terça-feira, 11 de outubro de 2011

QUANDO O FUTEBOL SE TRANSFORMA NUM ÍDOLO DO CORAÇÃO

Ainda faz parte do ideário de algumas denominações evangélicas a noção de que o futebol é algo demoníaco. Dizem até que, caso Jesus Cristo retorne no momento em que um crente esteja jogando futebol, este perderá a sua salvação. Em determinada ocasião tive acesso a um exemplar da Bíblia de uma dessas denominações que, trazia um manual de conduta para os seus membros. No texto desse manual constava que o futebol era uma atividade proibida para os cristãos, pois aqueles que se envolvem nessa atividade estão adorando a “bola do capeta”.

Não cremos que isso seja verdade. De fato, não existe nada de pecaminoso no futebol em si. Na verdade, trata-se de um esporte legítimo, uma atividade física benfazeja que devidamente desfrutada pode glorificar a Deus. É gostoso e saudável desfrutar uma partida de futebol. Também é bom torcer para um determinado clube, sofrer em frente à televisão e se alegrar com as vitórias do clube do coração. Eu mesmo sou torcedor e já fui sócio-torcedor de um clube. Entendo que minha fé cristã não pode estar dissociada dessa área e, por isso tento pautar minha conduta pelos princípios ensinados pelas Sagradas Escrituras.

Entretanto, dada a nossa inclinação pecaminosa e corrupta temos uma capacidade enorme de tomar aquilo que foi criado por Deus (a capacidade humana para a prática esportiva. Não estou afirmando que o futebol foi criado por Deus!), e usar de forma pecaminosa, desagradando a Deus e entristecendo o Espírito Santo. No caso, apesar de o futebol não ser algo pecaminoso, podemos pecar com muita facilidade ao fazer uso desse esporte, seja na sua prática seja ao torcermos para o nosso “clube do coração”.

Os Ídolos do Coração

O uso da expressão acima foi deliberado. Especificamente, todos nós podemos incorrer no erro de transformar o time para o qual torcemos em um ídolo do coração. A passagem de Ezequiel 14.1-4 fala sobre a idolatria abrigada no nosso homem interior:

Então, vieram ter comigo alguns dos anciãos de Israel e se assentaram diante de mim. Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Filho do homem, estes homens levantaram os seus ídolos dentro do seu coração, tropeço para a iniquidade que sempre têm eles diante de si; acaso, permitirei que eles me interroguem? Portanto, fala com eles e dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Qualquer homem da casa de Israel que levantar os seus ídolos dentro do seu coração, e tem tal tropeço para a sua iniquidade, e vier ao profeta, eu, o SENHOR, vindo ele, lhe responderei segundo a multidão dos seus ídolos.

Deus, por intermédio do profeta Ezequiel, denuncia o pecado da idolatria praticado pelos anciãos de Israel. Não se tratava de uma manifestação exterior idolátrica. Os ídolos apontados pelo Senhor estavam abrigados nos corações daqueles homens. Eles eram tão culpados quanto os pagãos que esculpiam os seus falsos deuses, pois seus ídolos estavam erigidos em seus corações. Eles tinham ídolos no coração, uma forma mais pessoal e fundamental de idolatria do que ritos religiosos ou idolatria cultural.

Mas o que seria um ídolo do coração? Paul David Tripp afirma que, “um ídolo do coração é qualquer coisa que me governe que não o próprio Deus”.[1] Elyse Fitzpatrick afirma que a idolatria está diretamente relacionada com a quebra do primeiro grande mandamento: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento” (Mateus 22.37-38). Ela afirma que “idolatria tem a ver com amor – meu amor por Ele, meu amor por outros, meu amor pelo mundo”.[2] Um ídolo do coração é algo que a pessoa adora porque ela acredita que esse algo é a fonte da satisfação dos seus desejos mais íntimos. É tudo aquilo que homem ama mais do que a Deus, e que ocupa o lugar que por direito pertence ao Senhor.

E o Futebol?

A idolatria é um pecado que também se manifesta em nosso relacionamento com o futebol. Em outras palavras, é comum transformarmos o futebol em um ídolo do coração. Muitas vezes amamos mais o futebol que a Deus. Nesse ponto, acredito que seja necessário apontar de que maneira podemos identificar se possuímos algum desejo desordenado em relação ao futebol, ou seja, um ídolo do coração.

1. Sempre que você estiver disposto a pecar para conseguir a satisfação do teu desejo; e

2. Sempre que você reage de forma pecaminosa por não conseguir satisfazer o desejo do teu coração.

Quando uma ou as duas situações ocorrem, certamente, há um ídolo presente em nosso coração. Qualquer coisa que desejamos que para conseguir tenhamos que transgredir algum dos mandamentos da Palavra de Deus, ou que, ao não conseguir, reagimos de maneira pecaminosa, esta coisa é um ídolo do coração.

Sempre que transgredimos um dos mandamentos da Sagrada Escritura para satisfazermos nossos desejos ou por jogar ou por ver uma partida de futebol, e sempre que reagimos de forma pecaminosa quando a satisfação desses desejos não acontece acabamos por transformar o futebol num ídolo do coração. Com isso em mente, gostaria de exemplificar como isso se dá em relação ao quarto e ao nono mandamento.

O Futebol como Ídolo do Coração e o Quarto Mandamento

O quarto mandamento diz (Êxodo 20.8-11):

Lembra-te do dia do Senhor, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou.

Apesar de a passagem de Êxodo mencionar apenas o trabalho, outras passagens das Escrituras que versam sobre o quarto mandamento mostram, de forma categórica, que o entretenimento e a diversão também estão incluídos no espírito do mandamento. Tomemos como exemplo Isaías 58.13-14:

Se desviares o pé de profanares o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então, te deleitarás no SENHOR. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do SENHOR o disse.

O Senhor é muito claro ao mostrar que Ele seria honrado quando o Seu povo deixasse de cuidar dos seus próprios interesses e de seguir a própria vontade (não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade). Sendo assim, o dia do Senhor, que nas palavras da Confissão de Fé de Westminster, “desde a ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana [...] e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão”[3], deve ser honrado por nós com um santo repouso dos nossos “empregos seculares e de suas recreações”.[4] O Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta 119, diz que dentre os pecados proibidos pelo espírito do quarto mandamento se encontram “toda profanação do dia por ociosidade e por fazer aquilo que é em si pecaminoso, e por todas as obras, palavras e pensamentos desnecessários, tocantes às nossas ocupações e recreios seculares”.[5] Comentando esta pergunta do nosso Catecismo, o Dr. Johannes Geerhardus Vos diz que:

Conquanto algumas atividades possam ser classificadas como “duvidosas”, as seguintes são inquestionavelmente erradas no dia de sábado e deveriam ser excluídas: estudar lições escolares; ler livros e revistas comuns; ouvir transmissões de qualquer tipo, exceto as religiosas ortodoxas; jogar qualquer jogo, dentro ou fora de casa; escrever cartas para amigos, parentes ou outros; conversar sobre questões financeiras ou de trabalho; visita social; piquenique; assistir a diversões públicas ou eventos esportivos de qualquer tipo”.[6]

Aproveito ainda para evocar o testemunho de Lewis Bayly, puritano do século 17, que escreveu um importante livro sobre a prática da piedade. Sobre a maneira correta de se guardar o dia do Senhor, Bayly afirma que ela consiste, em primeiro lugar, “em descansar de toda atividade servil e comum relacionada com a nossa vida natural”.[7] Nesse sentido, de acordo com ele, devemos nos abster de “todas as recreações e práticas desportivas lícitas nos outros dias, pois, se os trabalhos lícitos são proibidos nesse dia, muito mais os desportos lícitos, os quais usurpam os afetos que deveriam ser dedicados à contemplação das realidades celestiais”.[8] Bayly acrescenta que, “não é possível que o homem que se deleita no Senhor (Sal. 37.4) tenha maior prazer nalguma recreação do que em santificar o dia do Senhor”.[9] Ademais, se alguma recreação deve ter lugar no dia do Senhor, ele afirma que apenas aquela que “ajude a alma a fazer mais alegremente o serviço a Deus”.[10]

O futebol pode ser considerado como um ídolo do coração pelo simples fato de ser ele a recreação preferida da grande maioria dos crentes no dia do Senhor. Nossa satisfação e nosso deleite estão em ficar na frente da TV, ir aos estádios e também em praticar esse esporte. Tornamos a nossa quebra do quarto mandamento declarada ao usarmos as redes sociais para divulgar nossas opiniões a respeito da partida que estamos vendo. Temos usado esse tempo precioso enchendo a nossa mente de coisas que não nos edificam nem nos ajudam na nossa comunhão com o Senhor no dia designado por Ele. Imaginamos que não há nenhum problema em se assistir a uma “partidazinha” de futebol na televisão, desde que estejamos no culto à noite.

Duas ocasiões vêm à minha mente agora. A primeira delas se deu quando almoçava com um amigo num domingo e, após o almoço, ele disse o seguinte: “Bem, agora é futebol! E de noite, Deus!” Não era apenas Deus! Era Deus e mais alguma coisa! A segunda foi no ano passado, durante a copa do mundo da África do Sul. O segundo jogo da fase de grupos da seleção brasileira foi contra a seleção da Costa do Marfim. O jogo aconteceu num domingo. Por essa razão, durante a escola dominical daquela manhã eu orientei a igreja através de uma reflexão em Isaías 58.13-14 e com a exposição do Catecismo Maior quanto ao dia do Senhor. Disse ainda que, deveríamos lembrar sempre que, antes de sermos brasileiros, somos filhos de Deus e, por isso, devemos obediência a Ele; disse que por sermos filhos de Deus, somos cidadãos da Nova Jerusalém e, portanto, no dia do Senhor, nossos pensamentos deveriam estar voltados à reflexão piedosa quanto às realidades celestiais. Foi aí que um senhor da igreja me disse: “É, mas somos brasileiros de uma forma ou de outra! Por isso, vamos assistir ao jogo!”

Isso nos mostra, de forma clara, como o futebol tem se tornado num ídolo do coração, pois pecamos para conseguir a satisfação do nosso desejo no dia do Senhor, e, quando, por alguma razão, perdemos a partida do nosso “time do coração” ficamos chateados ao extremo.

O Futebol como Ídolo do Coração e o Nono Mandamento

O nono mandamento afirma: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êxodo 20.16). Como sabemos, o princípio de cada um dos mandamentos é maior do que o que está expresso por sua letra. A progressividade da revelação escrita de Deus nos mostra isso de forma clara. O nono mandamento não proíbe apenas palavras falsas ditas contra alguém. Ele também contempla os pecados cometidos contra a honra do nosso próximo. Consideremos a excelente exposição feita pelo nosso Catecismo Maior de Westminster:

Os pecados proibidos no nono mandamento são: tudo quanto prejudica a verdade e a boa reputação de nosso próximo, assim como a nossa, especialmente em julgamento público [...] o falar a verdade importunamente, ou com malícia para um fim mau; pervertê-la em sentido falso, ou proferi-la duvidosa e equivocadamente, para prejuízo da verdade ou da justiça; o falar inverdades, mentir, caluniar, maldizer, detrair, tagarelar, cochichar, escarnecer, vilipendiar, censurar temerária e asperamente ou com parcialidade [...] o praticar ou não evitar aquelas coisas que trazem má fama, ou não impedir em outras coisas, até onde pudermos.[11]

Muitas vezes sentimos prazer em estereotipar pessoas que torcem para times diferentes dos nossos. Não nos importamos se muitas são nossas irmãs na fé. Pior ainda é quando nós, pastores, ministros do evangelho, tomamos parte nessa flagrante quebra do nono mandamento. Adjetivos depreciativos como “bambis” (no caso de torcedores são-paulinos), “bandidos” (atribuído a torcedores do Corinthians), “bonecas” (flamenguistas) e muitos outros termos, configuram-se como quebra do nono mandamento. Quando alcunhamos alguém por termos semelhantes a esses estamos caluniando, difamando, infamando, escarnecendo e testemunhando falsamente contra o nosso próximo.

Ao chamarmos um são paulino de “bambi” estamos fazendo uso de um adjetivo que evoca a homossexualidade. Dói ver irmãos e colegas de ministério fazendo uso desse adjetivo e postando fotos depreciativas, como se ser são-paulino fosse equivalente e a ser homossexual. Da mesma forma, é pecaminoso dizer que “flamenguista” e “corinthiano” são sinônimos de bandidagem e criminalidade. Tais expressões foram empregadas primeiramente por descrentes e, infelizmente, muitos são os crentes e pastores que estão tomando a forma de pensar do mundo e estão agindo da mesma maneira.

Ao satisfazermos nosso desejo de torcedor xingando e difamando outras pessoas estamos evidenciando que o futebol há muito deixou de ser uma recreação saudável e passou a ser um ídolo do coração.

Devemos nos arrepender desse pecado. Devemos chorar pelas vezes em que agimos dessa forma, quebrando o dia do Senhor e escarnecendo do nosso irmão por causa da nossa paixão pelo futebol. Não creio que torcer por algum clube seja incompatível com a fé cristã. Não acredito que jogar futebol seja pecado. Entretanto, pode vir a ser.

Minha sincera oração é para que o Senhor nos desperte e restaure em nós o zelo pelo santo descanso e pelo bom nome dos nossos irmãos.

Kyrie Eleison!



[1] Paul David Tripp. Instrumentos nas Mãos do Redentor. São Paulo: NUTRA Publicações, 2009. p. 100.

[2] Elyse Fitzpatrick. Ídolos do Coração: Aprendendo a Desejar Apenas Deus. São Paulo: ABCB, 2009. p. 17.

[3] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. XXI.7. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 177.

[4] Ibid. XXI.8. p. 179. Ênfase acrescentada.

[5] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 166. Ênfase acrescentada.

[6] Johannes Geerhardus Vos. Catecismo Maior de Westminster Comentado. São Paulo: Os Puritanos, 2007. p. 384-385. Ênfase acrescentada.

[7] Lewis Bayly. A Prática da Piedade. São Paulo: PES, 2010. p. 263.

[8] Ibid. p. 264. Ênfase acrescentada.

[9] Ibid. p. 265.

[10] Ibid.

[11] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. p. 212-213.

Um comentário:

Evangelista Diógilei Oliveira. disse...

Na realidade o que acontece é que vejo um certo euforismo acontecendo,não só no meio evangélico,mas também no secular.É óbvio que o comportamento do nosso povo é bem diferente dos países de clima frio e portanto mais comedido.Mas como o evangelho é universal,cita regras de conduta que pode ser observada por um brasileiro ou por um africano ou até mesmo por um asiático.
O que precisamos entender é que se nos pautarmos nos ensinos bíblicos para nosso bem estar espiritual,podemos estar onde estivermos que o que há dentro de nós nos informará o nosso proceder,visto que, não somente num jogo,mas também numa circusntância desfavorável.
Um cordial abraço...

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