segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O PRINCÍPIO REGULADOR E O CANTO NO CULTO - PARTE 2

A extensão do canto nas Escrituras
Tem se argumentado que o termo Paulino pneumatikais, espiritual, se refere a cânticos inspirados pelo Espírito Santo[i]. Mas, nesse sentido, os Salmos bíblicos são os únicos cânticos espirituais? Não, não dá para se negar a existência de outros cânticos inspirados nas Escrituras, além daqueles reunidos no Saltério. Há os cânticos de Moisés (Ex 15.1 —18, Dt32:1-43): Miriam (Ex 15:21), Débora e Baraque (Jz 5:2-31), Davi (2 Sm 22:1-51, 1 Cr 16:8-36), Habacuque (Hb 3:1-19), Maria (Lc 1:46-55), Zacarias (1:67-79), das miríades celestiais (2:14), Simeão (2:29- 32), o apóstolo João (Ap 1:5-7) e os santos na glória (4:8, 11; 5:9-10, 12-13; 7:10, 12, 15-17; 11:15-18; 12:10-12; 15:3-4; 16:5-7; 19:1-8). Há um livro inteiro chamado Cantares de Salomão. O livro de Lamentações é uma coletânea de cinco salmos, incluindo quatro acrósticos. A profecia de Isaías é literalmente cheia de cânticos. É provável que Paulo tenha inserido hinos em suas epístolas (Rm 11:33-36, Fl 2:6-11, 1 Tm 3:16). É difícil acreditar que Deus incluísse tantos cânticos na Bíblia e não pretendesse que fossem cantados!


E, realmente, o povo antigo de Deus, os judeus, cantava nos cultos um repertório muito mais variado que o livro dos Salmos; pois por todo o Antigo Testamento hebraico o leitor pode observar um sistema de cerca de vinte e sete acentos distintos, usados em trinta e seis dos livros, juntos com um sistema de vinte e um acentos especiais usados apenas no livro de Jó, Salmos e Provérbios.[ii] Conforme foi observado por Gesenius, “a intenção primária deles era regular detalhadamente a leitura pública do texto sagrado. A completa transformação e ampliação do sistema..., que logo levou os judeus a esquecerem sua origem real, está claramente ligada à mudança gradual da eloquência na leitura pública para o cantar. Os acentos então serviram como um tipo de notas musicais”.[iii] Portanto, é evidente que os judeus antigos cantavam não apenas o Saltério, mas todo o Antigo Testamento!


Há evidências certas nas Escrituras de que alguns dos profetas cantavam suas profecias. Deus disse a Ezequiel: “Eis que tu és para eles como quem canta canções de amor, que tem voz suave e tange bem; porque ouvem as tuas palavras, mas não as põem por obra” (Ez 33:32). Isto não estabelece um precedente inspirado para o canto de profecias bíblicas?


O cântico de Moisés em Deuteronômio 32 foi escrito sob direção explícita de Deus com a finalidade de ensinar o povo (“Escreverei para vós outros este cântico, e ensinai-o aos filhos de Israel... Assim Moisés naquele mesmo dia escreveu este cântico e o ensinou aos filhos de Israel” [Dt 31:19, 22]). O propósito evidente era inspirar adoração (“Engrandecei o nosso Deus!” [32:3]). Dede que o padrão geral das Escrituras é requerer dos seres humanos obediência contínua aos mandamentos de Deus, a menos que Ele mesmo ordene parar, a razão sugere que é legitmo continuar a fazer uso do cântico no culto. Alguém pode demonstrar nas Escrituras quando cantar não-Salmos no culto veio a ser pecado?


Cantar um Novo Cântico
Além da ordenança para se cantar louvores, várias vezes o povo de Deus é convocado nas Escrituras a cantar um novo cântico: “Entoai-lhe novo cântico, tangei com arte e com júbilo” (Sl 33:3). “E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão essas coisas, temerão, e confiarão no Senhor” (40:3). “Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor, todas as terras” (96:1). “Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele tem feito maravilhas; a sua destra e o seu braço santo lhe alcançaram a vitória” (98:1). “A ti, ó Deus, entoarei novo cântico; no saltério de dez cordas te cantarei louvores” (144:9). “Cantai ao Senhor um novo cântico, e o seu louvor na assembléia dbs santos” (149:1). “Cantai ao Senhor um cântico novo, e o seu louvor até as extremidades da terra, vós os que navegais pelo mar, e tudo quanto há nele, vós, terras do mar, e seus moradores” (Is 42:10). “...e entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação...” (Ap 5:9). “Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes, e dos anciões. E ninguém pôde aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra” (Ap 14:3). É óbvio que o termo pode se referir a outros cânticos que não sejam os que se encontram na coletânea bíblica dos Salmos propriamente (ver Ap 5:9). Já que somos claramente convocados a cantar um novo cântico em adoração a Deus, nossa fidelidade ao princípio regulador não exige que façamos exatamente isso?


Um exemplo no Antigo Testamento de um “novo cântico” cantado no culto é o cântico de adoração que Ezequias compôs depois de estar tão perto da morte: “Cântico de Ezequias, rei de Judá, depois de ter estado doente e se ter restabelecido” (Is 38:9). Seu cântico eloquente finaliza com um inspirado anseio: “O Senhor veio salvar-me; pelo que, tangendo os instrumentos de cordas, nós o louvaremos todos os dias de nossa vida na casa do Senhor” (Is 38:20). O que é interessante é que Isaías usa o possessivo no plural “meus cânticos”[iv]* . Ezequias expressa seu desejo de cantar suas próprias composições em adoração a Deus. Sendo o cântico em Isaías 38 o único cântico de Ezequias encontrado nas Sagradas Escrituras, é evidente que pelo menos um desses seus cânticos que ele desejava cantar na casa do Senhor não é ainda inspirado, e o outro (o que está aqui) não está no livro dos Salmos! É preciso que se pergunte: Ezequias, neste caso, expressou um desejo piedoso ou iníquo? Em resposta é notável que ele nunca seja censurado por expressar esse desejo. Se seu desejo era legítimo, então institui uma ordenança subentendida para que se cante hinos não inspirados.


A Quem Cabe o Dever de Apresentar Provas?
Devido à rica variedade dos Salmos, hinos e cânticos espirituais usados na Bíblia, o dever de apresentar provas repousa sobre os defensores da salmodia exclusiva a fim de demonstrar que os termos que contêm um sentido genérico estabelecido, quando usados em ordenanças para se cantar louvores, são restritos a um sentido especifico. Não é para demonstrar que um determinado termo pode significar o Saltério do Antigo Testamento; antes, é preciso que haja prova de que tal termo tem tal significado. Com respeito a Efésios 5:19 e Colossenses 3:16 os defensores da salmodia exclusiva devem (1) mostrar como o contexto, e não meramente o estudo de uma palavra baseado na literatura de cristãos primitivos, determina que os termos psalmois, humnois e odais se referem apenas aos salmos do Saltério, e que, com esses termos genéricos, Paulo não pode ter querido se referir a nenhum outro tipo de cântico; (2) demonstrar como os leitores originais de Paulo em Efeso e Colossos, recém-convertidos de origem pagã e não judaica, sem terem sido criados num ambiente impregnado pela LXX, teriam por intuição entendido tais termos, empregados sem maiores esclarecimentos, para referirem-se ao Saltério, e (3) explicar como Paulo pôde tão informalmente e sem nenhuma explanação introduzir uma nova limitação radical com relação àquilo que é apropriado cantar, uma discordância com o resto das Escrituras e com mais de quinze séculos de prática da igreja do tempo de Moisés à era apostólica.[v] A menos que o defensor da salmodia consiga fazer isso ele precisa reconhecer que sua salmodia exclusiva é uma mera questão de preferência pessoal, e não um mandamento divino.


Os defensores da salmodia exclusiva convocam a igreja a considerar o que o apóstolo Paulo quis dizer com salmos, hinos e cânticos espirituais (e isto é bom, pois é sempre benéfico tentar entender o intento original das Escrituras). Eles interpelam seus oponentes com a questão: “Há a possibilidade de Paulo ter tido em mente os cânticos de Fanny Crosby?” Mas a questão do que Paulo tinha em mente tem dois gumes. Também deve ser perguntado: Os Salmos metrificados de hoje são o que Paulo tinha em mente ao escrever aquelas-palavras inspiradas? A prática de cantar os Salmos em métrica retrocede ao tempo apostólico? Não se pode justificar uma paráfrase métrica na mesma base em que é justificada uma tradução; uma paráfrase métrica não é uma tradução, mas a paráfrase de uma tradução, e, portanto, um grau aquém da tradução. Cantar um Salmo metrificado não é o mesmo que cantar a Escritura inspirada; os Salmos em métrica, na verdade, são hinos de composição humana parafraseando o Saltério, e não idênticos à Escritura inspirada.[vi]


Os cantores exclusivos dos Salmos sustentam que as Escrituras exigem o uso do cântico inspirado no culto. Mas na prática não há uma controvérsia nesta questão entre aqueles que usam apenas os cânticos inspirados e aqueles que usam não inspirados, pois deve ser lembrado que há poucas, se houver alguma, igrejas que cantam os Salmos na íntegra como estão na Bíblia e rejeitam completamente o uso de paráfrases métricas.


O Princípio Regulador e a Hinologia
Na ausência de um mandamento específico concernente a qual deve ser o exato conteúdo dos cânticos a serem cantados no culto, qual é o princípio que dirige a igreja na escolha de seus cânticos de louvores? Ela tem carte blanche com total autoridade para inovar nesta área? Não, o princípio regulador rejeita isto. Como então o princípio regulador procede? Aplicado à música, o princípio regulador deve ser formulado assim: Deus ordenou que Seu povo Lhe cante louvores em adoração, e as Escrituras estão repletas com exemplos de modelos de cânticos a serem usados. O repertório inclui bem mais que o livro dos Salmos. O conteúdo do cântico apropriado é um assunto que deve ser determinado a partir dos abundantes exemplos bíblicos. Eu estou bem convicto de que os cristãos devem cantar os Salmos bíblicos no culto público e no pessoal. Isto fica claro através dos vários exemplos bíblicos de canto dos Salmos. Se a igreja fosse fiel a este princípio ela teria mais vigor no seu entendimento das Escrituras e daria aos santos uma esperança não vacilante no poder de Deus em cumprir Seu propósito. O canto de musicalizações das traduções padrão das Escrituras devem ser encorajados, embora reconhecidamente as melodias sejam geralmente irregulares e difíceis de aprender. Reconhecendo a dificuldade inerente, eu acredito que a melhor coisa a se fazer logo é suprir isso com o canto dos Salmos metrificados. Todos os cento e cinquenta Salmos devem ser cantados, e, devemos agradecer. Há excelentes Saltérios métricos contendo todos os Salmos.


Mas não hesite a igreja em cantar hinos de composição humana baseados em outras partes das Escrituras além dos Salmos. Deixem os crentes que possuem dons, no espírito de devoção de Ezequias, utilizarem seus talentos dados pelo Senhor escrevendo novos cânticos de louvor a Deus por todos os Seus benefícios. Que a igreja avalie cuidadosamente a música do culto nos termos de sua fidelidade à Palavra de Deus; se vamos ensinar e aconselhar uns aos outros através da música, então os presbíteros não podem fugir da responsabilidade de assegurar que a doutrina correta esteja sendo ensinada nos cânticos que são cantados nos bancos tanto quanto nos sermões que são pregados do púlpito. A hinologia da igreja deve ser “espiritual” (Ef 5:19, Cl 3:16); uma definição completa de “cântico espiritual” é um cântico que contenha as verdades espirituais ensinadas nas Escrituras Sagradas sob a inspiração do Espírito Santo.[vii]


Esta posição é confessional? A Confissão de Fé de Westminster, ao enumerar as “partes do culto religioso” relaciona “o cântico de salmos com graça no coração” (XXI, V). É digno de nota que o termo “salmos” é usado no seu sentido geral de “qualquer cântico sagrado...cantado em culto religioso” (Oxford English Dictionary): a Confissão não especifica “cantar Salmos” ou “cantar os Salmos”.[viii]


Esta posição é histórica? Vale ressaltar que João Calvino, que entre os reformadores “desenvolveu este princípio regulador com clareza e o aplicou com grande consistência na Reforma de Genebra”,[ix] conduziu suas igrejas a cantarem os Salmos metrificados assim como uma variedade de hinos: o decálogo métrico (Os Dez Mandamentos) seguido pelo Kyrie eleison (Senhor, tem misericórdia) depois de cada lei; a Oração do Senhor em uma longa paráfrase, o Credo dos Apóstolos cantado, e o Nunc dimittis (Lc 2:29-32) em métrica.[x]


Ao apóstolo João foi concedido um vislumbre de como seria o culto no céu. Ali a assembléia dos santos canta “Digno é o cordeiro que foi morto” (Ap 5:12). A igreja é instruída a cantar que a vontade de Deus é feita na terra assim como no céu. Isto não mostra que é um desejo expresso de Deus que o Cordeiro seja igualmente louvado pela assembléia dos santos na terra?[xi]


Há um mandamento para se cantar os Salmos no culto? Não. Equanto há mandamentos genéricos para se cantar louvores a Deus, não há nenhuma ordenança para se cantar os Salmos especificamente, e uma análise dos cânticos de adoração nas Escrituras revela que outros materiais além dos Salmos são cantados na adoração. A igreja deve cantar apenas cânticos inspirados no culto? Não. Há repetidas ordenanças para que se cante um novo cântico; além do mais, Ezequias expressou piedosamente um desejo santo de que o povo de Deus cante cânticos não inspirados na casa do Senhor, e nunca foi censurado por isso; seu desejo institui uma ordenança implícita para se cantar hinos não inspirados. Que a igreja louve e exalte Aquele que morreu e ressuscitou com cânticos sagrados que honrem a Deus, cantados rio Espírito, e com harmonia, para a glória de nosso Rei celeste.


Stephen Pribble é pastor da Igreja Presbiteriana Ortodoxa da comunidade da Graça em Holt, Michigan (USA).


FONTE: Revista Os Puritanos. Ano VIII. Nº 3 - Julho/Agosto/Setembro - 2000. pp.23-26.


NOTAS:


[i]Murray, op. cit., p. 13.


[ii] Para uma relação completa veja a “Tabula Accentuum” incluída com o texto hebraico Sibila Hebraica Stuttgartensia (Stuttgart: Deutsche Bibelstiftung, 1967-77).


[iii] A. E. Cowley, tr. e cd. Gesenius’Hebrew GrammarlSegundo a edição e enlarged por E. Kautzsch), segunda edição inglesa (Oxford: Claredon Press, 1910 119821), pp. 57-58.


[iv] A palavra para “meus cânticos” neste caso é neginotay, uma forma de sufixo plural de neginah (compare a forma plural neginoth nos títulos dos Salmos 4, 6, 54, 55, 67 e 76), “música Ide instr. de cordas)” ou “canto (com instr. de corda.?)”, do verbo nagan, significando “tocar (fazer vibrar), um instrumento de corda” (Brown, Driver, Briggs, op. cit., p. 618). O profeta Habacuque usa as mesmas palavras ao encerrar sua o.raçâo inspirada: “Ao mestre de música. Para instrumentos de corda” (Hb 3:19). E digno de atenção que Ezequias diz “cantaremos os meus cânticos” (referindo-se às suas próprias composições), não “teus cânticos” (referindo-se aos cânticos que Deus havia inspirado).


* A tradução inglesa traz “meus cânticos”, o que não ocorre na tradução revista e atualizada João Eerreira de Almeida (NT).


[v] Argumentar meramente que os termos psalmoís, humnois e odais devem se referir aos Salmos bíblicos porque este é o significado da palavra é empregar uma linha de raciocínio similar à usada pelos batistas quando sustentam (baseados no uso em literatura extra-bíblica) que a palavra baptizo quer dizer imersáo; logo, sempre que a acharmos nas Escrituras ela significará imersão e não haverá a possibilidade de significar nada mais.


[vi] Que cristão amante da Bíblia conformaria uma paráfrase métrica à sua Bíblia única? Nós cremos na inspiração verbal; isto é, que as próprias palavras da Escritura são inspiradas, e devem ser preservadas, tão acuradamente quanto possível, em nossas versões, Com razão estamos incomodados com o relaxamento da Bíbila Viva e a linguagem inclusiva da NewRSV Cada um de nós não quer possuir a tradução mais precisa possível?


[vii] Por exemplo: “Santo, Santo, Santo, Deus Onipotente” (Ap 4:8), “Louvam nossas vozes Teu nome com fervor!” (SI 5:3), “Santo, Santo, Santo!” (Ap 4:8), “justo e compassivo” (Ex 34:6), “Es Deus Triúno, excelso Criador!” (Mt 28:19, Mc 14:61).


[viii] Os defensores da salmodia exclusiva fazem muita questão de dizer que a prática dos grandes ministros de Westminster era a salmodia exclusiva. Mas mesmo admitindo isso, continua prevalecendo que o enunciado final adotado por eles foi “cantar saimos” não “cantar Saimos” ou -cantar os Salmos”. Considerando a tendência deles em grafar maiúsculas (ex: Ateísmo, Batismo, Deidade, Idolatria, Escritura Sagrada, Rei, Mediador, Pecado Original, Sacerdote, Profeta, Juiz Supremo, Eiador, Trindade, Virgem Maria, etc.), a escolha deles pela minúscula s em “salmos” faz toda a diferença. Os presbiterianos não são obrigados a se orientar pela prática dos grandes reformadores e puritanos, mas pelas declarações da Confissão.


[ix] William Young, The Puritan PrincipIe oíWorship(Vienna, Virginia: The Publications Committee of the Presbyterian Reformed Church, n.d.),p.4.


[x] “Calvin’s Erench Rites at Strasbourg and Geneva” em William D. Maxwell, A History of Christian Worship, Grand Rapids: Baker Book House, 1936 [1982], pp. 112-119.


[xi] A palavra “cordeiro” não aparece em nenhum dos Salmos; “ovelha” e “carneiro”, quando ocorrem, se referem ao animal (8:7), aos santos (44:11, 22; 74:1; 78:52; 79:13; 95:7; 100:3; 119:176; 144:13) ou ao ímpio (49:14), não a Cristo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

O PRINCÍPIO REGULADOR E O CANTO NO CULTO - PARTE 1

Por Stephen Pribble


Pastor da Igreja Presbiteriana Ortodoxa da comunidade da Graça em Holt, Michigan (USA).



Joe[i] foi criado em um lar cristão e veio a crer em Cristo logo em seus primeiros anos. Durante seu periodo na faculdade ele se tornou familiarizado com a teologia reformada através de alguns livros que tornou emprestado de um amigo. Mais tarde esse seu conhecimento tornou-se um crescente compromisso. Ele começou a frequentar reuniões de uma associação estudantil reformada e frequentava os cultos numa igreja próxima onde o calvinismo era defendido eloquentemente.


Depois de se formar ele se casou e conseguiu emprego em outra cidade. de e sua esposa Bárbara entraram para urna igreja presbiteriana conservadora e tornaram-se membros ativos.


Posteriormente Joe leu um livro que o convenceu de que a igreja deveria cantar apenas os Salmos no culto. Ele ansiosamente compartilhou esta sua nova compreensão com Bárbara, que também ficou persuadida por esse posicionamento. Joe e Bárbara continuaram a frequentar os cultos de sua igreja, mas sentiram que precisavam ficar em silêncio sempre que a congregação cantasse hinos. Os outros membros começaram a notar isso e faziam-lhes perguntas. Joe e Bárbara tranquilamente explicavam sua nova compreensão do principio regulador do culto. Muitos de seus amigos mais chegados ainda desejavam cantar hinos, e poucos lamentavam que o culto deles não correspondesse mais ao padrão de Joe e Bárbara.


Entre as congregações reformadas e presbiterianas conservadoras hoje há homens e mulheres iguais a Joe e Bárbara, que têm se convencido de que a Bíblia requer apenas, exclusivamente, a salmodia, o salmodiar. Eles se sentem constrangidos a ficar em silêncio durante o canto de hinos. Além disso, há denominações inteiras que existem para promover a salmodia exclusiva. Esta é uma questão delicada. Aqueles que cantam hinos sentem que seus irmãos que cantam exclusivamente os Salmos têm uma atitude de superioridade (“Minha adoração é mais pura que a de vocês”) . Os cantores dos salmos são mais dogmáticos que seus irmãos que cantam hinos, nem entendem o principio regulador como denunciam uma inconsistência óbvia quando a questão é música. Os cantores de hinos frequentemente se atrapalham em expor os versos das Escrituras que apóiem suas práticas, ou então eles as justificam com o argumento luterano “A Bíblia não proíbe cantar hinos”, em vez de mostrarem um mandamento direto para se cantar hinos.


As Escrituras afirnam: “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!”(Sl 133:1). Contudo, desde que as igrejas usam o canto no culto, a música é uma dessas áreas onde os cristãos permanecem divididos. Recentemente, ouviu-se um pastor exclamar exasperado: “Eu sugiro que façamos uma lei proibindo qualquer música no culto pelos próximos cem anos!” Há alguma esperança dos cristãos virem a concordar nesta questão fundamental? O que as Escrituras ensinam acerca da música no culto? Nós devemos considerar as seguintes questões: (1) Há uma ordenança para cantarmos os Salmos no culto? e (2) Nós devemos cantar apenas cânticos inspirados no culto?


O Princípio Regulador
O princípio regulador requer que o homem adore a Deus apenas conforme Ele tem ordenado em Sua Palavra. Acrescentar elementos de inovação humana na adoração a Deus atrai Seu justo desagrado[ii]. Como é definido no Catecismo Menor: “O segundo mandamento proibiu a adoração de Deus através de imagens, ou qualquer outra forma não indicada em Sua Palavra.”[iii] Os oficiais presbiterianos fazem um voto solene de defender este princípio fundamental.


Os defensores da salmodia exclusiva raciocinam que desde que Deus ordenou o canto dos Salmos no culto, cantar qualquer outra coisa a mais na adoração é contrário às Escrituras e uma transgressão do princípio regulador. Um escritor declarou: “Já que os Salmos são claramente prescritos nas Escrituras para a adoração, a obrigação de provar o grau de relevância em que as Escrituras se referem a isso, repousa com toda a certeza nos ombros daqueles que introduziriam o canto de hinos não inspirados no culto a Deus.”[iv] Se as Escrituras nos ordenam cantar os Salmos na adoração, então o princípio regulador requer que a igreja cristã não cante nada além disso. Mas é verdadeiro que “os Salmos são claramente prescritos nas Escrituras para a adoração”? Por mais surpreendente que isto possa parecer; a resposta é não.


O Vocabulário do Louvor
É um fenômeno da linguagem que palavras podem ter dois sentidos, um sentido geral e um especial[v] a palavra salmo é uma dessas palavras. De acordo com o Oxford English Dictionary (Dicionário Inglês de Oxford)* a palavra salmo[vi] pode ser definida como: “1. No sentido geral: qualquer música sacra que seja ou possa ser cantada em culto religioso; um hino[vii]: especialmente no uso bíblico... Também, de forma mais geral, qualquer cântico ou ode de caráter sacro ou solene... 2. No sentido especial: qualquer um dos cânticos sagrados ou hinos dos antigos hebreus que formam em conjunto o ‘Livro dos Salmos’...; uma versão ou paráfrase de qualquer um destes, especialmente quando cantados (ou lidos) em culto público ou privado.”** Portanto, a palavra salmo pode se referir a um cântico de forma geral, ou a algum dos cânticos sagrados no Saltério do Antigo Testamento especificamente.


Antigo Testamento — Há quatro diferentes substantivos na Bíblia hebraica traduzidos por salmo***: zimrah, zamir (plural zemirot), mizmor, e tehillah.[viii] Destes, há um que sempre se refere aos salmos contidos no Saltério: mizmor. Esta palavra aparece apenas nos títulos dos Salmos hebraicos e pode ser considerada como um termo técnico para Salmo.[ix]


É extremamente significante que em nenhum lugar nas Escrituras nós somos ordenados de modo específico a cantar mizmor, o termo técnico para Salmo. Na verdade, ao convocar que se cante ao Senhor, as Escrituras usam invariavelmente termos significando “louvor” em sentido mais geral. Por conseguinte, somos convocados a cantar zemirot e zimrah; também somos convocados a “zammeru” (forma plural do verbo). Estas são palavras derivadas da mesma raiz que mizmor, mas afinidade não atesta igualdade[x]. Nós examinaremos todas as referências das Escrituras que ordenam o canto dos salmos.


Em dois lugares nós somos convocados: “Cantai- lhe, cantai-lhe salmos; narrai todas as suas maravilhas.” (1 Cr 16:9, Sl 105:2). Embora a tradução faça parecer - que Deus está ordenando que cantemos o livro dos Salmos, na realidade não há nenhum substantivo hebraico para salmos nesses versos. O hebraico usa, mais precisamente, um verbo que significa “cantar; cantar louvores, entoar música”[xi]. Em outros lugares o mesmo verbo é traduzido das seguintes formas: ...salmodiarei ao Senhor Deus de Israel” (Jz 5:3). “Cantai louvores ao Senhor, que habita em Sião; proclamai entre os povos os seus feitos” (S19:11). “Glorificar-te-ei, pois, entre os gentios, ó Senhor, e cantarei louvores ao teu nome.” (18:49). “Cantarei e salmodiarei ao Senhor” (51 27:6). “Salmodiai ao Senhor, vós que sois seus santos, e dai graças ao seu santo nome” (30:4). “Para que o meu espírito te cante louvores e não se cale. Senhor; Deus meu, graças te darei para sempre” (30:12). “Deus é o rei de toda a terra, salmodiai com harmonioso cântico” (47:7). A ti, Força minha, cantarei louvores, porque Deus é meu alto refúgio, é o Deus da minha misericórdia” (59:17). “Quanto a mim, exultarei para sempre; salmodiarei louvores ao Deus de Jacó” (75:9). “Cantarei a bondade e a justiça; a ti, Senhor, cantarei” (101:1). “Cantarei ao Senhor enquanto eu viver; cantarei louvores ao meu Deus durante a minha vida” (104:33). “Louvai ao Senhor, porque o Senhor é bom; cantai louvores ao seu nome, porque é agradável” (135:3). “Louvarei ao Senhor durante toda a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus, enquanto eu viver” (146:2). “Cantai louvores ao Senhor; porque fez cousas grandiosas; saiba-se isto em toda a terra” (Is 12:5). Portanto, a ordem “Cantai- lhe, cantai-lhe salmos”, mais precisamente que cantar o Saltério de modo restrito, como pode parecer, é na realidade de uma natureza geral e ordena que se cante louvores a Deus, o que, por conseguinte, os cristãos têm a obrigação de fazer.


Mais ainda, somos exortados: “Saiamos ao seu encontro, com ações de graça, vitoriemo-lo com salmos” (SI 95:2). Neste texto das Escrituras há um substantivo referindo-se ao conteúdo do que deve ser cantado, mas novamente não é o termo técnico mizmor e, sim, o termo mais geral zemirot, cânticos. A evidência de que esta palavra não se refere invariavelmente ao Saltério do Antigo Testamento provém do uso dela em outros lugares: “Mas ninguém diz: Onde está Deus que me fez, que inspira canções de louvor durante a noite” (Já 35:10). “Os teus decretos são motivo dos meus cânticos, na casa da minha peregrinação” (SI 119:54). “Dos confins da terra ouvimos cantar: Glória ao Justo” (Is 24:16). A palavra é ainda usada quando se refere ao canto hostil de triunfo[xii] dos inimigos: “Tu abaterás o ímpeto dos estranhos; como se abranda o caLor pela sombra da espessa nuvem, assim o hino triunfal dos tiranos será aniquilado” (Is 25:5).


A tradução em inglês do Salmo 98:5 parece ser um exemplo mais próximo de salmodia exclusiva “Cantai com harpa louvores ao Senhor, com harpa e voz de canto.” Igualmente nós lemos: “Salmodiai e fazei soar o tamboril, a suave harpa com o saltério” (SI 81:2). A palavra usada para salmo nestes versos é zimrah, outro termo geral da mesma raiz que significa melodia ou cântico[xiii]. Esta palavra é igualmente traduzida de diferentes maneiras: “O Senhor é a minha força e o meu cântico, ele me foi por salvação” (Ex 15:2; cf. Sl 118:14). “Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei, porque o Senhor Deus é a minha força e o meu cântico; ele se tornou a minha salvação” (Is 12:2). “Porque o Senhor tem piedade de Sião; terá piedade de todos os lugares assolados dela, e fará o seu deserto como o Eden, e a sua solidão como o jardim do Senhor; regozijo e alegria se acharão nela, ações de graça e som de música” (Is 51:3). “Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos; porque não ouvirei as melodias das tuas liras” (Am 5:23).


Em todas estas ordenanças é digno de nota que são usados termos que denotam “louvor” (o léxico de autoridade reconhecida Brown, Driver, Briggs nem mesmo classifica “Salmo” como uma definição possível de zimrah ou zamir). Aqueles que defendem a salmodia exclusiva não têm comprovado o uso do sentido mais restrito: o Saltério. Entender o sentido genérico “louvor” não transgride nenhuma passagem das Escrituras, e, conforme tentaremos mostrar, faz mais sentido com o ensino total escriturístico.


Novo Testamento — A palavra grega psalmos pode também ter um significado geral, “cantar louvores”, e o significado mais especial “Salmo”. Ela é ligada ao verbo psallo, denotando “cantar (com acompanhamento de harpa), cantar louvores”.[xiv] Além do mais, no sentido especial há uma variedade de significados:pode se referir tanto ao livro dos Salmos como um todo (Lc 20:42; At 1:20); a um Salmo particular (At 13:33), como também à terceira divisão inteira da Bíblia hebraica conhecida como “escritos”[xv], da qual o livro dos Salmos era a primeira e maior (Lc 24:44). Nenhum desses textos específicos das Escrituras em Lucas ou Atos ordena o canto no culto.


O apóstolo Paulo em 1 Coríntios 14:26 faz uma alusão à prática corrente em Corinto: “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro doutrina, este traz revelação, aquele outra língua, e ainda outra interpretação. Seja tudo feito para edificação.” Aqui o termo salmo poderia ser tomado em ambos os sentidos, no geral (cantar louvores) e também no especial (um Salmo); o contexto não o deixa claro. Em todo caso, a ordenança não é para trazer um salmo (qualquer que seja o tipo), doutrina, língua, revelação ou interpretação, mas para que no culto todas as coisas “sejam feitas para edificação”.


A referência em Tiago 5:13 (“Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração. Está alguém alegre? Cante louvores.”) na verdade não contém o substantivo psalmos, como pode parecer, mas o verbo psallo, “cantar (com o acompanhamento da harpa), cantar louvores”. Poderia ser traduzido simplesmente: “Então cante!” “Alguém está feliz? Cante louvores.”


As duas últimas referências do Novo Testamento são textos clássicos e merecem uma atenção especial: “Habite ricarnente em vós a palavra de Cristo; instruí- vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos e hinos e cânticos espirituais, com gratidão, em vossos corações” (Cl 3:16), e “falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor, com hinos e cânticos espirituais” (Ef 5:19). A menção dos salmos nestes versos provavelmente se refere ao Saltério do Antigo Testamento, usado, por assim dizer, como um catálogo das várias categorias de cânticos. Nem o texto de Efésios, nem o de Colossenses se referem especificamente ao culto público do Senhor; não há nestes textos a ordenança para que se cante “salmos e hinos e cânticos espirituais” no culto. Na verdade, não há realmente nenhuma indicação direta acerca do assunto em questão. Mas, mesmo admitindo que haja nesses versos uma aplicação ao culto cristão, é preciso ser enfatizado que a frase completa “salmos e hinos e cânticos espirituais” conforme é usada por Paulo é sem dúvida no sentido abrangente e não no restrito; inclui todos os cânticos legítimos usados no culto conforme determinado em toda a Escritura. Se o Espírito Santo, falando através do apóstolo inspirado tinha a intenção de ensinar o uso exclusivo dos Salmos, seria fácil ter dito: “instruí- vos e aconselhai-vos mutuamente en biblo psalmon [com o livro dos Salmos]” (como é feito em Lc 20:42, At 1:20), omitindo completamente qualquer menção a hinos e cânticos espirituais. Argumenta-se que o termo grego usado, psalmois, humnois e odais, aparecem nos títulos dos Salmos na Septuaginta, e é verdade).[xvi] Mas isto não comprova que eles sejam termos técnicos referentes exclusivamente aos Salmos.[xvii]



O fato de que essas palavras sejam usadas numa tradução grega do Antigo Testamento com relação aos Salmos não prova que eles se refiram invariavelmente aos Salmos e que não possam se referir a qualquer outra coisa, ou que o uso que Paulo faz deles em outro contexto exija que se refiram ao Saltério.[xviii] Mais na frente voltaremos a este assunto.



FONTE: Revista Os Puritanos. Ano VIII - Nº 3 - Julho/Agosto/Setembro - 2000. pp. 20-23.



NOTAS:


[i] Personagem fictício com o propósito de ilustração.


[ii] Observe o quão severamente Deus puniu tais inovações humanas em Levítico 10:1-2: “Nadabe e Abiú, filhos de Arão, tomaram cada um o seu incensário, e puseram neles fogo, e sobre este, incenso, e trouxeram fogo estranho perante a face do Senhor, o que lhes não ordenara. Então saiu fogo de diante do Senhor, e os consumiu; e morreram perante o Senhor.”


[iii] Resposta à pergunta 51.


[iv] Michael Bushell, The Songs ofZion (Os Cânticos de Sião) (Pittsburgh: Crown and Covenant Publications, 1980), p. 49.


[v] Veja, por exemplo: livro, o livro; ceia, a ceia; casa, a casa; senhor, o Senhor.


* Considerado o melhor dicionário da língua inglesa (NT).


[vi] De acordo com a explicação no Oxford English Dictionary, a palavra salmo deriva do grego “psalm-os, uma vibração (das cordas da harpa), o som da cítara ou harpa, uma canção para ser acompanhada pela harpa, de psallein, vibrar, ressoar, tocar (com os dedos), cantar para ser acompanhado com harpa (na LXX e N.T.)”


[vii] Em uma citação (séc. 1175 AD.) transcrita pelo Oxford English Dictionary, a palavra salmo é aplicada ao Credo: “The salm thet heo alie thus writen wes ihaten. Credo. efter than formeste word of the salm.”


** O Dicionário Aurélio traz uma definição parecida (NT).


*** O autor tem como referência a tradução da Bíblia na língua inglesa. Na versão revista e atualizada João Ferreira de Almeida o termo em questão está traduzido muitas vezes por “cantar louvores” e não “salmo” (NT).


[viii] Este termo, derivado de hillel, louvar, é usado no título do Salmo 145, tehillah leda wid. A frase toda é traduzida pela KJV (King lames Version - versão tradicional da Bíblia em Inglês. NT) como “Salmos de louvor de Davi” (entendendendo tehilla como “de louvor” e fornecendo a palavra salmo em itálico para esclarecimento.) A obra clássica de consulta, A Hebrewandtngfish Lexicon oítheOld Testament(Lexico Hebraico e Inglês do Antigo Testamento), editado por Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs (Oxíord: Claredon Press, 1906 119801), pp. 239-40, relaciona um dos significados de tehillah: “3. cântico de louvor, como título, tehihim leda widlSalmo 145:11 (da mesma forma no hebraico moderno sephertehihim& tehihim,, tehillim = salmos).”


[ix] Assim identificado em Brown, Driver, Briggs, op. cit., p. 274. Mizmor é encontrado em 57 para se cantar louvores a títulos dos Salmos: Salmos 3, 4, 22, 23, 24, 29, 30, 31, 38, 39, 40, 41, 47, 48, 49, 50, 51, 62, e 63, 64, 65, 66, 67, 68, 73, 75, 76, 77, 79, 80, 82, 83, 84, 85, 87, 88, 92, 98, 100, 101, 108, 109, 110, 139, 140, 141, e 143. A KJV acrescenta o termo salmo (em itálico) onde no hebraico não há nenhum equivalente em 1 Crônicas 16:7 e nos títulos dos Salmos 11, 14, 18, 25, 26, 27, 28, 32, 34, 35, 36, 37, 52, 53, 54, 55, 61, 69, 70, 72, 81, 103, 138, 144 e 145; não há nenhum grego equivalente em Atos 13:35, Nem zimrah nem zamir aparecem nos títulos dos Salmos.


[x] Um fenômeno similar existe no Inglês: canticle(cântico), cantata (cantata), chant (cantar repetidas vezes uma frase ou palavra), enchantment (feitiço) e incantation (encantamento), todos provenientes do mesmo radical, mas não há como confundilos. Nós demitiríamos o regente do coral se ele fizesse um incantation em vez de uma cantata!


[xi] R. Laird Harris; Gleason L. Archer, Jr; e Bruce K. Waltke; eds., Theological Wordbook oíthe Old Testament(Dicionário Teológico do Antigo Testamento) (Chicago: Moody Press, 1980), 1:245. Brown, Driver, Briggs, op. cit., dá como significado “entoar música, melodia”.


[xii] Brown, Driver, Briggs, op. cit., p. 274.


[xiii] Idem.


[xiv] W E. Arndt eE. W. Gingrich, ed., A Greek-English Lexicon oí lhe New Testameni and Other Early Ghristian Literature (Lexico Grego-Inglês do Novo Testamento e Outras Literaturas Cristãs Primitivas) (Chicago: The University of Chicago Press, 1957), p. 899.


[xv] Kethubim hebraico, abrangendo os Salmos, jó, Provérbios, Rute, Cantares de Salomão, Eclesiastes, Lamentações, Ester Daniel,’ Esdras, Neemias e os dois livros de Crônicas.


[xvi] “Precisamos levar em consideração várias questões quando tratarmos com comprovações baseadas na Septuaginta (LXX). Primeiro, ela é uma tradução e por isso não tem autoridade equivalente ao original hebraico. Além disso, sua tradução dos Salmos não e considerada uma tradução cuidadosa, mas uma paráfrase interpretativa. Ela é classificada com “textos de estilo popular” em distinção aos “textos de estilo conservador” (Norman L. Geisler e William E. Nix, A General Introduction lo the Bible IChicago: Moody Press, 1968!, p. 265). Nix escreveu: “Em termos de qualidade de tradução, a LXX não foi realizada de forma consistente... lElal varia de uma tradução literal simplória da Torah à tradução livre dos Escritos” (Versions, Ancients and Medieval” na Wycliííe Bíble Encyclopedia Chicago: Moody Press, 19751, p. 1771). Como ilustração de sua tendência à paráfrase livre, observe que ela acrescenta títulos aos seguintes Salmos onde não há de forma alguma no hebraico todos cem numeração inglesa): 33, 43, 71, 91, 93, 94, 96, 97, 99,104, 105, 107, 114, 116, 117, 118, 119, 135, 136, 137, 146, 147 e 148. Ela omite “de Davi” onde isto há no título em hebraico do Salmo 127. Ela acrescenta “de Davi” onde não há no hebraico nos títulos dos Salmos 33, 43, 67, 91, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99, 104 e 137.


[xvii] As observações de Murray concernente ao uso dos termos psalmos, humnos e ode na LXX seria mais convincente sea prática nas Escrituras como um todo fosse a de se cantar invariavelmente no culto exclusivamente os Salmos colecionados (The Scriptural Warrant RespectingSong in lhe Public Worship oíGodas Stated lo rhe Minorit,v Report oí the Gommittee on Song in lhe Pubilc Worship oí God Submitted lo lhe fourteenth General Assembly oíthe Orthodox Presbyterian Ghurch, 1947, reeditado pela The Publications Commitee, Presbyterian Reformed Church, Vienna, Virginia, n.d., pp. 9-1 1). Deve-se notar que a LXX não limita seu uso dos termos psalmois, humnois, e odais às seleções musicais celetadas no livro dos Salmos. A oraçâo de Habacuque (na tradução inglesa está “Habakkuk’s psalm”, isto é, Salmo de Habacuqueu NT) é chamada ode(Hb 3:1, 19); igualmente, os cânticos de Moisés (Ex 15:1, Dt31 :19,21,22,30,32:44), Débora e Baraque (jz 5:1 2), Davi (2 Sm 22:1) e Salomão (1 Re 4:32). Em (saías 42:10 somos exortados a cantar um humnon novo. Em Amós 5:23 Deus deseja afastar-se das odes e psalms de Israel, e em 8:10 Ele ameaça converter suas odes em lamentações (provavelmente não se referindo aos Salmos, pois naquele contexto é improvável que o reino do norte ainda fosse fiel ao canto do Saltério ao mesmo tempo em que se entregava à idolatria). O uso no Novo Testamento é idêntico. Em Apocalipese 5:9 e 14:3 o novo cântico dos santos na glória é chamado ode; da mesma forma, em 15:3,0 cântico de Moisés (que começa “Grandes e maravilhosas são tuas obras, Senhor Deus, Todo-poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, é Rei das nações!” — não proveniente do Saltério) também é chamado uma ode.

[xviii]Mesmo o defensor da salmodia exclusiva Bushell reconhece que “Em raras ocasiões o termo psalmos pode se referir a músicas não devocionais (Jó 21.12; Lm 3:14)” (op. cit., p. 72).

A VONTADE DE DEUS - PARTE 1

Texto publicado no boletim da Igreja Presbiteriana de Tucuruí-PA, em 26/01/2012.

“Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? – diz o SENHOR Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?”.

A Teologia Reformada, amparada por sólido testemunho das Escrituras faz uma distinção, no que diz respeito à vontade de Deus. Essa distinção é quádrupla: 1) prazer; 2) propósito; 3) decretiva; e 4) prescritiva. No presente post nos deteremos na primeira: a vontade de prazer em Deus. Já no próximo trataremos da vontade de propósito.

A vontade de prazer abrange o que Deus apraz que Suas criaturas façam. Isso quer dizer que, Deus tem prazer que suas criaturas façam coisas boas: “Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva”. Quando um ser humano vive mergulhado na impiedade na prática do pecado ele está sob o desprazer do Senhor. Todavia a partir do momento em que tal pessoa reconhece sua condição e se volta do pecado para Deus, ele passa a contar com o prazer de Deus.

A Bíblia Sagrada nos apresenta um exemplo muito claro do que acabei de afirmar. Manassés foi um dos reis do reino do Sul, Judá. Ele era filho do piedoso rei Ezequias e começou a reinar bem cedo, com apenas doze anos de idade. Mas, ao contrário de seu pai, Manassés “fez o que era mau perante o SENHOR, segundo as abominações dos gentios que o SENHOR expulsara de suas possessões, de diante dos filhos de Israel”. Manassés foi um dos piores reis de Judá. Seus pecados foram horrendos: levantou altos e altares para falsos deuses; adorou o sol, a lua e as estrelas; profanou o Templo; colocou imagens no altar do Templo; sacrificou os próprios filhos aos falsos deuses; usou de adivinhações, agouros, feitiçarias; e o que é pior, fez isso de propósito. Diz a Bíblia que “fez muitíssimo mal aos olhos do SENHOR, para o provocar à ira”. Seus pecados foram intencionais, deliberados, visando unicamente irar e enfurecer o Senhor. Foi o típico caso da criatura desafiando de forma rebelde o Criador. Além disso, ele levou muitas outras pessoas a pecarem contra o Senhor: “Manassés fez errar a Judá e os moradores de Jerusalém, de maneira que fizeram pior do que as nações que o SENHOR tinha destruído de diante dos filhos de Israel”. Sinceramente, aos olhos humanos o caso de Manassés era irreversível. Ele contava com o desprazer de Deus.

Entretanto, as circunstâncias mudaram. Judá foi castigada pelo Senhor e Manassés reconheceu a sua pecaminosidade. Após ser aprisionado pelo exército assírio ele “angustiado, suplicou deveras ao SENHOR, seu Deus, e muito se humilhou perante o Deus de seus pais”. O sofrimento fez Manassés entender que ele não era nada diante de Deus. Ele orou de forma contrita e Deus “se tornou favorável para com ele, atendeu-lhe a súplica”. Podemos ver aqui o enorme prazer que Deus tem no arrependimento dos seus filhos. Ele não deseja que seus filhos vivam na prática do pecado. Antes, Ele quer que se convertam de seus maus caminhos.

Se houve solução para Manassés, há também para o pecado de qualquer filho de Deus! Quando o assunto é a misericórdia de Deus para com seus filhos, não há pecado imperdoável!

TEXTOS BÍBLICOS UTILIZADOS: Ezequiel 18.23; 33.11; 2 Crônicas 33.2,6,9,12,13.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

MODALIDADES DE SUBSCRIÇÃO CONFESSIONAL

1. SUBSCRIÇÃO LITERAL OU ESTRITA - CARACTERÍSTICAS:

1.1. Subscrição na íntegra aos documentos confessionais, com aceitação plena inclusive da forma de expor as doutrinas e da terminologia usada;

1.2. Rejeição a qualificações, reservas ou exceções;

1.3. Reconhecimento de que a confissão é um padrão subordinado à Escritura, mas acentuando sua fidelidade à Escritura em elevado grau independentemente da época ou contexto.

2. SUBSCRIÇÃO REFERENCIAL OU AMPLA - CARACTERÍSTICAS:

2.1. Entendimento amplo do que seja subscrição ao sistema de doutrina, como referindo-se ao sistema doutrinário do Calvinismo em geral, e não necessariamente à redação explícita do documento confessional, ou seja, subscrição não a cada capítulo, artigo e afirmação teológica da confissão, tal como nela está escrito, mas ao sistema ao qual ela se refere;

2.2. Preocupação essencial sobre os aspectos fundamentais e flexibilidade sobre os aspectos não fundamentais;

2.3. Admissão de excessões, qualificações e reservas, cujo julgamento fica a critério do concílio perante o qual o candidato à ordenação se apresenta;

2.4. Reconhecimento de que a confissão é um padrão subordinado, cuja fidelidade à interpretação da Escritura é dependente da época e do contexto em que a primeira foi escrita.

3. SUBSCRIÇÃO INTEGRAL - CARACTERÍSTICAS:

3.1. Subscrição na íntegra ao sistema de doutrina calvinista, o que é identificado com o próprio texto confessional e não apenas como uma referência dele extraída;

3.2. Reconhecimento de sua fidelidade à Escritura independentemente de sua época ou contexto;

3.3. Admissão da possibilidade de qualificações, mas não de reservas ou exceções;

3.4. Reconhecimento do caráter subordinado, não-inerrante e não-infalível da confissão em relação à Escritura;

3.5. Reconhecimento de que há partes mais fundamentais que outras nas doutrinas da confissão, sem que isto dê a alguém, absolutamente, o direito de relativizar o grau de fidelidade de sua subscrição.

FONTE: Ulisses Horta Simões. A Subscrição Confessional: Necessidade, Relevância e Extensão. Belo Horizonte: Efrata Publicações, 2002. pp. 93-95.

sábado, 21 de janeiro de 2012

A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS COMO MANIFESTAÇÃO PROLÉPTICA DA TRANSFORMAÇÃO QUE OCORRERÁ NA PAROUSIA

“Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto monte. Foi transfigurado diante deles” (Marcos 9.2)

Geralmente a transfiguração é vista ou como sendo um simples vislumbre da divindade e da glória de Jesus Cristo ou como parte do cumprimento da sua missão. Porém, como destaca Gerald Bray: “Jesus não foi transfigurado com o objetivo de cumprir sua missão aqui e ali, mas para conceder aos discípulos uma imagem da vida futura”.[1] Sendo assim, a transfiguração possui enorme relevância para a compreensão da transformação que ocorrerá, por ocasião do Segundo Advento, nos corpos dos justos que estiverem vivos. Guthrie confirma isso ao afirmar que, “uma transformação notável aconteceu com uma pessoa viva e isso possui considerável relevância para a transformação daqueles que ainda estarão vivos na Parousia”.[2] O estudioso do Novo Testamento Thomas R. Schreiner entende que uma das funções do episódio da transfiguração é servir como “uma antecipação proléptica do retorno de Cristo, quando terá início o dia do julgamento e quando os escarnecedores serão destruídos”.[3]

É de singular importância que em Mateus 17.2 e Marcos 9.2, os evangelistas usem o verbo metamorfoô para falar da transfiguração. Essa palavra é empregada apenas quatro vezes em todo o Novo Testamento e possui como significado básico “uma mudança de forma e não apenas uma mudança de aparência”.[4] R. C. Sproul, ao analisar o verbo, diz o seguinte: “O substantivo, do qual se deriva o verbo usado aqui, descreve uma forma em sua essência e não uma mera máscara ou aparência temporária”.[5]

Em 2Pedro 1.16-18 a transfiguração é claramente conectada à segunda vinda de Jesus:

Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda (parousia) de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade, pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo. Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo.

No versículo 18, o evento aludido é claramente a transfiguração. Pedro estabelece uma nítida conexão entre esse evento e a Parousia. Donald Macleod diz que Pedro “discorre sobre a esperança da parousia a partir do fato da transfiguração”.[6]

No que tange à sua relação com a transformação que ocorrerá na Parousia, deve-se notar que, a transfiguração, ou seja, a transformação da forma de Cristo, não se deu de forma gradual e processual. Antes, foi instantânea e pôde ser testemunhada pelos discípulos espectadores. De acordo com Guthrie, “isso fornece um sinalizador para a forma dos vivos na Parousia”.[7] E mais: “Se há alguma ligação entre a transformação e a Parousia, podemos deduzir que uma mudança imediata é vista como sendo apropriada para a glorificação”.[8]

Isto posto, não é absurdo ver a transfiguração como proléptica da transformação que os santos vivos experimentarão futuramente. Macleod assevera de forma extraordinária:

A transfiguração ainda fala, porque expõe não somente a glória eternamente possuída pelo Senhor, e não somente a glória à qual ele, como Mediador encarnado, estava destinado, mas também a glória de seu povo [...] A transfiguração mostrou não somente o que ele se tornaria, mas o que nós nos tornaríamos. O Novo Testamento faz esta relação explicitamente. Nós devemos estar onde ele está (Jo 17.24). Nossos corpos devem ser conformados exatamente ao seu (Fp 3.21). Nós, nele, devemos partilhar da natureza divina (2Pe 1.4). Para Jesus no Monte, essa visão do que está além da cruz, não somente para ele próprio, mas para seu povo, foi um encorajamento imensurável.[9]

_______________________

NOTAS:

[1] Gerald Bray. Quem É Jesus? São Paulo: Shedd Publicações, 2008. p. 69. Ênfase acrescentada.

[2] Donald Guthrie. “Transformation and Parousia”. p. 41. É importante destacar que, em 1942, o estudioso G. H. Boobyer, na sua obra St. Mark and the Transfiguration Story, “via a transfiguração como prenúncio da parusia”. Cf. W. L. Liefeld, In: Lothar Coenen e Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 2. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 2550.

[3] Thomas R. Schreiner. New Testament Theology: Magnifying God in Christ. Nottingham, UK: Apollos, 2008. p. 115.

[4] Donald Guthrie. “Transformation and Parousia”. p. 41. O Thayer’s Greek Lexicon fala de uma simples transformação da aparência.

[5] R. C. Sproul. A Glória de Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 104.

[6] Donald Macleod. A Pessoa de Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. p. 108.

[7] Donald Guthrie. “Transformation and Parousia”. p. 41.

[8] Ibid.

[9] Donald Macleod. A Pessoa de Cristo. p. 113.
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