sábado, 21 de janeiro de 2012

A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS COMO MANIFESTAÇÃO PROLÉPTICA DA TRANSFORMAÇÃO QUE OCORRERÁ NA PAROUSIA

“Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto monte. Foi transfigurado diante deles” (Marcos 9.2)

Geralmente a transfiguração é vista ou como sendo um simples vislumbre da divindade e da glória de Jesus Cristo ou como parte do cumprimento da sua missão. Porém, como destaca Gerald Bray: “Jesus não foi transfigurado com o objetivo de cumprir sua missão aqui e ali, mas para conceder aos discípulos uma imagem da vida futura”.[1] Sendo assim, a transfiguração possui enorme relevância para a compreensão da transformação que ocorrerá, por ocasião do Segundo Advento, nos corpos dos justos que estiverem vivos. Guthrie confirma isso ao afirmar que, “uma transformação notável aconteceu com uma pessoa viva e isso possui considerável relevância para a transformação daqueles que ainda estarão vivos na Parousia”.[2] O estudioso do Novo Testamento Thomas R. Schreiner entende que uma das funções do episódio da transfiguração é servir como “uma antecipação proléptica do retorno de Cristo, quando terá início o dia do julgamento e quando os escarnecedores serão destruídos”.[3]

É de singular importância que em Mateus 17.2 e Marcos 9.2, os evangelistas usem o verbo metamorfoô para falar da transfiguração. Essa palavra é empregada apenas quatro vezes em todo o Novo Testamento e possui como significado básico “uma mudança de forma e não apenas uma mudança de aparência”.[4] R. C. Sproul, ao analisar o verbo, diz o seguinte: “O substantivo, do qual se deriva o verbo usado aqui, descreve uma forma em sua essência e não uma mera máscara ou aparência temporária”.[5]

Em 2Pedro 1.16-18 a transfiguração é claramente conectada à segunda vinda de Jesus:

Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda (parousia) de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade, pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo.

No versículo 18, o evento aludido é claramente a transfiguração. Pedro estabelece uma nítida conexão entre esse evento e a Parousia. Donald Macleod diz que Pedro “discorre sobre a esperança da parousia a partir do fato da transfiguração”.[6]

No que tange à sua relação com a transformação que ocorrerá na Parousia, deve-se notar que, a transfiguração, ou seja, a transformação da forma de Cristo, não se deu de forma gradual e processual. Antes, foi instantânea e pôde ser testemunhada pelos discípulos espectadores. De acordo com Guthrie, “isso fornece um sinalizador para a forma dos vivos na Parousia”.[7] E mais: “Se há alguma ligação entre a transformação e a Parousia, podemos deduzir que uma mudança imediata é vista como sendo apropriada para a glorificação”.[8]

Isto posto, não é absurdo ver a transfiguração como proléptica da transformação que os santos vivos experimentarão futuramente. Macleod assevera de forma extraordinária:

A transfiguração ainda fala, porque expõe não somente a glória eternamente possuída pelo Senhor, e não somente a glória à qual ele, como Mediador encarnado, estava destinado, mas também a glória de seu povo [...] A transfiguração mostrou não somente o que ele se tornaria, mas o que nós nos tornaríamos. O Novo Testamento faz esta relação explicitamente. Nós devemos estar onde ele está (Jo 17.24). Nossos corpos devem ser conformados exatamente ao seu (Fp 3.21). Nós, nele, devemos partilhar da natureza divina (2Pe 1.4). Para Jesus no Monte, essa visão do que está além da cruz, não somente para ele próprio, mas para seu povo, foi um encorajamento imensurável.[9]

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NOTAS:

[1] Gerald Bray. Quem É Jesus? São Paulo: Shedd Publicações, 2008. p. 69. Ênfase acrescentada.

[2] Donald Guthrie. “Transformation and Parousia”. p. 41. É importante destacar que, em 1942, o estudioso G. H. Boobyer, na sua obra St. Mark and the Transfiguration Story, “via a transfiguração como prenúncio da parusia”. Cf. W. L. Liefeld, In: Lothar Coenen e Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 2. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 2550.

[3] Thomas R. Schreiner. New Testament Theology: Magnifying God in Christ. Nottingham, UK: Apollos, 2008. p. 115.

[4] Donald Guthrie. “Transformation and Parousia”. p. 41. O Thayer’s Greek Lexicon fala de uma simples transformação da aparência.

[5] R. C. Sproul. A Glória de Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 104.

[6] Donald Macleod. A Pessoa de Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 108.

[7] Donald Guthrie. “Transformation and Parousia”. p. 41.

[8] Ibid.

[9] Donald Macleod. A Pessoa de Cristo. p. 113.

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