domingo, 11 de novembro de 2012

VISÃO FEDERAL: UMA PEQUENA DEFINIÇÃO

Peter J. Leithart, Jim Jordan e Douglas Wilson: representantes da Visão Federal

Nos últimos dez anos ou mais, comunidades reformadas primeiramente nos Estados Unidos e de forma mais recente e profunda na Europa, têm ficado desnorteadas por um movimento teológico de origem recente, mas de raízes históricas profundas. É interessante que mesmo a tentativa de dar um nome a esse movimento se mostra difícil, visto ser ele conhecido por várias designações, quais sejam elas: 1) Teologia da Avenida Auburn, em referência à Auburn Avenue Presbyterian Church, em Monroe, Louisiana, que hospeda conferências nas quais as ideias do movimento têm sido mais consistentemente promovidas; 2) Shepherdismo, em reconhecimento à influência de Norman Shepherd, professor de Teologia Sistemática no Westminster Theological Seminary de 1963 a 1981, que articulou e promoveu várias das principais doutrinas do movimento; 3) Monopactualismo, que repudia a distinção reformada histórica entre um Pacto das Obras e o Pacto da Graça, insistindo que se trata de apenas um pacto entre Deus e o homem antes e depois da Queda; 4) Neonomismo ou Neolegalismo, rótulo aplicado por alguns dos seus críticos mais severos, que entendem que o seu entendimento peculiar acerca da Teologia do Pacto implica uma soteriologia sinergista; e 5) Visão Federal, nome preferido por seus proponentes, que enfatiza “a reformulação da tradicional Teologia do Pacto, dando destaque à visão em detrimento do sistema proposicional”.[i]
            J. Ligon Duncan afirma que, “entre outras coisas, a Visão Federal acredita que a Teologia do Pacto clássica necessita de uma reforma bíblica e de uma fresca implantação nas igrejas reformadas e nas vidas dos cristãos reformados”.[ii] De acordo com E. Calvin Beisner, a Visão Federal possui contornos híbridos, afetando áreas como a soteriologia, a eclesiologia e a sacramentologia.[iii] No que diz respeito à sacramentologia, a Visão Federal defende um sacramentalismo modificado que se aproxima da doutrina católica do ex opere operato. Steve Wilkins, um dos mais proeminentes visionistas federais, chega a identificar os sacramentos como meios efetivos para converter, não apenas santificar. Ele diz:
Se alguém foi batizado, está em pacto com Deus; pacto é união com Cristo. Então, estar no pacto traz todas as bênçãos de se estar em Cristo [...] Porque estar em pacto com Deus quer dizer estar em Cristo, aqueles que estão no pacto possuem todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais.[iv]

            Tal afirmação certamente inclui a salvação como sendo uma das bênçãos espirituais advindas do sacramento do batismo. Interessantemente, outras críticas feitas à Visão Federal incluem a da apresentação de um arminianismo modificado e a aproximação da Nova Perspectiva sobre Paulo, conforme defendida por N. T. Wright. Sobre a primeira, o entendimento é que a eleição de alguém depende, em última instância, da sua fidelidade ao pacto. Alguém pode ser justificado e, ainda assim, ser condenado devido a apostasia.[v] No que diz respeito à última, a concepção da Visão Federal em muito se aproxima do comentário de N. T. Wright sobre Romanos 2.13: “A justificação, no final, será por meio de performance, não de possessão”.[vi] Trata-se de algo interessante porque, nos dizeres de Beisner, “paradoxalmente, a eficácia dos sacramentos pode ser frustrada por recipientes indignos”.[vii]


[i] Guy Prentiss Waters. Federal Vision and Covenant Theology: A Comparative Analysis. Phillipsburg, NJ: Presbyterian & Reformed Publishing, 2006. Kindle Edition.
[ii] J. Ligon Duncan. “Risking the Truth: Interviews on Handing Truth and Error in the Church”. Acessado em 23/02/2012. .
[iii] Guy Prentiss Waters. Federal Vision and Covenant Theology: A Comparative Analysis. Kindle Edition.
[iv] Ibid.
[v] Ibid.
[vi] Leander E. Keck (Ed.). New Interpreter’s Bible: Acts-First Corinthians. Vol. 10. Nashville: Abingdon, 2002. p. 440. N. T. Wright é o escritor do comentário de Romanos dessa série.
[vii] Guy Prentiss Waters. Federal Vision and Covenant Theology: A Comparative Analysis. Kindle Edition.

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