segunda-feira, 25 de julho de 2011

A DOUTRINA CRISTOLÓGICA DO EXTRA CALVINISTICUM - PARTE 5

5.2. FUNÇÕES DO EXTRA CALVINISTICUM


5.2.1. Salvaguardar a Divindade do Redentor
A doutrina cristológica reformada do extra calvinisticum funciona como uma sólida proteção contra o esvaziamento do que significa a divindade de Cristo. Como pontua Heber Carlos de Campos: “Se perdermos o conceito do ‘extra’ relacionado à presença de Cristo fora da carne, haveremos de perder o conceito do que a divindade significa”[1]. Conceber que após a encarnação a essência divina, em sua totalidade, ficou restrita à natureza humana de Jesus é atentar contra o que a divindade é por definição.


Foi para escapar desse absurdo que os teólogos luteranos conceberam a natureza humana como se tornando ubíqua. Contudo, isso se constitui em outro sério problema ligado à humanidade do Redentor, como será observado abaixo. A essência divina é, por definição, onipresente, não podendo estar restrita em um único local, ou envolvida e contida por uma espécie de invólucro. a onipresença da essência divina é repletiva, ou seja, “sua imensa essência está presente com tudo e, por assim dizer, preenche completamente todos os lugares”[2]. A essência divina está em todos os lugares, e em cada lugar onde se encontra a essência divina, ali ela está em sua plenitude. Aplicando esse conceito à pessoa de Cristo, Calvino afirmou o seguinte: “Existe uma distinção muito comum nas escolas, que não me envergonha de referir: ainda que Cristo esteja todo, por toda parte, entretanto nem tudo que nele há está em toda parte”[3].


A doutrina do extra calvinisticum faz jus à divindade do Redentor por salvaguardar a sua imensidão, sua onipresença.


5.2.2. Salvaguardar a Humanidade do Redentor
Hodge, referindo-se à doutrina luterana da communicatio idiomatum afirma que, “se esta doutrina for verídica, perde-se o Cristo da Bíblia e do coração humano”[4]. A razão de tal perda se encontra no fato de que, uma natureza humana ubíqua e onipresente não é uma natureza humana genuína. A interpenetração da natureza humana proposta pela cristologia luterana implica numa fusão e, assim, Jesus Cristo, deixa de ser “verdadeiro homem de verdadeiro homem”. Deixando de ser verdadeiro homem, Cristo se torna inapto para substituir o homem na obra da Redenção e de servir como Mediador no Novo Pacto, pois como assevera o Catecismo Maior de Westminster: “era necessário que o Mediador fosse homem, para poder levantar a nossa natureza e possibilitar a obediência à lei, sofrer e interceder por nós em nossas enfermidades, para que recebêssemos a adoção de filhos, e tivéssemos conforto e acesso, com confiança ao trono da graça”[5].


Uma verdadeira natureza humana não é ubíqua, não é onipresente, não é infinita. A natureza humana de Cristo não era preexistente. Ela foi criada e, por ser criada, ela é caracterizada pela finitude: “Um ser, seja de uma natureza espiritual ou corpórea, é considerado finito se sua existência tem parâmetros bem definidos. Isso é verdade a respeito da estrutura inteira do céu e da terra, bem como de cada criatura”[6]. A natureza humana de Cristo, para ser genuína, tem de estar localizada de forma circunscrita. Esse é o modo de localização “é atribuída aos corpos, porque eles estão no lugar e no espaço, de modo a serem compatíveis com as partes do espaço”[7]. Negar isso, como fazem os luteranos, é o mesmo que declarar Cristo como inapto para substituir o homem. Sobre isso, Hodge faz uma declaração excepcional:


Ele [o Verbo] se fez homem e continua sendo homem para poder ser misericordioso e fiel sumo sacerdote no que diz respeito a Deus. Porém um homem cujo corpo e alma enchem a imensidade, que, “como homem”, é onisciente e onipotente, como se acaba de afirmar, deixa de ser homem. Sua humanidade se funde na divindade, e ele se torna não Deus e homem, mas somente Deus, e com isso perdemos nosso Salvador, o Jesus da Bíblia, que foi varão de dores e experimentado em sofrimento, um conosco em sua humanidade, e portanto pode compadecer-se de nós e nos salvar.[8]

Stephen Edmondson faz afirmação semelhante: “o ensino luterano sobre a communicatio idiomata destroi essa comunhão, pois Cristo em sua humanidade não é mais como nós; ele não compartilha mais de nossas enfermidades e fraquezas”[9].


Na encarnação não houve nenhuma interpenetração. Na unio personalis, a natureza divina não passou a permear a natureza humana da mesma forma que alma faz com o corpo. Mais uma vez, a afirmação de Turretin é precisa: “Deus não mudou por causa da encarnação; o Verbo (logos) foi feito carne, não por uma conversão do Verbo (tou logou) em carne, mas por uma assunção da carne pela hipóstase do Verbo (logou)”[10]. Dessa forma, a onipresença permaneceu como um atributo da natureza divina, além do que, a inteireza da humanidade do Redentor foi salvaguardada.

VI – CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente trabalho tratou da doutrina cristológica reformada do extra calvinisticum. Ficou claro que algumas questões a respeito da pessoa de Jesus Cristo foram levantadas no contexto de uma batalha teológica em torno da Ceia do Senhor. Homens como Zwínglio e, principalmente Calvino, empenharam-se na luta contra a ideia de que o Verbo ficou circunscrito à natureza humana criada e finita de Cristo. Eles entenderam as implicações desse tipo de pensamento e salvaguardaram tanto a essência divina de uma espécie de “esvaziamento”, como a natureza humana de uma “divinização”, ambas propostas pela teologia luterana, ainda que ela negue isso.


Isto posto, fica claro que em vez de nestorianismo ensinado pelos calvinistas, o que há, na realidade, é o endosso da heresia eutiquiana por parte da teologia luterana.


Num contexto em que impera a ignorância a respeito da pessoa e da obra de Jesus Cristo, é fundamental que a doutrina do extra calvinisticum seja ensinada, em virtude de que a vasta maioria dos cristãos protestantes creem em um Jesus “híbrido”, que nem é plenamente divino nem é plenamente humano. Há uma enorme necessidade de que se conheça e se confesse a Cristo como assentado à destra do Pai, segundo a sua humanidade, e presente em todos os lugares com a plenitude da sua essência divina.



NOTAS:

[1] Heber Carlos de Campos. A União das Naturezas do Redentor. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. p. 279.

[2] Francis Turretin. Institutes of Elenctic Theology. Vol. 1. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing, 1992. p. 197.


[3] João Calvino. As Institutas: Edição Clássica. IV.17.30. p. 378. Ênfase do autor.


[4] Charles Hodge. Teologia Sistemática. p. 793.


[5] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 50.


[6] Wilhelmus à Brakel. The Christian’s Reasonable Service. Vol. 1. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2007. p. 93.


[7] Francis Turretin. Institutes of Elenctic Theology. Vol. 1. p. 197.


[8] Charles Hodge. Teologia Sistemática. p. 793.


[9] Stephen Edmondson. Calvin’s Christology. p. 214.


[10] Francis Turretin. Institutes of Elenctic Theology. Vol. 1. p. 205.

2 comentários:

Victor Silva disse...

Graça e paz irmão. =)

Me desculpe estar lhe falando sobre isso aqui, por um comentário. Mas rogo encarecidamente ao irmão, que nos ajude a divulgar um

texto intitulado "Manifesto Cristão" que vai no link abaixo.

http://aounicodeusverdadeiro.blogspot.com/2011/07/manifesto-cristao.html

Ele é apenas uma adaptação de alguns textos de vários autores Cristãos. A intenção é apenas levar esta palavra ao maior número de

Cristãos possível. Isso é um manifesto contra o evangelicalismo moderno, que tem enganado muitas pessoas e desonrado ao nosso Senhor

Jesus.

Leia o texto, e se achar pertinente postar em seu blog, ficarei imensamente grato. Se conhecer outros blogueiros que possivelmente

se interessariam em publica-lo, seriam maravilhoso também. Se não quiser, não precisa citar fonte nem nada do tipo. Só a publicação

do conteúdo, para o conhecimento de outras pessoas, já seria uma benção sem tamanho.

Desculpe qualquer incômodo.
Desde já, grato pela atenção. =D
Pode apagar esse comentário.

Victor Silva

Victor Silva disse...

Graça e paz irmão. =)

Me desculpe estar lhe falando sobre isso aqui, por um comentário. Mas rogo encarecidamente ao irmão, que nos ajude a divulgar um texto intitulado "Manifesto Cristão" que vai no link abaixo.

http://aounicodeusverdadeiro.blogspot.com/2011/07/manifesto-cristao.html

Ele é apenas uma adaptação de alguns textos de vários autores Cristãos. A intenção é apenas levar esta palavra ao maior número de pessoas possível. Isso é um manifesto contra o evangelicalismo moderno, que tem enganado muitas pessoas e desonrado ao nosso amado Senhor Jesus.

Leia o texto, e se achar pertinente postar em seu blog, ficarei imensamente honrado e agradecido. Se conhecer outras pessoas ou blogueiros que possivelmente se interessariam em divulga-los, seriam maravilhoso também. Se você não quiser, não precisa citar fonte nem nada desse tipo. Só a publicação do conteúdo, para o conhecimento das pessoas, já seria uma benção sem tamanho.

Desculpe qualquer incômodo. Desde já, grato pela atenção. =D

Pode apagar esse comentário.

Victor Silva

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