quinta-feira, 7 de junho de 2012

ADÃO E A QUEBRA DOS DEZ MANDAMENTOS

Um Excerto de Edward Fisher

Nota Introdutória do Cristão Reformado
Edward Fisher foi um puritano londrino acerca de quem pouco se sabe, e morto por volta de 1655. De acordo com o Dr. Joel Beeke, “foi convertido ao pensamento puritano depois de conversar com Thomas Hooker”.[i] Fisher não era ministro ordenado, sendo, antes, um leigo “bastante versado nos temas teológicos”.[ii] É de sua autoria um livro intitulado The Marrow of Modern Divinity, publicado pela primeira vez em 1645 na forma de um diálogo entre quatro personagens: 1) Evangelista, que através das suas respostas a objeções levantadas apresenta a medula ou o cerne (“marrow”) da teologia reformada; 2) Neophytus, um cristão novo convertido; 3) Nomista, um legalista; e 4) Antinomista, alguém que não via razão para se falar em obediência à lei de Deus.

A obra de Edward Fisher teve ampla influência sobre um acontecimento denominado “Controvérsia do Cerne” (“Marrow Controversy”), entre os teólogos escoceses, de 1717 a 1723.[iii] Esta controvérsia teve início por conta do legalismo e neonomismo que ameaçava a Igreja da Escócia, porém, posteriormente, girou em torno “da defesa da necessidade da livre oferta do evangelho”.[iv] O livro em si apresenta grandemente aquele que é o pensamento reformado, tendo recebido o apoio entusiasmado dos irmãos Erskine (Ebenezer e Ralph), e de Thomas Boston, que se empenhou na publicação da obra em 1726, adicionando numerosas notas ao texto de Fisher. Interessantemente, os Erskine, Thomas Boston e outros que se posicionaram favoráveis ao livro ficaram conhecidos como The Marrow Men. É digno de nota que, de acordo com Joseph Hall, a controvérsia em torno do livro de Edward Fisher “é, em si, indicativa do declínio da ortodoxia teológica escocesa".[v] O testemunho de outro erudito, Michael D. Makidon, é o seguinte: “É lamentável, mas muitos dos críticos da obra estavam grosseiramente desinformados a respeito do seu conteúdo, no entanto, condenaram-no como heresia. Logo, aqueles que os subscreveram também foram condenados”.[vi]

Como Adão Quebrou os Dez Mandamentos? Eles Não Existiam – Ainda Introdução
Ninguém deve imaginar que Edward Fisher propôs que a quebra dos Dez Mandamentos por parte de Adão foi algo consciente. O Decálogo ainda não havia sido entregue de maneira formal e explícita. Contudo, isso não significa que os mesmos, como expressão da Lei Moral de Deus, que é eterna, ainda não existissem. Não havia ainda duas tábuas de pedra com os Dez Mandamentos, porém, a norma da lei, o seu cerne, já fora gravado no coração humano. É interessante a opinião de Francis Turretin, teólogo genebrino e professor da Academia de Genebra, instituição fundada por João Calvino. Discutindo o Pacto da Natureza[vii], Turretin afirma que o dever que o homem tinha para com Deus consistia num aspecto geral e noutro, especial. O geral “era o conhecimento de Deus e o culto devido a ele, justiça para com o seu próximo e todo tipo de santidade [...] O primeiro estava fundado na lei da natureza não escrita em um livro, mas gravada e estampada no coração”.[viii] Turretin fundamenta sua afirmação na passagem de Romanos 2.14-15: “Quando, pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração, testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-se ou defendendo-se”.

O mandamento registrado em Gênesis 2.16-17 não era a única lei existente. Turretin diz que este mandamento era de cunho especial e simbólico. A árvore do conhecimento do bem e do mal era um sacramento, “um símbolo e prova da obediência do homem. Pois nela, como uma matriz, toda a lei natural estava incluída”.[ix]

Justifica-se, portanto, o arrazoado de Edward Fisher.

O Texto de Edward Fisher
O trecho traduzido abaixo é uma seção do primeiro capítulo na qual Evangelista explica a Nomista as sérias e graves implicações do pecado de Adão. Evangelista apresenta a Nomista quatro razões pelas quais a desobediência de Adão foi uma grande ofensa. Ele pergunta logo em seguida: “Poderia haver pecado maior do que o de Adão, visto que num piscar de olhos ele quebrou todos os Dez Mandamentos?”[x] Nomista, aparentemente assustado, diz: “Você diz que ele quebrou todos os Dez Mandamentos? Senhor, peço que me mostre onde!”

Eis a resposta:

1. Ele escolheu a si mesmo como outro deus quando seguiu o demônio.

2. Ele idolatrou e deificou o seu próprio ventre, como disse o apóstolo: “o deus deles é o ventre”.

3. Ele tomou o nome de Deus em vão, quando não acreditou nEle.

4. Ele não guardou o descanso e o estado em que Deus o colocou.

5. Ele desonrou seu Pai que estava no céu; e, portanto, seus dias não foram prolongados na terra que o Senhor Deus lhe havia dado.

6. Ele massacrou a si mesmo e a toda a sua posteridade.

7. De Eva, ele era virgem, mas com seus olhos e sua mente ele cometeu fornicação espiritual.

8. Como Acã, ele roubou o que Deus ordenara que fosse deixado de lado, e este roubo é a razão dos problemas de todo o Israel e de todo o mundo.

9. Ele deu um falso testemunho contra Deus, quando acreditou no testemunho que o diabo deu diante dele.

10. Como Amnom, ele cobiçou um mal, que cobiçado, custou-lhe a vida e a toda a sua descendência. Agora, quem considera que um ninho de males foi aqui cometido com um só golpe deve, necessariamente, como Musculus, ver o nosso caso como tal, que somos compelidos de todas as formas a bendizer a justiça de Deus, e condenar o pecado dos nossos primeiros pais, dizendo a respeito de toda a humanidade, como o profeta Oseias disse a respeito de Israel: “A tua ruína, ó Israel, vem de ti” (13.9).


[i] Joel R. Beeke e Randall J. Pederson. Paixão pela Pureza. São Paulo: PES, 2010. p. 323.

[ii] Ibid.

[iii] Para uma exposição interessante da Controvérsia do Cerne, remeto o leitor à obra já mencionada de autoria de Joel R. Beeke e Randall Pederson. Paixão pela Pureza. pp. 324-328.

[iv] Joseph H. Hall. “The Marrow Controversy: A Defense of Grace and the Free Offer of the Gospel”, “Mid-America Journal of Theology, nº 10 (1999). p. 241.

[v] Ibid. p. 243.

[vi] Michael D. Makidon. The Marrow Controversy. p. 73.

[vii] Nomenclatura usada por Turretin para se referir ao que comumente é denominado de Pacto das Obras.

[viii] Francis Turretin. Institutes of Elenctic Theology. Vol. 1. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1992. p. 577.

[ix] Ibid. p. 579.

[x] Edward Fisher. The Marrow of Modern Divinity. 1991. p. 35. A presente edição é uma reimpressão da edição publicada por Thomas Boston, em 1726.

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