sábado, 16 de julho de 2011

A DOUTRINA CRISTOLÓGICA DO EXTRA CALVINISTICUM - PARTE 2

III – O LOCUS CONFESSIONAL

3.1. O CATECISMO DE HEIDELBERG (1563)

O Catecismo de Heidelberg, documento produzido, a pedido do Príncipe Eleitor, Frederico III do Palatinado, por Zacarias Ursinus (1534-1583) e Gaspar Olevianus (1536-1587), traz afirmações explícitas a respeito do extra calvinisticum. É bem verdade que o termo não aparece no texto catequético, não obstante, é impossível escapar à conclusão de que a doutrina cristológica do extra é ensinada nas respostas às perguntas 47 e 48. Ei-las:

PERGUNTA 47. Cristo, então, não está conosco até o fim do mundo como prometeu?

RESPOSTA. Cristo é verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Segundo sua natureza humana, não está agora na terra, mas segundo sua divindade, majestade, graça e Espírito, jamais se afasta de nós.

PERGUNTA 48. Mas, se a natureza humana não está em todo lugar onde a natureza divina está, as duas naturezas de Cristo não são separadas uma da outra?

RESPOSTA. De maneira nenhuma; a natureza divina de Cristo não pode ser limitada e está presente em todo lugar.

Por isso, podemos concluir que a natureza divina dele está na sua natureza humana e permanece pessoalmente unido a ela, embora também esteja fora dela.[i]

Tomando, primeiramente, a questão 47 do Catecismo, pode-se perceber claramente que, em clara oposição ao luteranismo, Ursinus e Olevianus ensinam a doutrina do extra calvinisticum. Por um lado, a humanidade de Cristo não é ubíqua, não recebeu a comunicação do atributo da onipresença. Seria até uma contradição em termos, pois, como um atributo incomunicável pode ser comunicado à humanidade? Simplesmente não pode! A humanidade de Cristo não está na terra, mas está no céu, à destra de Deus. O Catecismo reconhece a limitação espacial própria da natureza humana e nega que na communicatio idiomatum a humanidade do Redentor tenha recebido o atributo incomunicável da onipresença. Por outro lado, a divindade do Redentor faz com que ele não esteja circunscrito à destra de Deus, contido pelo invólucro da sua carne. De acordo com a sua divindade, Cristo “jamais se afasta de nós”. Ele está presente em todos os lugares. A afirmação dos autores de Heidelberg vai diametralmente contra o pensamento dos teólogos luteranos, que acreditavam na inexistência do Logos asarkos, mas apenas ensarkos.

A resposta à pergunta 48 é ainda mais clara e mais explícita a respeito do extra calvinisticum. O seu enunciado aborda diretamente a acusação de nestorianismo feita pelos luteranos. A resposta é uma veemente negação da acusação luterana e uma clara afirmação da unio personalis. O Catecismo afirma a infinitude da natureza divina de Cristo, pois ela não pode ser limitada nem contida. Antes, ela está presente em todos os lugares, preenchendo a todo o cosmos. A acusação de nestorianismo cai por terra quando o Catecismo assevera a união hipostática. A natureza divina de Cristo está unida completa e inseparavelmente à sua natureza humana, contudo, sem estar circunscrita a ela.

Interessantemente, as duas questões do Catecismo de Heidelberg foram baseadas no Breve Catecismo e no Catecismo Maior de Zacarias Ursinus. Existe grande discussão a respeito da data da composição dos dois catecismos de Ursinus. Lyle D. Bierna afirma que:

Em resumo, podemos dizer com toda a possibilidade de certeza (1) que Ursinus foi o autor do BC e do CM; (2) que ele compôs o BC no final de 1561, ou começo de 1562, e o CM no final de 1562; (3) que o BC foi delineado como um catecismo simples para adultos e crianças não instruídos, possivelmente encomendado, mas, com certeza, empregado como esboço preliminar do CH; e (4) que o CM foi planejado para ser um texto teológico de nível médio para os estudantes da universidade, não encomendado para a escrita do CH, mas provavelmente consultado depois no processo.[ii]

O Breve Catecismo de Ursinus, nas respostas às questões 35 e 36, diz o seguinte:

35 P. Mas, não está Cristo sempre conosco até ao fim do mundo, como ele prometeu?

R. Uma vez que Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiramente humano, ele sempre está com a igreja em sua divindade, majestade, graça e Espírito; mas na sua natureza humana ele não está agora na terra, mas no céu.

36 P. Mas, não estão as duas naturezas em Cristo separadas se a natureza humana não estiver presente onde quer que esteja a divina?

R. Não, absolutamente. Pois desde que a divindade é infinita e está e permanece presente em toda parte ao mesmo tempo, não é necessário que seja separada ou dividida do seu corpo para estar em alguma outra parte.[iii]

Semelhantemente, o Catecismo Maior diz o seguinte nas respostas às questões 94 e 95:

94 P. Cristo, então, não está sempre conosco até o fim dos tempos, como ele prometeu?

R. Em conformidade com a sua natureza humana, ele está agora no céu, mas em sua divindade, espírito, poder e graça ele jamais está separado de nós.

95 P. Mas, não estariam separadas as duas naturezas de Cristo, se a natureza humana não estiver onde está a divina?

R. Não, absolutamente. Por ser infinita, a natureza divina não necessita se separar do seu corpo para estar em qualquer outro lugar, pois existe perpetuamente e permanece simultaneamente a mesma dentro e fora do seu corpo.[iv]

3.2. A CONFISSÃO DE FÉ BELGA (1561)

Guido de Brès (1522-1567), o principal autor da Confissão Belga, abordou a doutrina da pessoa do Redentor nos artigos 18 e 19. Falando a respeito das duas naturezas de Cristo, no artigo 19, a Confissão “plenamente fiel ao espírito de Calcedônia”[v], afirma, de modo claro, a distinção entre as duas naturezas mesmo após a encarnação:

Cremos que, por essa concepção, a Pessoa do Filho está unida e conjugada, inseparavelmente, à natureza humana. Não há, então, dois filhos de Deus nem duas pessoas, mas duas naturezas unidas numa só Pessoa, mantendo em cada uma delas suas características distintas. A natureza divina permaneceu não-criada, sem início nem fim de vida (Hb 7.3) preenchendo céu e terra.

Do mesmo modo, a natureza humana não perdeu suas características; mas permaneceu criatura, tendo início, sendo uma natureza finita e mantendo tudo o que é próprio de um verdadeiro corpo. E ainda que, por meio da sua ressurreição, Cristo tenha concedido imortalidade à sua natureza humana, ele não transformou a realidade da mesma, pois nossa salvação e ressurreição dependem também da realidade de seu corpo.[vi]

A Confissão Belga afirma de modo claro que, por ocasião da unio personalis, cada uma das naturezas de Cristo mantém suas características próprias e intransferíveis. A natureza divina permaneceu não-criada, eterna, infinita, preenchendo céu e terra. A natureza humana, por sua vez, manteve as suas características de: criada, finita, limitada. Essa distinção “forma uma evidente antítese contra qualquer deificação da natureza humana ou humanização da natureza Divina”.[vii] A Confissão Belga nega a noção luterana de ubiquidade da natureza humana de Cristo, bem como a limitação da sua natureza divina à sua carne. Permanecendo a natureza divina com os seus atributos próprios, sem comunicá-los à natureza humana, sem misturá-los com os atributos próprios da humanidade, conclui-se, portanto, que a onipresença, característica da essência divina, permanece inalterada, corroborando assim, a doutrina cristológica reformada do extra calvinisticum.

3.3. O BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER (1647)

Os divines de Westminster não abordaram o extra calvinisticum de maneira tão explícita quanto os autores do Catecismo de Heidelberg. Não obstante, no tratamento dispensado ao Ser de Deus, especificamente ao elencar os atributos divinos, pode-se inferir, com muita propriedade, a doutrina cristológica do extra calvinisticum.

Na resposta à pergunta 4, sobre o que Deus é, o Breve Catecismo de Westminster diz o seguinte: “Deus é espírito, infinito, eterno e imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade”.[viii] O extra calvinisticum pode ser inferido a partir da afirmação de que Deus é “infinito, eterno e imutável em seu ser”. Visto que Deus é infinito em seu Ser, e visto que o Verbo encarnado é Deus, é impossível que sua essência seja contida por um corpo finito e circunscrito espacialmente. Visto que o ser de Deus é imutável, é impossível que sua essência infinita seja contida por aquilo que, em si e de si mesmo, é finito. O Dr. Robert L. Reymond, discutindo a definição confessional, afirma que: “No contexto da resposta do Catecismo é aparente que por ‘infinito em seu ser’, os divines de Westminster afirmaram que Deus é onipresente, isto é, que Deus transcende todas as limitações espaciais e está imediatamente presente em cada parte da sua criação”.[ix] E é exatamente quando discute a afirmação de que Deus é infinito em seu Ser, que o Reymond faz referência ao extra calvinisticum e o traça até Calvino: “Calvino dificilmente foi um heterodoxo, da forma como os luteranos sarcasticamente o acusaram por causa do seu extra calvinisticum (‘a questão do extra-Calvino’)”.[x]


[i] CONFISSÃO BELGA E CATECISMO DE HEIDELBERG. São Paulo: Cultura Cristã, 2005. p. 52. Ênfase acrescentada.

[ii] Lyle D. Bierna (Org.). Introdução ao Catecismo de Heidelberg: Fontes, História, Teologia. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p. 156-157.

[iii] Ibid. p. 167. Ênfase acrescentada.

[iv] Ibid. p. 199. Ênfase acrescentada.

[v] G. C. Berkouwer. A Pessoa de Cristo. p. 36.

[vi] CONFISSÃO BELGA E CATECISMO DE HEIDELBERG. p. 18.

[vii] G. C. Berkouwer. A Pessoa de Cristo. p. 36.

[viii] O BREVE CATECISMO DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. p. 10. Ênfase acrescentada.

[ix] Robert L. Reymond. A New Systematic Theology of the Christian Faith. Nashville, TN: Thomas Nelson, 1998. p. 168.

[x] Ibid. p. 171.

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