sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DO AMOR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO

“E um deles, intérprete da Lei, experimentando-o, lhe perguntou: Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus22.35-39).

É comum lermos e ouvirmos interpretações absurdas das palavras de Jesus no texto acima. Há quem imagine que aqui o Senhor Jesus Cristo está apresentando, na verdade, três mandamentos: 1) Amar a Deus sobre todas as coisas; 2) Amar o próximo; e 3) Amar a si mesmo. Certa feita li uma interpretação feita por um pastor que me deixou estarrecido. Ele interpretou as palavras de Jesus no versículo 39 da seguinte maneira:

“– Jesus diz que para poder amar o próximo eu preciso amar primeiramente a mim mesmo. Não posso amar a ninguém sem que, primeiro, me ame. Como poderei amar a quem quer que seja se eu não amo nem a mim?”

Mas será que é isso mesmo que Jesus está ensinando? Jesus está, por acaso, estimulando o amor ao ego como ponte para o amor ao próximo?

De forma alguma! Ao dizer que o homem deve amar o seu próximo como a si mesmo, Jesus está ordenando que seja feito a outra pessoa o benefício que, presente e naturalmente, é feito a si mesmo. A expressão “a ti mesmo” estabelece um parâmetro que já é conhecido experimentalmente por aquele que recebe o mandamento. No caso, eu posso dizer que sei exatamente como devo amar ao meu próximo. E posso dizer que sei, porque tenho um parâmetro em mim mesmo, que me fornece o ideal a ser posto em prática no amor pelo meu próximo. É esse o entendimento de Calvino. De acordo com ele, o homem já é devotado a si mesmo. Ele comenta: “Pois, visto que cada homem é devotado a si mesmo, nunca existirá verdadeiro amor ao próximo, a menos que o amor de Deus reine”[1]. Escrevendo no contexto da discussão sobre as motivações corretas que devem ser inculcados nos corações filhos, Lou Priolo corrobora esse entendimento: “O motivo do cristão deveria ser amar seu próximo (com a mesma intensidade) que ama a si mesmo. Como todo homem naturalmente ‘alimenta e estima a si mesmo’ assim o cristão deve amar ao seu próximo da mesma maneira”[2].

Então, você deve amar ao teu próximo da exata maneira como você já ama a si mesmo. Deve desejar em relação ao teu próximo o mesmo que você deseja pra si. O bispo J. C. Ryle colocou nos seguintes termos: “Aquele que ama ao próximo recusará fazer-lhe qualquer dano proposital, seja em sua pessoa, caráter ou propriedade. Contudo, não parará aí. Em todos os sentidos desejará fazer-lhe o bem. De todos os meios promoverá o seu conforto e felicidade. Procurará aliviar suas tristezas e fomentar suas alegrias”[3]. É exatamente isso que Jesus ordenou através daquilo que ficou conhecido como a Regra Áurea: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mateus 7.12). Deve-se notar que a mesma razão é apresentada pelo Senhor Jesus ao ordenar os dois grandes mandamentos da Lei: “Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (v. 40).

Isto posto, meu desejo sincero é que o Senhor nos ajude a entesourarmos em nossos corações a verdadeira natureza do amor ao próximo. Além disso, que por meio da assistência divina, amemos ao nosso próximo não somente “de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade” (1João 3.18).

NOTAS:

[1] John Calvin. Commentary on Matthew, Mark, Luke. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1999. p. 35. Extraído do site: http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom33.html.

[2] Lou Priolo. O Coração da Ira: Guia Prático para Lidar com a Ira dos Filhos. São Paulo: Nutra, 2009. p. 140.

[3] J. C. Ryle. Meditações no Evangelho de Mateus. São José dos Campos: Fiel, 2002. p. 192-193.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

SOBRE A SUBSCRIÇÃO CONFESSIONAL - LI E GOSTEI!

“Uma igreja, uma denominação que descuida da fidelidade confessional, da acurácia do ensino de seus presbíteros e ministros, da integridade e da unidade da fé que Paulo tão veementemente solicitou aos filipenses, está fadada a perder sua identidade; perdendo sua identidade, está fadada a manter em suas próprias fileiras crentes e oficiais que abraçam e se contentam com desvios, distorções e heresias que outros crentes e oficiais da mesma denominação combatem. Que resulta disto? Uma agradável e ecumênica convivência fraternal na multiplicidade de interpretações? Jamais! Ao contrário, uma dispersão tão grande de pontos de vista que soa mal e parece estranha aos que enxergam de fora. É uma sensação de desconforto e mal-estar àqueles que, estando dentro, não veem meios de conciliar tais ideias discrepantes”.

FONTE: Ulisses Horta Simões. A Subscrição Confessional: Necessidade, Relevância e Extensão. Belo Horizonte: Efrata, 2002. p. 67.

“Estou seguro em afirmar que podemos classificar como leviandade, nada menos do que isto, a subscrição que alguém faz a um símbolo de fé sem saber exatamente o que está subscrevendo. A subscrição precisa ser inteiramente consciente, após um exame criterioso do documento que se vai subscrever. Por outro lado, podemos classificar como uma incongruência grosseira e desonesta a subscrição que alguém faz a um símbolo de fé sabendo o que está fazendo, isto é, afirmando que crê no conteúdo do mesmo e conhecendo esse conteúdo, mas se desviando de segui-lo na prática, ou mesmo deixando de “batalhar diligentemente” por esta fé uma vez por todas entregue aos santos (Jd 3)”.

FONTE: Ulisses Horta Simões. A Subscrição Confessional: Necessidade, Relevância e Extensão. p. 73.

“Que pentecostais e carismáticos, que não têm qualquer compromisso com uma exposição ou interpretação confessional identificada com um sistema, o admitam, vá lá; é até admissível (embora ainda questionável). Mas que um ministro ou outro oficial de uma igreja confessional – a Presbiteriana, por exemplo – que subscreve padrões como os de Westminster por exemplo, os quais se pronunciam de uma maneira tão contundente sobre o assunto logo em seu capítulo inicial, admita tal tipo de categorização de revelação, aceitando as de cunho contemporâneo, isto é de estranhar (e lamentar)”.

FONTE: Ulisses Horta Simões. A Subscrição Confessional: Necessidade, Relevância e Extensão. p. 77-78.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

QUANDO O FUTEBOL SE TRANSFORMA NUM ÍDOLO DO CORAÇÃO

Ainda faz parte do ideário de algumas denominações evangélicas a noção de que o futebol é algo demoníaco. Dizem até que, caso Jesus Cristo retorne no momento em que um crente esteja jogando futebol, este perderá a sua salvação. Em determinada ocasião tive acesso a um exemplar da Bíblia de uma dessas denominações que, trazia um manual de conduta para os seus membros. No texto desse manual constava que o futebol era uma atividade proibida para os cristãos, pois aqueles que se envolvem nessa atividade estão adorando a “bola do capeta”.

Não cremos que isso seja verdade. De fato, não existe nada de pecaminoso no futebol em si. Na verdade, trata-se de um esporte legítimo, uma atividade física benfazeja que devidamente desfrutada pode glorificar a Deus. É gostoso e saudável desfrutar uma partida de futebol. Também é bom torcer para um determinado clube, sofrer em frente à televisão e se alegrar com as vitórias do clube do coração. Eu mesmo sou torcedor e já fui sócio-torcedor de um clube. Entendo que minha fé cristã não pode estar dissociada dessa área e, por isso tento pautar minha conduta pelos princípios ensinados pelas Sagradas Escrituras.

Entretanto, dada a nossa inclinação pecaminosa e corrupta temos uma capacidade enorme de tomar aquilo que foi criado por Deus (a capacidade humana para a prática esportiva. Não estou afirmando que o futebol foi criado por Deus!), e usar de forma pecaminosa, desagradando a Deus e entristecendo o Espírito Santo. No caso, apesar de o futebol não ser algo pecaminoso, podemos pecar com muita facilidade ao fazer uso desse esporte, seja na sua prática seja ao torcermos para o nosso “clube do coração”.

Os Ídolos do Coração

O uso da expressão acima foi deliberado. Especificamente, todos nós podemos incorrer no erro de transformar o time para o qual torcemos em um ídolo do coração. A passagem de Ezequiel 14.1-4 fala sobre a idolatria abrigada no nosso homem interior:

Então, vieram ter comigo alguns dos anciãos de Israel e se assentaram diante de mim. Veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Filho do homem, estes homens levantaram os seus ídolos dentro do seu coração, tropeço para a iniquidade que sempre têm eles diante de si; acaso, permitirei que eles me interroguem? Portanto, fala com eles e dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Qualquer homem da casa de Israel que levantar os seus ídolos dentro do seu coração, e tem tal tropeço para a sua iniquidade, e vier ao profeta, eu, o SENHOR, vindo ele, lhe responderei segundo a multidão dos seus ídolos.

Deus, por intermédio do profeta Ezequiel, denuncia o pecado da idolatria praticado pelos anciãos de Israel. Não se tratava de uma manifestação exterior idolátrica. Os ídolos apontados pelo Senhor estavam abrigados nos corações daqueles homens. Eles eram tão culpados quanto os pagãos que esculpiam os seus falsos deuses, pois seus ídolos estavam erigidos em seus corações. Eles tinham ídolos no coração, uma forma mais pessoal e fundamental de idolatria do que ritos religiosos ou idolatria cultural.

Mas o que seria um ídolo do coração? Paul David Tripp afirma que, “um ídolo do coração é qualquer coisa que me governe que não o próprio Deus”.[1] Elyse Fitzpatrick afirma que a idolatria está diretamente relacionada com a quebra do primeiro grande mandamento: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento” (Mateus 22.37-38). Ela afirma que “idolatria tem a ver com amor – meu amor por Ele, meu amor por outros, meu amor pelo mundo”.[2] Um ídolo do coração é algo que a pessoa adora porque ela acredita que esse algo é a fonte da satisfação dos seus desejos mais íntimos. É tudo aquilo que homem ama mais do que a Deus, e que ocupa o lugar que por direito pertence ao Senhor.

E o Futebol?

A idolatria é um pecado que também se manifesta em nosso relacionamento com o futebol. Em outras palavras, é comum transformarmos o futebol em um ídolo do coração. Muitas vezes amamos mais o futebol que a Deus. Nesse ponto, acredito que seja necessário apontar de que maneira podemos identificar se possuímos algum desejo desordenado em relação ao futebol, ou seja, um ídolo do coração.

1. Sempre que você estiver disposto a pecar para conseguir a satisfação do teu desejo; e

2. Sempre que você reage de forma pecaminosa por não conseguir satisfazer o desejo do teu coração.

Quando uma ou as duas situações ocorrem, certamente, há um ídolo presente em nosso coração. Qualquer coisa que desejamos que para conseguir tenhamos que transgredir algum dos mandamentos da Palavra de Deus, ou que, ao não conseguir, reagimos de maneira pecaminosa, esta coisa é um ídolo do coração.

Sempre que transgredimos um dos mandamentos da Sagrada Escritura para satisfazermos nossos desejos ou por jogar ou por ver uma partida de futebol, e sempre que reagimos de forma pecaminosa quando a satisfação desses desejos não acontece acabamos por transformar o futebol num ídolo do coração. Com isso em mente, gostaria de exemplificar como isso se dá em relação ao quarto e ao nono mandamento.

O Futebol como Ídolo do Coração e o Quarto Mandamento

O quarto mandamento diz (Êxodo 20.8-11):

Lembra-te do dia do Senhor, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhum trabalho, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o forasteiro das tuas portas para dentro; porque, em seis dias, fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou.

Apesar de a passagem de Êxodo mencionar apenas o trabalho, outras passagens das Escrituras que versam sobre o quarto mandamento mostram, de forma categórica, que o entretenimento e a diversão também estão incluídos no espírito do mandamento. Tomemos como exemplo Isaías 58.13-14:

Se desviares o pé de profanares o sábado e de cuidar dos teus próprios interesses no meu santo dia; se chamares ao sábado deleitoso e santo dia do SENHOR, digno de honra, e o honrares não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falando palavras vãs, então, te deleitarás no SENHOR. Eu te farei cavalgar sobre os altos da terra e te sustentarei com a herança de Jacó, teu pai, porque a boca do SENHOR o disse.

O Senhor é muito claro ao mostrar que Ele seria honrado quando o Seu povo deixasse de cuidar dos seus próprios interesses e de seguir a própria vontade (não seguindo os teus caminhos, não pretendendo fazer a tua própria vontade). Sendo assim, o dia do Senhor, que nas palavras da Confissão de Fé de Westminster, “desde a ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana [...] e que há de continuar até ao fim do mundo como o sábado cristão”[3], deve ser honrado por nós com um santo repouso dos nossos “empregos seculares e de suas recreações”.[4] O Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta 119, diz que dentre os pecados proibidos pelo espírito do quarto mandamento se encontram “toda profanação do dia por ociosidade e por fazer aquilo que é em si pecaminoso, e por todas as obras, palavras e pensamentos desnecessários, tocantes às nossas ocupações e recreios seculares”.[5] Comentando esta pergunta do nosso Catecismo, o Dr. Johannes Geerhardus Vos diz que:

Conquanto algumas atividades possam ser classificadas como “duvidosas”, as seguintes são inquestionavelmente erradas no dia de sábado e deveriam ser excluídas: estudar lições escolares; ler livros e revistas comuns; ouvir transmissões de qualquer tipo, exceto as religiosas ortodoxas; jogar qualquer jogo, dentro ou fora de casa; escrever cartas para amigos, parentes ou outros; conversar sobre questões financeiras ou de trabalho; visita social; piquenique; assistir a diversões públicas ou eventos esportivos de qualquer tipo”.[6]

Aproveito ainda para evocar o testemunho de Lewis Bayly, puritano do século 17, que escreveu um importante livro sobre a prática da piedade. Sobre a maneira correta de se guardar o dia do Senhor, Bayly afirma que ela consiste, em primeiro lugar, “em descansar de toda atividade servil e comum relacionada com a nossa vida natural”.[7] Nesse sentido, de acordo com ele, devemos nos abster de “todas as recreações e práticas desportivas lícitas nos outros dias, pois, se os trabalhos lícitos são proibidos nesse dia, muito mais os desportos lícitos, os quais usurpam os afetos que deveriam ser dedicados à contemplação das realidades celestiais”.[8] Bayly acrescenta que, “não é possível que o homem que se deleita no Senhor (Sal. 37.4) tenha maior prazer nalguma recreação do que em santificar o dia do Senhor”.[9] Ademais, se alguma recreação deve ter lugar no dia do Senhor, ele afirma que apenas aquela que “ajude a alma a fazer mais alegremente o serviço a Deus”.[10]

O futebol pode ser considerado como um ídolo do coração pelo simples fato de ser ele a recreação preferida da grande maioria dos crentes no dia do Senhor. Nossa satisfação e nosso deleite estão em ficar na frente da TV, ir aos estádios e também em praticar esse esporte. Tornamos a nossa quebra do quarto mandamento declarada ao usarmos as redes sociais para divulgar nossas opiniões a respeito da partida que estamos vendo. Temos usado esse tempo precioso enchendo a nossa mente de coisas que não nos edificam nem nos ajudam na nossa comunhão com o Senhor no dia designado por Ele. Imaginamos que não há nenhum problema em se assistir a uma “partidazinha” de futebol na televisão, desde que estejamos no culto à noite.

Duas ocasiões vêm à minha mente agora. A primeira delas se deu quando almoçava com um amigo num domingo e, após o almoço, ele disse o seguinte: “Bem, agora é futebol! E de noite, Deus!” Não era apenas Deus! Era Deus e mais alguma coisa! A segunda foi no ano passado, durante a copa do mundo da África do Sul. O segundo jogo da fase de grupos da seleção brasileira foi contra a seleção da Costa do Marfim. O jogo aconteceu num domingo. Por essa razão, durante a escola dominical daquela manhã eu orientei a igreja através de uma reflexão em Isaías 58.13-14 e com a exposição do Catecismo Maior quanto ao dia do Senhor. Disse ainda que, deveríamos lembrar sempre que, antes de sermos brasileiros, somos filhos de Deus e, por isso, devemos obediência a Ele; disse que por sermos filhos de Deus, somos cidadãos da Nova Jerusalém e, portanto, no dia do Senhor, nossos pensamentos deveriam estar voltados à reflexão piedosa quanto às realidades celestiais. Foi aí que um senhor da igreja me disse: “É, mas somos brasileiros de uma forma ou de outra! Por isso, vamos assistir ao jogo!”

Isso nos mostra, de forma clara, como o futebol tem se tornado num ídolo do coração, pois pecamos para conseguir a satisfação do nosso desejo no dia do Senhor, e, quando, por alguma razão, perdemos a partida do nosso “time do coração” ficamos chateados ao extremo.

O Futebol como Ídolo do Coração e o Nono Mandamento

O nono mandamento afirma: “Não dirás falso testemunho contra o teu próximo” (Êxodo 20.16). Como sabemos, o princípio de cada um dos mandamentos é maior do que o que está expresso por sua letra. A progressividade da revelação escrita de Deus nos mostra isso de forma clara. O nono mandamento não proíbe apenas palavras falsas ditas contra alguém. Ele também contempla os pecados cometidos contra a honra do nosso próximo. Consideremos a excelente exposição feita pelo nosso Catecismo Maior de Westminster:

Os pecados proibidos no nono mandamento são: tudo quanto prejudica a verdade e a boa reputação de nosso próximo, assim como a nossa, especialmente em julgamento público [...] o falar a verdade importunamente, ou com malícia para um fim mau; pervertê-la em sentido falso, ou proferi-la duvidosa e equivocadamente, para prejuízo da verdade ou da justiça; o falar inverdades, mentir, caluniar, maldizer, detrair, tagarelar, cochichar, escarnecer, vilipendiar, censurar temerária e asperamente ou com parcialidade [...] o praticar ou não evitar aquelas coisas que trazem má fama, ou não impedir em outras coisas, até onde pudermos.[11]

Muitas vezes sentimos prazer em estereotipar pessoas que torcem para times diferentes dos nossos. Não nos importamos se muitas são nossas irmãs na fé. Pior ainda é quando nós, pastores, ministros do evangelho, tomamos parte nessa flagrante quebra do nono mandamento. Adjetivos depreciativos como “bambis” (no caso de torcedores são-paulinos), “bandidos” (atribuído a torcedores do Corinthians), “bonecas” (flamenguistas) e muitos outros termos, configuram-se como quebra do nono mandamento. Quando alcunhamos alguém por termos semelhantes a esses estamos caluniando, difamando, infamando, escarnecendo e testemunhando falsamente contra o nosso próximo.

Ao chamarmos um são paulino de “bambi” estamos fazendo uso de um adjetivo que evoca a homossexualidade. Dói ver irmãos e colegas de ministério fazendo uso desse adjetivo e postando fotos depreciativas, como se ser são-paulino fosse equivalente e a ser homossexual. Da mesma forma, é pecaminoso dizer que “flamenguista” e “corinthiano” são sinônimos de bandidagem e criminalidade. Tais expressões foram empregadas primeiramente por descrentes e, infelizmente, muitos são os crentes e pastores que estão tomando a forma de pensar do mundo e estão agindo da mesma maneira.

Ao satisfazermos nosso desejo de torcedor xingando e difamando outras pessoas estamos evidenciando que o futebol há muito deixou de ser uma recreação saudável e passou a ser um ídolo do coração.

Devemos nos arrepender desse pecado. Devemos chorar pelas vezes em que agimos dessa forma, quebrando o dia do Senhor e escarnecendo do nosso irmão por causa da nossa paixão pelo futebol. Não creio que torcer por algum clube seja incompatível com a fé cristã. Não acredito que jogar futebol seja pecado. Entretanto, pode vir a ser.

Minha sincera oração é para que o Senhor nos desperte e restaure em nós o zelo pelo santo descanso e pelo bom nome dos nossos irmãos.

Kyrie Eleison!



[1] Paul David Tripp. Instrumentos nas Mãos do Redentor. São Paulo: NUTRA Publicações, 2009. p. 100.

[2] Elyse Fitzpatrick. Ídolos do Coração: Aprendendo a Desejar Apenas Deus. São Paulo: ABCB, 2009. p. 17.

[3] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. XXI.7. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 177.

[4] Ibid. XXI.8. p. 179. Ênfase acrescentada.

[5] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 166. Ênfase acrescentada.

[6] Johannes Geerhardus Vos. Catecismo Maior de Westminster Comentado. São Paulo: Os Puritanos, 2007. p. 384-385. Ênfase acrescentada.

[7] Lewis Bayly. A Prática da Piedade. São Paulo: PES, 2010. p. 263.

[8] Ibid. p. 264. Ênfase acrescentada.

[9] Ibid. p. 265.

[10] Ibid.

[11] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. p. 212-213.

domingo, 2 de outubro de 2011

ADORAÇÃO EM ESPÍRITO E EM VERDADE - O TESTEMUNHO DE UM CORAÇÃO SATISFEITO EM DEUS

INTRODUÇÃO
* A verdadeira prioridade da igreja cristã: a adoração.

* A evangelização, mesmo com toda a sua importância, não é a maior responsabilidade da igreja. Na verdade, a evangelização é um meio para se atingir um fim. Ela é o meio designado por Deus para que pessoas sejam transformadas de filhas do diabo a filhas de Deus e adoradoras do Pai.

* A adoração é tão importante, meus irmãos, que a Sagrada Escritura nos diz que o próprio Deus se digna em procurar pessoas que o adorem (João 4.23). Se o próprio Deus se envolve nessa busca é porque a adoração não é coisa de somenos importância.

* Exemplo dessa relação: o Êxodo (4.21-23; 5.1; 7.16; 8.1,20). Lembremos que o Êxodo é uma representação da nossa libertação espiritual. Assim sendo, a proclamação do evangelho de Jesus Cristo tem o propósito de libertar pessoas que se encontram cativas, para que, libertas, possam celebrar uma festa espiritual a Deus.

* Infelizmente, a igreja evangélica tem enfrentado alguns problemas no que diz respeito à adoração. A razão dos problema enfrentados está numa mudança de mentalidade. Em nossos dias, o propósito da grande maioria das pessoas ao se dirigir para uma igreja é o de relaxar após um estafante dia de trabalho. Consequentemente, as igrejas são procuradas para que agradem as pessoas que, de adoradoras passaram a consumidoras. A crise é tamanha, que um pastor canadense chamado A. W. Tozer chegou a afirmar que a adoração "é a jóia perdida das igrejas evangélicas".

* Então, dada a importância que a adoração possui, nada mais urgente que observarmos nas Sagradas Escrituras o que o Senhor Jesus Cristo tem a nos ensinar a este respeito.

DEFININDO ADORAÇÃO
* Adoração é "a atividade da nova vida de um crente na qual, reconhecendo a plenitude da Divindade como revelada na pessoa de Jesus Cristo e seus poderosos atos redentores, busca pelo poder do Espírito Santo prestar ao Deus vivo a glória, honra e submissão que lhe é devida" (Robert Rayburn).

* Adoração é atribuir dignidade a Deus: Apocalipse 5.12.

* Na adoração, "o homem toma o seu devido lugar, com sua face no pó e Deus é reconhecido por aquilo que Ele é: o Criador, Preservador e Soberano Redentor de seu eleito" (Paul Mizzi).

* Na adoração, o homem testemunha diante de Deus que o Senhor é a sua alegria, o motivo da sua canção.

* Nossos pais na fé diziam que a adoração realizada no domingo, no dia do Senhor, era uma espécie de feira da alma, onde a alma faminta e desejosa de Deus encontrava o seu suprimento. As pessoas se dirigiam à igreja por entenderem que ali elas teriam um encontro marcante e poderoso com o Deus que as libertara espiritualmente, e, nesse encontro, suas almas ficariam completamente extasiadas ante a beleza, a glória e a majestade do Senhor. Suas almas sairiam dali fartas, prontas para enfrentarem os desafios da semana e glorificarem a Deus. Em nossos dias esta percepção tem estado ausente. Não há mais a noção de que aquele momento é um encontro íntimo entre o Deus Criador e Redentor com a alma salva pela graça. E isso tem acarretado graves consequências para a vida das pessoas: frieza, indiferença, improdutividade, fraco testemunho e etc.

* Por aquilo que a adoração é em si mesma, e devido aos problemas que hoje enfrentamos nessa área, cabe-nos olharmos para o ensinamento de Jesus Cristo a respeito da verdadeira adoração.

O ENSINO DE JESUS SOBRE A ADORAÇÃO
* O ensino de Jesus a respeito da adoração se deu no contexto de um encontro com uma mulher cuja vida era marcada pela imoralidade, pelo pecado sexual. Tratava-se de uma mulher que já havia tido cinco maridos e vivia com um sexto que não era seu marido (v. 18). E, interessantemente, é a denúncia feita por Jesus do pecado daquela mulher que redireciona a discussão para a adoração. O que nós podemos aprender aqui, em primeiro lugar, é que, "tem a ver com vida real. Ela não é um intervalo mítico em uma semana de realidade. Adoração tem a ver com adultério, com fome e com conflito racial" (John Piper. Desiring God. Multnomah Publishers, 2003. p. 77).

* Logo depois de ter o seu pecado apontado por Jesus, a mulher samaritana muda de assunto, focando a adoração. Acontece que, ela quer discutir o "onde" da adoração, ou seja, qual o lugar correto para se adorar a Deus (v. 20). ABORDAR A CONTROVÉRSIA EXISTENTE ENTRE OS JUDEUS E OS SAMARITANOS APÓS A DIVISÃO DO REINO.

* A resposta de Jesus é impressionante (v. 21). Ele está dizendo àquela mulher e a nós também que, "é possível adorar a Deus em vão em ambos os lugares: no seu e no nosso" (John Piper. op. cit. p. 81). Verificar a passagem de Isaías 29.13. Isso nos mostra que o lugar onde a adoração é prestada não possui mais nenhuma importância. No culto do Antigo Testamento o lugar era importante. Não podia ser qualquer lugar. De acordo com Deuteronômio 12.1-14. Entretanto, com a vinda de Jesus, que era em si mesmo o cumprimento de todos os símbolos do culto do Antigo Testamento, o lugar deixa de ter importância: "Disse-lhe Jesus: Mulher, podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai". Então, não existe mais um lugar específico. Não existe uma terra mais santa do que as outras. Hoje, com a vinda de Jesus, terra santa é aquela onde a igreja, o povo de Deus se reúne para adorar o Pai, na mediação de Jesus Cristo e no poder do Espírito Santo.

* Depois disso, no versículo 22, Jesus mostra à mulher samaritana que o que importa na adoração, antes de qualquer coisa, é o Quem, Aquele a quem adoramos. Jesus estava dizendo àquela mulher que eles, os samaritanos, possuíam um culto deficiente porque tinham um conhecimento deficiente de Deus. Eles adoravam a Deus sem conhecê-lo! ABORDAR A REJEIÇÃO SAMARITANA DO ANTIGO TESTAMENTO, COM EXCEÇÃO DOS CINCO PRIMEIROS LIVROS. O conhecimento de Deus que eles possuíam era deficiente. Portanto, Jesus diz à mulher que o culto samaritano era deficiente!

* Irmãos, "adoração deve ser vital e real no coração, e adoração deve descansar em uma verdadeira percepção de Deus" (John Piper. op. cit. p. 81).

* E isso nos leva ao segundo assunto essencial abordado por Jesus? Após falar sobre o Quem, sobre a necessidade de se conhecer ao Deus que é adorado, Jesus passa a falar sobre o Como, o modo correto de se adorar a Deus.

* Ele afirma no versículo 23: "Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores". Percebam, queridos irmãos, Jesus fala de "verdadeiros adoradores". Se existem verdadeiros adoradores, isso significa que também existem falsos adoradores. Mas, o que diferencia um verdadeiro adorador de um falso adorador?

* O que diferencia um falso e um verdadeiro adorador é o modo como ambos apresentam seu culto ao Senhor. No versículo 24, Jesus nos apresenta o modo correto de adorar o verdadeiro Deus: "Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade". É necessário que a adoração seja carregada desses dois elementos: espírito e verdade.

* O que é adorar a Deus em espírito? Adorar a Deus em espírito é o oposto de adorar de maneira meramente externa. É o oposto de formalismo vazio. A verdadeira adoração "emerge do coração em temor a Deus e numa fé genuína pela obra do Espírito" (Thomas Miersma. Sobre o Ensino Referente à Adoração. p. 1). Quando deixamos de adorar a Deus em espírito? Quando nos dirigimos à igreja, tomamos o nosso lugar nos bancos, e permanecemos indiferentes diante da beleza refulgente de Deus. Você deixa de adorar a Deus de forma espiritual quando cultua apenas por obrigação, quando canta apenas por cantar, quando ora sem nenhum desejo de que o Senhor se agrade da tua oração e estenda a sua poderosa mão sobre você; quando o culto é um fardo e você não vê a hora de acabar para que possa fazer aquilo que realmente te dá prazer. Você também deixa de adorar a Deus em espírito quando o teu deleite não está no Senhor, mas nos atos de culto, como por exemplo, quando você canta porque se deleita naquela determinada música. Adorar a Deus em espírito é se deleitar nEle. É cantar porque você o ama e o desejo acima de tudo. É confessar como o salmista Asafe: "Quem mais tenho eu no céu? Não há outro em quem eu me compraza na terra. Ainda que a minha carne e o meu coração desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para sempre" (Salmo 73.25-26).

* E o que seria adorar a Deus em verdade? Nesse ponto, precisamos compreender em que sentido o apóstolo João e Jesus usam a palavra "verdade". Em João 17.17 está escrito: "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade". Adorar a Deus em verdade, queridos irmãos, é cultuá-lo de acordo com a sua Palavra, de acordo com a sua vontade revelada. Vejamos algo interessante dito por Jesus: "E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens" (Marcos 7.7). Percebam, queridos irmãos, de acordo com Jesus, adorar a Deus em vão é adorá-lo de acordo com preceitos e regras criados pelo ser humano. Sendo assim, a adoração verdadeira, aquela que não é prestada em vão, é aquela oferecida a Deus segundo os preceitos e as regras de Deus. Isso significa dizer, queridos, que tudo aquilo que fazemos precisa estar de acordo com a vontade soberana de Deus revelada na Bíblia Sagrada, a nossa única regra de fé e prática. Nossas orações devem ser bíblicas, moldadas pelo conhecimento que possuímos de Deus através da Palavra. Nossos cânticos precisam ser baseados na Escritura e não em nossos sentimentos que muitas vezes são enganosos: "Os teus decretos são motivo dos meus cânticos, na casa da minha peregrinação" (Salmo 119.54). Outra versão diz: "Os teus estatutos têm sido os meus cânticos no lugar das minhas peregrinações" (ALMEIDA REVISTA E CORRIGIDA).

* Irmãos, devemos encher nossas mentes e nossos corações do conhecimento da Palavra. Certamente, isso melhorará o nosso culto a Deus. Quanto mais conhecemos a Palavra, mais conhecemos a Deus. E quanto mais conhecemos a Deus, mais basearemos a nossa adoração naquilo que sabemos a respeito de Deus (Hebreus 10.19-22; 12.28-29). A última passagem é particularmente interessante, pois ela mostra que o conhecimento que o autor tinha dos atributos de Deus determinava a maneira como ele se aproximava de Deus em adoração. Porque Deus é fogo consumidor, ou seja, porque Deus é santo, justo e terrível em seu juízo, devemos nos aproximar dEle com reverência e profunda humildade. Da mesma forma, queridos, o conhecimento que adquirimos dos outros atributos gloriosos de Deus influenciará positivamente a nossa adoração. Por conhecermos a misericórdia de Deus, nos aproximaremos com confiança e santa ousadia, pois sabemos que fomos sarados e perdoados por causa de Jesus Cristo. Por conhecermos o amor de Deus, o adoraremos embebidos do seu amor, e o desejaremos acima de todas as coisas. Por conhecermos a bondade de Deus, o cultuaremos na plena convicção de que Ele nos abençoará. Por sabermos que o Senhor é fiel, podemos orar na certeza de que Ele nos ouvirá. Percebam, então,nauseosos irmãos, como é urgente, como é imperativo que atentemos para o modo correto e aceitável de adorar o verdadeiro Deus.

CONCLUSÃO

* Como você tem adorado a Deus? A visão que você possui da adoração está em harmonia com o ensinamento de Jesus? Se a resposta é não, o convite da Palavra de Deus é para que você sinta o poder libertador e transformador da Palavra, quando ela nos dirige na adoração prestada ao nosso Pai celestial.


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TESTEMUNHO SOBRE O PENTECOSTALISMO


A PEDIDO DE UM PASTOR ESCREVI ESTAS OBSERVAÇÕES
por Nelson Nincao, quinta, 29 de setembro de 2011 às 11:58
1). O que o irmão citou sobre o Pentecostalismo realmente não é tudo. Porque o que acontece lá dentro é muito, muito pior. Eu estive mais de trinta (30) anos dentro daquele movimento. Vi quase tudo o que ocorre lá dentro. É de arrepiar. Hoje, depois que o bom Deus abriu os meus olhos, vejo o quanto eu estava enganado. Sair do Pentecostalismo, para mim, foi uma das maiores bênçãos da minha vida. Nesses anos todos em que estive lá dentro a única coisa boa que posso falar de lá é que há forte motivação e entusiasmo para fazer as coisas. Os pentecostais são muito dedicados. Mas, diga-se de passagem, os Mórmons, Testemunhas de Jeová e Maometanos também o são. Muitos dos pentecostais também são muito sinceros e realmente querem agradar a Deus, mas estão cegos. Têm um zelo sem entendimento (Rom. 10.2).

2). Eu comecei a conhecer o Evangelho numa igreja pentecostal. Eles não davam ênfase na leitura da Bíblia, mas eu queria conhecer a Palavra de Deus. Fui ensinado que os demais crentes, evangélicos não tinham o Espírito Santo. Também fui ensinado que os pastores são ungidos de Deus, quase infalíveis. Ninguém podia julgar o que diziam. Ai daquele que tocasse o “ungido de Deus”. Seria amaldiçoado. Aliás, amaldiçoar as pessoas que discordam deles é uma prática comum no meio pentecostal. Eu mesmo fui vítima dessa maldição algumas vezes. Dois líderes que mais considerava me amaldiçoaram.


3). Línguas estranhas. Aqui foi onde tudo começou. O movimento pentecostal começou com a chamada “segunda bênção”, que tinha como sinal ou evidência o “falar em línguas”. Todos ali são quase que obrigados a falar em “línguas”. Durante todo esse tempo que estive ali eu nunca ouvi uma língua estrangeira ou um dialeto. O que ouvia eram algaravias, - sons incompreensíveis que não dizem nada e que cada um interpreta como quer. As “profecias” eram sempre em torno de coisas óbvias, ou coisas que ninguém podia provar, e até bobagens como “profecias” sobre a vida dos outros, relacionamentos, vestimentas, etc; as “revelações” nunca podiam ser comprovadas. Se era sobre alguma enfermidade, geralmente nem mesmo a própria pessoa tinha conhecimento da enfermidade. Assim por diante.

4). Mais tarde alguns setores do movimento pentecostal não enfatizavam tanto a necessidade do falar em “línguas”, mas o ensino sobre uma “segunda benção”, uma experiência após a conversão, continuou sendo ensinado. Essa “segunda benção”, não é de graça ou por graça. Você tem que “pagar o preço”. Oração, jejuns, santificação, busca, busca e mais busca. E mesmo assim, nem todos a recebiam. Eu ficava desesperado. Achava que não era crente. Pensava que Deus não me amava. Após anos de angustiante luta pela “benção” que nunca vinha, fui ensinado a tentar emitir alguns sons com a boca. Qualquer coisa servia – glo-glo-glo-glo... alabas-alabas-alabas... ripalá...balalá... etc. De repente você está “falando em outras línguas”. Quando não lhe vem nada a mente você fica observando como os outros falam e você os imita. Quem está fora do movimento vê o absurdo, mas quem está lá dentro acha aquilo normal. Fui ensinado a não pensar mas apenas sentir. Se alguém não consegue “falar em línguas” é porque tal pessoa é muito racional. “Não pense” diziam “apenas flua, deixe o espírito fluir”. É verdade que há também os que “fluíram” a coisa sem muito esforço, mas a maioria pena para consegui-lo.

5). Depois que você “aprende” a balbuciar as algaravias, você fica dependente delas e não consegue mais orar sem que aquela coisa lhe encha a mente. É maligno! Todos que “oram em línguas” (algaravias) precisam de libertação. Precisam desaprender aquilo que aprenderam. As algaravias atrapalham você de orar, porque a oração deve ser pensada e quando você pronuncia as tais algaravias não precisa pensar em nada, ou pior pode pensar em qualquer coisa, menos no que está falando. É ridículo!

6). Quando numa reunião todos começam a dançar e falar algaravias, uma ‘alegria’ geral toma conta do ambiente e vira uma “farra”. Um solta gargalhadas, outro cai ao chão, outro pula, treme, etc... Claro que isso não acontece em todas as reuniões. Mas acontece demais por lá. Os pentecostais são ávidos por novidades, e não pelas “antigas veredas” (Jer. 6.16).

7). Espiritualidade de fato, nunca vi ali dentro. Vi, isso sim, muita carnalidade. As pessoas “falavam línguas” mas mentiam, roubavam, adulteravam, brigavam, agiam com brutalidade, faziam negócios escusos, enganavam os irmãos, eram insensíveis, deselegantes, etc. Isso tudo eu vi, e não uma só vez, mais muitas vezes. Eu poderia falar indefinidamente, por horas. De modo que o tal ‘enchimento’ do Espírito não adiantava nada.

8). O que me fez sair de lá? Primeiro é Deus quem nos abre os olhos. É exatamente como na conversão ou como para alguém sair de uma seita. Só Deus. Mas por outro lado, vários fatores me motivaram a sair daquele movimento. Primeiro eu via que, embora nos dissessem que conosco acontecia exatamente igual como no primeiro século da Igreja, eu nunca vi, nem as línguas, nem os sinais apostólicos, nem as maravilhas que aconteceram no primeiro século. Em mais de 30 anos eu nunca vi algo que realmente me reportasse aos tempos apostólicos. Nunca. Nada. A falsificação é bem ruim. Havia uma preocupação dos pastores com o falso, isto é, crê-se que muito do que acontece no meio pentecostal é falso, mas que existe o verdadeiro. Mas enquanto se está atrás do suposto “verdadeiro” todos acabam envolvendo-se com o falso.

9). Eu via que na Bíblia era muito diferente. E ficava deprimido por não ver acontecendo aquilo em nosso meio. Claro, nem podia ser diferente, pois a época dos milagres apostólicos já passou. Os apóstolos passaram. Os sinais dados por Deus para autenticar a mensagem apostólica também ficaram no passado. Demorei para entender isso, mas entendi a tempo. Li muitos livros antigos, dos homens sérios do passado. Então vi que algo estava errado. Ou com eles ou conosco.

10). Eu aprendi a observar a história da Igreja. Temos muito a aprender com a história. A Igreja de Cristo existiu na terra por 1900 anos sem o movimento pentecostal. Irmãos e irmãs, enfrentaram Roma, os Césares, os Papas; encararam as feras, as arenas, as piras ou fogueiras, escreveram livros que nos abençoam até hoje, e tudo isso fizeram “sem o Espírito”??? Será que aqueles irmãos não foram cheios do Espírito??? Segundo os pentecostais, só eles têm o Espírito e essa bênção foi descoberta só pelo final do século XIX e início do século XX. Teria Deus deixado Sua Igreja na terra por 19 séculos sem uma bênção tão especial e necessária??? E se aqueles irmãos do passado não tinham essa bênção, como conseguiram enfrentar o que enfrentaram? Vencer e trazer a chama do Evangelho até nossa geração? E mais, se eles não receberam o Espírito Santo porque não buscaram, então eles cometeram um grande erro. O fato é que eles foram muito diferentes dos crentes das últimas gerações. Então ou eles erraram lá ou nós erramos cá. Os dois grupos não podem estar certos. Um dos dois está errado. E eu prefiro crer os irmãos (remanescentes) daqueles 19 séculos estavam certos, e os pentecostais estão errados.

11). Há alguns anos fizemos um estudo sobre os efeitos do movimento pentecostal sobre a Igreja, seus principais expoentes, e vimos que esse movimento dividiu, criou inimizades, e seus principais líderes se envolveram com falsos ensinos, heresias, escândalos morais, crimes, etc. Por esse estudo eu vi onde desembocou esse movimento. Toda heresia, toda irreverência, toda adulteração nos cultos, todo mundanismo dentro das igrejas, todo comércio vergonhoso do evangelho que vemos hoje, tudo isso teve sua origem no movimento pentecostal. Se não tudo, pelo menos 99%. Disso estou certo. Outra coisa que chamou-me a atenção foi que todos os livros profundos sobre teologia, comentários bíblicos, etc, foram escritos por não-pentecostais. Dos escritores e teólogos pentecostais só li coisas superficiais e de pouca utilidade.

12). A experiência (negativa) também ajudou bastante em minha decisão de abandonar o pentecostalismo. Eu havia sido ensinado a não aceitar nenhuma doença. Contudo eu tenho enxaqueca e nunca fui curado. Deus tem orientado o tratamento e hoje estou muito melhor. Deus me ensinou que ninguém tem o dom de curar hoje. Ele cura, quando assim deseja, mas se não, Ele irá sustentar nossa vida com Sua graça. E esse é o melhor para nós. Contudo, vi pessoas declarando que estavam saudáveis, confessando que não estavam doentes, que não aceitavam nem mesmo o diagnóstico médico, as vi morrerem doentes e brigando com Deus e revoltadas com Ele. Minha esposa é médica. Ela me conta que atende inúmeras pessoas evangélicas, principalmente das igrejas pentecostais e carismáticas, que estão doentes, deprimidas, agitadas, perturbadas emocionalmente, desequilibradas. Muitas dessas pessoas são líderes em suas igrejas (pastores, presbíteros, líderes de célula, líderes de coral, integrantes de bandas, etc. Hoje eu sei que o pentecostalismo faz muito mal à saúde das pessoas.

13). Se você falar com um pentecostal, talvez ele aceite que existe muita coisa falsa por lá – línguas falsas, curas falsas, revelações falsas – mas ele continua crendo que existe o verdadeiro. Agora, eu nunca vi nada ali que fosse digno de ser testemunhado. De fato, tenho é muita vergonha do meu tempo no pentecostalismo. Mas creio que o Deus Soberano usa todas as coisas para nos ensinar.

14). Outra observação que me fez aborrecer o pentecostalismo foi quando comprovei que não éramos os únicos que “falávamos em línguas” (algaravias), mas que isso era também “privilégio” dos Católicos Romanos Carismáticos, adoradores da Virgem Maria (ou melhor, da Deusa-Mãe), também dos Espíritas, invocadores de estranhas entidades, e também dos Mórmons que seguem o falso profeta Joseph Smith e seu anjo Moroni, e que até os Hindus e Maometanos “falam línguas” (algaravias). Quando vi que os pentecostais estavam na mesma categoria dessas seitas, isso me enjoou. E não apenas eles manifestam as algaravias, mas também fazem curas e milagres muito parecidos com os curandeiros pentecostais.

15). O crescimento espantoso do movimento pentecostal também me encucou. O Senhor Jesus disse que a porta é estreita e o caminho apertado e são poucos os que acertam-nos. Então, multidões não entram pela porta estreita e sim pela larga. Elas não andam no caminho restrito e sim no espaçoso e liberal. Quando os pentecostais proclamam que estamos vivendo um grande avivamento, caem num ridículo porque nunca tivemos uma geração de crentes incrédulos, desobedientes, mundanos, imorais. Políticos evangélicos são corruptos, cantores gospel são verdadeiros mercadores, pastores, ou bispos, bispas, apóstolos e apóstolas são trambiqueiros. Nunca se barateou tanto a mensagem do evangelho, nunca se vulgarizou tanto a mensagem da cruz do Calvário, nunca as coisas estiveram tão vergonhosas. Avivamento? Onde? O que vemos, isto sim, é um reavivamento do paganismo, do espiritualismo, do misticismo, da fé metafísica. Mas não um avivamento da Igreja de Cristo. Ainda não.

16). Quem está fora do pentecostalismo percebe que eles dão uma ênfase no Espírito Santo em detrimento de Jesus Cristo. Mas o que ocorre é pior que isso. Nem mesmo o Espírito Santo recebe qualquer honra ali. Quando eles enfatizam o Espírito Santo é só por causa do Seu poder. Tudo o que querem é o poder do Espírito para fazerem maravilhas. Então, de fato, nem mesmo é a Pessoa do Espírito que enfatizam, mas o poder dele. E não querem o poder do Espírito para serem bons esposos, bons pais, bons cidadãos, bons políticos, bons ministros de Cristo, mas querem ser poderosos para serem adorados como pequenos deuses. É só por isso que falam muito no Espírito Santo.

17). Li sobre os antídotos que vocês sugeriram para resguardar as igrejas sadias do veneno do pentecostalismo. Achei-os bons, mas temos que ser absolutamente radicais. Não podemos ceder nem um milímetro. Se abrirmos um milímetro o mal entra e aí não há limites. Vejo que muitos crentes históricos pensam que a coisa não é tão grave. Digo que é muito pior do que se pode imaginar. Por isso precisamos nos humilhar debaixo das mãos de Deus e lhe pedir misericórdia.
Nelson Nincao

FONTE: https://www.facebook.com/notes/nelson-nincao/a-pedido-de-um-pastor-escrevi-estas-observações/235370203179434



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