segunda-feira, 23 de julho de 2012

“PESSOAS QUE COMETEM SUICÍDIO VÃO PARA O CÉU?”

Ed Welch
 Ed Welch

Há apenas duas respostas corretas para esta pergunta:

- “Por que você pergunta?” e

- “Parece que as coisas estão sendo realmente difíceis pra você. Por favor, diga-me o que está acontecendo”.

Permitimos pequenas variações destas perguntas, mas não dizemos o seguinte: “O suicídio não é o pecado imperdoável. Se pensarmos que o suicídio é imune ao sangue purificador de Cristo, não teremos compreendido a extensão da reenção”.
Isto pode ser teologicamente correto, mas é pastoralmente aterrador.

Aqui está o princípio: questões teológicas são muitas vezes perguntas pessoais disfarçadas; elas são sobre o que pesa no coração de uma pessoa. Por favor, não responda com proposições teológicas ou com diretrizes éticas. Em vez disso, use estas perguntas como o tempo para conhecer e pastorear a pessoa.

Hum. Isto soa como um conselho prudente, especialmente àqueles que fizeram tais perguntas, mas também soa um pouco suspeito. Parece uma distinção artificial e potencialmente perigosa entre teologia e ministério. Pastorear é algo profundamente teológico e, por isso, não estou tentando fazer uma distinção entre os dois. Minha preocupação é com o fato de a teologia, especialmente neste tipo de situação, poder ser oferecida da mesma forma como os pastores a aprenderam, como uma palestra.

Como pastores, temos que assimilar a teologia da sala de aula para que ela não seja mais uma série de proposições. Então, estaremos prontos para oferecê-la de maneira que sirva à pessoa a nossa frente. Estas duas respostas pastorais: “Por que você pergunta?” e “Parece que as coisas estão sendo realmente difíceis pra você...” refletem teologia pessoal e aplicada. Elas rapidamente nos levarão a lugares que vão além da ética do suicídio.

Elas podem nos levar a este lugar: “O irmão da minha amiga cometeu suicídio. E eu não tenho ideia do que dizer a ela”. Nesta situação, a teologia pastoral pode nos levar a dizer: “Você obviamente ama essa amiga. Conte-me um pouco mais a respeito do que ela está dizendo e como você pensa que pode encorajá-la”.

À medida que você conversar poderá lembrar-se de experiências anteriores nas quais pessoas que estiveram intimamente relacionadas com suicídio se sentem culpadas. Familiares e amigos sentem como se tivessem a obrigação de saber – de fazer ou dizer algo para impedir isso. Assim, você pode levantar esta questão e, juntos, estudar formas de convidar sua amiga para falar abertamente sobre isso. Se sua amiga se sente culpada, você pode ajudá-la a reformular sua culpa da seguinte maneira: “Você sabe que somos apenas humanos e não sabemos de todas as coisas. Talvez você esteja dizendo que desejava tanto poder fazer algo, mas não conseguiu. Você se sente mais impotente do que culpada. E você sente tamanha dor por saber que seu irmão estava sofrendo tanto”. Você poderia oferecer estas palavras experimentalmente e com o convite para ser corrigido.

Muitas vezes a “teologia” significa “respostas” e a maioria das pessoas não está procurando por respostas. Em vez disso, a teologia pastoral nos orienta sobre como amar sabiamente, e todas as pessoas estão procurando por isso.


TRADUÇÃO LIVRE: Alan Rennê Alexandrino Lima

domingo, 22 de julho de 2012

QUE QUALIDADE ESSENCIAL TODO PASTOR DEVE POSSUIR?


Pr. Brian Croft
Brian Croft

Quando esta pergunta é feita nos dias de hoje, dependendo de quem responda, muitas qualidades certamente podem ser listadas como sendo essenciais. Grandes habilidades de oratória, uma personalidade cativante, habilidades para liderar, apenas para citar algumas. No entanto, eu acredito que uma qualidade essencial que todo pastor deve possuir é a mesma que Charles Spurgeon disse que era essencial no seu tempo:

Seja qual for o “chamado” que um homem pretenda ter, se ele não foi chamado à santidade, ele, certamente, não foi chamado para o ministério.

Piedade demonstrada na caminhada firme com Deus é uma qualidade essencial que todo pastor deve possuir e que deve ser o foco da sua vida. Então, muitas vezes em meio às pressões e demandas do ministério, esse esforço é tirado do seu foco, dos seus afetos, e de seus objetivos.

Pastores, quando colocarem a mão no arado para realizarem seu belo trabalho durante esta semana, verifiquem se sua principal busca é por andar com Deus. Isto é essencial, não apenas para que seu ministério seja frutífero e para que a fidelidade seja demonstrada, mas também para seu deleite ao fazê-lo.


TRADUÇÃO LIVRE: Alan Rennê Alexandrino Lima

sexta-feira, 6 de julho de 2012

A IGREJA PRIMITIVA INCLUÍA OS LIVROS APÓCRIFOS EM SEU CÂNON?



Introdução
Reproduzo abaixo uma nota publicada no site da Sociedade Bíblica do Brasil, a respeito da Septuaginta. A nota menciona os livros apócrifos incluídos na tradução grega do Antigo Testamento:

Septuaginta (ou Tradução dos Setenta)
Esta foi a primeira tradução. Realizada por 70 sábios, ela contém sete livros que não fazem parte da coleção hebraica, pois não estavam incluídos quando o cânon (ou lista oficial) do Antigo Testamento foi estabelecido por exegetas israelitas no final do Século I d.C. A igreja primitiva geralmente incluía tais livros em sua Bíblia. Eles são chamados apócrifos ou deuterocanônicos e encontram-se presentes nas Bíblias de algumas igrejas. Esta tradução do Antigo Testamento foi utilizada em sinagogas de todas as regiões do Mediterrâneo e representou um instrumento fundamental nos esforços empreendidos pelos primeiros discípulos de Jesus na propagação dos ensinamentos de Deus.[i]

De forma interessante, esta nota se tornou uma espécie de viral, visto que a mesma tem sido amplamente reproduzida por blogs e sites católicos romanos. Estes comemoram a “sinceridade” da SBB, e chamam os protestantes de filhos do diabo, por se apegarem à mentira.[ii] Deve ser observado que a nota é lacônica, completamente destituída de dados que suportem suas afirmações. Ela começa afirmando o que já é tido como lenda a respeito da Septuaginta, isto é, que a mesma foi fruto do trabalho de 72 sábios que traduziram as Escrituras do Antigo Testamento no espaço de 72 dias.[iii] Sabe-se que, na verdade, ela é fruto de um processo de tradução que levou cerca de um século e meio.[iv] Entretanto, gostaria de focar sobre duas afirmações problemáticas que se destacam na nota da SBB.

O Cânon do Antigo Testamento Foi Determinado Somente no Final do Século I?[v]
A primeira delas afirma que a Septuaginta “contém sete livros que não fazem parte da coleção hebraica, pois não estavam incluídos quando o cânon (ou lista oficial) do Antigo Testamento foi estabelecido por exegetas israelitas no final do Século I d.C.”. A afirmação pressupõe, mas não prova, que o cânon do Antigo Testamento foi definido somente no final do século I por alguns exegetas israelitas. É interessante que nenhum outro dado sobre tais exegetas seja fornecido. Não obstante, é evidente que a referência é a um concílio rabínico realizado no ano 90 d.C., numa cidade chamada Jâmnia, atualmente chamado Yavneh. Deve ser entendido, todavia, que o concílio rabínico de Jâmnia nunca teve como propósito definir o cânon do Antigo Testamento. As discussões giraram em torno de alguns livros e teve caráter apenas confirmatório. Os estudiosos Bill T. Arnold e Bryan E. Beyer afirmam o seguinte:

Os estudiosos discutem o que exatamente aconteceu em Jâmnia, mas concordam que o concílio não determinou quais livros pertenciam ao Antigo Testamento. Na verdade, o concílio parece ter confirmado oficialmente livros que a maioria vinha reconhecendo há várias gerações. Em outras palavras, o concílio deu o endosso oficial a certos livros, apenas confirmando o que eles criam ter sido sempre a verdade.[vi]

É discutido o que exatamente aconteceu em Jâmnia, porém, ninguém, a não ser os apologetas católicos romanos, afirma que o concílio teve o propósito de definir o cânon das escrituras veterotestamentárias.[vii] Agindo assim, porém, eles acabam ignorando propositadamente testemunhos importantes de pessoas que viveram durante aquele período, como por exemplo, o historiador judeu, Flavio Josefo, que afirmou que os judeus possuíam apenas 22 livros (número equivalente aos 39 livros do cânon protestante, visto que os doze profetas menores, Esdras e Neemias, 1 e 2Crônicas, 1e 2Samuel e 1 e 2Reis são vistos, cada um, como um único livro). Além disso, de acordo com Josefo, os livros escritos após o período de Artaxerxes não possuem o mesmo crédito e respeito dos outros livros. Eis o testemunho de Josefo:

Não pode haver, de resto, nada de mais certo do que os escritores autorizados entre nós, pios que eles não poderiam estar sujeitos a controvérsia alguma, porque só se aprova o que os profetas escreveram há vários séculos, segundo a verdade pura, por inspi­ração e por movimento do Espírito de Deus. Não temos, pois, receio de ver entre nós um grande número de livros que se contradizem. Temos somente vinte e dois que compreendem tudo o que se passou, e que se referem a nós, desde o começo do mundo até agora, e aos quais somos obrigados a prestar fé. Cinco são de Moisés, que refere tudo o que aconteceu até sua morte, durante perto de três mil anos e a seqüência dos descendentes de Adão. Os profetas que sucede­ram a esse admirável legislador escreveram, em treze outros livros, tudo o que se passou depois de sua morte até o reinado de Artaxerxes, filho de Xerxes, rei dos persas, e os quatro outros livros contêm hinos e cânticos feitos em louvor de Deus e preceitos para os costumes. Escreveu-se também tudo o que se passou desde Artaxerxes até os nossos dias, mas como não se teve, como antes, uma seqüência de profetas não se lhes dá o mesmo crédito, que aos outros livros, de que acabo de falar e pelos quais temos tal respeito, que ninguém jamais foi tão atrevido para tentar tirar ou acrescentar, ou mesmo modificar-lhes a mínima coisa.[viii]

Deve-se atentar para o fato que os livros apócrifos surgiram exatamente após a profecia de Malaquias, ou seja, no chamado período intertestamentário.

O erudito Walter Kaiser Jr., nos oferece uma análise valiosa do que aconteceu em Jâmnia:

Um dos fragmentos de informação errônea mais populares, repetidamente afirmado por muitíssimos estudiosos nos últimos dois séculos, é que um grupo de estudiosos num concílio rabínico realizado em Jamnia, em 90 d.C., decidiu finalmente que livros deviam ser incluídos no cânon do Antigo Testamento. É verdade, naturalmente, que o rabino Johanan ben Zakkai, que escapou do cerco de Jerusalém, é citado como tendo pedido permissão ao general romano para estabelecer sua escola em Jabneh (=Jamnia). Esta escola, sem ser chamada de sinédrio, começou a exercer as funções legais da mesma forma como tinha o grande tribunal da lei em Jerusalém. Não obstante, apesar de toda a longa história de notas de rodapé e argumentos desfavoráveis, a tese de que Jamnia determinou a forma e o conteúdo do cânon do Antigo Testamento, tem pelo menos três falhas básicas: (1) todas as deliberações do conselho não tiveram autoridade normativa; (2) somente os livros de Eclesiastes e Cantares de Salomão foram discutidos, e mesmo esta discussão foi basicamente sobre como interpretar estes livros, não se eles eram canônicos ou não; e (3) os livros que foram tratados como canônicos nas suas discussões não diferem da lista de Josefo.[ix]

Em 1964, um estudioso chamado Jack P. Lewis escreveu uma tese de doutorado intitulada What Do We Mean By Jabneh?, que corrigiu as informações errôneas a respeito do que realmente aconteceu no concílio de Jâmnia. De acordo com ele, “a afirmação frequentemente feita sobre a decisão normativa em Jabneh cobrindo toda a Escritura é no máximo uma conjectura”.[x] Outro estudioso chamado Sid Leiman afirmou o seguinte: “A crença amplamente difundida de que o Concílio de Jamnia fechou o cânon bíblico ou que ele canonizou qualquer dos livros não é apoiada pela evidência e necessidade, que não por muito tempo serão seriamente mantidas”.[xi]

Neil R. Lightfoot finaliza de forma esplêndida respondendo à pergunta “quais escritos deveriam compor o livro [o cânon do Antigo Testamento]”:

Seria impreciso dizer que quando um grupo de rabinos judeus se reuniu em 90 d.C., em Jabneh ou Jâmnia, perto de Jope, no Mar Mediterrâneo, esta pergunta foi respondida para sempre. Em primeiro lugar, os rabinos não tinham autoridade para decidir qualquer coisa. Em segundo lugar, mesmo se tivessem autoridade, as questões em pauta não seriam finalmente resolvidas. Seria correto dizer que as discussões e decisões em Jâmnia refletiram a opinião geral naquele momento. O cânon, na realidade, foi fixado substancialmente muito antes de Jâmnia. Jâmnia não admitiu certos livros ao cânon, mas, para ser mais preciso, permitiu que certos livros permanecessem.[xii]

Archibald Alexander, o eminente primeiro professor de teologia do Princeton Seminary, em sua obra The Canon of the Old and New Testaments Ascertained, or the Bible Complete Without the Apocrypha and Unwritten Traditions (O Cânon do Antigo e Novo Testamentos Determinado, ou A Bíblia Completa sem os Apócrifos e Tradições Não-Escritas), afirmou que, “estes livros, embora, provavelmente, escritos por judeus, nunca foram recebidos no cânon pelas pessoas”.[xiii] Também nunca foram reconhecidos pelo Talmude como canônicos. Alexander também destaca que os rabinos judeus sempre repudiaram os livros apócrifos. Seguem alguns listados da sua obra[xiv]:

  • O rabino Azariah, que viveu no primeiro século, falando sobre os apócrifos, disse: “eles são recebidos pelos cristãos, não por nós”.
  • O rabino Gedaliah, depois de apresentar um catálogo dos livros do Antigo Testamento, com um relato dos seus autores, acrescenta estas palavras: “Vale a pena destacar que, as nações do mundo escreveram muitos outros livros, que estão incluídos em seus sistemas de livros sagrados, mas não em nossas mãos”.
  • O Talmude, que explicitamente elenca o livro de Eclesiástico entre os apócrifos, diz o seguinte a respeito dele: “O livro do filho de Sirach, não deve ser lido”.
Fica claro, então, que a alegação católico romana não se sustenta quando devidamente colocada frente a uma análise criteriosa do que aconteceu em Jâmnia. Fica evidente também a irresponsabilidade da Sociedade Bíblica do Brasil ao fazer tal afirmação sem ser amparada por dados conclusivos e seguros.

A Igreja Primitiva Incluía os Livros Apócrifos em sua Bíblia?
A segunda afirmação da Sociedade Bíblica do Brasil é que “a igreja primitiva geralmente incluía tais livros [os apócrifos] em sua Bíblia”. É importante que se diga que, “a maior parte dos protestantes e dos judeus aceita que tenham valor religioso e mesmo histórico, sem terem, contudo, autoridade canônica. Os católicos romanos desde o Concilio de Trento têm aceito esses livros como canônicos”.[xv] Além disso, enquanto a SBB afirma que a igreja primitiva incluía os apócrifos entre os seus livros canônicos, Norman Geisler apresenta o argumento utilizado pelos apologetas católicos romanos de um modo um pouco diferente: “Os mais antigos manuscritos gregos da Bíblia contêm os livros do Antigo Testamento. Os manuscritos Aleph, A e B incluem esses livros, revelando que faziam parte da Bíblia cristã original”.[xvi] Logo em seguida, Geisler refuta este argumento:

Os mais antigos manuscritos gregos da Bíblia datam do século IV. Seguem a tradição da LXX, que contém os apócrifos. Como foi observado acima, era uma tradução grega, e não o cânon hebraico. Jesus e os escritores do Novo Testamento quase sempre fazem citações da LXX, mas jamais mencionaram um livro sequer dentre os apócrifos. No máximo, a presença dos apócrifos nas Bíblias cristãs do século IV mostra que tais livros eram aceitos até certo ponto por alguns cristãos, naquela época. Isso não significa que os judeus ou os cristãos como um todo aceitaram esses livros como canônicos, isso sem mencionarmos a igreja universal, que nunca os teve na relação de livros canônicos.[xvii]

Afirmar que a igreja primitiva incluía os apócrifos em sua Bíblia não prova absolutamente nada a respeito da sua canonicidade. Até porque, ainda que os cristãos primitivos usassem a Septuaginta não quer dizer que os mesmos concediam aos apócrifos o status de canônicos. Se o Antigo Testamento disponível na língua grega era a Septuaginta e se a mesma também trazia em seu escopo os apócrifos, então, obviamente, os apócrifos estavam na Bíblia usada pelos primeiros cristãos. Mas, o que leva à “inevitável” conclusão de que eles reputavam tais livros como inspirados, autoritativos e canônicos? A sugestão da SBB e a afirmação dos apologetas romanistas é insustentável.

Além disso, é imprescindível que se considere o contexto geográfico e cultural da Septuaginta. A tradução grega do Antigo Testamento foi um empreendimento do judaísmo egípcio de Alexandria. Com isso em mente, pode-se dizer que, “Alexandria era o lugar da tradução, não da canonização”.[xviii] Isso significa que, o fato de a Septuaginta trazer em seu escopo os livros apócrifos não força a conclusão de que os mesmos eram reputados como canônicos. Além disso, “o fato de a Septuaginta conter os apócrifos apenas comprova que os judeus alexandrinos traduziram os demais livros religiosos judaicos do período intertestamentário ao lado dos livros canônicos”.[xix] Todavia, é interessante que Filo (10 a.C. – 50 d.C.), o filósofo judeu alexandrino, rejeitou com veemência a suposta canonicidade dos apócrifos.

Outro fato interessante, é que as cópias disponíveis da Septuaginta datam do século IV d.C., não comprovando em nada que os apócrifos estão incluídos como livros canônicos. A este respeito, o erudito do Antigo Testamento, Laird Harris levanta um questionamento perturbador: “Dado que a Septuaginta, uma produção egípcia, contém os livros apócrifos, será que isso deixa implícito que o cânon alexandrino era maior do que o palestino?”[xx] Sua resposta é esclarecedora:

Que nossas cópias atuais da Septuaginta têm um cânon que varia não prova nada sobre o cânon alexandrino de 50 d.C., muito menos sobre o cânon de cerca de 200 a.C., quando a Septuaginta foi traduzida, porque naqueles séculos fundamentais houve três fatores importantes que certamente afetaram essas questões.[xxi]

Dos três fatores, o primeiro e o terceiro são os mais decisivos:

Em primeiro lugar, a destruição de Jerusalém em 70 d.C., foi o fim dos mil anos de centralização dos judeus em Jerusalém e acelerou a dispersão de Israel, que só mais recentemente foi invertida pelo surgimento do estado contemporâneo de Israel [...] Pelo menos até 70 d.C., o cânon seria naturalmente definido em Jerusalém para todo o mundo judaico. [...] O terceiro fator, e possivelmente o maior, pode ter sido um dos acidentes da História que se mostram tão imprevisíveis nos seus efeitos. As antigas cópias judaicas haviam sido guardadas em rolos. Pouco depois de Cristo, o códex, ou volume encadernado, foi inventado. Os rolos não podem ser feitos suficientemente grandes para conter o Antigo Testamento inteiro ou nem mesmo uma parte maior. Portanto, a divisão do Pentateuco em cinco livros possivelmente tenha sido causada, em parte, por exigências mecânicas. Com respeito aos rolos, a listagem de livros é vital; a ordem não. Não importa quais rolos são colocados juntos numa caixa ou nas prateleiras de uma biblioteca. As grandes variações quanto à ordem nos nossos exemplares mais antigos da Septuaginta podem refletir essa situação.[xxii]

Com os volumes encadernados a situação mudaria drasticamente. Naquela época o códex era primeiramente encadernado e só depois o conteúdo era escrito à mão. É perfeitamente possível que os apócrifos tenham sido colocados nos manuscritos antigos da Septuaginta em virtude de páginas em branco que haviam sobrado após a lavratura dos livros canônicos. “Assim, a tendência seria de associar outros bons livros com os livros sagrados, até que finalmente alguns livros bons fossem regularmente incluídos com o restante”.[xxiii] Vale a pena salientar que até o final do primeiro século a.C., não existiam códices. O que existiam eram apenas rolos. Isso já depõe contra a possibilidade de uma “coleção unificada”. Por exemplo, em Lc. 4. 17 encontramos a entrega “do livro do profeta Isaías”. Note o singular. Há, no entanto, uma pequena diferença entre “bi,blion”(livro) e “membra,na”(pergaminho) em 2Tm 4.13 no que diz respeito ao tipo de material. O primeiro era geralmente derivado do papiro egípcio. O latim traz líber, que quer dizer “o interior da casca de uma árvore”. Acredita-se que os “livros” continham o Pentateuco, mas isto é discutível. O segundo, o pergaminho, era feito de pele e, por ser mais durável, e mais caro, tinha valor maior, especialmente quanto ao tipo de documento que nele se escrevia. Possivelmente, neles estavam escritos o Antigo Testamento e outros documentos importantes tais como seus escritos, anotações etc.

Bom, o que tudo isso tem a ver com a Septuaginta? Normalmente, no senso comum, pensa-se anacronicamente sobre essa versão do Antigo Testamento como composta em um “volume único encadernado”. Se pensarmos em “rolos”(twlgm), você encontra rolos contendo 1 e 2 Samuel; 1 e 2 Reis; 1 e 2 Crônicas; Esdras-Neemias etc. Mas, a Septuaginta foi responsável pela divisão destes livros e, portanto, por circulação independente destes escritos. Os Apócrifos estavam aí. Antes, nem passavam perto.

Andrew E. Hill e J. H. Walton apresentam uma explicação semelhante:

Inicialmente, os apócrifos foram acrescentados um a um em edições mais recentes da Septuaginta. Essa tradução grega do AT hebraico foi concluída por volta de 250 a.C., e sua necessidade se deveu ao impacto do helenismo sobre o judaísmo. Esses livros foram separados das Escrituras hebraicas e não foram considerados parte do AT pelos hebreus. Uma vez que os escribas judeus não fizeram anotações desse fato, surgiu certa confusão entre os cristãos de língua grega que adotaram a Septuaginta como versão bíblica. isto ocorreu principalmente após o ano 100 d.C., pelo fato de cópias subsequentes da Septuaginta haverem sido preparadas por escribas cristãos.[xxiv]

Pode-se concluir o arrazoado a respeito da Septuaginta com as palavras do Dr. Paulo Anglada:

O que se pode concluir daí é que, quando a Septuaginta era copiada, alguns livros não canônicos para os judeus eram também copiados. Isso poderia ter ocorrido por ignorância quanto aos livros verdadeiramente canônicos. Pessoas não afeiçoadas ao judaísmo ou mesmo desinteressadas em distinguir livros canônicos dos não canônicos tinham por igual valor todos os livros, fossem eles originalmente recebidos como sagrados pelos judeus ou não. Mesmo aqueles que não tinham os demais livros judaicos como canônicos certamente também copiavam estes livros, não por considerá-los sagrados, mas apenas para serem lidos. Por que não copiar livros tão antigos e interessantes?[xxv]

Jerônimo e a Vulgata Latina
A mesma atitude de estabelecer uma separação entre os livros canônicos e os apócrifos foi tida por Jerônimo, autor da tradução conhecida como Vulgata Latina. Embora Jerônimo considerasse os apócrifos de alguma utilidade, ele não os reputava como canônicos, inspirados e autoritativos. Por ocasião da tradução, ele fez anotações cuidadosas, afirmando que tais livros “deveriam ser colocados entre os apócrifos, pois não fazem parte do cânon”.[xxvi] Falando especificamente sobre os livros de Sabedoria e Eclesiástico, Jerônimo afirma: “Da mesma maneira pela qual a igreja lê Judite e Tobias e Macabeus (no culto público), mas não os recebe entre as Escrituras canônicas, assim também sejam estes dois livros úteis para a edificação do povo, mas não para receber as doutrinas da igreja”.[xxvii] No mais famoso dos prólogos da Vulgata, o prólogo aos livros de Reis, conhecido como Prologus Galeatus, Jerônimo afirmou claramente a canonicidade de apenas 22 livros veterotestamentários. Além disso, ele determinou que o que fosse separado dos livros canônicos fosse reputado como apócrifo. Eis suas próprias palavras:

E então, há vinte e dois livros da Antiga Lei, ou seja, cinco de Moisés, oito dos Profetas, nove dos Hagiógrafos, embora alguns incluam Rute e Kinoth (Lamentações) entre os Hagiógrafos, penso que eles devam ser contados separadamente; devemos, portanto, ter vinte e quatro livros da Antiga Lei [...] Este prefácio das Escrituras pode servir como uma segura [i.e. defensiva] introdução a todos os livros que são vertidos do Hebraico para o Latim, para que possamos ter certeza de que o que está fora deles deve ser colocado de lado, entre os Apócrifos.[xxviii]

Vê-se, pois, que nem mesmo um dos grandes doutores da igreja ocidental concedia aos apócrifos o status advogado pelo Catolicismo Romano e pela Sociedade Bíblica do Brasil.

Conclusão
Fica evidente, mais uma vez, a tendência ecumênica da Sociedade Bíblica do Brasil. Anexei ao final do texto cópias em facsímile do imprimatur da CNBB às Bíblias da SBB, especialmente da ARA e NTLH. A SBB, nos últimos anos, não tem tido compromisso com o Protestantismo. A tendência ecumênica já foi demonstrada e comprovada.

Além disso, as afirmações feitas em relação aos apócrifos no site da entidade são completamente desprovidas de veracidade. O cânon do Antigo Testamento já estava definido muito tempo antes do concílio de Jâmnia, diferentemente do que foi asseverado pela SBB. Na verdade, a entidade faz uso de uma conjectura, lançando-a como se fosse a expressão de um fato devidamente comprovado. Além disso, a afirmação de que a igreja primitiva incluía os apócrifos em sua Bíblia é completamente lacônica, não dizendo absolutamente nada. Os apócrifos não foram incluídos pelos cristãos primitivos. Estes ao receberem a Septuaginta, a Bíblia usada na época, recebiam em seu bojo os livros apócrifos. No entanto, os mesmos não eram recebidos pelos cristãos como canônicos.

O cânon protestante do Antigo Testamento, composto de 39 livros, está em equivalência ao cânon hebraico de 22 livros. Trata-se de uma verdade de fácil verificação, o que já não pode ser dito das alegações papistas, que para justificar os disparates cometidos na quarta sessão do Concílio de Trento (1545-1563), desconstroem a história e falseiam evidências.

Abaixo, seguem algumas imagens que evidenciam o comprometimento da Sociedade Bíblica do Brasil com o ecumenismo:



[iii] Philip Wesley Comfort (Ed.). A Origem da Bíblia. 6. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 345.
[iv] Ibid.
[v] Não é o meu propósito discorrer sobre o surgimento do cânon do Antigo Testamento. Meu objetivo é refutar a afirmação da Sociedade Bíblica do Brasil, de que um grupo de exegetas israelitas teria definido quais livros veterotestamentários deveriam ser considerados como canônicos. Para uma excelente análise a respeito do surgimento do cânon do Antigo Testamento, remeto o leitor ao excelente capítulo de R. T. Beckwith. “O Cânon do Antigo Testamento”. In: Philip Wesley Comfort (Ed.). A Origem da Bíblia. pp. 69-83. Beckwith analisa o surgimento de cada seção do cânon: a Lei, os Profetas e os Hagiógrafos.
[vi] Bill T. Arnold e Bryan E. Beyer. Descobrindo o Antigo Testamento: uma perspectiva cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. p. 23. Ênfase acrescentada.
[viii] Flavio Josefo. História dos Hebreus: de Abraão à queda de Jerusalém. Rio de Janeiro: CPAD, 2004. pp. 1479-1480.
[ix] Walter Kaiser Jr. Documentos do Antigo Testamento: sua relevância e confiabilidade. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. pp. 29-30. Ênfase acrescentada.
[x] Ibid. p. 30. Ênfase acrescentada.
[xi] Ibid.
[xii] Neil R. Lightfoot. “The Canon and the Text of the Old Testament”. p. 53. Lighfoot faz afirmação semelhante em outra obra intitulada How We Got the Bible: “Alguns estudiosos têm argumentado que próximo ao final do primeiro século, líderes judeus em Jâmnia (localizada próximo à costa da Palestina) determinaram os limites do cânon do Antigo Testamento. Entretanto, todos nós podemos estar certos de que tais discussões sustentadas em Jâmnia giravam em torno de livros como Eclesiastes e Cantares de Salomão. O cânon foi substancialmente fixado muito antes de Jâmnia, e as discussões que ocorreram ali não eram sobre a admissão de certos livros ao cânon, mas sobre a permissão de os mesmos permanecerem”. Cf. Neil R. Lightfoot. How We Got the Bible. Grand Rapids, MI: Baker Books, 2010. p. 154.
[xiii] Archibald Alexander. The Canon of the Old and New Testaments Ascertained, or the Bible Complete Without the Apocrypha and Unwritten Traditions. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 2006. p. 31. Disponível em http://www.ccel.org/ccel/alexander_a/canon.html.
[xiv] Ibid. pp. 31-32.
[xv] Norman Geisler e William Nix. Introdução Bíblica: como a Bíblia chegou até nós. São Paulo: Vida, 1997. p. 94.
[xvi] Ibid.
[xvii] Ibid. pp. 97-98. Ênfase acrescentada.
[xviii] Ibid. p. 97.
[xix] Ibid.
[xx] Laird Harris. Inspiração e Canonicidade da Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 188.
[xxi] Ibid.
[xxii] Ibid. p. 189.
[xxiii] Ibid.
[xxiv] Andrew E. Hill e J. H. Walton. Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 2006. pp. 436-437.
[xxv] Paulo Anglada. Sola Scriptura: a doutrina reformada das Escrituras. São Paulo: Os Puritanos, 1998. p. 39.
[xxvi] Gleason L. Archer Jr. Merece Confiança o Antigo Testamento?. São Paulo: Vida Nova, 1991. p. 76.
[xxvii] Ibid. Nota de rodapé nº 5.
[xxviii] Extraído de http://www.bible-researcher.com/jerome.html. Eis o texto em latim: “Atque ita fiunt pariter veteris legis libri viginti duo, id est Mosi quinque, Prophetarum octo, Agiograforum novem. Quamquam nonnulli Ruth et Cinoth inter Agiografa scriptitent et libros hos in suo putent numero supputandos, ac per hoc esse priscae legis libros viginti quattuor [...] Hic prologus Scripturarum quasi galeatum principium omnibus libris, quos de hebraeo vertimus in latinum, convenire potest, ut scire valeamus, quicquid extra hos est, inter apocrifa seponendum”.
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