quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A NECESSIDADE DO PACTO DAS OBRAS NO PENSAMENTO DE HERMAN WITSIUS E WILHELMUS À BRAKEL


Nas suas obras[1], os teólogos holandeses Herman Witsius e Wilhelmus à Brakel se mostraram ardorosos defensores da necessidade e existência do Pacto das Obras. Para eles, negar sua existência comprometeria pontos teológicos e doutrinas basilares das Sagradas Escrituras. Sobre isso, Richard A. Muller afirmou: “O protestante ortodoxo reconheceu que uma perspectiva distorcida sobre um consequente locus doutrinário, muito facilmente, se tornaria a base de um equívoco retroativo de um locus doutrinário primário ou logicamente anterior”.[2] Entende-se, com isso, que existe uma associação íntima entre o Pacto das Obras e outras doutrinas de ordem cristológica e soteriológica, de maneira que, negar a existência daquele é afetar seriamente a formulação destas. Como exemplo, pode-se afirmar que, se não existiu um chamado Pacto das Obras, obviamente, Adão não foi o representante federal da humanidade, implicando, assim, que, Cristo não pode ser o segundo Adão, visto que sem um pacto pré-queda o Pacto da Graça perde conexões importantes e fica sujeito a concepções errôneas sobre a obra de Jesus Cristo.

Cornelis P. Venema, discutindo as recentes objeções à existência do Pacto das Obras por parte de teólogos barthianos, como Holmes Rolston III e James B. Torrance, expressa tais implicações:
Nesta revisão não há mais lugar para uma queda histórica do favor de Deus através do pecado e da desobediência de Adão, nosso primeiro pai e representante pactual. Nem há qualquer lugar para uma aliança subsequente entre Deus e o seu povo no pacto da graça, por meio do qual o homem decaído é restaurado à comunhão pactual renovada com Deus em Cristo, o segundo Adão.[3]

Herman Witsius, em 1693, já havia demonstrado grande preocupação a respeito das implicações oriundas da negação da existência do Pacto das Obras:
Mas eu reputo como muito mais perigosas as opiniões de alguns homens, muito eruditos em relação a outras coisas, que negam que um pacto das obras tenha sido feito com Adão; e, de forma rara, admitem que a morte com a qual ele foi ameaçado, em caso de pecado, deve ser entendida como morte física; e negam que as bênçãos espirituais e celestiais, como as que agora obtemos através de Cristo, foram prometidas a Adão sob a condição de perfeita obediência: e por uma distinção antiquada dividem os sofrimentos de Cristo em penosos e judiciários, afirmando que, apenas os últimos, ou como eles algumas vezes expressam suavemente, foram principalmente satisfatórios: excluindo por esse meio suas angústias no jardim, a sentença dada pelo concílio judaico e pelo governador romano, as chicotadas com as quais seu corpo foi ferido, seu ser pregado na cruz maldita, e, por fim, sua morte em si mesma.[4]

De acordo com Witsius, tais opiniões, que negam a realidade do Pacto das Obras e, assim, trazem confusão sobre a obra de Cristo, são falsas, merecendo franca oposição.[5] Visando combater tais opiniões perigosas, ele empreende, como um dos seus primeiros esforços, provar a existência de um pacto estabelecido por Deus com Adão, pacto este fundamentado numa dupla relação: como homem e como representante federal:
E então, de fato, Adão estava em pacto com Deus, como um homem, criado segundo a imagem de Deus, e dotado com habilidades suficientes para preservar esta imagem. Mas existe outra relação na qual ele era considerado como o cabeça e representativo da humanidade, tanto federal quanto natural.[6]

Negar isso, de acordo com ele, era o mesmo que negar a Cristo como o “segundo Adão”. Há uma relação muito estreita entre Adão e Cristo, ambos como representantes de pactos distintos. No Pacto da Graça Cristo representa o eleito, “da mesma maneira como o primeiro Adão era o representante de todos os seus descendentes”.[7]

Wilhelmus à Brakel, que de acordo com Richard A. Muller, “provavelmente leu e seguiu a obra de Witsius, De oeconomia foederum em muitos pontos da sua exposição dos pactos”[8], conecta a negação do pacto das obras com uma compreensão errônea a respeito da obra mediatória de Jesus Cristo. Ele afirma o seguinte:
Familiaridade com este pacto é da maior importância, pois quem erra aqui ou nega a existência do pacto das obras não compreenderá o pacto da graça, e prontamente errará com respeito à mediação de Jesus Cristo. Tal pessoa facilmente negará que Cristo, por sua obediência ativa mereceu um direito à vida eterna para os eleitos. Isso deve ser observado pelas várias partes que porque erram a respeito do pacto da graça também negam o pacto das obras. Por outro lado, quem nega o pacto das obras deve, corretamente, ser suspeito de também estar em erro a respeito do pacto da graça.[9]

O fato, é que a negação do pacto das obras traz consigo sérias implicações para a cristologia e soteriologia. Se não houve um pacto das obras, consequentemente, não houve um pacto da graça, visto que este nada mais é do que a transferência do pacto das obras para que Cristo cumpra as obrigações que Adão não conseguiu cumprir. Sobre isso e seguindo a mesma linha de raciocínio de Witsius e à Brakel, Herman Bavinck afirma que:
Após o pacto das obras ter sido quebrado, Deus não concebeu imediatamente um pacto totalmente diferente em relação ao anterior ou um que tivesse um caráter diferente. Esse, simplesmente, não pode ser o caso, visto que Deus é imutável; a exigência feita ao ser humano no pacto das obras não é arbitrária e caprichosa. A imagem de Deus, a lei e a religião podem, por sua verdadeira natureza, ser apenas uma; graça, natureza e fé não podem ou não são capazes de anular a lei. Também não é assim. O pacto da graça não é, como ensinou Cocceius, a abolição sucessiva do pacto das obras, mas é o seu cumprimento e restauração. A graça repara e aperfeiçoa a natureza. Deus sustenta que a vida eterna só pode ser obtida pelo caminho da obediência, e quando uma pessoa viola a lei, ela é expandida com outra: a lei de que a violação deve ser paga com uma punição.[10]

Tendo a vida eterna sido prometida tanto a Adão como aos eleitos, por meio de Cristo, e, visto que este é o representante do pacto da graça, conclui-se que Adão, o receptor primevo da promessa, também se encontrava numa relação pactual com Deus. Isto já havia sido afirmado por Witsius: “Portanto, concluo que a Adão, no pacto das obras, foi prometida a mesma vida eterna, para ser obtida pela justiça que é da lei, à qual os crentes são feitos participantes através de Cristo”.[11] Wilhelmus à Brakel, visando provar a existência do pacto das obras segue a mesma linha de argumentação, identificando paralelos entre os dois pactos:
Se Deus deu a Adão uma lei que é idêntica no conteúdo aos dez mandamentos, prometeu-lhe vida eterna (a mesma que Cristo mereceu para os eleitos no pacto da graça), apontou a árvore do conhecimento do bem e do mal como um meio pelo qual ele seria testado e a árvore da vida para ser um sacramento de vida a ele; e Adão, aceitou tanto a promessa como a condição, e, assim, se obrigou a Deus – então um pacto de obra entre Deus e Adão existiu. Visto que tudo isso é verdadeiro, segue tal pacto existiu.[12]

Ainda de acordo com Bavinck, a diferença primária entre os dois pactos consiste “em que Adão é trocado e substituído por Cristo”.[13] Passagens como Romanos 5.12-21 e 1Coríntios 15.22,45-49 são claras ao estabelecerem a conexão entre os representantes do pacto das obras e do pacto da graça.

John Frame sumaria a importância da existência do pacto das obras de forma magistral, ao conectá-lo à obra de Jesus Cristo:
Por que esse pacto das obras é importante para nós hoje? Primeiro, devemos ver a nós mesmos como transgressores do pacto em Adão (Is 24.5). Nele temos falhado no teste das obras, e não temos nenhuma esperança de salvar a nós mesmos por meio de nossas obras. Mas onde falhamos, em Adão, Cristo gloriosamente teve sucesso. Ele obedeceu a Deus perfeitamente e deu a sua vida como sacrifício para reparar a nossa desobediência. Em nós mesmos, somos transgressores do pacto, mas, em Cristo, guardadores do pacto.[14]


[1] The Economy of The Covenants Between God and Man (Herman Witsius) e The Christian’s Reasonable Service (Wilhelmus à Brakel).

[2] Richard A. Muller. “The Covenant of Works and The Stability of Divine Law in Seventeenth-Century Reformed Orthodoxy: A Study in The Theology of Herman Witsius and Wilhelmus à Brakel”. In: Calvin Theological Journal. Vol. 29. nº 1 (1994). p. 76.

[3] Cornelis P. Venema. “Recent Criticisms of The ‘Covenant of Works’ in The Westminster Confession of Faith”. In: Mid-America Journal of Theology. Vol. 9. nº 2 (1993). p. 187.

[4] Herman Witsius. The Economy of The Covenants Between God and Man. Vol. 1. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2010. p. 20.

[5] Ibid.

[6] Ibid. I.ii.14. p. 58.

[7] Ibid. I.ii.15. p. 58.

[8] Richard A. Muller. “The Covenant of Works and The Stability of Divine Law in Seventeenth-Century Reformed Orthodoxy: A Study in The Theology of Herman Witsius and Wilhelmus à Brakel”. p. 80.

[9] Wilhelmus à Brakel. The Christian’s Reasonable Service. Vol. 1. p. 355.

[10] Herman Bavinck. Reformed Dogmatics: Sin and Salvation In Christ. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2009. p. 226.

[11] Herman Witsius. The Economy of The Covenants Between God and Man. Vol. 1. I.iv.7. p. 75.

[12] Wilhelmus à Brakel. The Christian’s Reasonable Service. Vol. 1. p. 356.

[13] Herman Bavinck. Reformed Dogmatics: Sin and Salvation In Christ. Vol. 3. p. 226.

[14] John M. Frame. Salvation Belongs To The Lord: An Introduction To Systematic Theology. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2006. p. 119.

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