sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DO AMOR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO

“E um deles, intérprete da Lei, experimentando-o, lhe perguntou: Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus22.35-39).

É comum lermos e ouvirmos interpretações absurdas das palavras de Jesus no texto acima. Há quem imagine que aqui o Senhor Jesus Cristo está apresentando, na verdade, três mandamentos: 1) Amar a Deus sobre todas as coisas; 2) Amar o próximo; e 3) Amar a si mesmo. Certa feita li uma interpretação feita por um pastor que me deixou estarrecido. Ele interpretou as palavras de Jesus no versículo 39 da seguinte maneira:

“– Jesus diz que para poder amar o próximo eu preciso amar primeiramente a mim mesmo. Não posso amar a ninguém sem que, primeiro, me ame. Como poderei amar a quem quer que seja se eu não amo nem a mim?”

Mas será que é isso mesmo que Jesus está ensinando? Jesus está, por acaso, estimulando o amor ao ego como ponte para o amor ao próximo?

De forma alguma! Ao dizer que o homem deve amar o seu próximo como a si mesmo, Jesus está ordenando que seja feito a outra pessoa o benefício que, presente e naturalmente, é feito a si mesmo. A expressão “a ti mesmo” estabelece um parâmetro que já é conhecido experimentalmente por aquele que recebe o mandamento. No caso, eu posso dizer que sei exatamente como devo amar ao meu próximo. E posso dizer que sei, porque tenho um parâmetro em mim mesmo, que me fornece o ideal a ser posto em prática no amor pelo meu próximo. É esse o entendimento de Calvino. De acordo com ele, o homem já é devotado a si mesmo. Ele comenta: “Pois, visto que cada homem é devotado a si mesmo, nunca existirá verdadeiro amor ao próximo, a menos que o amor de Deus reine”[1]. Escrevendo no contexto da discussão sobre as motivações corretas que devem ser inculcados nos corações filhos, Lou Priolo corrobora esse entendimento: “O motivo do cristão deveria ser amar seu próximo (com a mesma intensidade) que ama a si mesmo. Como todo homem naturalmente ‘alimenta e estima a si mesmo’ assim o cristão deve amar ao seu próximo da mesma maneira”[2].

Então, você deve amar ao teu próximo da exata maneira como você já ama a si mesmo. Deve desejar em relação ao teu próximo o mesmo que você deseja pra si. O bispo J. C. Ryle colocou nos seguintes termos: “Aquele que ama ao próximo recusará fazer-lhe qualquer dano proposital, seja em sua pessoa, caráter ou propriedade. Contudo, não parará aí. Em todos os sentidos desejará fazer-lhe o bem. De todos os meios promoverá o seu conforto e felicidade. Procurará aliviar suas tristezas e fomentar suas alegrias”[3]. É exatamente isso que Jesus ordenou através daquilo que ficou conhecido como a Regra Áurea: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mateus 7.12). Deve-se notar que a mesma razão é apresentada pelo Senhor Jesus ao ordenar os dois grandes mandamentos da Lei: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (v. 40).

Isto posto, meu desejo sincero é que o Senhor nos ajude a entesourarmos em nossos corações a verdadeira natureza do amor ao próximo. Além disso, que por meio da assistência divina, amemos ao nosso próximo não somente “de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1João 3.18).

NOTAS:

[1] John Calvin. Commentary on Matthew, Mark, Luke. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1999. p. 35. Extraído do site: http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom33.html.

[2] Lou Priolo. O Coração da Ira: Guia Prático para Lidar com a Ira dos Filhos. São Paulo: Nutra, 2009. p. 140.

[3] J. C. Ryle. Meditações no Evangelho de Mateus. São José dos Campos: Fiel, 2002. p. 192-193.

2 comentários:

Leonardo J. N. Félix disse...

Rennê,

Muito bom o esclarecimento. Parabéns pelo blog.

Gostaria de convidá-la a sermos parceiros. Conheça o nosso blog:http://criticasagrada.blogspot.com/

Deus te abençoe sempre.

Milton Almeida disse...

Não é interessante que aos discípulos (nós?) Jesus estabeleceu um parâmetro de amor ainda maior do que "a si mesmo"? Ele nos deu um NOVO mandamento: Amem (do verbo amar), como EU vos amei. Agora o parâmetro em que devo de orientar para amar os outros não é mais o amor que tenho por mim mesmo, MAS O AMOR QUE ELE TEM POR MIM! Podemos dizer que amamos nossos irmãos, os outros discípulos de Jesus, com o mesmo amor que ELE NOS AMA?

Não creio que Deus, Jesus, nos comande a fazer algo que não possamos atingir. Como "sede santos como EU sou santo..." Mas tal santidade é impossível, não é mesmo? Porém, podemos confiar que DEUS já providenciou para que a seus OLHOS somos Santos como Ele! Paulo diz que já somos completos nEle e a palavra "completos" é a mesma palavra usada através do N.T. para a palavra PERFEITO; Deus também providenciou a SANTIFICAÇÃO para que fôssemos, sim, santos como Ele deseja que sejamos.

Assim também é com o amor: Não teremos dificuldade em amar uns aos outros COMO CRISTO NOS AMOU, se pela fé crermos que Deus já providenciou para que amemos aos outros como Ele nos amou. Os discípulos de Jesus que se tornaram os apóstolos, e os heróis da fé, chegaram mesmo a morrer quando poderíam evitar a morte e negado a fé, delatado seus irmãos, e cometido atos de traição. A história da igreja está pontilhada por estes heróis! Pois então, eles receberam de Deus a capacidade de amar como Jesus amou, dando sua própria vida, não poupando sacrifícios para que o Evangelho não fosse envergonhado. Amaram ao Evangelho e a seus irmãos como Jesus os amou!

Sim podemos amar como Jesus nos amou!

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