sexta-feira, 24 de junho de 2011

O CRISTÃO E O JULGAMENTO - 2ª PARTE

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão. Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem” (Mateus 7.1-6).


Nós aprendemos no post passado que, diferentemente do que a grande maioria das pessoas gosta de afirmar, o julgamento não é proibido pelo Senhor de forma absoluta. Em última análise, não é errado que alguém faça juízo acerca das atitudes, opiniões e crenças de outra pessoa. O próprio Cristo nos diz no Evangelho de João: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”. Agora, nós entendemos, e precisamos recordar isso, que existe um tipo de julgamento nos é estritamente proibido pelo Senhor Jesus Cristo. E esse é o assunto de nosso Senhor no trecho que vai do versículo 1 ao 5. O tipo de julgamento que é proibido por Cristo é o julgamento hipercrítico. É o julgamento que é efetuado com “espírito de censura, o juízo áspero, a autojustificação em detrimento de outros, e isso sem misericórdia, sem amor”[1]. É o espírito farisaico brilhantemente ilustrado na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18.9-14).


Nós vimos na semana passada as características, apontadas pelo Dr. Martyn Lloyd-Jones, na sua obra Estudos no Sermão do Monte, da pessoa hipercrítica. Creio que é pertinente lembrarmos tais características. Em primeiro lugar, tal espírito “se manifesta na disposição sempre pronta para exercer julgamento, quando o ponto criticado não nos diz respeito de maneira nenhuma”[2]. Em segundo lugar, tal espírito “ressalta o preconceito no lugar do princípio”[3]. É a pessoa que julga com base apenas naquilo que ela pensa ou que ela pensa que conhece. Em terceiro lugar, um espírito hipercrítico é aquele que possui a “tendência de por personalidades no lugar de princípios”[4]. Em outras palavras, isso quer dizer que, a pessoa hipercrítica se volta contra as pessoas, não contra o erro ou a ideia errada em si. Quarto, o espírito hipercrítico é aquele que frequentemente expressa as suas opiniões sem ter o conhecimento de todos os fatos[5]. Não temos o mínimo direito de proferir qualquer juízo sem antes termos plena consciência dos fatos. Quinto e último, o espírito hipercrítico “nunca se dá ao trabalho de procurar compreender as circunstâncias. E também nunca aceita justificativas. E isso porque jamais se dispõe a exercer misericórdia”[6]. É aquela pessoa que não se dispõe a ouvir aqueles que ela faz de réus. É esse tipo de espírito que o Senhor nos proíbe.


Vimos também, queridos irmãos, que o Senhor Jesus condena a hipocrisia em nossos julgamentos. Isso ficou claro quando entendemos a questão do argueiro e da trave. A ilustração utilizada por Jesus possui tanto um aspecto quantitativo quanto um aspecto qualitativo. No aspecto qualitativo, Jesus está falando de pecados da mesma espécie, do mesmo gênero. Em outras palavras, é como se Cristo dissesse: “Quem é você para condenar o outro por ter ele adulterado, se em teu coração você também é um adúltero? Por que você se coloca como juiz sobre aquele que mentiu, se você mente durante todo o dia?” Já quanto ao aspecto quantitativo, nosso Senhor nos ensina que enquanto no olho do nosso irmão sempre haverá uma lasca de maneira, no nosso olhos sempre haverá uma tora de madeira. Nosso pecado sempre é mais grave do que o pecado do nosso irmão. O propósito de Cristo é evitar a nossa tendência pecaminosa de sempre superdimensionarmos o pecado do nosso irmão, enquanto somos por demais bondosos com nós mesmos. Não importa se o outro consumou relação sexual com outra pessoa e eu apenas olhei pornografia. Não importa se o outro assassinou alguém e eu apenas odiei em meu coração. O Senhor quer me ensinar que o pecado maior e mais grave sempre é o meu! A lascívia e o ódio em meu coração são mais graves que os atos externos de outros, pois eles são meus, e prestarei contas por eles.


E é uma enorme hipocrisia quando condenamos os nossos irmãos por causa de uma lasca de madeira, quando temos em nossas vidas uma enorme trave de madeira. Jesus nos ordena, primeiramente, a tratarmos o pecado em nossa própria vida, para só depois, estarmos aptos para tratarmos o pecado na vida dos nossos irmãos. O versículo 5, meus amados irmãos, é claro a respeito do fato de que não devemos nunca julgar os outros. Devemos sim, mas, antes disso, antes de julgarmos os nossos irmãos, é imprescindível que julguemos a nós mesmos: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão” (v. 5). Nós precisamos tratar o pecado que está alojado em nosso centro religioso, o coração. Antes de julgarmos alguém que caiu em adultério, precisamos examinar nosso coração e nos arrepender da imoralidade que abrigamos. Antes de julgarmos alguém preso a um determinado vício, precisamos olhar para nós mesmos e nos arrependermos por toda manifestação idolátrica em nossos corações. Isso porque, como afirmado no post anterior, todo vício, no final das contas, é a afeição última do coração sendo dirigida a um ídolo[7]. Antes de condenarmos alguém por ter falado mal de nós, devemos nos arrepender pelo desamor que nutrimos em nós mesmos, pois a maledicência nada mais é do que uma forma de desamor.


Tendo lembrado as benditas verdades que aprendemos, podemos avançar em nosso estudo. Hoje, nos concentraremos no versículo 6.


• EXPOSIÇÃO DA PASSAGEM
VERSÍCULO 6:
“Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem”.


Aqui, queridos irmãos, Jesus está fazendo uso de uma linguagem figurada para falar acerca da nossa atitude frente a uma classe específica de pessoas. “Aqui”, queridos irmãos, “ele afirma que há certos seres humanos que agem como animais e podem, portanto, ser acertadamente chamados de ‘cães’ e de ‘porcos’”[8].


Interessantemente, esse versículo 6 aparece separado dos cinco primeiros em nossa versão (Revista e Atualizada). Não obstante, essa divisão é errada, pois ela parece sugerir que o verso 6 não possui nenhuma relação com os versículos precedentes, o que não é verdade. Somente depois que tirarmos a trave do nosso próprio olho é que estaremos aptos para tirar o cisco do olho do nosso irmão. Acontece que, se tal indivíduo realmente é nosso irmão, ele apreciará a nossa ajuda. Se a pessoa que tirarmos o cisco foi uma verdadeira cristã, ela louvará a Deus pela nossa ação em relação a ela. É com afirma Provérbios 9.8: “Não repreendas o escarnecedor, para que te não aborreça; repreende o sábio, e ele te amará”. Encontramos a mesma verdade em Provérbios 23.9: “Não fales aos ouvidos do insensato, pois desprezará a sabedoria das tuas palavras”. Acontece, meus irmãos, que nem todas as pessoas gostam de ser corrigidas. Jesus está falando, no versículo 6, exatamente sobre essas pessoas que detestam ser corrigidas e censuradas. Precisamos, então, tentar compreender como o auditório original de Jesus assimilou essa declaração.


Quem são esses “cães” e “porcos”? A palavra “cães” (kusin) aqui usada não faz referência a cães de estimação, mas sim a cães de rua, cães vadios, selvagens e feios[9]. Na Palestina, queridos irmãos, “o cão não era considerado conforme estamos acostumados a fazer na nossa cultura ocidental. O cão era o carniceiro das ruas, e o seu próprio nome representava opróbrio”[10]. Os cães eram considerados imundos e nojentos: “Como o cão que torna ao seu vômito, assim é o insensato que reitera a sua estultícia” (Provérbios 26.11). Eram ameaçadores: “Livra a minha alma da espada, e, das presas do cão, a minha vida” (Salmo 22.20). O termo correspondente no Antigo Testamento era usado também para falsos pastores gananciosos: “Tais cães são gulosos, nunca se fartam; são pastores que nada compreendem, e todos se tornam para seu caminho, cada um para sua ganância, todos sem exceção” (Isaías 56.11). Hendriksen afirma que, “ser devorado por cães era sinal de que sobre uma pessoa pairava uma especial maldição de Deus”[11]. Ele toma as seguintes passagens como exemplos: 1 Reis 14.11; 16.4; 21.24.


Com relação aos “porcos” (xoirôn), o Antigo Testamento os menciona como fazendo parte dos animais imundos (Levítico 11.7; Deuteronômio 14.8). Quando nós lemos a parábola do filho pródigo (Lucas 15.15), podemos imaginar que para ele ser mandado para tomar conta de porcos aumentou a sua aflição e a sua desgraça. Tomar conta de porcos era uma das maiores humilhações para um judeu. “O porco, na mente dos judeus, representava tudo quanto havia de mais imundo, e que precisava ser terminantemente repudiado”[12]. Nós também sabemos muito bem da inclinação que os porcos têm de viverem na lama.


As palavras “santo” (agion) e “pérolas” (margaritas) fazem referência àquilo que é precioso e consagrado pelo Senhor. São coisas que estão diretamente relacionadas a Deus. Quando lemos, por exemplo, Mateus 13.46, vemos que a pérola de grande valor era o valioso e precioso Reino de Deus. As Escrituras também mostram que a repreensão feita por uma pessoa piedosa é comparada a objetos os mais preciosos: “Como pendentes e jóias de ouro puro, assim é o sábio repreensor para o ouvido atento” (Provérbios 25.12). Os bons conselhos e as repreensões são coisas santas e mui preciosas.


Então, irmãos, percebam que Jesus tinha em mente aqui animais imundos. E, como sabemos, Jesus estava aqui usando uma linguagem figurada. Essa metáfora utilizada por Cristo tem o propósito de ensinar que devemos ter o devido discernimento para entendermos que nem todos são nossos irmãos. Os cães e porcos aqui são homens profanos, ímpios, blasfemos, ou, como coloca A. W. Pink, “homens irracionais”[13]. Logicamente, Jesus não está dizendo que não devemos pregar o evangelho da cruz para os descrentes e para as pessoas que estão mortas em seus delitos e pecados. Jesus tem em mente aqui aquelas pessoas cuja impiedade as faz blasfemar sempre que têm algum contato com aquilo que é santo e precioso. “Homens irracionais ridicularizarão e criticarão da maneira mais vil. Sempre que as Sagradas Escrituras forem apresentadas a eles, isso os incitará à blasfêmia. Isso é lançar pérolas diante de porcos”[14].


Isso significa que, os discípulos de Cristo não devem continuar levando a mensagem do evangelho aos que dela escarnecem. Meus irmãos, chega um momento em que a blasfêmia e a impiedade de muitos ouvintes deve ser punida com a retirada da mensagem do evangelho. Um exemplo interessante disso, nós podemos encontrar no próprio Jesus. O evangelista Marcos nos diz que, Herodes Agripa, frequentemente ouvia João Batista pregar o evangelho. Isso de tal maneira, que Herodes ficava perplexo e temia a João. No entanto, a iniquidade de Herodes era tamanha, que ele sempre desconsiderava a pregação de João bem como as suas repreensões, culminando com a ordem de matar o precursor de Jesus Cristo. Então, como Jesus se comportou diante de Herodes Agripa? Encontramos a resposta em Lucas 23: “Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal. E de muitos modos o interrogava; Jesus, porém, nada lhe respondia” (vv. 8,9). Vejam, Jesus não dava àquele “cão” o que era santo, nem lançava diante daquele “porco” suas pérolas.


De igual modo, queridos irmãos, como Jesus reagiu à cidade de Cafarnaum, que constantemente desprezava a sua pregação e os seus milagres? “Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje” (Mateus 11.23). Jesus também instruiu os seus discípulos a abandonarem aqueles que rejeitassem os seus ensinamentos (Mateus 10.14,15,23).


Interessantemente, irmãos, os discípulos seguiram essa ordem de Jesus. Observem o exemplo de Paulo (Atos 13.45,46; 18.5,6; Romanos 16.17,18; Tito 3.10). O princípio, queridos, é que, embora devamos ter paciência na pregação do evangelho e na admoestação a pessoas desordenadas, essa paciência, claramente tem um limite.


O mesmo princípio se aplica à exortação e admoestação a pessoas que estão em nossas igrejas. Quantas vezes procuramos algumas pessoas, lhes mostramos que estão seguindo um caminho errado, um caminho que aos seus olhos parecem caminhos de vida, mas que na verdade, são caminhos de morte. E tais pessoas, simplesmente, desprezam, desconsideram os santos conselhos e a repreensão feita em amor.


Jesus nos diz o porquê não devemos dar aos cães o que é santo, nem lançar aos porcos as nossas pérolas: “para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem”. Não podemos persistir pregando a pessoas embrutecidas e admoestando e aconselhando a pessoas empedernidas e zombadoras porque estaremos nos expondo à ira e à fúria dessas pessoas, bem como a pérola em si, o evangelho e todas as coisas preciosas para Deus, seriam objeto de escárnio, consideradas como nada. Já repararam como aquelas pessoas que insistem no erro, e que frequentemente as admoestamos e aconselhamos, acabam nos desprezando e se voltando contra nós. Qual pastor tem mais chance de ser amado por um cão: aquele que mostra a ferida e tenta tratá-la ou aquele que diz que não há ferida alguma? Aquele que diz que não há paz quando não há paz ou aquele que diz que há paz quando não há paz? Aquele que diz para a pessoa que ela é a responsável por seus atos ou aquele que diz que a pessoa é vítima dos atos de outros? Creio que a resposta é óbvia!


• CONCLUSÃO
Ah, queridos, quão distantes estamos de um entendimento correto da ética bíblica no que diz respeito ao nosso relacionamento com aquelas pessoas que possuem uma natureza animalesca. Tudo tem um limite, meus irmãos. Muitas vezes pensamos que desistir de uma pessoa é falta de amor, é falta de piedade. Muitas vezes pensamos que se apartar de alguém incorrigível é uma demonstração de dureza de coração. Muitas vezes pensamos que não querer comunhão com alguém que insiste na desobediência e que insiste no desprezo pela Palavra de Deus é falta de conversão.


Quantas vezes queremos nos apartar de pessoas que agem como cães e porcos e jogam em nossa cara que não podemos fazer isso! Eu pergunto a vocês, meus irmãos: É preciso obedecer ao Senhor Jesus quando ele nos ordena a amar ao nosso próximo como a nós mesmos? Sim, sem sombra de dúvidas! Por outro lado, é preciso obedecer ao Senhor Jesus, quando ele também nos ordena a não dar aos cães o que é santo nem lançar aos porcos as preciosas pérolas do evangelho? Sim! Mil vezes sim!


Lembremos também, queridos, que é necessário muita prudência e discernimento para sabermos quem é nosso irmão e quem é cão e porco. Oremos ao Senhor, para que ele nos dê a capacidade de discernirmos entre quem é irmão e quem é cão e porco! Que ele nos ajude a julgarmos não pela aparência, mas sim pela reta justiça!


Que Deus nos abençoe!


NOTAS:
[1] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), 503.


[2] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, (São José dos Campos: Fiel, 1999), 448, 449.


[3] Ibid.


[4] Ibid.


[5] Ibid, 449.


[6] Ibid.


[7] Esta é a tese de Edward T. Welch, Vícios: Um Banquete no Túmulo, (São Paulo: Nutra Publicações, 2010).


[8] John R. W. Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, (São Paulo: ABU, 1981), 83.


[9] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, 506.


[10] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 464.


[11] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, 506.


[12] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 464.


[13] A. W. Pink, An Exposition of the Sermon on the Mount. Sermon 43: Unlawful Liberality. Edição eletrônica.


[14] Ibid.

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