sábado, 3 de dezembro de 2011

APÓSTOLOS HOJE?

Por Abraham Kuyper

“Não sou eu, porventura, livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor? Acaso, não sois fruto do meu trabalho no Senhor?” (1Co 9.1).

Nós não podemos encerrar o assunto do apostolado sem dar uma última olhada no círculo de seus membros. Esse é um círculo fechado, e todo esforço para reabri-lo tende a obliterar uma característica da nova aliança.

No entanto, grande esforço tem sido empreendido nesse sentido repetidas vezes. Nós o vemos na sucessão apostólica de Roma; na concepção ética que, gradualmente, apaga a linha de separação entre os apóstolos e os crentes; e na sua forma mais ousada e concreta, entre os irvingitas.[1]

Os últimos asseveram que não apenas o Senhor deu à sua Igreja um colégio de apóstolos no início, mas também, agora, chamou uma corporação de apóstolos para preparar seu povo para a segunda vinda.

Entretanto, essa posição não pode ser sustentada com êxito. Nem nos discursos de Cristo, nem nas epístolas dos apóstolos, nem no Apocalipse nós encontramos a mínima insinuação de tal evento. O fim de todas as coisas é repetidamente anunciado. O Novo Testamento frequentemente relata em detalhes os eventos e sinais que deverão preceder a volta do Senhor. Eles são registrados tão minuciosamente que alguns dizem que até a data exata pode ser fixada. E, contudo, entre todas essas profecias, nós falhamos em descobrir o menor sinal de um apostolado subsequente. No panorama das coisas por vir, literalmente não há lugar para ele.

Tampouco os resultados obtidos por esses irmãos lograram satisfazer as suas expectativas. O seu apostolado tem sido um grande desapontamento. Ele não tem realizado quase nada. Eles têm ido e vindo sem deixar rastro. Nós não negamos que alguns desses homens fizeram coisas maravilhosas, mas, em primeiro lugar, os sinais realizados foram bem inferiores aos dos apóstolos; em segundo lugar, que um homem, como o pastor Blumhardt, também realizou sinais que merecem ser notados; terceiro, a Igreja Católica Romana algumas vezes oferece sinais que não são simulados nem artificiais; por último, o Senhor nos advertiu que estes seriam feitos por homens que não lhe pertencem.

Além disso, não vamos nos esquecer de que falta totalmente aos apóstolos dos irvingitas as marcas do apostolado. Esses sinais são: (1) uma chamada diretamente do Rei da Igreja; (2) uma qualificação peculiar do Espírito Santo, tornando-os infalíveis no serviço da igreja. Esses homens não têm nenhuma dessas marcas. Eles nos falam, na verdade, de um chamado que lhes chegou pela boca de profetas, mas isso é de pouco ou nenhum propósito, pois um chamado por um profeta não é igual a um chamado diretamente de Cristo, e o nome “profeta” é extremamente enganoso. A palavra profeta tem, nas páginas sagradas, uma aplicação ampla, e ocorre em dois sentidos, um limitado e outro geral. O primeiro envolve a revelação de um conhecimento que mera iluminação não pode produzir, enquanto o último se aplica a homens falando em êxtase santo para o louvor de Deus. Nós concordamos que a profecia no sentido geral é um dom permanente da igreja, razão pela qual os reformadores do século 16 tentaram reavivar esse ofício. Se os irvingitas, portanto, acreditarem que, em seus círculos, a atividade profética foi reavivada, nós não vamos discutir, embora não possamos dizer que os relatos das suas profecias tenham tido um efeito muito forte sobre nós. Digamos que o dom tenha sido restaurado. Mesmo assim nós perguntamos: o que ganharam com isso? Não há qualquer sinal de que esses profetas e profetizas sejam como os seus predecessores do Antigo Testamento. A vontade não revelada de Deus não foi revelada por eles. Se eles forem de algum modo profetas, então as suas profecias são meramente um falar para o louvor de Deus num estado de êxtase espiritual.

A inutilidade de um apelo a tais profetas para apoiar esse novo apostolado é evidente. Trata-se meramente de um esforço para apoiar um apostolado insustentável por um profetismo igualmente insustentável.

Tampouco deve-se esquecer que o trabalho desses que se chamam apóstolos não tem cumprido o seu papel. Eles têm falhado em exercer uma influência perceptível sobre o curso dos eventos. As instituições fundadas por eles em nenhum aspecto ultrapassaram as muitas organizações de novas igrejas testemunhadas por esse século. Eles não estabeleceram qualquer princípio novo; os seus trabalhos não manifestaram nenhum poder novo. Seja o que for que tiverem feito não traz o selo de uma origem celestial. E quase nenhum desses novos apóstolos morreu como os 12 genuínos apóstolos, na cruz ou na fogueira, mas em suas camas, rodeados por amigos e admiradores.

Entretanto, isso não é tudo. O nome apóstolo pode ser tomado (1) no sentido de ser chamado diretamente por Jesus como um embaixador de Deus, ou (2) num sentido geral, denotando todo homem enviado por Jesus à sua vinha, pois a palavra apóstolo significa uma pessoa que foi enviada. Em Atos 14.14, Barnabé é chamado de apóstolo não porque pertencesse ao grupo apostólico, mas meramente para indicar que ele tinha sido enviado pelo Senhor como seu missionário ou embaixador. Em Atos 13.1,2, Barnabé é mencionado antes de Saulo, que não é nem ao menos chamado pelo nome apostólico, o que mostra que esse chamado do Espírito Santo tinha caráter temporário apenas, para a missão em especial. Por essa razão, o Senhor Jesus Cristo, como aquele que foi enviado pelo Pai, o grande Missionário, veio a este mundo, o Embaixador de Deus à sua Igreja é chamado de Apóstolo: “Por isso, santos irmãos [...] considerai atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus” (Hb 3.1).

Se os irvingitas tivessem chamado de apóstolos os grandes reformadores do século 16 ou alguns líderes proeminentes da atualidade, não poderia haver qualquer grande objeção. Mas não foi isso o que quiseram dizer. Eles alegam que esses novos apóstolos devem ficar à frente da igreja num caráter peculiar, no mesmo plano que os primeiros apóstolos, embora empregados de forma diferente. Isso não pode ser aceito. Isso estaria em oposição direta com a declaração apostólica de 1Coríntios 4.9: “A mim me parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar,[2] como se fôssemos condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens”. Como o apóstolo Paulo podia falar de últimos apóstolos, se estivesse nos planos de Deus enviar outros 12 apóstolos ao mundo depois de 18 séculos?

Em vista dessa palavra positiva do Espírito Santo, nós remetemos a todos aqueles que entram em contato com os irvingitas o que as Escrituras dizem com respeito àqueles que se chamam de apóstolos e não o são: “Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo” (2Co 11.13). E o Senhor Jesus testifica à igreja de Éfeso: “Puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos” (Ap 2.2).

A noção de que os falsos apóstolos devem ser um tipo de diabo encarnado não se aplica de modo nenhum aos homens calmos, respeitáveis e veneráveis que frequentemente são vistos nos círculos dos irvingitas. Mas à parte dessa noção absurda e considerando que os falsos profetas do Antigo Testamento se pareciam tanto com os verdadeiros que algumas vezes enganaram até mesmo o povo de Deus, nós entendemos que os falsos apóstolos dos dias de João podiam ser detectados somente por um discernimento espiritual mais elevado e que os falsos apóstolos do século 19, que, pela sua semelhança com os genuínos 12 cegaram os olhos ao superficial, podem ser detectados apenas pela prova da Palavra de Deus. a Palavra declara que os 12 apóstolos do tempo de Paulo eram os últimos apóstolos, o que resolve o assunto desse pretenso apostolado.

Esse erro dos irvingitas não é, portanto, tão inocente. É fácil explicar como ele se originou. O estado deplorável e desditoso da igreja deve necessariamente dar lugar a numerosas seitas. Nós, de bom grado, reconhecemos que os irvingitas têm enviado muitas advertências e bem merecidas repreensões à nossa igreja superficial e dividida, mas esses bons préstimos de forma nenhuma justificam a prática daquilo que é condenado pela Palavra de Deus. Aqueles que têm se permitido ser influenciados pelos seus ensinamentos irão, cedo ou tarde, experimentar o seu resultado fatal. Já se tornou manifesto que esse movimento, que começou entre nós sob o pretexto de unir a Igreja pela reunião do povo do Senhor, conseguiu pouco mais do que acrescentar outra seita ao número já grande delas, dessa maneira roubando da Igreja de Cristo os poderes excelentes, que agora estão sendo desperdiçados.

Que o apostolado foi um círculo fechado, e não uma teoria flexível, está evidente em Atos 1.24,25: “Tu, Senhor... revela-nos qual desses dois tens escolhido para preencher a vaga nesse ministério e apostolado...”. Novamente, da palavra do apóstolo Paulo: “por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado” (Rm 1.5); e novamente: “Se não sou apóstolo para outrem, certamente o sou para vós outros; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor” (1Co 9.2); e, por fim: “Aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão também operou eficazmente em mim para com os gentios” (Gl 2.8). Essa exclusividade também é evidente pelos seguintes fatos: os apóstolos sempre aparecem como os 12; eles foram especialmente nomeados e ordenados por Jesus, que soprou sobre eles o dom oficial do Espírito Santo; pelo poder e pelos dons excepcionais, eles estavam ligados ao apostolado. É especialmente de seu lugar conspícuo na vinda do reino de nosso Senhor Jesus Cristo que o apostolado obtém seu caráter definido. As Sagradas Escrituras ensinam que os apóstolos deverão se sentar sobre 12 tronos para julgar as 12 tribos de Israel (Mt 19.28) e também que a muralha da Nova Jerusalém “tinha 12 fundamentos, e sobre esses estavam os 12 nomes dos 12 apóstolos do Cordeiro” (Ap 21.14).

O apóstolo Paulo nos oferece em sua própria pessoa a prova mais convincente de que o apostolado era um colégio fechado. Se não tivesse sido, a questão de se ele era um apóstolo ou não nunca poderia ter causado tanta contenda. No entanto, uma grande parte da Igreja se recusou a reconhecer seu apostolado. Ele não era um dos 12 e não tinha andado com Jesus. Como ele podia ser uma testemunha? Foi contra essa contenda que por várias vezes levantou sua voz com veemência. Esse fato é a chave para a compreensão de suas epístolas aos coríntios e aos gálatas. Elas ardem com um santo zelo pela realidade de seu apostolado, pois ele estava profundamente convencido de que era um apóstolo igual a Pedro e aos outros. Essa certeza não se baseava em mérito pessoal; em si mesmo, ele não era digno de ser chamado um apóstolo (1Co 15.9), mas tão logo seu ofício é atacado Paulo se levanta como um leão, pois isso toca a honra de seu Mestre, que lhe apareceu no caminho de Damasco não como se diz comumente, para convertê-lo – pois isso não é trabalho de Cristo, mas do Espírito Santo – mas para designá-lo apóstolo na Igreja que ele estava perseguindo.

Quanto à questão de como a adição do apóstolo Paulo aos 12 é consistente com esse número, nós estamos convencidos de que não o nome de Matias, mas o de Paulo, está escrito sobre as fundações da Nova Jerusalém junto com os outros; e que não Matias, mas o apóstolo Paulo, se sentará para julgar as 12 tribos de Israel. Como uma das tribos de Israel foi substituída por duas outras, isso também ocorreu no apostolado, pois, como Simeão, que se desviou, foi substituído por Manassés e Efraim, também Judas foi substituído por Matias e Paulo.

Nós não estamos dizendo que os apóstolos erraram em eleger Matias para preencher a vaga deixada pelo suicídio de Judas. Ao contrário, a inteireza do número apostólico não podia ser retardada até a conversão de Paulo. A vaga tinha de ser preenchida imediatamente. Mas deve-se dizer que, quando os discípulos escolheram Matias, tinham uma concepção muito diminuta da bondade do Senhor. Eles pensavam que, por um Judas, receberiam um Matias, e, veja só, Jesus deu-lhes Paulo. Quanto ao primeiro, as Escrituras mencionam sua eleição e nada mais. Contudo, embora para a Igreja dos tempos posteriores o apostolado sem o apóstolo Paulo fosse inimaginável, e embora tenha sido concedido à sua pessoa o primeiro lugar entre os apóstolos e aos seus escritos a autoridade mais elevada entre as Escrituras do Novo Testamento, à pessoa de Matias a eleição ao apostolado deve ter sido mais honrosa. O apostolado é uma posição tão elevada que o fato de ter sido identificado com ele, mesmo que temporariamente, comunica maior distinção ao nome de um homem do que uma coroa real.

FONTE: Abraham Kuyper. A Obra do Espírito Santo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. pp. 185-189.


[1] Os irvingitas são conhecidos na Inglaterra e América do Norte como Igreja Católica Apostólica (Henry de Vries).

[2] De acordo com a tradução holandesa utilizada por Kuyper, o texto diz: “Eu penso que Deus nos colocou como os últimos apóstolos, como se fôssemos condenados à morte” (N. do R.).

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