quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A PESSOA E A OBRA DO ESPÍRITO SANTO (O DOM DE LÍNGUAS NA IGREJA APOSTÓLICA E HOJE) - 2ª PARTE

1.3. AS LÍNGUAS NO NOVO TESTAMENTO ERAM PARA USO PÚBLICO

Nosso terceiro ponto sobre o estudo do dom de línguas nos diz que ele fora dado por Deus à igreja apostólica para ser usado publicamente, não privativamente. Por que isso é importante? Mais uma vez, os nossos irmãos pentecostais se equivocam quanto ao dom de línguas, dessa vez, no que diz respeito à esfera do seu uso. Sobre isso, é importante lermos o que o apóstolo Paulo escreveu em 1 Coríntios 12.4-7: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso”. Logo após estas palavras, o apóstolo passa a desenvolver o argumento de que a Igreja de Cristo é um corpo. A cada parte do corpo é dada uma função para auxiliar o resto do corpo. Por exemplo, “o olho impede o corpo de tropeçar. A boca fornece nutrição ao corpo. O ouvido ouve para o resto do corpo. Todos os diversos dons capacitam os membros do corpo de Cristo a ministrar uns aos outros”.[i] Nenhum membro do corpo recebe uma função para usar em seu próprio benefício. Então, esse é o primeiro entendimento que devemos possuir.

Com isso em mente, estamos prontos para avançarmos rumo à passagem de 1 Coríntios 14.18, 19. O apóstolo Paulo diz o seguinte: “Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua”. Os pentecostais afirmam que aqui, o apóstolo Paulo está fazendo uma distinção entre sua preferência de falar em línguas privativamente e falar em língua conhecida publicamente, na igreja. Entretanto, isto está errado. A comparação não é entre línguas, mas entre Paulo e os coríntios, que eram desejosos de promoverem o uso das línguas. A ordem das palavras do versículo 18 na língua original é interessante: “Dou graças a Deus, com relação a todos vós, falo mais em línguas” (Euvcaristw/ tw/| qew/|( pa,ntwn u`mw/n ma/llon glw,ssaij lalw). Talvez, para o espanto e a surpresa dos coríntios, o apóstolo Paulo afirmou que fala em línguas mais do que todos eles.

Então, no versículo 19, “Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua”, Paulo afirma que o seu conhecimento do dom de línguas é maior que o dos coríntios, e apesar de possuir tal conhecimento, ele não se deixa levar por isso, e na igreja, ele entende que a instrução pública tem a prioridade. Línguas, no Novo Testamento, sempre se destinaram ao uso público. Foi assim no dia de Pentecostes (Atos 2), na casa de Cornélio (Atos 10), entre os novos convertidos efésios (Atos 19), e foi assim na conturbada igreja de Corinto.

Com isso em mente, podemos perceber que as línguas contemporâneas não são as línguas neotestamentárias. Alguém pode objetar, dizendo que hoje em dias as pessoas falam em línguas publicamente. Mas, eu pergunto: apenas publicamente? A resposta é não! Pois elas são estimuladas a exercitarem o dom privativamente, em suas casas, ou “orando em línguas” baixinho durante o culto.

Existem ainda outros versículos que, aparentemente, fornecem ajuda aos carismáticos de nosso tempo. 1 Coríntios 14.27, 28: “No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus”. Uma coisa não pode sair da nossa cabeça. Os dons foram dados visando a edificação do Corpo, não apenas de uma pessoa. Eles foram dados para servirem a toda a comunidade de remidos. Este pressuposto deve guiar a nossa leitura do versículo 28. Reconhecemos o assunto principal de uma passagem a partir da ênfase que o autor coloca sobre ela. Aqui, Paulo está, mais uma vez, regulamentando o uso do dom de línguas no culto público. Percebam que o foco do apóstolo está no uso correto do dom. Ele diz que, apenas duas pessoas, quando muito três, poderiam falar em línguas na igreja (o padrão já é diferente das manifestações contemporâneas, onde inúmeras pessoas falam em línguas). Além disso, deveria existir uma ordem, um deveria falar após o outro, não ao mesmo tempo (mais uma vez, os pentecostais estão em desarmonia com o padrão apostólico, pois inúmeras pessoas falam em línguas ao mesmo tempo). A última exigência de Paulo é o pré-requisito da presença de um intérprete ou tradutor no culto. Sem isso, a pessoa deveria ficar calada na igreja. Mas, logo em seguida ele diz: “falando consigo mesmo e com Deus”. Não seria esse um indicativo de que o dom possui uma esfera privativa? A resposta também é não! Este falar indica reflexão no íntimo e agradecimento pelo dom concedido. E mesmo que o dom visasse o uso particular, isso só seria permitido quando não houvesse condições de beneficiar, primeiramente, todo o corpo. Em qualquer caso, o contexto pressupõe o uso público dos dons.

1.4. AS LÍNGUAS NO NOVO TESTAMENTO ERAM UM SINAL

Em quarto lugar, através da instrução do apóstolo Paulo à igreja de Corinto, nós podemos aprender que um dos propósitos do dom de línguas na igreja primitiva era servir como um sinal. O Dr. Palmer Robertson afirma o seguinte sobre as línguas: “As línguas serviam como sinal da parte de Deus concernente ao cumprimento de profecias particulares acerca de uma dramática mudança na direção do procedimento de Deus para operar no mundo”.[ii] Diz o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 14.20-22: “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos. Na lei está escrito: Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos; mas a profecia não é para os incrédulos, e sim para os que crêem”.

Em primeiro lugar, Paulo chama as línguas de “sinal” (shmei/o,n). As línguas são um sinal do cumprimento do Pacto. Percebam, que o apóstolo faz uma citação de uma passagem do Antigo Testamento, Isaías 28.11. No entanto, pelo menos “três diferentes autores em três diferentes livros do Velho Testamento explicitamente profetizam sobre as línguas”.[iii] Uma outra referência foi feita bem antes, por Moisés, em Deuteronômio 28.49: “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o vôo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás”. Este versículo se encontra no trecho de Deuteronômio que contém as bênçãos e as maldições decorrentes do Pacto. O terceiro profeta a falar das línguas como um sinal de maldição foi Jeremias: “Eis que trago sobre ti uma nação de longe, ó casa de Israel, diz o SENHOR; nação robusta, nação antiga, nação cuja língua ignoras; e não entendes o que ela fala” (Jeremias 5.15). Em cada caso, as Escrituras indicam que as línguas são um sinal de maldição para Israel.

Na citação de Isaías, Paulo quer dar a entender que as pessoas da igreja de Corinto estavam agindo infantilmente no que diz respeito à importância exagerada que elas davam ao dom de línguas. Elas estavam agindo como crianças, sem nenhuma maturidade, sem nenhum juízo. Eles estavam agindo como os israelitas que ouviram a profecia de Isaías. Eles agiam como crianças desmamadas, afastadas dos seios maternos. Os coríntios usavam esse dom como que por diversão, sem se preocupar se os outros entendiam ou não o significado da língua.

O povo de Israel na época de Isaías se comportava como criança. Então, o profeta anunciou o juízo divino sobre o povo em decorrência de sua insensatez: “Pelo que por lábios gaguejantes e por língua estranha falará o SENHOR a este povo” (Isaías 28.11). O sentido é que se você não ouvir a clara Palavra de Deus em sua língua materna, então Deus lhe falará através de um idioma estrangeiro. Ele lhe falará para que ouça palavras da forma como crianças ouvem a conversação do mundo adulto. Quando um adulto fala com um bebê, o bebê ouve apenas balbucios. Ele não compreende. A mesma coisa aconteceria com Israel quando ouvisse as línguas.

Mais particularmente, a criancinha Israel ouve palavras de juízo. As línguas representavam a chegada do juízo divino sobre Israel. Quando o povo impenitente ouvisse os homens que invadiram sua terra falando em linguagem estranha, deveria reconhecer em tal fato um sinal de que Deus trouxe seu juízo sobre eles por meio de um exército estrangeiro. Mais uma vez, o comentário do Dr. Palmer Robertson é muito interessante: “Uma nação cuja língua não era a língua deles viria sobre eles para executar a ira e a maldição de Deus. Sua relação favorável para com eles terminaria através de um povo cuja língua eles não poderiam entender”.[iv] Este contexto nos ajuda a entendermos a afirmação de Paulo, de que “as línguas são um sinal”.

Um sinal não deve ser considerado como um fim em si mesmo. Um sinal aponta para algo. Um sinal serve como um indicador, apontando para algo de muito maior valor. Um sinal pode indicar uma mudança de direção. Nesse sentido, as línguas estrangeiras funcionam como um sinal, indicando que Deus está fazendo uma mudança.

E que mudança seria essa? Deus estava indicando que não mais um único idioma a um único povo. Agora, através do dom de línguas no Pentecostes, Deus indica que pretende falar a muitos povos em muitos idiomas. Ele falará em todos os idiomas do mundo, a todos os povos da terra. Nesse sentido, as línguas significavam juízo para Israel. Basta lermos as palavras de Jesus para entendermos isso: “Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos” (Mateus 21.43).

As línguas faladas nos dias de Pentecostes eram um sinal de maldição pactual para Israel. Deus não os teria mais como povo exclusivo. “O cristianismo não era mais uma religião exclusivamente ‘judaica’, a despeito de suas origens claramente judaicas”.[v]

Os pentecostais e os carismáticos ignoram esse propósito do dom de línguas. Para eles, esse sinal diz respeito apenas ao “resultado negativo do abuso específico das línguas (ou seja, seu uso sem interpretação na assembléia pública)”.[vi] Isso quer dizer que, para os pentecostais, o termo “sinal” quer dizer algo negativo que acaba espantando os incrédulos.

1.5. AS LÍNGUAS NO NOVO TESTAMENTO ERAM TEMPORÁRIAS

O quinto e último ponto do nosso estudo a respeito do dom de línguas diz respeito à sua temporariedade. Isso quer dizer que, o dom como tal (idiomas estrangeiros, possuindo conteúdo revelacional, para o uso público na igreja e como um sinal), não mais existe. A teologia reformada é cessacionista, ou seja, ela afirma que os dons revelacionais e miraculosos cessaram, não mais existem.

Deteremo-nos na questão do dom de línguas. Veremos alguns argumentos que nos levam a crer que o dom apostólico não mais existe.

O primeiro argumento, está embutido na característica das línguas como sinal. Quando passamos por um sinal indicador ele fica pra trás. Quando mudamos a direção do nosso trajeto, o sinal que indicou a direção ficou para trás. Um sinal é de caráter temporariamente limitado. “O viajante não apanha o sinal para levá-lo consigo. Uma vez tenha-se completado a conversão, o sinal terá completado a sua utilidade”.[vii] Uma vez que Deus já mudou a direção do tratamento para com o mundo, e não se relaciona mais exclusivamente com Israel, não há mais nenhuma necessidade para o sinal que foi empregado por Ele. Se o Evangelho hoje é pregado a praticamente todos os idiomas, qual a necessidade do dom em nossos dias? Nenhuma!

Além disso, o apóstolo Paulo, corrigindo abusos existentes no uso dos dons, deu outra razão para que os coríntios não dessem grande importância ao dom de línguas: ele cessaria! Muitas pessoas ignoram a declaração do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 13.8-10: “O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência passará; porque em parte conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado”. Percebam, irmãos, que já naqueles dias, Paulo aguardava o período em que as línguas cessariam. A cessação das línguas era uma certeza. O verbo “cessarão” (pau,sontai) está no modo indicativo, o que denota a certeza absoluta do seu cumprimento. A grande pergunta é: quando as línguas deveriam cessar? Paulo nos responde no versículo 10: “Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado”. Quando o “perfeito” vier, esse é o tempo da cessação das línguas. Mas, que “perfeito” é esse?

Algumas pessoas que o termo “perfeito” aqui se aplica a Jesus em seu retorno. Esse entendimento é defendido pelos pentecostais e por alguns que são abertos a essas manifestações. Para eles, o dom de línguas vai continuar até chegarmos ao céu. Entretanto, como diz Samuel R. Davidson, o termo “perfeito” (te,leion) “naqueles versículos, expressa claramente o sentido daquilo que é ‘completo’, sem faltar nada”.[viii] Outra coisa que devemos entender é a referência que Paulo faz à visão “face a face” (v. 12). Novamente, alguns pensam que temos uma referência à volta de Jesus. No entanto, devemos entender que “face a face” está contrastando com o termo “espelho”. Essa palavra tem um “sentido figurativo, e significa que quando ele escreveu havia muitas coisas concernentes ao plano de Deus e à Igreja que ainda não tinham sido claramente reveladas”.[ix] Além disso, os espelhos da época de Paulo não eram como os nossos. “Devemos entender que um espelho no tempo de Paulo era um pedaço de metal polido que muitas vezes era colocado deitado sobre uma mesa”.[x] Conseqüentemente, a imagem refletida não era perfeita. Assim sendo, com “face a face”, Paulo está falando de um tempo quando chegaria uma revelação completa e exata sobre a vontade de Deus para a sua Igreja.

Que revelação perfeita é essa, meus amados irmãos? Que revelação divina é perfeita e completa? Que revelação divina é suficiente para guiar a Igreja do Senhor em todas as coisas? A resposta é uma só: a perfeita, completa e suficiente Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, o Cânon completo das Escrituras.

Quando o cânon foi completado com o último versículo do Apocalipse de João, e quando o autor desse livro, o último dos apóstolos morreu, logicamente, a Igreja passou a possuir a revelação perfeita de Deus, e a revelação parcial cessou. Tal entendimento é confirmado pelo caráter das línguas. Vimos que as línguas eram revelacionais. Então, a igreja não necessita mais da revelação que as línguas puderam fornecer. A única coisa de que a Igreja e o mundo precisam hoje é a proclamação da Palavra de Deus a nós legada desde os tempos de outrora. Não se necessita de nada mais.

A História da Igreja também confirma isso. Com a morte de João, as línguas cessaram. Percorremos toda a história e não ouvimos falar absolutamente nada sobre o dom de línguas, com exceção de movimentos heréticos, como o Montanismo, por exemplo. Nenhum dos pais da Igreja mencionou as línguas. Nenhum dos Reformadores. Por que Deus faria o dom retornar 1800 anos depois? E só na ala pentecostal? Não deveria ser em toda a cristandade?

· CONCLUSÃO

Concluímos nosso estudo sobre o dom de línguas. Pudemos verificar que o que as Escrituras ensinam sobre esse dom é bem diferente, mas bem diferente mesmo, do que é ensinado pelo pentecostalismo:

PENTECOSTALISMO

ESCRITURAS

As línguas são um idioma celestial ou angelical.

As línguas são dialetos ou idiomas estrangeiros.

As línguas são uma forma de comunicação com Deus: oração.

As línguas são uma forma de comunicação de Deus: revelação.

As línguas devem ser usadas privativamente.

As línguas devem ser usadas publicamente.

As línguas não são um sinal de maldição para Israel.

As línguas são um sinal de maldição do Pacto.

As línguas ainda continuarão até o retorno de Jesus Cristo.

As línguas cessaram com o fechamento do Cânon bíblico.

As diferenças são perceptíveis, meus amados irmãos. O pentecostalismo e a Bíblia não estão “falando a mesma língua”. Um dos dois tem de estar errado. Eu acredito piamente que esse alguém não é a Bíblia, a perfeita e inerrante Palavra de Deus. Pois bem, se não é a Bíblia a outra parte deve estar errada. Com certeza!

A grande pergunta é: DE QUE LADO VOCÊ VAI SE POSICIONAR? VAI FICAR EM CIMA DO MURO? Não existe meia-verdade. Existe verdade completa e mentira completa.

Que Deus nos abençoe!

Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

SDG!


[i] O. Palmer Robertson, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje, 43.

[ii] Ibid, 47.

[iii] Ibid, 49.

[iv] O. Palmer Robertson, Línguas: Sinal de Maldição e de Bênção do Pacto, 17.

[v] O. Palmer Robertson, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje, 55.

[vi] C. Samuel Storms em Wayne Grudem (org.), Coleção Debates Teológicos: Cessaram os Dons Espirituais?, 228.

[vii] O. Palmer Robertson, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje, 54.

[viii] Samuel R. Davidson, Dom de Línguas, pág. 4. Artigo extraído do site http://www.monergismo.com. Sem data de acesso.

[ix] Ibid.

[x] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios, 650.

Um comentário:

discernindoostempos disse...

Amado irmão Alan Rennê,´

O seu blog é muito bom!

É um prazer ler os seus textos,são esclarecedores.

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