domingo, 18 de março de 2012

O PRÓLOGO DOS DEZ MANDAMENTOS


TEXTO (ÊXODO 20.1-2)

1. Então, falou Deus todas estas palavras: 2. Eu sou o SENHOR, teu Deus, que tirei da terra do Egito, da casa da servidão.

· INTRODUÇÃO

Meus amados irmãos, na semana iniciamos o nosso estudo a respeito dos Dez Mandamentos estudando o versículo 1 de Êxodo 20. Na ocasião vimos o que Deus revela a respeito de si mesmo. Vimos que Ele é um Ser pessoal com o qual podemos nos relacionar, que fala, que comunica a sua vontade, os seus mandamentos ao seu povo amado. Vimos também as implicações do fato de Deus ter falado todas as palavras contidas no Decálogo. Porque o Senhor as comunicou com sabedoria e absoluta autoridade, nossa postura diante dos Dez Mandamentos deve ser: 1) ter reverência para com os mandamentos; 2) lembrar, ou seja, carrega-los em nossos corações; 3) acreditar em cada um deles; 4) amar os mandamentos de Deus, e isso significa tanto ter atitudes práticas de obediência como também ter santos afetos por ele, visto que eles são a expressão da vontade dAquele a quem amamos; e 5) obedecer, não de palavra, não de língua, mas de fato e de verdade. Por fim, aprendemos que nenhum de nós é capaz de obedecer perfeitamente à santa lei de Deus. Por mais que tenhamos boa vontade, o santo de desejo de obedecermos a Deus – e, de fato, esse deve ser o nosso desejo – o certo é que, na presente vida, jamais obedeceremos perfeitamente aos mandamentos de Deus. Com isso, aprendemos a repousar na obediência perfeita de nosso Senhor Jesus Cristo, o único que obedeceu por completo às demandas da Lei. É a obediência perfeita de Cristo que torna a nossa obediência imperfeita aceitável diante do Pai celestial. E que não imaginemos que, porque dependemos de Cristo, podemos relaxar em nossa disposição em obedecer aos mandamentos divinos. Na verdade, é impossível que um verdadeiro crente relaxe em seu desejo de cumprir a vontade de Deus. Essa é a comida de todo aquele que está conformado à imagem de Jesus Cristo (João 4.34).

Tendo relembrado essas solenes verdades, podemos avançar em nosso estudo. Hoje, com a graça do nosso bom Deus, estudaremos o prólogo propriamente dito.

· EXPOSIÇÃO DA PASSAGEM

VERSÍCULO 2: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que tirei da terra do Egito, da casa da servidão”.

Irmãos, aqui nós temos a revelação de três verdades sumamente importantes: 1) Temos um Noivo pactual; 2) Possuímos um Deus; e 3) Temos um Redentor.

I – YAHWEH, O NOSSO NOIVO PACTUAL

Ao entregar os Dez Mandamentos, Deus se revela como o Noivo Pactual do seu povo. Como assim? Ao dizer: “Eu sou o SENHOR...”, Deus se revela como Yahweh. O nome pactual de Deus é usado aqui. Todas as vezes em que esse nome aparece no Antigo Testamento o Pacto, ou seja, a Aliança entre Deus e o seu povo está sendo enfatizada: “Disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu vier aos filhos de Israel e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós outros; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi? Disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós outros. Disse Deus ainda mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O SENHOR, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós outros; este é o meu nome eternamente, e assim serei lembrado de geração em geração” (Êxodo 3.13-15). O nome Yahweh designa o imutável Deus da graça e o eternamente fiel Deus da Aliança.

Além disso, irmãos, precisamos compreender que o Pacto de Deus com o seu povo é retratado pelas Escrituras como um matrimônio, um relacionamento amoroso entre um noivo e sua noiva amada: Nunca mais te chamarão Desamparada, nem a tua terra se denominará jamais Desolada; mas chamar-te-ão Minha-Delícia; e à tua terra, Desposada; porque o SENHOR se delicia em ti; e a tua terra se desposará. Porque, como o jovem desposa a donzela, assim teus filhos te desposarão a ti; como o noivo se alegra da noiva, assim de ti se alegrará o teu Deus” (Isaías 62.4-5); “Porque o teu Criador é o teu marido; o SENHOR dos Exércitos é o seu nome; e o Santo de Israel é o teu Redentor; ele é chamado o Deus de toda a terra” (Isaías 54.5); “Se um homem repudiar sua mulher, e ela o deixar e tomar outro marido, porventura, aquele tornará a ela? Não se poluiria com isso de todo aquela terra? Ora, tu te prostituíste com muitos amantes; mas, ainda assim, torna para mim, diz o SENHOR [...] Convertei-vos, ó filhos rebeldes, diz o SENHOR; porque eu sou o vosso esposo e vos tomarei, um de cada cidade e dois de cada família, e vos levarei a Sião [...] Deveras, como a mulher se aparta perfidamente do seu marido, assim com perfídia te houveste comigo, ó casa de Israel, diz o SENHOR” (Jeremias 3.14). Lembremos também do que ocorreu com o profeta Oseias. Deus ordenou que ele casasse com uma mulher de prostituições para que isso funcionasse como uma representação da maneira como o povo de Israel se portava em relação Àquele que era o seu Esposo (Oseias 1). Da mesma forma, ao adentrarmos ao Novo Testamento vemos que nós, que fazemos parte da Igreja, somos a Noiva de Cristo (Efésios 5.22-25; Apocalipse 21.2,9).

Entendamos, então, queridos irmãos, que o fato de Yahweh se revelar como o nosso Noivo pactual nos ensina que os Dez Mandamentos nos foram dados como uma espécie de código moral para a felicidade nossa, em nosso relacionamento matrimonial com o Senhor.

Antes, quando vivíamos sem Deus, de acordo com a Palavra de Deus, vivíamos também sem esperança no mundo (Efésios 2.12). Sem Deus e sem Jesus éramos desamparados, vivíamos em completa desolação. Porém, quando o Senhor nos fez participantes da Nova Aliança, pelo sangue de Cristo, e assim se tornou o nosso Noivo pactual, passamos a ser a delícia do Senhor. Por essa razão, honremos o nosso Noivo pactual. Honremos aquele que nos amou com amor eterno (Jeremias 31.3).

II – YAHWEH, O NOSSO DEUS

Em segundo lugar, queridos irmãos, o prólogo dos Dez Mandamentos nos ensina que Yahweh, o Deus fiel à sua Aliança, é o nosso Deus. Com isso o Senhor traz à nossa memória o fato de que, apesar de ter entrado num relacionamento amoroso conosco, Ele é infinitamente maior do que todos nós. Ele é Deus. Ele é o nosso Deus. A Ele devemos obediência, visto que Ele é o soberano sobre toda a terra e sobre toda a sua criação.

No contexto da entrega dos Dez Mandamentos, é como se o Senhor dissesse:

Eu, Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – tenho te escolhido para ser o meu povo peculiar. Tenho oferecido minha Aliança a você através do meu Filho, e pelo Espírito Santo trouxe você para dentro do meu Pacto. Você tem me dado a tua mão e tem entrado num Pacto comigo; você tem me escolhido para ser o teu Deus. Portanto, é minha prerrogativa dar leis a você, dirigir você, e você é obrigado a me obedecer em virtude do Pacto da Graça.[i]

Quando Deus, ao introduzir os Dez Mandamentos se apresenta como o Deus do seu povo, a ideia é alicerçar cada um dos mandamentos na sua autoridade como o Senhor, o Deus soberano. Matthew Poole comenta: “A autoridade de Deus e o seu direito sobre ele [o seu povo] é apropriadamente colocado antes, como o fundamento de todos os mandamentos de Deus e seus deveres”.[ii]

A implicação, queridos irmãos, é que os mandamentos que temos diante dos nossos olhos são a expressão da vontade do soberano Senhor pactual, o eterno, imutável e Todo-Poderoso Deus. Assim sendo, fazemos bem em temer esses santos mandamentos, e, temendo-os, devemos dispor os nossos corações para obedecê-los. A promessa de Deus é que Ele se inclinará e olhará para aqueles, e somente aqueles, que tremerem diante da sua Palavra e dos seus mandamentos: “Porque a minha mão fez todas estas coisas, e todas vieram a existir, diz o SENHOR, mas o homem para quem olharei é este: o aflito e abatido de espírito e que treme da minha palavra” (Isaías 66.2).

III – YAHWEH, O NOSSO REDENTOR

Em terceiro e último lugar, queridos irmãos, o prólogo dos Dez Mandamentos nos ensina acerca do que o nosso Noivo pactual, o nosso Deus, Aquele a quem devemos obediência e gratidão, fez em favor do seu povo. Aprendemos que os Dez Mandamentos estão fundamentados em quem Deus é e naquilo que Ele realizou em benefício do seu povo amado.

Israel deveria sempre ter em mente quem Deus era e o que Ele havia realizado. Jamais a nação poderia esquecer que fora liberta do Egito com mão poderosa e com braço estendido. Isso significa, queridos irmãos, que temos aqui uma declaração maravilhosa feita pelo Noivo pactual, mostrando o que Ele realizou em prol da sua noiva. O Noivo agiu pelo bem da sua noiva. Além do direito como Noivo e Deus, Yahweh entrega os seus mandamentos a Israel por seu direito como Redentor do seu povo.[iii]

É verdade que o Senhor poderia simplesmente ter dito: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que tanto bem tenho te feito”. Não obstante, o que vemos é que o Senhor menciona especificamente a libertação do cativeiro egípcio: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da casa do Egito”. Por qual razão? Para que Israel jamais esquecesse da grandeza e do caráter extraordinário da libertação. Ele os libertou por meio de estranhos sinais e maravilhas, pragas após pragas enviadas contra Faraó e o Egito. Ele abriu as águas do Mar Vermelho, destruiu os exércitos de Faraó. Deus os tirou de uma terra idólatra, má e perversa.[iv]

Deus diz:

Vocês eram estrangeiros no Egito e eram oprimidos e tratados com muita dureza lá, e não havia ali libertação. Eu tomei você pela mão, e te livrei com uma mão forte. Feri os seus inimigos e os matei no Mar Vermelho. No entanto, levei você com os pés enxutos pelo Mar e te libertei, a fim de te dar esse desejável país por herança. Deveria você não me temer e não dar ouvidos à minha voz? Isso é o mínimo esperado, e coloca sobre você essa obrigação.[v]

Irmãos, “devemos lembrar que os eventos do Antigo Testamento prefiguraram os eventos do Novo Testamento [...] Nesse sentido, a libertação de Israel prefigurou a nossa própria libertação. Israel era escravo de Faraó, e nós éramos escravos de Satanás, do pecado e da morte. Deus ‘nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados”.[vi] Dessa maneira, queridos irmãos, nós podemos afirmar o prólogo dos Dez Mandamentos como: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da escravidão de Satanás, do pecado e da morte, através da vida, morte e ressurreição de Cristo”.[vii]

Irmãos, isso é de grande significado para nós que fomos libertados da escravidão do pecado, pois obedecer aos mandamentos de Deus é uma forma, a mais bela forma, de demonstrarmos a nossa gratidão ao Senhor. João Calvino disse o seguinte ao meditar sobre o prólogo dos Dez Mandamentos:

Não há criatura cujo coração não deva estar ansioso por ouvir esta lei, sendo que ela procede do soberano Senhor, no qual todas as coisas têm sua origem, razão pela qual o fim delas a ele é dirigido [...] Finalmente, devemos comover-nos, deixando-nos levar a obedecer ao nosso Deus quando vemos que por sua misericórdia e por seu poder fomos libertados do abismo do inferno.[viii]

· CONCLUSÃO

Irmãos, devemos ler os Dez Mandamentos em seu contexto histórico, pactual e redentivo, a fim de sermos levados a Jesus Cristo. Ao lermos a Lei e sermos lembrados de nossa iniquidade, somos lembrados também da nossa redenção, sendo levados a Jesus Cristo.



[i] Wilhelmus à Brakel. The Christian’s Reasonable Service. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2007. p. 89.

[ii] Matthew Poole. A Commentary on the Holy Bible: Genesis-Job. Vol. 1. Peabody, MS: Hendrickson Publishers, 2010. p. 158.

[iii] Ibid.

[iv] Thomas Watson. The Ten Commandments. Edinburgh, UK: The Banner of Truth Trust, 2009. p. 24.

[v] Wilhelmus à Brakel. The Christian’s Reasonable Service. Vol. 3. p. 89.

[vi] J. V. Fesko. The Rule of Love: Broken, Fulfilled, and Applied. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2009. p. 12.

[vii] Ibid.

[viii] João Calvino. As Institutas: Edição de 1541. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 175.

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