo. Ele é considerado meramente como um simples irmão que discursa. Em algumas igrejas ele não possui nenhuma distinção oficial ou autoridade. Ele pode elogiar como um bajulador, ele pode pedir como um servo, ele pode galantear como um amante, mas não lhe é permitido comandar como uma autoridade. Sua opinião é recebida sem nenhum respeito, sua pessoa tratada sem nenhuma honra, e na presença de alguns dos seus tiranos leigos, se ele diz qualquer coisa, é semelhante aos antigos adivinhos, pois a ele é permitido apenas chiar e murmura com a boca no pó.

Aquelas pessoas que estão ansiosas para retirar dos seus pastores toda justa elevação, não podem esperar obter muita edificação a partir dos seus labores; pois instrução e conselho, como substâncias que caem na terra, impressionam a mente com uma força proporcional à altura da qual elas caem.
FONTE: John Angell James; Gardiner Spring. The Duties of Church Members To Their Pastors/A Plea To Pray for Pastors. Birmingham, AL: Solid Ground Christian Books, 2009. pp. 1-3.


[i] Pastor congregacional, nasceu em 1785 e morreu em 1859. Era um ministro inglês não-conformista.

terça-feira, 9 de abril de 2013

A ESTRATÉGIA DA MILITÂNCIA HOMOSSEXUAL

Não importa quão polido e educado você seja. Não importa quão cuidadosamente você escolha os termos da sua afirmação. No momento em que verbaliza sua posição contrária às reivindicações do movimento homossexual, instantaneamente você é acusado de incentivar o ódio contra os homossexuais. A afirmação "Sou contra a união civil e a concessão de direitos especiais aos homossexuais" frequentemente é entendida como "Odeio os homossexuais! Por mim todos morreriam e queimariam no mais profundo do inferno!"

Estou convicto de que não se trata de um simples ruído na comunicação. Não se trata de algo que prejudicou o correto entendimento do receptor. Creio que isso é feito de maneira proposital. Os militantes pró-homossexualismo propositadamente distorcem toda e qualquer manifestação contrária ao seu projeto, como parte de uma estratégia, visando angariar a simpatia do populacho.


Tudo isso faz parte de uma estratégia maquiavélica do movimento LGBT. O Dr. Albert Mohler discorre acerca do empreendimento homossexual. Após falar do Cristianismo como sendo o maior obstáculo diante do movimento, Al Mohler apresenta as táticas sugeridas por Marshall Kirk (pesquisador em neuropsiquiatria) e Hunter Madsen (consultor de relações públicas), que escreveram um livro intituladoAfter the Ball? How America Will Conquer Its Fear and Hatred of Gays in 90’s(Depois do Baile: Como a América Vencerá seu Medo e Ódio aos Gays nos anos 90):
Concebendo seu livro como “um manifesto gay para a década de 90”, os autores recomendam que os homossexuais se apresentem com outra postura, como cidadãos da cultura predominante que exigem tratamento igualitário, e não como uma minoria sexual promíscua que busca maior oportunidade e influência [...]
Retratar os homossexuais como vítimas era essencial à estratégia deles. Oferecendo diversos princípios para o avanço tático em sua causa, os autores apelaram aos homossexuais que se apresentassem como vítimas da sociedade, e não como revolucionários. Se os heterossexuais vissem os gays como sofredores oprimidos, seriam eventualmente “inclinados por reflexão a adotar o papel de protetores”. Essa estratégia, eles disseram, poderia levar a algo semelhante à “conversão” da mentalidade do povo sobre a questão da homossexualidade. “O propósito do retrato de vítima é fazer os heterossexuais se sentirem incomodados”, os autores explicaram. No devido tempo, os heterossexuais poderiam cansar de sentirem-se opressores e chegar a simpatizar com os gays, sentindo-se até compelidos a ajudá-los a reverter a injustiça que a sociedade lhes infligira [...]
As igrejas conservadoras [são] definidas pelos autores como “igrejas que odeiam os homossexuais”, são retratadas como “estagnadas e antiquadas, terrivelmente fora de harmonia com estes tempos e com as últimas descobertas da psicologia”. Outros princípios oferecidos pelos autores incluem o fazer os gays parecerem bons, por identificarem figuras históricas estratégicas como homossexuais secretos e, por outro lado, por fazer os “vitimadores” parecerem maus aos olhos da sociedade.[1]

Os homossexuais fazem amplo uso da tática aqui delineada (leia-se: DISSIMULAÇÃO!). O estereótipo homossexual vendido pela mídia é o de alguém oprimido, humilhado e marginalizado, cujos direitos mais básicos são negligenciados. Eles se apresentam como vítimas, sendo que, apresentam como sendo os piores algozes, os cristãos. Os pregadores cristãos são apresentados pelos encarregados de vender o “produto homossexual” como “histéricos e incultos, falando absurdos com ódio em um nível que chega a ser cômico e perturbador”.[2] Para reforçar o efeito catastrófico dessa tática, os militantes apresentam imagens comoventes de homossexuais, que parecem decentes, como inofensivos, amáveis e, consequentemente, oprimidos pelos pregadores histéricos. Alhures, Mohler diz o seguinte:
Os defensores do casamento homossexual estão fazendo pressão em favor de seu caso e, mesmo com barreiras políticas e legais administrativas, enquadraram a questão de modo que aqueles que se apegam a um conceito bíblico de casamento são colocados na defensiva, e os defensores das relações entre pessoas do mesmo sexo são retratadas como agentes da liberdade, do progresso e da inevitável evolução cultural.[3]

FONTES: [1] Albert Mohler, Jr. Desejo e Engano: O Verdadeiro Preço da Nova Tolerância Sexual. São José dos Campos: Fiel, 2009. p. 86, 87, 88. Ênfase acrescentada.

[2] Ibid. p. 89.

[3] Albert Mohler, Jr. O Casamento Homossexual como um Desafio para a Igreja: reflexões bíblicas e culturais. In: John Piper e Justin Taylor (Orgs.). Sexo e a Supremacia de Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2009. p. 133. Ênfase acrescentada.

sexta-feira, 15 de março de 2013

QUEM É A PEDRA?

Por D. A. Carson


QUEM É A PEDRA?

E SOBRE ESTA PEDRA... Agora, 'pedra' torna-se petra (feminino), e com base na distinção entre petros (acima) e petra (aqui), muitos tentam evitar identificar Pedro como a pedra sobre a qual Jesus edifica sua igreja. Alega-se que Pedro é uma mera 'pedra'; mas Jesus mesmo é a 'pedra', conforme Pedro mesmo atesta (1Pe 2.5-8; como, entre outros, Lenski, Gander, Walvoord). Outros adotam alguma outra distinção: e.g., 'sobre essa pedra da verdade revelada - a verdade que você acaba de confessar - edificarei minha igreja' (Allen). Contudo, se não fosse pela reação protestante contra os extremos de interpretação do catolicismo romano, seria duvidoso que muitos considerassem que 'pedra' fossem alguma outra coisa ou outra pessoa que não Pedro.

1. Embora seja verdade que, no grego antigo, petros e petra possam ter o sentido de 'pedra' e 'rocha', respectivamente, a distinção está grandemente limitada à poesia. Além disso, nesse caso, a base aramaica é inquestionável; e o mais provável é que kêpâ' tenha sido usado nas duas orações ('você é Kêpâ', e sobre esta kêpâ''), uma vez que a palavra foi usada para o nome e para 'pedra'. A Peshita (escrita em siríaco, língua cognata com o aramaico) não faz distinção entre as palavras nas duas orações. O grego faz a distinção entre petros e petra apenas porque tenta preservar o jogo de palavras, e, no grego, o feminino petra não pode servir muito bem como nome masculino.

2. A paronomásia de diversos tipos é muito comum na Bíblia e não deve ser diminuída (cf. Barry J. Beitzel, 'Exodus 3:14 and the Divine Name: A Case of Biblical Paronomasia' ['Êxodo 3.14 e o nome divino: um caso de paronomásia bíblica'], Trinity Journal [1980], p. 5-20; BDF, par. 488).

3. Se Mateus não quisesse dizer nada mais além de que Pedro era uma pedra em contraste com Jesus, a Rocha, a palavra mais comum a ser usada seria lithos ('pedra' de quase qualquer tamanho). Então, não haveria jogo de palavras - e esse é exatamente o ponto!

4. A objeção de que Pedro considera Jesus a rocha não tem fundamento porque as metáforas são normalmente usadas de formas variadas, até que se tornem estereotipadas e, às vezes, mesmo depois disso. Aqui, Jesus edifica sua igreja; em 1Coríntios 3.10, Paulo é um 'sábio construtor'. Em 1Coríntios 3.11, Jesus é a fundação da igreja; em Efésios 2.19,20, os apóstolos e os profetas são a fundação da igreja (cf. também Ap 21.14), e Jesus é a 'pedra angular'. Aqui, Pedro tem as chaves; em Apocalipse 1.18; 3.7, Jesus tem as chaves. Em João 9.5, Jesus é a 'luz do mundo'; em Mateus 5.14, seus discípulos são a luz do mundo. Nenhum desses pares de metáforas ameaça a singularidade de Jesus. Eles apenas mostram como as metáforas devem ser interpretadas principalmente em relação ao seu contexto imediato.

5. Nessa passagem, Jesus é o construtor da igreja e seria uma estranha mistura de metáforas incluir na mesma oração as que também o veem como a fundação da igreja.

Nada disso requer que as percepções conservadoras do catolicismo romano sejam endossadas (para exemplificar essas percepções, cf. Lagrange, Sabourin). O texto não diz nada a respeito da infalibilidade ou autoridade exclusiva dos sucessores de Pedro. Essas interpretações posteriores acarretam insuperáveis problemas exegéticos e históricos - e.g., depois da morte de Pedro seu 'sucessor' teria autoridade sobre o apóstolo sobrevivente, João. O que o Novo Testamento mostra é que Pedro foi o primeiro a fazer essa confissão formal e que a proeminência dele continua nos primeiros anos da igreja (At 1-12). Mas ele, junto com João, pode ser enviado pelos outros apóstolos (At 8.14), e ele tem de prestar contas de seus atos à igreja de Jerusalém (At 11.1-18) e é repreendido por Paulo (Gl 2.11-14). Em suma, ele é PRIMUS INTER PARES ('primeiro entre iguais'); e sobre a fundação desses homens (Ef 2.20), Jesus edifica sua igreja.

D. A. Carson. O Comentário de Mateus. São Paulo: Shedd Publicações, 2010. pp. 431-432.

QUEM É A PEDRA?

Por William Hendriksen


O significado é: VOCÊ É PEDRO, ISTO É, ROCHA, E SOBRE ESTA ROCHA, ISTO É, SOBRE VOCÊ PEDRO, EDIFICAREI MINHA IGREJA. 'E eu disse a você, você é Kepha, e sobre esta kepha edificarei minha igreja'. Jesus, pois, está prometendo a Pedro que ele está para edificar sua igreja sobre ele! Eu aceito este ponto de vista.


Havendo dito isso, é necessário qualificar essa interpretação da seguinte forma. Jesus promete edificar sua igreja:

a. Não sobre Cefas como ele era por natureza, mas sobre ele considerado como um produto da graça. Por natureza esse homem era, em certo sentido, débil, muito instável, como já se indicou. Pela graça se tornara a mais corajosa, entusiasta e eficaz testemunha da verdade que o Pai lhe revelara com respeito a Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo. Foi nesse sentido que Jesus usou Pedro para edificar - reunir e fortalecer - sua igreja.

b. Não sobre Cefas considerado completamente isolado, mas sobre Cefas como o 'primeiro entre iguais' (Mt 10.2), isto é, sobre 'Pedro assumindo sua posição com os onze' (At 2.14). A autoridade que em 16.19 é delegada a Pedro é em 18.18 delegada aos Doze (ver também Jo 20.23). De fato, no exercício dessa autoridade a congregação local não deve ser desconsiderada (18.17).

Quando o Senhor disse as palavras registradas aqui em 16.18,19, ele certamente não quis dizer que Pedro agora podia começar a 'dominar' sobre os demais discípulos. Os demais não o entendiam dessa forma (18.1; 20.20-24), e Jesus certamente rejeitou tal interpretação (20.25-28; cf. Lc 22.24-30). Se Pedro mesmo houvesse concebido sua autoridade ou a de outros como a de um ditador, como poderia haver escrito uma passagem tão bela como 1Pedro 5.3?

c. Não sobre Cefas como fundamento primordial. No sentido primário ou básico do termo, só há um único fundamento, e esse fundamento não é Pedro, e, sim, o próprio Jesus Cristo (1Co 3.11). Num sentido secundário, porém, é inteiramente legítimo falar dos apóstolo, inclusive Pedro, como o fundamento da igreja, porque esses homens sempre estavam desviando a atenção de si mesmos para Jesus Cristo como o único e suficiente Salvador.

William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: Mateus. Vol. 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. pp. 204-205.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

STEPHEN CHARNOCK SOBRE OS ATRIBUTOS DE DEUS

Joel R. Beeke e Mark Jones
O que Deus É (Quid Deus Sit?)[1]
O ser de Deus está necessariamente ligado aos conceitos de essência e existência. O primeiro é alvo de consideração na exposição de Charnock de João 4.24: “Deus é um Espírito”. “Ele não tem nada corpóreo, nenhuma mistura de matéria, nenhuma substância visível, nem forma física”.[2] Charnock observa que João 4.24 é o único lugar em toda a Bíblia onde Deus é explicitamente descrito como um Espírito, no mínimo nestas exatas palavras (totidem verbis). Se Deus existe, necessariamente Ele deve ser imaterial ou incorpóreo, visto que a matéria é imperfeita por natureza. Aqui Charnock, num estilo semelhante a muitos teólogos reformados ortodoxos, argumenta por meio da negação. Charnock afirma que Deus pode ser descrito de duas maneiras: por afirmação (Deus é bom) e por negação (Deus não tem corpo). “A primeira atribui a ele o que quer que seja excelente; a outra o separa de o que quer que seja imperfeito”.[3] Na visão de Charnock, o caminho da negação é o melhor modo para entender Deus; de fato, é o modo como comumente entendemos a Deus. Para descrever Deus, a palavra “mutável” se torna “imutável”, isto é, Deus não pode mudar.

Ao afirmar que Deus é um espírito, ao mesmo tempo se está afirmando o que Ele não é (isto é, Ele não tem corpo). Como oposto à existência material, o ser de Deus é não-composto. Além disso, porque Deus é um espírito, Charnock é capaz de mostrar como isso, necessariamente fala sobre os seus outros atributos. Por exemplo, sustentando a máxima reformada finitum non capax infiniti (o finito não pode conter o infinito), Charnock explica que se Deus não fosse um espírito, ele não poderia ser infinito; ou, positivamente, porque ele é um espírito, ele também é um ser independente que é ilimitado e imutável, e sua imutabilidade depende da sua simplicidade. O ponto que Charnock destaca nessa seção da sua exposição é que deve existir consistência entre a essência de Deus e seus atributos; de outra maneira, ele não pode ser Deus.[4] Ao começar com a espiritualidade de Deus, Charnock está em linha com a Confissão de Fé de Westminster, que faz da espiritualidade o primeiro dos atributos de Deus: “Há um único Deus vivo e verdadeiro, que é infinito em seu ser e perfeição, um espírito puríssimo, invisível, sem corpo” (2.1). Por estas razões, a defesa que Charnock faz de Deus como Espírito é um ponto de partida adequado para sua discussão dos atributos de Deus, a principal parte do seu discurso.

A Simplicidade de Deus
Esse título pode parecer estranho dado que o discurso de Charnock sobre os atributos de Deus não tem uma seção devotada explicitamente à simplicidade de Deus (simplicitas Dei). De fato, como Richard Muller observa, enquanto “o conceito de divina simplicidade era sustentado virtualmente por todos os teólogos ortodoxos dos séculos dezesseis e dezessete, ele não era invariavelmente discutido como um atributo separado em seus sistemas teológicos”.[5] Não existe dúvida, portanto, que Charnock afirme a simplicidade de Deus em muitos lugares. O conceito da divina simplicidade, que Deus é livre de toda composição, é afirmado por teólogos da Reforma e da Pós-Reforma.[6] Ele não é um ser composto como a soma das suas partes: “Deus é o mais simples ser; posto que é o primeiro em natureza, não tendo nada além de si, não podendo por qualquer meio ser pensado como sendo composto”.[7] Francis Turretin (1623-1687) explica a divina simplicidade ao refutar os socinianos, que rejeitaram esse conceito para poder rejeitar a doutrina da Trindade, e os remonstrantes, que negaram que a doutrina devesse ser afirmada como um artigo de fé visto que, como eles entendiam, as Escrituras silenciam sobre o assunto.[8] A simplicidade de Deus é um conceito elusivo, mas o modo de entender o que os teólogos reformados querem dizer por ele é por negação e afirmação. Negativamente, a simplicidade nega que exista alguma coisa e outra em Deus. Positivamente, a simplicidade afirma que o que quer que seja Deus é Deus. A simplicidade, então, é o atributo incomunicável de Deus “pelo qual a natureza divina é concebida por nós não apenas livre de toda composição e divisão, mas também como incapaz de composição e divisibilidade”.[9]

O entendimento de Charnock sobre a simplicidade de Deus reflete a posição básica da ortodoxia reformada. Em primeiro lugar, a simplicidade reflete a consistência dos atributos de Deus.[10] Mutabilidade é “absolutamente inconsistente com simplicidade”, pois se Deus “pudesse ser mudado por alguma coisa dentro de si mesmo, tudo em Deus não seria Deus”.[11] O poder de Deus também está ligado à sua simplicidade. Por mais simples que uma substância seja, mais poderosa ela é. Aqui, Charnock adiciona: “Onde existe a maior simplicidade existe a maior unidade; e onde existe a maior unidade existe o maior poder”.[12] Portanto, é incorreto argumentar que Deus é a soma de todos os atributos divinos. Em vez disso, os atributos são idênticos à essência de Deus. Charnock afirmou que a divina simplicidade é absolutamente essencial para o entendimento dos outros atributos divinos; de fato, todos os outros atributos divinos dependem deste conceito. Ao discutir os atributos divinos (por exemplo, sua imutabilidade e eternidade), o conceito de divina simplicidade é axiomático para o entendimento de Charnock da doutrina de Deus, como era para os teólogos escolásticos reformados.[13]

FONTE: Joel R. Beeke e Mark Jones. A Puritan Theology: Doctrine for Life. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2012. pp. 60-62.


[1] Veja o Breve Catecismo de Westminster, Pergunta 4.
[2] Charnock. Existence and Attributes. p. 107.
[3] Charnock. Existence and Attributes. p. 109.
[4] Charnock. Existence and Attributes. p. 111-113.
[5] Muller. Post-Reformation. 3:275.
[6] Para uma breve discussão desse conceito no pensamento de John Owe, veja Carl Trueman, John Owen: Reformed, Catholic, Renaissance Man. (Aldershot: Ashgate, 2007). pp. 38-39.
[7] Charnock. Existence and Attributes. p. 210.
[8] Francis Turretin. Institutes of Elenctic Theology. ed. James T. Dennison Jr., trans. George Musgrave Giger (Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1992). 3.7.1.
[9] Turretin. Institutes. 3.7.3. Sobre atributos comunicáveis e incomunicáveis, veja Leigh. Treatise of Divinity. 2.22-23.
[10] Leigh também sustenta que porque Deus é o ser mais simples ele também deve ser incorpóreo. Treatise of Divinity. 2.24.
[11] Charnock. Existence and Attributes. p. 210.
[12] Charnock. Existence and Attributes. p. 415.
[13] A questão sobre se o conceito de divina simplicidade é consistente com a Trindade é respondida por te Velde: “Não é a existência de três Pessoas uma forma de composição? Os escritores ortodoxos reformados são unânimes em sua negação: as Pessoas não compõem, mas apenas distinguem (personae non componente, sed distinguunt). As três Pessoas não se relacionam umas com as outras como seres diferentes, mas como modos distintos de ser (modi subsistentiae) ou modificações”. Paths. p. 126.
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