quinta-feira, 2 de junho de 2011

A DOUTRINA DA EXPIAÇÃO CHRISTUS VICTOR DE GUSTAF AULÉN

I – INTRODUÇÃO
O teólogo sueco Gustaf Aulén apresentou a sua teoria da expiação na Universidade de Uppsala (Suécia), durante os meses de março e abril de 1930. A teoria foi apresentada como uma série de oito palestras que, posteriormente, tomaram a forma de um livro intitulado Christus Victor.

Estritamente falando, o livro é uma exposição histórica que, apesar de não conter nenhuma afirmação explícita da teoria como sendo pessoal, constitui-se numa apologia da primeva teoria do resgate, denominada por Aulén de “a teoria clássica”. A originalidade e importância da obra está no seu forte delineamento da visão da expiação como sendo um resgate, que surge de frases como o próprio título do livro e “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”.

II – A TEORIA DO RESGATE E O CHRISTUS VICTOR
O que chama a atenção na teoria da Gustaf Aulén é que a mesma é uma variação da antiga teoria do resgate, que teve como um dos seus primeiros defensores Orígenes de Alexandria (c. 185-254 d.C.).


Em sua essência, a teoria é a mesma, ou seja, que o próprio Deus veio ao mundo em Jesus Cristo, e libertou o seu povo do domínio tirânico do diabo, do pecado e da carne. Na teoria original de Orígenes não existiam os elementos da transação comercial, e do Pai fazendo uso de um engano astucioso para levar as forças do mal e Satanás à derrota, sendo que este caiu em uma armadilha, não sabendo que Cristo ressuscitaria e não podendo, assim, manter Cristo em suas garras.


A grande contribuição de Aulén está justamente na eliminação dos elementos do pagamento e do engano inseridos na teoria por homens como Gregório de Nissa e Ambrósio de Milão. Com o termo Christus Victor indica, a idéia de “resgate” deve ser entendida simplesmente em termos de uma libertação da humanidade da escravidão do pecado.


No tratamento dispensado a essa questão, Aulén afirma: “Deus em Cristo combate e prevalece sobre os ‘tiranos’ que mantêm a humanidade em escravidão”.[1] O Christus Victor não é aquele que é oferecido em transação como um pagamento, mas sim o combatente que derrota o pecado, a carne e o diabo. Para Aulén, “Deus é pintado como em Cristo realizando um conflito vitorioso contra os poderes do mal que são hostis à sua vontade”.[2] O diabo seria aquele que detém autoridade e direitos jurídicos sobre a humanidade pós-queda. Nesse sentido, a afirmação de Aulén é muito interessante:


No que diz respeito ao engano do diabo. Não precisa ser dito que a aplicação de qualquer pensamento a Deus é, no mínimo perigosa, e que as expressões realistas, se tomadas literalmente, são absurdas. Mas, podemos lembrar a nós mesmos que, enquanto Lutero prontamente adotou essas analogias, mesmo nas suas formas mais grotescas, ele encontra nelas o ponto de partida para alguns dos seus ensinamentos mais profundos sobre o Deus Oculto. É verdade que não encontramos a profundidade dessa interpretação apenas nos Pais. No entanto, por trás de todas as especulações aparentemente fantásticas reside o pensamento de que o poder do mal, em última análise, supera a si mesmo quando entra em conflito com o poder do bem, com o próprio Deus. Ele perde a batalha no momento em que parece ser vitorioso.[3]

Outro ponto que deve ser notado no pensamento de Aulén é a sua afirmação e defesa de que Martinho Lutero era um veemente defensor da teoria Christus Victor. Ele afirma que, “Lutero ama expressões violentas, cores fortes, imagens realistas e, em inumeráveis passagens ele descreve o conflito de Cristo contra os tiranos dessa forma”.[4] Não obstante, Aulén afirma que a maior prova de que Lutero defendia a teoria do resgate pode ser sumariada em três pontos:


1. Nos seus catecismos Lutero sempre ensinou a ideia dramática;


2. Repetidamente ele afirma, que as declarações do significado da expiação em termos dramáticos oferece a verdadeira essência da fé cristã, pois elas são capitalia nostrae theologiae[5];


3. A visão dramática da obra de Cristo está numa relação orgânica com toda a sua perspectiva teológica.[6]


Por fim, é importante que se diga que, para Aulén, a expiação, além de ser central no pensamento teológico cristão, está diretamente relacionada com a natureza de Deus. Ele assevera que, “toda interpretação da expiação está mais intimamente conectada a alguma concepção da natureza divina”.[7] Ligada a esta afirmação está o pensamento apresentado na obra de que a expiação, em essência, é uma obra de Deus, como expresso no seu uso da frase “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”.[8]

III – AVALIAÇÃO DA TEORIA
Algumas dificuldades podem ser percebidas com muita facilidade da teoria do resgate, denominada por Gustaf Aulén como Christus Victor.


Em primeiro lugar, no que diz respeito ao apelo feito à autoridade de Martinho Lutero, é imprescindível reconhecer que, de fato, o reformador alemão fez amplo uso de imagens dramáticas para descrever a obra expiatória de Jesus Cristo como batalhando e triunfando sobre os poderes demoníacos. Eis um exemplo:


Não apenas os meus pecados e os seus, mas os pecados de todo o mundo, passados, presentes e futuros, atacam a Cristo, tentam condená-lo, e, de fato o condenam. Porém, visto que na mesma Pessoa, que é a mais alta, a maior, e o único pecador, há também justiça eterna e invencível, pois estas duas convergem: o mais alto, maior e o único pecado; e a mais alta, maior e a única justiça. Aqui um deles deve ceder e ser conquistado, uma vez que, juntos, colidem com um poderoso impacto. Assim, o pecado do mundo inteiro ataca a justiça com o maior impacto e fúria possíveis. O que acontece? A justiça é eterna, imortal e invencível. O pecado, também, é um tirano muito poderoso e cruel, dominando e reinando sobre todo o mundo, capturando e escravizando todos os homens. Em suma, o pecado é um grande e poderoso deus, que devora toda a raça humana, todos os homens cultos, incultos, santos, poderosos e sábios. Ele, eu digo, ataca a Cristo e deseja devorá-lo como devorou todo o resto. Mas ele não vê que Jesus é uma Pessoa de justiça eterna e invencível. Nesse duelo, portanto, é necessário que o pecado seja vencido e morto, e que a justiça prevaleça e viva. Assim, em Cristo todo pecado é vencido, morto e sepultado; e a justiça continua a ser a vencedora e governadora por toda a eternidade.[9]

Apesar disso, como observa com muita propriedade Robert Letham:


Ele [Lutero] viu esses poderes, contudo, como agentes da ira de Deus. Segundo ele, o contexto imediato da morte expiatória de Cristo era a nossa culpa e a ira de Deus. Ele viu a libertação do poder do diabo como um fruto do livramento da ira de Deus (LW 26, 276-291; 27, 4). Sua ênfase recai sobre a morte de Cristo como um sacrifício de satisfação substitutiva pelo pecado humano (LW 13, 319; 23, 195; 24, 98; 25, 45, 249, 284, 349).[10]

O que foi dito acima pode ser percebido com muita clareza na seguinte afirmação de Lutero, a respeito do Salmo 110.4:


A cruz foi o altar sobre o qual Ele [Jesus], consumido pelo fogo do amor sem limites, que ardia no seu coração, apresentou o vivo e santo sacrifício de seu corpo e sangue ao Pai com intercessão fervorosa, clamores e quentes e suplicantes lágrimas (Hebreus 5.7). Esse é o verdadeiro sacrifício. De uma vez por todas tira os pecados de todo o mundo e traz uma reconciliação eterna e perdão.[11]

Alhures, Lutero afirma:


A morte de Cristo é a morte do pecado, e Sua ressurreição é a vida de justiça, porque através da sua morte Ele fez satisfação pelo pecado, e através da Sua ressurreição, Ele nos trouxe justiça. E assim, sua morte não apenas significa, mas verdadeiramente efetua a remissão do pecado como uma mais suficiente satisfação. E Sua ressurreição não é apenas um sinal ou sacramento da nossa justiça, mas também produz em nós, se cremos, e é também a causa da mesma. Desses assuntos falaremos em maiores detalhes posteriormente. Este conceito é o que os teólogos escolásticos chamavam de troca: a expulsão do pecado e a infusão da graça.[12]

Em segundo lugar, há uma séria dificuldade quando Aulén afirma que toda interpretação da expiação está intimamente relacionada com alguma concepção da natureza do ser de Deus. A dificuldade está no fato de que, apesar de negar a concepção dualista envolvida na teoria do resgate, ele afirma a soberania do diabo sobre a humanidade pós-queda, incluindo aqueles que seriam posteriormente libertados por Cristo. Afirmar isso é afetar seriamente o ser Deus por negar a sua plena soberania sobre todas as coisas. Ainda que Aulén afirme que o diabo não é “uma força igual e oposta a Deus”[13], ele labora em erro ao conceber Satanás como soberano sobre a humanidade. É verdade que, as Sagradas Escrituras afirmam que o diabo escraviza a humanidade (Efésios 2.2-3). Não obstante, é Deus quem entrega os homens caídos à escravidão. Satanás é meramente um agente da ira divina na qual o ser humano incorreu ao desobedecer. É o próprio Deus quem entrega os homens à escravidão e é Deus quem os liberta desse cativeiro maligno. A ideia de um resgate pago, no caso, não deve ser desconsiderada. As Escrituras são claras a este respeito (Colossenses 1.13-14). Contudo, o resgate não é pago a Satanás, mas sim ao Deus ofendido com o pecado humano.


No que tange ao resgate como sendo uma batalha cósmica entre Deus e os poderes do mal, as Sagradas Escrituras falam claramente de Jesus como derrotando inimigos (1 Coríntios 15.26) e que, na cruz, ele expôs os inimigos publicamente ao desprezo e escárnio (Colossenses 2.15). Porém, Cristo liberta o seu povo não de Satanás, mas do próprio Deus que está irado com o pecado humano (1 Tessalonicenses 1.10). E a expiação é apresentada também como uma satisfação penal substitutiva (Isaías 53; Romanos 5.8).


Ademais, tanto a teoria do resgate original quanto a teoria Christus Victor possuem implicações claramente docéticas, visto que afirmam ser a expiação uma obra de Deus, eclipsando, assim, a necessidade da humanidade de Cristo para que ele fosse um verdadeiro substituto dos pecadores.[14]

NOTAS:
[1] Gustaf Aulén. Christus Victor: An Historical Study of the Three Main Types of the Idea of the Atonement. London: SPCK, 1931. p. 72.


[2] Ibid. p. 21.


[3] Ibid. p. 71.


[4] Ibid. p. 119.


[5] Expressão latina que significa “capitais na nossa teologia”.


[6] Gustaf Aulén. Christus Victor: An Historical Study of the Three Main Types of the Idea of the Atonement. p. 120.


[7] Ibid. p. 29.


[8] Aulén afirma o seguinte: “Its central theme is the idea of the Atonement as a Divine conflict and victory; Christ-Christus Victor-fights against and triumphs over the evil powers of the world, the ‘tyrants’ under which mankind is in bondage and suffering, and in Him God reconciles the world to Himself” (“Seu tema central é a ideia da expiação como um conflito e vitória divines; Cristo – Christus Victor – luta contra e triunfa sobre os poderes maus do mundo, os ‘tiranos’ sobre os quais a humanidade está em escravidão e sofrimento, e nEle Deus reconcilia o mundo consigo”). Ibid. p. 20.


[9] Martin Luther. Luther’s Works: Lectures on Galatians 1535. Vol. 26. St. Louis, MI: Concordia Publishing House, 1963. p. 281.


[10] Robert Letham. A Obra de Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. pp. 160-161.


[11] Martin Luther. Luther’s Works: Selected Psalms II. Vol. 13. St. Louis, MI: Concordia Publishing House, 1987. p. 319.


[12] Martin Luther. Luther’s Works: Lectures on Romans. Vol. 25. St. Louis, MI: Concordia Publishing House, 1972. p. 284.


[13] Gustaf Aulén. Christus Victor: An Historical Study of the Three Main Types of the Idea of the Atonement. p. 71.


[14] Robert Letham. A Obra de Cristo. p. 161.

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