sexta-feira, 31 de agosto de 2012

CONSELHOS DE JOHN FRAME PARA SEMINARISTAS E TEÓLOGOS INICIANTES

Dr. John Frame e o livro Speaking The Truth In Love
Trinta conselhos de John Frame para seminaristas e teólogos iniciantes. Esses conselhos foram publicados em Inglês no livro Falando a verdade em amor: a teologia de John Frameapós uma entrevista que ele deu a P. Andrew Sandlin. A pergunta feita a John Frame foi a seguinte: “Quais conselhos você daria a um seminarista ou teólogo iniciante enquanto eles se preparam para enfrentar seus desafios?” As repostas foram traduzidas por mim, com pequenas adaptações. Se preferir, veja a versão em inglês no blog de Andi Naselli.
 Dr. John Frame é professor de teologia sistemática e filosofia no Reformed Theological Seminary em Orlando, após ter servido por 31 anos como professor no Westminster Theological Seminary, Califórnia.
  1. Considere a possibilidade de você não ter sido chamado para ser um teólogo. Tiago 3:1 nos lembra de que nem todos os que estão estudando teologia deveriam procurar ser mestres.
  2. Valorize seu relacionamento com Cristo, com sua família e com a igreja mais do que a sua carreira. Você influenciará mais pessoas por meio de sua vida do que pela sua teologia. As deficiências em sua vida acabarão negando a influência de suas ideias, mesmo as ideias que são verdadeiras.
  3. Lembre-se de que a tarefa fundamental da teologia é entender a Bíblia, a Palavra de Deus, e aplicá-la para as necessidades das pessoas. As demais coisas, sofisticação exegética, histórica e linguística, conhecimento da cultura e filosofias, tudo isso deve estar subordinado à tarefa fundamental acima. Se não estiver, você acabará sendo aclamado como um grande historiador, linguista, filósofo ou crítico da cultura, mas não como um teólogo.
  4. No cumprimento da tarefa acima, você tem a obrigação de saber argumentar. Pode parecer óbvio, mas muitos teólogos hoje perecem não ter a menor ideia de como fazer isso. Teologia é uma disciplina argumentativa e, por isso, você precisa ter um conhecimento suficiente de lógica e persuasão a fim de construir argumentos que sejam válidos, sadios e persuasivos. Na teologia, não basta demonstrar que você tem conhecimento da história, da cultura ou de outras áreas do saber.
  5. Não basta citar pessoas que concordam com você e criticar aquelas que discordam do seu ponto de vista. Você precisa saber formular um argumento em defesa daquilo que crê.
  6. Aprenda a escrever e falar de maneira clara e convincente. Os melhores teólogos são capazes de tomar um assunto complexo e explicá-lo numa linguagem simples. Nunca tente demonstrar que você é especialista numa área por meio de uma linguagem obscura e opaca.
  7. Cultive uma intensa vida devocional e ignore aqueles que o acusarem de uma falsa piedade. Ore sem cessar. Leia a Bíblia, não apenas como um texto acadêmico. Valorize todas as oportunidades de participar de cultos e reuniões de oração no seminário e aos domingos na igreja local. Dê atenção à sua “formação espiritual”.
  8. Um teólogo é essencialmente um pregador, exceto que ele se envolve ocasionalmente com assuntos mais “misteriosos” do que o pregador. Seja um bom pregador. Encontre uma maneira de fazer sua teologia falar aos corações das pessoas.  Encontre uma maneira de apresentar sua teologia de tal modo, que as pessoas ouçam a voz de Deus nela.
  9. Seja generoso com seus recursos. Gaste tempo conversando com seus alunos e aqueles que pretendem ser alunos. Doe livros e artigos. Não seja “mão fechada” no que tange a materiais com seus direitos autorais. Dê permissão para seu material ser copiado, sempre que for solicitado. Ministério em primeiro lugar, dinheiro em segundo.
  10. Ao criticar outros teólogos, denominações ou movimentos, siga a ética bíblica. Não chame uma pessoa de herege precipitadamente. Não acuse pessoas com termos do tipo “outro evangelho” (aqueles que pregam  um outro evangelho estão sob a maldição de Deus).  Não destrua a reputação das pessoas por meio de uma citação equivocada, fora do contexto, ou no pior sentido possível. Seja gentil e generoso a menos que você tenha razões fortíssimas para ser severo.
  11. Numa controvérsia, nunca se posicione, precipitadamente, de um lado do debate. Faça um trabalho analítico de ambas as partes. Considere estas possibilidades: a) os dois lados podem estar olhando para o mesmo assunto de perspectivas diferentes, mas não pensando de maneira diferente; b) ambos os labos podem estar despercebidamente desprezando um ponto que poderia fazê-los pensar em harmonia; c) eles estão tendo dificuldade de se comunicar um com o outro porque estão usando termos que têm sentidos múltiplos; d) pode haver uma terceira alternativa melhor do que as duas posições que estão sendo defendidas; e) ambas as opiniões na controvérsia, mesmo que genuínas, devem ser toleradas na igreja, assim como as diferenças entre vegetarianos e não vegetarianos em Rm 14.
  12. Quando você tiver uma grande ideia, não espere que as pessoas a entendam imediatamente. Não tente promover esta nova ideia a ponto de criar uma facção. Não entre em rivalidade com aqueles que por acaso não vierem a apreciar sua maneira de pensar. Dialogue com eles de maneira gentil, reconhecendo que você pode estar errado e não tem a humildade de reconhecer isso.
  13. Não seja impulsivamente crítico com qualquer coisa que venha de outras tradições religiosas. Seja humilde para reconhecer que outras denominações podem ter algo a lhe ensinar. Seja “ensinável” antes de começar a ensiná-los. Tire a trava dos seus olhos.
  14. Esteja preparado para avaliar criticamente a sua própria tradição. É uma ilusão pensar que uma tradição religiosa tem todas as verdades ou está sempre certa. Não seja um daqueles teólogos conhecidos por tentar fazer arminianos se transformarem em calvinistas (ou vice-versa).
  15. Olhe para os documentos confessionais de sua denominação com a perspectiva correta. Eles são, entre outras coisas, o fruto do trabalho de teólogos e devem ser avaliados e reformados, quando necessário, pela Palavra de Deus. Não assuma que tudo o que está nos símbolos de fé da sua tradição religiosa está decidido para sempre.
  16. Não deixe que o ciúme do sucesso de um colega determine as polêmicas nas quais você se envolve, ou o lado que você toma em tais polêmicas. Há muitos que são inclinados a ser completamente críticos de igrejas com mais de cinco mil membros.
  17. Não se torne conhecido como um teólogo que atira para todos os lados tentando acertar outros teólogos ou cristãos. Nossos inimigos são: satanás, o mundo e a carne.
  18. Mantenha-se vigilante com respeito aos seus instintos sexuais. Mantenha distância de qualquer pornografia na internet e relacionamentos ilícitos. Teólogos não são imunes a nenhum dos pecados nos quais outras pessoas caem.
  19. Seja um membro ativo na igreja local. Teólogos precisam dos meios da graça no mesmo tanto que os demais membros da igreja. Isto é especialmente verdadeiro quando você estuda em uma universidade secular ou seminário liberal. Você precisa do suporte de outros crentes para manter uma perspectiva teológica apropriada.
  20. Faça seu primeiro curso de teologia num seminário que ensine a Bíblia como Palavra de Deus. Procure familiarizar-se com a teologia das Escrituras antes de se expor (se for o caso) a formas de pensamentos não bíblicas.
  21. Aprenda a demonstrar apreciação pela sabedoria, até mesmo a sabedoria teológica, daqueles cristãos totalmente leigos. Não seja um daqueles teólogos que tem sempre algo negativo a dizer quando uma pessoa mais simples descreve sua caminhada com o Senhor. Frequentemente, pessoas simples como estas conhecem a Deus melhor do que você, e você precisa aprender deles, à semelhança do que fez Abraão Kuyper.
  22. Não seja um daqueles teólogos que se empolga com toda e qualquer novidade em política, cultura, hermenêutica e até mesmo teologia, e pensa que devemos reconstruir toda nossa teologia para se adequar a cada tendência.
  23. Tenha sempre um pé atrás com todas as “tendências” em teologia.  Quando você vir todo mundo entrando no mesmo vagão, seja feminismo, liturgia, pós-modernismo, ou qualquer outro “ismo”, este é o momento para você abrir os olhos e usar sua capacidade crítica. Não embarque em qualquer uma destas tendências antes de fazer a sua sondagem.
  24. Ao mesmo tempo, não rejeite uma ideia inovadora apenas por ser inovadora. Mais importante ainda, não rejeite uma ideia simplesmente porque ela não soa como aquilo que você está acostumado a ouvir. Aprenda a discernir entre o “som de uma ideia” e aquilo que a ideia realmente diz.
  25. Esteja sempre alerta para argumentos que recorrem a metáforas ou termos técnicos extra bíblicos. Não assuma que todos estes termos têm um sentido perfeitamente claro. Geralmente este não é o caso.
  26. Aprenda a ser crítico daqueles que são críticos. Estudiosos liberais ou não cristãos estão propensos a errar como qualquer outro – na verdade, são mais propensos.
  27. Respeite os mais velhos. Não existe nada mais prejudicial a um teólogo iniciante do que desprezar aqueles que têm atuado no campo por décadas. Discordar é cabível conquanto você reconheça a maturidade e as contribuições daqueles de quem você discorda. Tenha sempre 1Tm 5:1 no coração.
  28. Teólogos iniciantes geralmente se veem como o próximo Lutero. Olhe, é muito provável que Deus não o tenha escolhido para ser o líder de uma nova reforma, como nos dias de Lutero. Mesmo se este for o caso, nunca se intitule como “o reformador”; deixe que os outros decidam se isso é realmente o que você é.
  29. Decida cedo em sua carreira (após ter experimentado algumas vezes) no que você irá focar e no que não irá focar. Quando você começar a ter que considerar oportunidades, o saber quando dizer não é muito mais importante do que saber quando dizer sim.
  30. Nunca perca seu senso de humor (não apele). Perder o senso de humor é perder o senso de proporção. Nada é mais importante em teologia do que o senso de proporção.
Seu comentário e/ou crítica pode ajudar outros a refletir melhor sobre estes conselhos de John Frame.

TRADUÇÃO E POSTAGEM ORIGINAL: Daniel Santos (http://danielsantosjr.com/)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A SALVAÇÃO É, SIM, PELAS OBRAS!



“Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos” (Romanos 5.19).

Uma das grandes perguntas com a qual as pessoas se defrontarão cedo ou tarde é: “A salvação é pelas obras ou não?” Frequentemente respondemos a esta pergunta com um sonoro “NÃO! A SALVAÇÃO NÃO É PELAS OBRAS!” dizer isso não está errado, porém, deixa muita coisa ainda descoberta e inexplicada, de maneira que, a melhor resposta para a pergunta é: “Não, a salvação não é pelas obras. Porém, ela é, sim, pelas obras!” Parece confuso? Entendamos o que isto significa:

Em primeiro lugar, não, a salvação não é pelas obras. Ela não é resultado dos nossos esforços ou dos nossos supostos atos de justiça. Diz o apóstolo Paulo que, “ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado” (Romanos 3.20). Ele também afirma que, “o homem não é justificado por obras da lei, e sim mediante a fé em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado” (Gálatas 2.16). Séculos antes, o profeta Isaías já havia confessado em profundo tom de tristeza e quebrantamento: “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo de imundícia” (64.6). Por tudo isso, é que a salvação não é obtida por meio das nossas obras. Ela vem pela graça, mediante a fé, como um dom, uma dádiva de Deus (Efésios 2.8). Não fazemos absolutamente nada. Nem mesmo a fé e o arrependimento são obras genuinamente nossas, visto que vêm de Deus (Efésios 2.8; Atos 5.31; 11.18; Romanos 2.4; 2Timóteo 2.25).

Segundo, sim, a salvação é pelas obras. Isto não é uma contradição do que foi dito anteriormente. A salvação se efetiva nas vidas dos eleitos de Deus em virtude das obras perfeitas de justiça praticadas pelo Senhor Jesus Cristo. O apóstolo Paulo afirma que a justificação dos eleitos é fruto “da obediência de um só” (Romanos 5.19), a saber, Jesus, o segundo Adão. A verdade da Escritura é que o Senhor Jesus tomou sobre si o pacto das obras, no qual o primeiro Adão falhou, e, voluntariamente, obedeceu a toda a lei, cumpriu todos os mandamentos. Além disso, recebeu a completa punição pela desobediência do homem. Chamamos a estes dois aspectos da obediência de Cristo de obediência ativa e obediência passiva. Cristo não nos substituiu apenas em sua morte. Ele também agiu como nosso substituto durante toda a sua vida, em todos os momentos nos quais ele esteve sujeito à lei (Gálatas 4.4). Por essa razão, a salvação é pelas obras.

Nossa Confissão de Fé de Westminster (VIII.5) expressa esta verdade de forma extraordinária: “O Senhor Jesus, pela sua perfeita obediência e pelo sacrifício de si mesmo, sacrifício que, pelo Eterno Espírito, ele ofereceu a Deus uma só vez, satisfez plenamente à justiça de seu Pai, e, para todos aqueles que o Pai lhe deu, adquiriu não só a reconciliação, como também uma herança perdurável no Reino dos Céus”.

Por esta razão, amados irmãos, não podemos fazer outra coisa a não ser bendizer a Deus por tão grandiosa salvação! Tão grandiosa que nossas obras se mostram ineficazes! Tão grandiosa que nos foi obtida por um grandioso Redentor! Aleluia!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

A NECESSIDADE DO PACTO DAS OBRAS NO PENSAMENTO DE HERMAN WITSIUS E WILHELMUS À BRAKEL


Nas suas obras[1], os teólogos holandeses Herman Witsius e Wilhelmus à Brakel se mostraram ardorosos defensores da necessidade e existência do Pacto das Obras. Para eles, negar sua existência comprometeria pontos teológicos e doutrinas basilares das Sagradas Escrituras. Sobre isso, Richard A. Muller afirmou: “O protestante ortodoxo reconheceu que uma perspectiva distorcida sobre um consequente locus doutrinário, muito facilmente, se tornaria a base de um equívoco retroativo de um locus doutrinário primário ou logicamente anterior”.[2] Entende-se, com isso, que existe uma associação íntima entre o Pacto das Obras e outras doutrinas de ordem cristológica e soteriológica, de maneira que, negar a existência daquele é afetar seriamente a formulação destas. Como exemplo, pode-se afirmar que, se não existiu um chamado Pacto das Obras, obviamente, Adão não foi o representante federal da humanidade, implicando, assim, que, Cristo não pode ser o segundo Adão, visto que sem um pacto pré-queda o Pacto da Graça perde conexões importantes e fica sujeito a concepções errôneas sobre a obra de Jesus Cristo.

Cornelis P. Venema, discutindo as recentes objeções à existência do Pacto das Obras por parte de teólogos barthianos, como Holmes Rolston III e James B. Torrance, expressa tais implicações:
Nesta revisão não há mais lugar para uma queda histórica do favor de Deus através do pecado e da desobediência de Adão, nosso primeiro pai e representante pactual. Nem há qualquer lugar para uma aliança subsequente entre Deus e o seu povo no pacto da graça, por meio do qual o homem decaído é restaurado à comunhão pactual renovada com Deus em Cristo, o segundo Adão.[3]

Herman Witsius, em 1693, já havia demonstrado grande preocupação a respeito das implicações oriundas da negação da existência do Pacto das Obras:
Mas eu reputo como muito mais perigosas as opiniões de alguns homens, muito eruditos em relação a outras coisas, que negam que um pacto das obras tenha sido feito com Adão; e, de forma rara, admitem que a morte com a qual ele foi ameaçado, em caso de pecado, deve ser entendida como morte física; e negam que as bênçãos espirituais e celestiais, como as que agora obtemos através de Cristo, foram prometidas a Adão sob a condição de perfeita obediência: e por uma distinção antiquada dividem os sofrimentos de Cristo em penosos e judiciários, afirmando que, apenas os últimos, ou como eles algumas vezes expressam suavemente, foram principalmente satisfatórios: excluindo por esse meio suas angústias no jardim, a sentença dada pelo concílio judaico e pelo governador romano, as chicotadas com as quais seu corpo foi ferido, seu ser pregado na cruz maldita, e, por fim, sua morte em si mesma.[4]

De acordo com Witsius, tais opiniões, que negam a realidade do Pacto das Obras e, assim, trazem confusão sobre a obra de Cristo, são falsas, merecendo franca oposição.[5] Visando combater tais opiniões perigosas, ele empreende, como um dos seus primeiros esforços, provar a existência de um pacto estabelecido por Deus com Adão, pacto este fundamentado numa dupla relação: como homem e como representante federal:
E então, de fato, Adão estava em pacto com Deus, como um homem, criado segundo a imagem de Deus, e dotado com habilidades suficientes para preservar esta imagem. Mas existe outra relação na qual ele era considerado como o cabeça e representativo da humanidade, tanto federal quanto natural.[6]

Negar isso, de acordo com ele, era o mesmo que negar a Cristo como o “segundo Adão”. Há uma relação muito estreita entre Adão e Cristo, ambos como representantes de pactos distintos. No Pacto da Graça Cristo representa o eleito, “da mesma maneira como o primeiro Adão era o representante de todos os seus descendentes”.[7]

Wilhelmus à Brakel, que de acordo com Richard A. Muller, “provavelmente leu e seguiu a obra de Witsius, De oeconomia foederum em muitos pontos da sua exposição dos pactos”[8], conecta a negação do pacto das obras com uma compreensão errônea a respeito da obra mediatória de Jesus Cristo. Ele afirma o seguinte:
Familiaridade com este pacto é da maior importância, pois quem erra aqui ou nega a existência do pacto das obras não compreenderá o pacto da graça, e prontamente errará com respeito à mediação de Jesus Cristo. Tal pessoa facilmente negará que Cristo, por sua obediência ativa mereceu um direito à vida eterna para os eleitos. Isso deve ser observado pelas várias partes que porque erram a respeito do pacto da graça também negam o pacto das obras. Por outro lado, quem nega o pacto das obras deve, corretamente, ser suspeito de também estar em erro a respeito do pacto da graça.[9]

O fato, é que a negação do pacto das obras traz consigo sérias implicações para a cristologia e soteriologia. Se não houve um pacto das obras, consequentemente, não houve um pacto da graça, visto que este nada mais é do que a transferência do pacto das obras para que Cristo cumpra as obrigações que Adão não conseguiu cumprir. Sobre isso e seguindo a mesma linha de raciocínio de Witsius e à Brakel, Herman Bavinck afirma que:
Após o pacto das obras ter sido quebrado, Deus não concebeu imediatamente um pacto totalmente diferente em relação ao anterior ou um que tivesse um caráter diferente. Esse, simplesmente, não pode ser o caso, visto que Deus é imutável; a exigência feita ao ser humano no pacto das obras não é arbitrária e caprichosa. A imagem de Deus, a lei e a religião podem, por sua verdadeira natureza, ser apenas uma; graça, natureza e fé não podem ou não são capazes de anular a lei. Também não é assim. O pacto da graça não é, como ensinou Cocceius, a abolição sucessiva do pacto das obras, mas é o seu cumprimento e restauração. A graça repara e aperfeiçoa a natureza. Deus sustenta que a vida eterna só pode ser obtida pelo caminho da obediência, e quando uma pessoa viola a lei, ela é expandida com outra: a lei de que a violação deve ser paga com uma punição.[10]

Tendo a vida eterna sido prometida tanto a Adão como aos eleitos, por meio de Cristo, e, visto que este é o representante do pacto da graça, conclui-se que Adão, o receptor primevo da promessa, também se encontrava numa relação pactual com Deus. Isto já havia sido afirmado por Witsius: “Portanto, concluo que a Adão, no pacto das obras, foi prometida a mesma vida eterna, para ser obtida pela justiça que é da lei, à qual os crentes são feitos participantes através de Cristo”.[11] Wilhelmus à Brakel, visando provar a existência do pacto das obras segue a mesma linha de argumentação, identificando paralelos entre os dois pactos:
Se Deus deu a Adão uma lei que é idêntica no conteúdo aos dez mandamentos, prometeu-lhe vida eterna (a mesma que Cristo mereceu para os eleitos no pacto da graça), apontou a árvore do conhecimento do bem e do mal como um meio pelo qual ele seria testado e a árvore da vida para ser um sacramento de vida a ele; e Adão, aceitou tanto a promessa como a condição, e, assim, se obrigou a Deus – então um pacto de obra entre Deus e Adão existiu. Visto que tudo isso é verdadeiro, segue tal pacto existiu.[12]

Ainda de acordo com Bavinck, a diferença primária entre os dois pactos consiste “em que Adão é trocado e substituído por Cristo”.[13] Passagens como Romanos 5.12-21 e 1Coríntios 15.22,45-49 são claras ao estabelecerem a conexão entre os representantes do pacto das obras e do pacto da graça.

John Frame sumaria a importância da existência do pacto das obras de forma magistral, ao conectá-lo à obra de Jesus Cristo:
Por que esse pacto das obras é importante para nós hoje? Primeiro, devemos ver a nós mesmos como transgressores do pacto em Adão (Is 24.5). Nele temos falhado no teste das obras, e não temos nenhuma esperança de salvar a nós mesmos por meio de nossas obras. Mas onde falhamos, em Adão, Cristo gloriosamente teve sucesso. Ele obedeceu a Deus perfeitamente e deu a sua vida como sacrifício para reparar a nossa desobediência. Em nós mesmos, somos transgressores do pacto, mas, em Cristo, guardadores do pacto.[14]


[1] The Economy of The Covenants Between God and Man (Herman Witsius) e The Christian’s Reasonable Service (Wilhelmus à Brakel).

[2] Richard A. Muller. “The Covenant of Works and The Stability of Divine Law in Seventeenth-Century Reformed Orthodoxy: A Study in The Theology of Herman Witsius and Wilhelmus à Brakel”. In: Calvin Theological Journal. Vol. 29. nº 1 (1994). p. 76.

[3] Cornelis P. Venema. “Recent Criticisms of The ‘Covenant of Works’ in The Westminster Confession of Faith”. In: Mid-America Journal of Theology. Vol. 9. nº 2 (1993). p. 187.

[4] Herman Witsius. The Economy of The Covenants Between God and Man. Vol. 1. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2010. p. 20.

[5] Ibid.

[6] Ibid. I.ii.14. p. 58.

[7] Ibid. I.ii.15. p. 58.

[8] Richard A. Muller. “The Covenant of Works and The Stability of Divine Law in Seventeenth-Century Reformed Orthodoxy: A Study in The Theology of Herman Witsius and Wilhelmus à Brakel”. p. 80.

[9] Wilhelmus à Brakel. The Christian’s Reasonable Service. Vol. 1. p. 355.

[10] Herman Bavinck. Reformed Dogmatics: Sin and Salvation In Christ. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2009. p. 226.

[11] Herman Witsius. The Economy of The Covenants Between God and Man. Vol. 1. I.iv.7. p. 75.

[12] Wilhelmus à Brakel. The Christian’s Reasonable Service. Vol. 1. p. 356.

[13] Herman Bavinck. Reformed Dogmatics: Sin and Salvation In Christ. Vol. 3. p. 226.

[14] John M. Frame. Salvation Belongs To The Lord: An Introduction To Systematic Theology. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2006. p. 119.

sábado, 11 de agosto de 2012

A PRÁTICA DO JEJUM - PARTE 2



·         TEXTO (MATEUS 6.16-18)
16. Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. 17. Tu, porém, quando jejuardes, unge a cabeça e lava o rosto, 18. com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.
·         
·         ELUCIDAÇÃO
Irmãos, o nosso trecho está inserido dentro de um contexto maior, que tem início no versículo primeiro de Mateus 6: “Guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens, com o fim de serdes vistos por eles; doutra sorte, não tereis galardão junto de vosso Pai celeste”. De acordo com Jesus, não podemos transformar a nossa piedade em um espetáculo para o deleite das outras pessoas. Não podemos exercer nossa piedade visando receber elogios dos homens em vez de Deus.[20]

As palavras de Jesus sobre o jejum aparecem como o terceiro exemplo da discrição exigida em nossa devoção pessoal. As pessoas dão muita atenção à questão da caridade e da oração, mas frequentemente negligenciam a questão do jejum. John Stott afirma que, “alguns de nós vivemos nossa vida cristã como se estes versículos tivessem sido arrancados de nossas Bíblias”.[21] Mas, Jesus apresenta três áreas nas quais os escribas e os fariseus tropeçavam: 1) como se deve dar esmolas (vv. 2-4); 2) como se deve orar (vv. 5-14); e 3) como se deve jejuar (vv. 16-18). Os fariseus davam esmolas tocando trombetas diante de si, propagandeando o quanto se importavam com os menos favorecidos, para que as pessoas observassem e pensassem sobre o quanto eles eram misericordiosos. Eles também oravam de pé nos cantos das praças e das sinagogas para serem vistos pelas demais pessoas como homens de orações. Ademais, eles, ao jejuarem, propositadamente desfiguravam os seus rostos para que todos vissem e percebessem que eles estavam jejuando. Ele adverte que Deus “odeia orgulho e ostentação na religião”.[22]

As três áreas apontadas por Jesus meus irmãos, representam três áreas ou três aspectos da nossa vida espiritual.[23] A primeira, é a da nossa relação com o nosso próximo, ou o bem que fazemos ao próximo. A segunda, a da oração, aponta para a nossa relação com Deus, ou o que fazemos com Deus. Por fim, a terceira, é a da disciplina pessoal na vida espiritual do indivíduo, ou seja, o que fazemos com nós mesmos.

Então, visto que o nosso Senhor achou importante falar sobre o jejum para os seus discípulos amados, é importante também que tiremos um pouco do nosso tempo para estudarmos esse assunto tão importante e tão esquecido em nossos dias. Contudo, antes de observarmos detalhadamente o ensino de Jesus em Mateus 6.16-18, precisamos compreender o jejum a partir do todo da revelação bíblica. Antes do “como” jejuar, vem o que é o jejum.
·       
III – O ENSINO NEGATIVO DE JESUS SOBRE O JEJUM – COMO NÃO PRATICÁ-LO (v. 16)
“Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas; porque desfiguram o rosto com o fim de parecer aos homens que jejuam. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa”.

Notem o que Jesus afirma logo no início do versículo 16: “Quando jejuardes...”. Jesus aqui assume que os seus discípulos jejuariam. Percebam que, Jesus não diz “se jejuardes”. Ele também não diz “vocês precisam jejuar”. Aqui Jesus “assumiu que jejum era uma coisa boa e que seria praticada pelos seus discípulos”.[37] Jesus tem o propósito, não de proibir o jejum, mas sim o de ensinar o modo correto de fazê-lo. Jesus mostra que há uma forma de fazer o jejum, e, ainda assim, não agradar a Deus.

Jesus continua dizendo: “não vos mostreis contristados como os hipócritas”. Aqui está a exortação acerca do que não fazer: imitar os hipócritas. O que os hipócritas faziam? Eles se mostravam contristados. Eles faziam questão de mostrar que estavam jejuando. “Hipócritas são as pessoas que praticam as disciplinas espirituais para serem vistos pelos homens”.[38] Essa é a recompensa que os hipócritas desejam: o reconhecimento, o louvor dos homens. Os fariseus, os líderes religiosos de Israel estavam infectados com esse desejo de reconhecimento. No versículo 1, Jesus afirmou que o “fim”, ou seja, o objetivo dos fariseus era o de serem vistos pelos homens! Jesus proferiu uma solene advertência contra os escribas: “Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e das saudações nas praças; e das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo” (Marcos 12.38-40). Meus irmãos, quão intenso é o gosto pelo elogio dos homens! Nós, muitas vezes, nos aprontamos para isso “com vestes talares”, e nos exibimos, assumimos uma pose importante na igreja, desejando ocupar cargos e mais cargos com o fim de sermos vistos pelos homens, e até mesmo encompridamos nossas orações para apenas parecer que somos piedosos. Tudo isso nós somos propensos a fazer por causa do nosso apetite aparentemente insaciável pelos elogios dos homens!

A hipocrisia, segundo Jesus, estava em se mostrar contristado de forma proposital. Os fariseus desfiguravam os seus rostos, para parecer que jejuavam. Tudo era apenas fingimento! O verbo usado para “desfiguram” (avfani,zw), dá a ideia de que eles estavam bem, estavam fortes, mas ativamente fingiam que estavam fracos e abatidos por causa da falta de alimento. Irmãos, a falta de alimento por si só já é capaz de desfigurar o rosto. Acontece que nos dias em que eles jejuavam, os fariseus nem sequer lavavam o rosto nem ungiam a cabeça com óleo perfumado. Eles faziam questão de demonstrar que estavam jejuando. “Nestes dias, eles apareciam nas ruas, ao passo que deveriam permanecer em seus aposentos; e demonstravam uma aparência abatida, um semblante melancólico, um passo lento e solene”.[39] O objetivo deles era que as pessoas os vissem e os admirassem.

Jesus os chama de hipócritas porque eles apenas aparentavam estar jejuando por causa da verdadeira piedade. Apenas exteriormente eles jejuavam por amor a Deus, por desejo de comunhão com Ele, por mortificação do pecado. Eles só jejuavam para serem admirados. Por isso eles eram hipócritas!

Por fim, Jesus afirma que os hipócritas “já receberam a recompensa”. Que recompensa? A que tanto desejavam: o aplauso dos homens, os holofotes da fama eclesiástica! A hipocrisia é extremamente eficaz! Se a única coisa que você deseja é a admiração das pessoas, fique sabendo que você a conseguirá. No entanto, é a única coisa que você vai receber. Aqueles que desejam apenas o aplauso dos homens não farão parte do Reino de Deus!

IV – O ENSINO POSITIVO DE JESUS SOBRE O JEJUM – COMO PRATICÁ-LO (vv. 17,18)
“Tu, porém, quando jejuardes, unge a cabeça e lava o rosto, com o fim de não parecer aos homens que jejuas, e sim ao teu Pai, em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”.

Jesus começa com a afirmação de que os seus discípulos não devem viver de uma forma hipócrita: “Tu, porém...”. Devemos agir diferentemente dos fariseus e de pessoas que jejuam para parecerem mais espirituais. O ponto delineado por Jesus aqui, é que quando jejuarmos devemos evitar todo e qualquer tipo de propaganda hipócrita no que concerne ao nosso jejum. Devemos mantê-lo em oculto.

Jesus ordena: “unge a cabeça e lava o rosto”. Isso tem um propósito muito simples: a discrição. No jejum devemos afligir a nossa alma e não o nosso corpo. É certo que o corpo também sofre com o jejum, mas como diz o puritano Matthew Henry, “deixe o corpo sofrer, mas não deixe transparecer”.[40] Devemos nos preocupar com o nosso interior e não com o nosso exterior. Devemos cuidar para que a nossa aparência seja comum, a mesma dos dias em que não estamos jejuando.

O nosso jejum deve ser apenas para Deus, não para os homens. O erro mais grave nisso tudo é a preocupação com a opinião das outras pessoas. Muitas vezes tememos tanto parecer insignificantes aos olhos das outras pessoas, que nem sequer pensamos no que Deus pensa a nosso respeito e exige de nó. A tua preocupação quando jejuar deve ser se está agradando a Deus ou não; se Deus está satisfeito com a sua devoção ou não; se a maneira como você está jejuando é aceitável diante de Deus ou não. “Que a nossa preocupação seja somente com Deus e sobre como podemos agradá-Lo em tudo”.[41]

No versículo 18, Jesus conclui: “e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará”. Isso só confirma que o jejum deve ter a clara intenção de ser visto por Deus. Então, quando jejuar, “faça-o na direção de Deus, que vê quando outros não o veem”.[42] John Stott faz uma afirmação maravilhosa sobre Deus estar nos observando em secreto: “Como Jesus observava as pessoas que colocavam suas ofertas no tesouro do templo, assim Deus nos observa quando ofertamos; quando oramos e jejuamos em secreto, ele está ali, no lugar secreto”.[43]

Jesus está testando a realidade de Deus em nossas vidas. Será que nós realmente temos uma fome por Deus mesmo, ou uma fome por admiração humana? Jesus promete que nosso Pai, que vê em secreto, recompensará o jejum feito da maneira que o agrada. Devemos estar atentos ao fato, irmãos, de que, não devemos jejuar buscando alguma recompensa.[44] Nosso intento deve ser o de agradar a Deus, expressar o nosso amor, o nosso desejo e a nossa fome pelo Senhor, o nosso desejo por coisas espirituais mais elevadas do que os banquetes que desfrutamos no cotidiano. Devemos jejuar buscando demonstrar ao nosso Noivo que desejamos o seu retorno. O que acontece é que a bondade do nosso Pai, que nos vê em secreto é tamanha, que ele, bondosamente nos recompensa por termos almejado apenas a ele.

Igualmente, não devemos imaginar que a recompensa que o Pai nos dará é algum tipo de poder celestial, místico, ou alguma bênção material. Como afirmado no início, o jejum não é uma “varinha de condão”, algo mágico para atender nossos caprichos. A recompensa que Deus tem em mente, antes de qualquer coisa, é ele mesmo! Nós apreendemos isso da oração do Pai Nosso. Ali Jesus nos diz que os nossos maiores anseios devem ser: 1) que o nome de Deus seja santificado ou honrado; 2) que o Reino de Deus venha; e 3) que a sua vontade seja feita na terra como é feita no céu. Desse modo, devemos jejuar movidos pelo anseio “de que o nome de Deus seja conhecido, estimado e honrado, movidos pelo anseio de que seu reino seja estendido e depois consumado na história, movidos pelo anseio de que sua vontade seja feita em todas as partes com a mesma devoção e energia que os anjos infatigáveis fazem sem cessar no céu para todo o sempre”.[45]

A recompensa maior do jejum praticado pelo cristão será “um banquete eterno”.[46] Assim como a recompensa dos hipócritas será dada apenas terra, a recompensa dos verdadeiros discípulos de Jesus receberão uma maravilhosa recompensa no céu.[47]

V – AS CONFISSÕES REFORMADAS E O JEJUM
Já vimos anteriormente o ensinamento da Confissão de Fé de Westminster a respeito do jejum comunitário como estando ligado a assuntos de grande importância, como por exemplo, a escolha de nossos líderes. Creio que seja útil observarmos novamente o ensino confessional:
A leitura das Escrituras, com santo e piedoso temor; a sã pregação e o consciencioso ouvir da Palavra, em obediência a Deus, com entendimento, fé e reverência; o cântico de salmos com graça no coração; e bem assim a devida administração e o digno recebimento dos sacramentos instituídos por Cristo – são todos partes do culto religioso ordinário oferecido a Deus, além dos juramentos e votos, jejuns solenes e ações de graças em ocasiões especiais, que devem, em seus diversos tempos e estações, ser usados de uma forma santa e religiosa.[48]

Além da Confissão de Westminster, a Segunda Confissão Helvética (1566), no Capítulo XXIV.4 diz o seguinte a respeito do jejum:
Ora, quanto mais seriamente a igreja de Cristo condena a gula, a embriaguez e toda a espécie de lascívia e intemperança, tanto mais e com insistência, recomenda-nos o jejum cristão. Pois, jejuar nada mais é do que a abstinência e a moderação dos piedosos e uma disciplina, um cuidado e castigo da nossa carne, exercitados segundo a necessidade do momento, pelos quais nos humilhamos diante de Deus, privando a nossa carne do seu alimento, de modo que ela possa de modo mais espontâneo e fácil obedecer ao Espírito. Portanto, aqueles que não dão atenção a essas coisas não jejuam, mas imaginam que o fazem se abarrotam o estômago uma vez por dia e a certa hora ou em horário prescrito abstêm-se de certos alimentos, pensando que, pelo fato de terem praticado essa obra agradam a Deus e estão fazendo algo de bom. O jejum vem a ser um auxílio para as orações dos santos e para todas as virtudes. Porém, como se vê nos livros dos profetas, o jejum dos judeus, que se abstinham de alimento, não porém da iniquidade, não agradava a Deus.[49]

Percebam, irmãos, jejuar, de acordo com esta confissão, “é privar algo ao corpo com o objetivo de servir ao Espírito”.[50] O jejum cristão se apresenta como oposição a uma vida dissoluta marcada por excessos, como a embriaguez e a glutonaria. Depois de apresentar a definição do jejum cristão, a Confissão Helvética faz uma distinção entre o jejum privado e o público:
Há jejum público e pessoal. Nos tempos antigos celebravam-se jejuns públicos, em tempos de calamidade ou em situações difíceis da igreja. Com a total abstinência de alimento até o anoitecer, todo o tempo era dedicado às santas orações, ao culto a Deus e ao arrependimento. Eles diferiam pouco do luto, havendo frequente menção do mesmo nos profetas, especialmente no segundo capítulo de Joel. Esse tipo de jejum deve ser observado ainda hoje, sempre que a igreja se encontre em situação difícil. Os jejuns particulares podem ser praticados por qualquer um de nós, quando se sente afastado do Espírito. Pois, dessa maneira, priva-se a carne do que a alimenta e fortifica.[51]

Por fim, irmãos, quero apenas citar a passagem da confissão que diz como se dá o verdadeiro jejum cristão:
Todo jejum deve partir de um espírito livre, espontâneo e realmente humilde, e não simulado, só para conquistar o aplauso ou favor dos homens, e muito menos para que por meio dele pretenda o homem ser merecedor de justiça. Porém, que cada um jejue para esse fim, que ele prive a carne do que a alimentaria, para que possa servir a Deus de modo mais fervoroso.[52]

Creio que também seja pertinente mencionar, amados irmãos, que o nosso Catecismo Maior de Westminster, outro dos nossos símbolos de fé, na exposição do Segundo Mandamento afirma que, dentre os deveres exigidos no mandamento se encontra o “jejum religioso”.[53] Comentando esta resposta do Catecismo, o Pr. Johannes Geerhardus Vos afirma que, “o jejum religioso [...] [é] para uso ocasional, isto é não deve ser realizado a intervalos de tempo definidos e regulares, mas quando alguma ocasião especial exigir”.[54]

·         CONCLUSÃO
Gostaria de concluir o nosso estudo a respeito do jejum, meus amados e queridos irmãos, extraindo algumas lições práticas acerca do jejum cristão.

Em primeiro lugar, jamais esqueçamos que o jejum é nada mais nada menos do que um coração faminto por Deus. Quando jejuamos estamos expressando a saudade existente em nossos corações do nosso Noivo celestial; estamos demonstrando o nosso intenso e real desejo da sua volta. Porém, quando desprezamos o jejum, acabamos, sem querer, dando a entender que não sentimos falta dele e que não ansiamos por sua volta. Não podemos esperar que o mundo deseje a Cristo se nós, que somos o seu povo, não demonstramos nenhum interesse por ele.

Em segundo lugar, tenhamos cuidado para não cairmos nos erros dos escribas fariseus, os quais foram chamados de hipócritas. Não devemos jejuar externamente como tendo fome por Deus, mas internamente tendo fome pelos aplausos dos homens. Não é pecado ser visto jejuando. Pecado é jejuar para ser visto. Também tenhamos cuidado para não jejuarmos para conseguir algo pessoal, algum prazer material. Não façamos do jejum um dispositivo para manipularmos a Deus.

Em terceiro lugar, queridos irmãos, tenhamos a consciência de que, Deus não recompensa o jejum pelo jejum em si: “Deus recompensa o jejum porque o jejum expressa o clamor do coração de que nada na terra pode satisfazer a nossa alma além de Deus. deus deve recompensar esse clamor porque ele é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele”[55], afirmou John Piper.

Quarto, quando instituirmos dias de jejum e oração públicos, lembremos a grandeza dos nossos pecados e a nossa miséria, lembrando-nos da necessidade de verdadeiro arrependimento e de buscar ao Senhor.[56]

Quinto, quando instituirmos dias de jejum e oração, apresentemos ao Senhor, de forma pública e coletiva, as necessidades de nossa igreja. Dediquemo-nos à oração pelo bem espiritual da igreja e pelo que acontece fora dela. Em relação ao bem espiritual, supliquemos pelas necessidades particulares da igreja, pelos instáveis em nosso meio, pelos casados, por nossas crianças, adolescentes e jovens, por uma vida piedosa, devemos suplicar para que a pregação venha sobre nós com poder. Externamente precisamos suplicar por paixão ao testemunhar de Cristo, que o evangelho produza muito fruto por meio de nós, e que vejamos nossa igreja crescendo ano após ano.[57]

Que o Senhor nos abençoe!


Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima


[20] Gordon Lyons, Expository Notes Excerpt The Sermon on the Mount: The Gospel of Matthew Chapters 5-7, (2008), 70. Minha tradução. Extraído do site http://www.1-word.com.

[21] John Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, (São Paulo: ABU, 1981), 63. Edição eletrônica.

[22] Gordon Lyons, Expository Notes Excerpt The Sermon on the Mount: The Gospel of Matthew Chapters 5-7, 47.

[23] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 321.

[37] John Piper, Fome por Deus, 77.

[38] Ibid, 78.

[39] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, (Rio de Janeiro: CPAD, 2008), 70.

[40] Ibid.

[41] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 330.

[42] John Piper, Fome por Deus, 82.

[43] John Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, 66.

[44] Discordo da posição assumida por John Piper, quando ele afirma que “é bom e correto querer e buscar a recompensa de Deus no jejum. Jesus não no-la ofereceria se fosse inadequado almejá-la”. Cf. John Piper, Fome por Deus, 84.

[45] John Piper, Fome por Deus, 87.

[46] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, 70.

[47] Gordon Lyons, Expository Notes Excerpt The Sermon on the Mount: The Gospel of Matthew Chapters 5-7, 56.

[48] A. A. Hodge, Confissão de Fé Westminster Comentada por A. A. Hodge, (São Paulo: Os Puritanos, 1999), 377.

[49] Joel R. Beeke e Sinclair B. Ferguson (Orgs.). Harmonia das Confissões Reformadas. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. pp. 171-172.

[50] Daniel R. Hyde. Dias de Jejum e Oração na Tradição Reformada. São Paulo: Os Puritanos, 2012. p. 3.

[51] Joel R. Beeke e Sinclair B. Ferguson (Orgs.). Harmonia das Confissões Reformadas. p. 172.

[52] Ibid.

[53] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. Pergunta 108. In: Símbolos de Fé. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. pp. 164-165.

[54] Johannes Geerhardus Vos. Catecismo Maior de Westminster Comentado. São Paulo: Os Puritanos, 2007. p. 336.

[55] John Piper, Fome por Deus, 193.

[56] Daniel R. Hyde. Dias de Jejum e Oração na Tradição Reformada. p. 8.

[57] Ibid.
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