quinta-feira, 23 de junho de 2011

O CRISTÃO E O JULGAMENTO

NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: Estudo ministrado na Igreja Presbiteriana Filadélfia, em Marabá-PA. O mesmo fez parte de uma exposição sequenciada do Sermão do Monte.


“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão” (Mateus 7.1-5).





• INTRODUÇÃO
Meus queridos irmãos, hoje daremos início ao último capítulo da nossa exposição do Sermão do Monte. Neste capítulo o Senhor Jesus Cristo continua apresentando o modus vivendi daqueles que são os seus verdadeiros discípulos; ele continua expondo o proceder do verdadeiro crente.


O capítulo 7 de Mateus tem sido alvo de inúmeros debates entre os acadêmicos. Isso porque, alguns deles afirmam que este capítulo é constituído de ditos soltos, aforismos sem nenhuma conexão entre si, sem um tópico ou um assunto que uma as suas seções. Não obstante, meus irmãos, “o fio de ligação que corre por todo o capítulo, embora de maneira solta, é o dos relacionamentos [interpessoais]”[1]. Isso é necessário, porque depois de falar a respeito do relacionamento do crente com a Lei de Deus, com a piedade pessoal e os bens terrenos, Jesus ainda precisava abordar a questão dos nossos relacionamentos interpessoais, visto que o cristianismo verdadeiro não é individualista, mas essencialmente comunitário, “e os relacionamentos dentro da comunidade e entre esta e os outros são de suma importância”[2].


O Dr. John Stott apresenta uma divisão interessante desse assunto dentro do capítulo 7 de Mateus[3]:


1. Para com o nosso irmão, em cujo olho percebemos um argueiro e a quem temos a responsabilidade de ajudar, não de julgar (vv. 1-5).


2. Para com um grupo espantosamente designado de "cães" e "porcos". São pessoas, é verdade, mas sua natureza animal é de tal espécie que somos instruídos a não partilhar o evangelho de Deus com elas (v. 6).


3. Para com o nosso Pai celeste, do qual nos aproximamos em oração, confiantes de que ele não nos dará nada menos que “boas coisas” (vv. 7-11).


4. Para com todos de maneira generalizada: a Regra Áurea deveria orientar a nossa atitude e o nosso comportamento para com eles (v. 12).


5. Para com os nossos companheiros de viagem nesta pere¬grinação pelo caminho estreito (vv. 13,14).


6. Para com os falsos profetas, que temos de reconhecer e dos quais devemos nos acautelar (vv. 15-20).


7. Para com Jesus, nosso Senhor, cujos ensinamentos temos de ouvir e obedecer (vv. 21-27).


Então, queridos irmãos, percebam, este capítulo 7 é eminentemente prático. Ele “nos mostra como ordenar corretamente nossas palavras quando são dirigidas tanto ao homem como a Deus”[4]. No trecho específico que acabamos de ler, nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina como devemos nos conduzir em relação aos erros dos nossos irmãos.


Aqui, queridos irmãos, é necessário discernimento, clareza de pensamento e oração. A razão disso, é que nós estamos diante de uma das passagens “mais abusadas em toda a Bíblia”[5]. Frequentemente, essa passagem é usada por descrentes e até mesmo por crentes para afirmar que não podemos fazer quaisquer julgamentos ou avaliações morais de outras pessoas. A dinâmica é a seguinte: Quando determinada pessoa comete um erro ou um pecado, imediatamente ela olha para os seus interlocutores e diz: “Não julgueis para não serdes julgados!” É muito comum ouvirmos também a seguinte expressão: “Eu não admito que ninguém me critique! Eu não admito que ninguém me julgue! Quem é Fulano? Quem é Beltrano? Quem é Sicrano? Eles pecam muito mais do que eu!” E o fundamento epistemológico para tal afirmação, frequentemente, é a passagem de Mateus 7.1 mal interpretada. Leon Tolstoy, conhecido escritor russo, achava que “Cristo proíbe a instituição de qualquer tribunal legal”[6]. Essa é uma prova de como as palavras de Jesus são mal intepretadas.


O Rev. Doug Kuiper afirma que esta atitude de tolerância “expressa confusão na igreja cristã, incluindo igrejas que são Reformadas em sua herança. A heresia não é mais denunciada, e os heréticos não são mais disciplinados [...] Devemos tolerar também em nossas igrejas as ações pecaminosas de outros. Não é da nossa conta se duas pessoas não casadas vivem juntas! Não é da nossa conta se um membro da nossa congregação pratica homossexualismo! Não devemos julgá-los”[7].


Ele afirma ainda, que o texto mais citado da Bíblia não é mais João 3.16, mas sim Mateus 7.1. E esta mudança parece ser lógica: “Se Deus me ama e cada outra pessoa, então ele não encontra nenhuma falta em nós, nossas ações e nossas ideias. E se ele não encontra nenhuma falta em nós, não deveríamos encontrar nenhuma falta uns nos outros”[8]. Mas esse pensamento lógico está errado, pois ele parte de premissas erradas: que Deus ama a todos, e que por amar uma pessoa, Deus ignora os seus pecados.


Além disso, meus irmãos, as pessoas se agarram a uma única passagem e desconsideram completamente outras passagens. As pessoas ignoram, por exemplo, João 7.24: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”; 1 Tessalonicenses 5.21: “julgai todas as coisas, retende o que é bom”; 1 João 4.1: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora”. Ignoram passagens como Mateus 18.15-17 e 1 Coríntios 5, que regulam o julgamento no caso de disciplina eclesiástica. Ignoram, acima de tudo, o próprio contexto da passagem em questão. Mesmo em Mateus 7, em várias ocasiões Jesus afirmou a necessidade de se fazer algum tipo de julgamento: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem [...] Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis...” (vv. 6,15,16). Percebam, meus irmãos, é preciso, sim, exercitar algum tipo de julgamento, ao passo que é imprescindível evitarmos outro tipo de juízo. É por isso que precisamos entender bem a nossa passagem.


• EXPOSIÇÃO DA PASSAGEM
VERSÍCULOS 1 e 2:
“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também”.


Pelo versículo 1, meus irmãos, fica claro que Jesus proíbe o julgamento. A questão é se Jesus está proibindo todo e qualquer tipo de julgamento, o que nós já vimos, pela leitura de outras passagens, que não é esse o caso. O julgamento estritamente proibido pelo Senhor Jesus é o julgamento hipercrítico. A razão da afirmação de Cristo no versículo 1 está no versículo seguinte: “Pois, com o critério que julgardes, sereis julgados; e, com a medida que tiverdes medido, vos medirão também” (v. 2). O que Jesus está condenando aqui, irmãos, é o “espírito de censura, o juízo áspero, a autojustificação em detrimento de outros, e isso sem misericórdia, sem amor”[9]. É o espírito farisaico brilhantemente ilustrado na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18.9-14).


Queridos, a pessoa que se justifica aos seus próprios olhos, que tem por costume descobrir faltas nos outros, deve lembrar que ela mesma pode esperar ser também condenada, e isso não só por parte dos homens, mas também, e especialmente, por parte de Deus. Jesus nos ensina que o padrão que usarmos para julgar os outros será usado também contra nós. Se julgarmos os outros sem misericórdia, então, seremos julgados sem misericórdia. Por outro lado, se o julgamento que fizermos for permeado por bondade, seremos julgados e tratados com bondade. É exatamente isso que o nosso Senhor quer dizer com as palavras do versículo 2.


O Dr. Martyn Lloyd-Jones, na sua obra Estudos no Sermão do Monte, nos oferece alguns indicativos, a fim de verificarmos a presença de um espírito hipercrítico em nossas vidas. Em primeiro lugar, tal espírito “se manifesta na disposição sempre pronta para exercer julgamento, quando o ponto criticado não nos diz respeito de maneira nenhuma”[10]. Em segundo lugar, tal espírito “ressalta o preconceito no lugar do princípio”[11]. É a pessoa que julga com base apenas naquilo que ela pensa ou que ela pensa que conhece. Em terceiro lugar, um espírito hipercrítico é aquele que possui a “tendência de por personalidades no lugar de princípios”[12]. Em outras palavras, isso quer dizer que, a pessoa hipercrítica se volta contra as pessoas, não contra o erro ou a ideia errada em si. Quarto, o espírito hipercrítico é aquele que frequentemente expressa as suas opiniões sem ter o conhecimento de todos os fatos[13]. Não temos o mínimo direito de proferir qualquer juízo sem antes termos plena consciência dos fatos. Quinto e último, o espírito hipercrítico “nunca se dá ao trabalho de procurar compreender as circunstâncias. E também nunca aceita justificativas. E isso porque jamais se dispõe a exercer misericórdia”[14]. É aquela pessoa que não se dispõe a ouvir aqueles que ela faz de réus. Meus irmãos, há toda a diferença do mundo entre ser hipercrítico e fazer uma crítica justa, misericordiosa, iluminadora e inteligente.


Que nos coloquemos debaixo do julgamento santo e justo da Palavra de Deus, para examinarmos nossas vidas, a fim de sabermos se não temos desenvolvido esse erro denunciado por nosso Senhor.


VERSÍCULOS 3-5: “Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão”.


Aqui, meus irmãos, de forma simples, clara e cristalina, Jesus está condenando a hipocrisia. Ele denuncia a atitude pessoas que não estão aptas a censurar outras, visto que são culpadas das mesmas faltas que acusam nos outros.


Ele diz: “Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?” Irmãos, o raciocínio de nosso Senhor é extraordinário! Muitas vezes usamos estes versículos, dizendo que ninguém tem o direito de nos julgar, visto que todas as pessoas são pecadoras. Mas, não é isso que Jesus está falando aqui. Ele está pensando em termos de pecados da mesma espécie. Isso fica evidente a partir dos termos “argueiro” (karphós) e “trave” (dokós). As duas palavras fazem referência à madeira. karphós é uma “pequena lasca de madeira”[15], enquanto dokós significa “tora, viga de madeira”[16]. Então, Jesus diz algo mais ou menos assim: “Quem é você para condenar o outro por ter ele adulterado, se em teu coração você também é um adúltero? Por que você se coloca como juiz sobre aquele que mentiu, se você mente durante todo o dia?” O princípio, queridos irmãos, é o de pecados da mesma espécie. Como eu posso reparar no argueiro no olho do meu irmão, se existe uma tora enorme no meu, e sequer me dou conta disso?


E aqui, meus irmãos, existe um princípio subjacente por demais importante, o que certamente nos estimulará a sermos bondosos e misericordiosos nos julgamentos que fizermos. Em muitas ocasiões temos a tendência de superdimensionar as faltas das outras pessoas, ao passo que diminuímos as nossas próprias. Os pecados dos outros, em nossa concepção, sempre são mais graves que os nossos próprios. As palavras de Jesus mostram que, o contrário é que é verdade. Ao usar a ilustração do argueiro e da trave de madeira, o Senhor quis nos ensinar que o pecado maior e mais grave sempre é o nosso próprio. Não importa se o outro consumou relação sexual com outra pessoa e eu apenas olhei pornografia. Não importa se o outro assassinou alguém e eu apenas odiei em meu coração. O Senhor quer me ensinar que o pecado maior e mais grave sempre é o meu! A lascívia e o ódio em meu coração são mais graves que os atos externos de outros, pois eles são meus, e prestarei contas por eles. No olho do meu irmão sempre haverá uma lasca, um argueiro, enquanto no meu, sempre existirá uma enorme tora de madeira. Matthew Henry colocou a coisa nos seguintes termos: “Pois os pecados dos outros devem ser atenuados, enquanto os nossos devem ser agravados”[17]. Ah, queridos, se prestássemos atenção nesse princípio seríamos mais misericordiosos e mais amorosos em nossos julgamentos!


Agir de forma contrária, de acordo com Jesus, é hipocrisia! Vejam o que ele diz: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão” (v. 5). De acordo com o nosso Senhor, meus irmãos, nós precisamos, cada um de nós, tratar da trave que há no nosso olhos, antes de tirarmos o argueiro no olho do nosso irmão. A solução apontada pelo Mestre, não é sermos tolerantes para com o erro. Tampouco é sermos cegos para as nossas próprias faltas e pecados enquanto somos prontos a julgar nossos irmãos. A solução apontada pelo Senhor é, pela graça de Deus e pela ação do Espírito Santo, o exame minucioso do nosso coração.


Nós precisamos tratar o pecado que está alojado em nosso centro religioso, o coração. Antes de julgarmos alguém que caiu em adultério, precisamos examinar nosso coração e nos arrepender da imoralidade que abrigamos. Antes de julgarmos alguém preso a um determinado vício, precisamos olhar para nós mesmos e nos arrependermos por toda manifestação idolátrica em nossos corações. Isso porque todo vício, no final das contas, é a afeição última do coração sendo dirigida a um ídolo[18]. Antes de condenarmos alguém por ter falado mal de nós, devemos nos arrepender pelo desamor que nutrimos em nós mesmos, pois a maledicência nada mais é do que uma forma de desamor.


• CONCLUSÃO
Queridos irmãos, como é comum encontrarmos pensamentos em nossas igrejas que não têm o apoio da inspirada Palavra de Deus. E como é bom perceber que o propósito do Senhor ao nos dar a sua Palavra é nos livrar dos perigosos extremos aos quais a nossa natureza pecaminosa se afeiçoa. No que concerne ao julgamento dos pecados e faltas dos outros, somos tentados a ir para dois extremos: o da crítica severa e danosa, e o da tolerância cega e pecaminosa.


Nós aprendemos que é nosso dever, como cristãos, exercermos o julgamento. Não obstante, não podemos julgar os outros de qualquer forma, ou tomados por um espírito hipócrita e farisaico. Devemos sim julgar, mas, antes, precisamos tratar em nosso próprio coração os pecados que condenamos nos outros. “Devo primeiro corrigir-me para depois estar qualificado e totalmente isento de qualquer culpa e ofensas”[19]. As duas coisas andam juntas: autodisciplina e disciplina mútua[20]. Sejamos tardios em condenar as outras pessoas, em fazer julgamentos duros e precipitados, em exagerar os erros e fraquezas do nosso próximo, e nos recusemos a pensar o pior do nosso irmão. Precisamos “ser muito vagarosos em procurar defeitos no nosso próximo”[21].


Que o Senhor nos conceda essa disposição! Amém!

NOTAS:


[1] John R. W. Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, (São Paulo: ABU, 1981), 81.


[2] Ibid.


[3] Ibid.


[4] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, (Rio de Janeiro: CPAD, 2008), 79.


[5] Vincent Cheung, The Sermon on the Mount, (Boston, MA: Reformation Ministries International, 2004), 112. Versão em português: Vincent Cheung, Julgamento, p. 1. Extraído do site http://www.monergismo.com.


[6] Citado em John R. W. Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, 81.


[7] Doug Kuiper, Julgar: O Dever do Cristão, 5. Extraído do site http://www.monergismo.com.


[8] Ibid.


[9] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), 503.


[10] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, (São José dos Campos: Fiel, 1999), 448, 449.


[11] Ibid.


[12] Ibid.


[13] Ibid, 449.


[14] Ibid.


[15] Thayer’s Greek Lexicon in BIBLEWORKS 7.0.


[16] Ibid.


[17] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, 80.


[18] Esta é a tese de Edward T. Welch, Vícios: Um Banquete no Túmulo, (São Paulo: Nutra Publicações, 2010).


[19] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, 80.


[20] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, 506.


[21] J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Mateus, (São José dos Campos: Fiel, 2002), 46.

Um comentário:

Em defesa da graça disse...

Muito bom Rev. Alan. Numa época de pluralismo e relativismo onde toda crítica é confrontada com um "não julgueis", este sermão vem bem a calhar... É preciso compreender as palavras de Cristo para o desobedecermos por negligência e comodismo.
Deus o abençoe!
Nelson Ávila.

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