terça-feira, 19 de julho de 2011

A DOUTRINA CRISTOLÓGICA DO EXTRA CALVINISTICUM - PARTE 3

IV – O LOCUS BÍBLICO
Se alguém procurar no Novo Testamento por uma afirmação explícita e direta do extra calvinisticum, não irá encontrá-la. O Novo Testamento não traz em seu escopo nenhuma formulação direta dessa doutrina. O que pode ser encontrado são passagens que, quando devidamente analisadas e compreendidas fornecem o locus bíblico da doutrina reformada em questão. Existem algumas passagens que fundamentam a doutrina do extra calvinisticum, tais como: Mateus 28.20; João 1.47-48; 14.16-18; 16.13; João 3.13; 11.15; e Colossenses 2.8. Não obstante, apenas duas dessas passagens serão consideradas aqui. A primeira delas é a mais clara e também possui uma questão manuscritológica de grande relevância.

4.1. JOÃO 3.13
A passagem diz o seguinte: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem [que está no céu]”. Em alguns manuscritos[1] o texto diz apenas: “Ora, ninguém subiu ao céu, senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem”[2]. Alguns manuscritos, porém, acrescentam a expressão “que está no céu” (ho ôn ên tô ourânô)[3]. O fato, é que ambos os lados são apoiados por bons manuscritos, não obstante, como salienta Bruce Metzger, conforme citado por William Hendriksen, “existem menos evidências em seu favor e mais evidência contra”[4]. A. T. Robertson afirma que: “Essa frase é adicionada por alguns manuscritos, não por Aleph, B, L, W, 33, e se genuína, meramente enfatizaria a existência atemporal do Filho de Deus que estava nos céus, mesmo enquanto estava na terra. Provavelmente uma interpretação”[5]. Acontece que, não é o número de evidências que determina a genuinidade de uma leitura variante. Portanto, é necessário que argumentos mais fortes do que a quantidade de manuscritos apoiando determinada posição sejam apresentados, a fim de se ter uma posição conclusiva.


À luz de João 1.18, é perfeitamente possível que a frase “que está no céu” seja genuína. O texto diz: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”. Com base nisso, o extra calvinisticum se mostra verdadeiro, como pontua Hendriksen:


Com respeito à pergunta, ‘Será que 3.13b expressa a verdade?’, a resposta é muito fácil. Ela certamente dá expressão à sublime e mais gloriosa verdade bíblica: Jesus Cristo, o Filho Unigênito, está sempre no seio do Pai (1.18). Jesus Cristo (segundo sua natureza divina) está sempre presente no céu mesmo que (segundo sua natureza divina e humana) ele esteja presente na terra.[6]

Interessantemente, os teólogos luteranos costumam fazer uso dessa passagem para referendar o seu entendimento. Refutando esse uso, o reformador João Calvino disse:


Por certo que, quando se diz que o Senhor da glória foi crucificado [1Co 2.8], Paulo não entende haver Cristo sofrido algo de sua divindade; pelo contrário, visto que Cristo, que rejeitado e desprezado sofria na carne, era o mesmo Deus e Senhor da glória. Desta maneira, o Filho do Homem estava também no céu, porque o mesmo Cristo que, segundo a carne, como Filho do Homem habitava na terra, como Deus estava no céu. Razão por que nessa própria passagem se diz que ele desceu segundo a divindade, não que a divindade deixasse o céu para esconder-se no cárcere do corpo, mas porque, embora a tudo enchesse, contudo na própria humanidade de Cristo habitava corporalmente [Cl 2.9], isto é, segundo a natureza, e de certo modo inefável.[7]

Jesus Cristo é aquele que, segundo a sua natureza humana, falava com Nicodemus. Entretanto, segundo a sua onipresente natureza divina, ele se encontrava no céu. Hoje, segundo a sua natureza humana, ele se encontra no céu à destra do Pai, porém, segundo a sua natureza divina, ele está em todos os lugares.

4.2. JOÃO 1.47-48
Nessa passagem, o evangelista João narra o encontro de Jesus com Filipe e Natanael: “Jesus viu Natanael aproximar-se e disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo! Perguntou-lhe Natanael: Donde me conheces? Respondeu-lhe Jesus: Antes de Filipe te chamar, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira”. Mais uma vez, é necessário recordar que não há uma formulação direta e explícita do extra calvinisticum em nenhuma passagem neotestamentária. Apesar disso, o relato desse encontro suscita algumas questões interessantes: Como Jesus conhecia a Natanael, se os mesmos nunca haviam se encontrado? E como Jesus disse ter visto Natanael debaixo da figueira, se ele tinha acabado de chegar à Galileia e de encontrar Filipe? Como isso foi possível?


Os comentaristas são unânimes em apontar para a onipresença do Verbo, mesmo depois de encarnado[8]. Visto que a Segunda Pessoa da Trindade possui o atributo da onipresença, ela viu Natanael, enquanto ele estava sob uma figueira, possivelmente em seus momentos de devoção pessoal. A reação de Natanael, no versículo 49, confirma isso: “Então, exclamou Natanael: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel!” Somente alguém onipresente, que transcende todas as limitações espaciais poderia ter tido acesso àquele acontecimento desconhecido pelas demais pessoas.


NOTAS:


[1] Os manuscritos são os seguintes: os unciais Aleph, B, L, T, W, e os minúsculos 083, 086, 33, 1241, além do P66 (Papiro Bordmer II).

[2] A redação é a seguinte: kai oudeis avnabebêken eis tón ouranón ei mê ho ek tou ouranou katabás ho uios tou anthrôpou. Cf. Novum Testamentum Graece Nestle-Aland. 27.ed., In: BIBLIA SACRA UTRIUSQUE TESTAMENTI: EDITIO HEBRAICA ET GRAECA. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 2001. p. 253.

[3] São eles: os unciais A, Q, Y, 050, o minúsculo f1.13, além de estar presente no texto Bizantino.

[4] Apud in William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: João. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 944.

[5] A. T. Robertson. Word Pictures in the New Testament, In: BIBLEWORKS 7.0.

[6] William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: João. p. 944.


[7] João Calvino. As Institutas: Edição Clássica. IV.17.30. p. 378. Ênfase do autor.


[8] Cf. William Hendriksen. Comentário do Novo Testamento: João. p. 151; Matthew Henry. Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João. Rio de Janeiro: CPAD, 2008. p. 762; F. F. Bruce. João: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2002. p. 66; John Calvin. Commentary on John. Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1999. p. 43-44. Acessado em 18/06/2011.

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