sexta-feira, 24 de junho de 2011

O CRISTÃO E O JULGAMENTO - 2ª PARTE

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão. Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem” (Mateus 7.1-6).


Nós aprendemos no post passado que, diferentemente do que a grande maioria das pessoas gosta de afirmar, o julgamento não é proibido pelo Senhor de forma absoluta. Em última análise, não é errado que alguém faça juízo acerca das atitudes, opiniões e crenças de outra pessoa. O próprio Cristo nos diz no Evangelho de João: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”. Agora, nós entendemos, e precisamos recordar isso, que existe um tipo de julgamento nos é estritamente proibido pelo Senhor Jesus Cristo. E esse é o assunto de nosso Senhor no trecho que vai do versículo 1 ao 5. O tipo de julgamento que é proibido por Cristo é o julgamento hipercrítico. É o julgamento que é efetuado com “espírito de censura, o juízo áspero, a autojustificação em detrimento de outros, e isso sem misericórdia, sem amor”[1]. É o espírito farisaico brilhantemente ilustrado na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18.9-14).


Nós vimos na semana passada as características, apontadas pelo Dr. Martyn Lloyd-Jones, na sua obra Estudos no Sermão do Monte, da pessoa hipercrítica. Creio que é pertinente lembrarmos tais características. Em primeiro lugar, tal espírito “se manifesta na disposição sempre pronta para exercer julgamento, quando o ponto criticado não nos diz respeito de maneira nenhuma”[2]. Em segundo lugar, tal espírito “ressalta o preconceito no lugar do princípio”[3]. É a pessoa que julga com base apenas naquilo que ela pensa ou que ela pensa que conhece. Em terceiro lugar, um espírito hipercrítico é aquele que possui a “tendência de por personalidades no lugar de princípios”[4]. Em outras palavras, isso quer dizer que, a pessoa hipercrítica se volta contra as pessoas, não contra o erro ou a ideia errada em si. Quarto, o espírito hipercrítico é aquele que frequentemente expressa as suas opiniões sem ter o conhecimento de todos os fatos[5]. Não temos o mínimo direito de proferir qualquer juízo sem antes termos plena consciência dos fatos. Quinto e último, o espírito hipercrítico “nunca se dá ao trabalho de procurar compreender as circunstâncias. E também nunca aceita justificativas. E isso porque jamais se dispõe a exercer misericórdia”[6]. É aquela pessoa que não se dispõe a ouvir aqueles que ela faz de réus. É esse tipo de espírito que o Senhor nos proíbe.


Vimos também, queridos irmãos, que o Senhor Jesus condena a hipocrisia em nossos julgamentos. Isso ficou claro quando entendemos a questão do argueiro e da trave. A ilustração utilizada por Jesus possui tanto um aspecto quantitativo quanto um aspecto qualitativo. No aspecto qualitativo, Jesus está falando de pecados da mesma espécie, do mesmo gênero. Em outras palavras, é como se Cristo dissesse: “Quem é você para condenar o outro por ter ele adulterado, se em teu coração você também é um adúltero? Por que você se coloca como juiz sobre aquele que mentiu, se você mente durante todo o dia?” Já quanto ao aspecto quantitativo, nosso Senhor nos ensina que enquanto no olho do nosso irmão sempre haverá uma lasca de maneira, no nosso olhos sempre haverá uma tora de madeira. Nosso pecado sempre é mais grave do que o pecado do nosso irmão. O propósito de Cristo é evitar a nossa tendência pecaminosa de sempre superdimensionarmos o pecado do nosso irmão, enquanto somos por demais bondosos com nós mesmos. Não importa se o outro consumou relação sexual com outra pessoa e eu apenas olhei pornografia. Não importa se o outro assassinou alguém e eu apenas odiei em meu coração. O Senhor quer me ensinar que o pecado maior e mais grave sempre é o meu! A lascívia e o ódio em meu coração são mais graves que os atos externos de outros, pois eles são meus, e prestarei contas por eles.


E é uma enorme hipocrisia quando condenamos os nossos irmãos por causa de uma lasca de madeira, quando temos em nossas vidas uma enorme trave de madeira. Jesus nos ordena, primeiramente, a tratarmos o pecado em nossa própria vida, para só depois, estarmos aptos para tratarmos o pecado na vida dos nossos irmãos. O versículo 5, meus amados irmãos, é claro a respeito do fato de que não devemos nunca julgar os outros. Devemos sim, mas, antes disso, antes de julgarmos os nossos irmãos, é imprescindível que julguemos a nós mesmos: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão” (v. 5). Nós precisamos tratar o pecado que está alojado em nosso centro religioso, o coração. Antes de julgarmos alguém que caiu em adultério, precisamos examinar nosso coração e nos arrepender da imoralidade que abrigamos. Antes de julgarmos alguém preso a um determinado vício, precisamos olhar para nós mesmos e nos arrependermos por toda manifestação idolátrica em nossos corações. Isso porque, como afirmado no post anterior, todo vício, no final das contas, é a afeição última do coração sendo dirigida a um ídolo[7]. Antes de condenarmos alguém por ter falado mal de nós, devemos nos arrepender pelo desamor que nutrimos em nós mesmos, pois a maledicência nada mais é do que uma forma de desamor.


Tendo lembrado as benditas verdades que aprendemos, podemos avançar em nosso estudo. Hoje, nos concentraremos no versículo 6.


• EXPOSIÇÃO DA PASSAGEM
VERSÍCULO 6:
“Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem”.


Aqui, queridos irmãos, Jesus está fazendo uso de uma linguagem figurada para falar acerca da nossa atitude frente a uma classe específica de pessoas. “Aqui”, queridos irmãos, “ele afirma que há certos seres humanos que agem como animais e podem, portanto, ser acertadamente chamados de ‘cães’ e de ‘porcos’”[8].


Interessantemente, esse versículo 6 aparece separado dos cinco primeiros em nossa versão (Revista e Atualizada). Não obstante, essa divisão é errada, pois ela parece sugerir que o verso 6 não possui nenhuma relação com os versículos precedentes, o que não é verdade. Somente depois que tirarmos a trave do nosso próprio olho é que estaremos aptos para tirar o cisco do olho do nosso irmão. Acontece que, se tal indivíduo realmente é nosso irmão, ele apreciará a nossa ajuda. Se a pessoa que tirarmos o cisco foi uma verdadeira cristã, ela louvará a Deus pela nossa ação em relação a ela. É com afirma Provérbios 9.8: “Não repreendas o escarnecedor, para que te não aborreça; repreende o sábio, e ele te amará”. Encontramos a mesma verdade em Provérbios 23.9: “Não fales aos ouvidos do insensato, pois desprezará a sabedoria das tuas palavras”. Acontece, meus irmãos, que nem todas as pessoas gostam de ser corrigidas. Jesus está falando, no versículo 6, exatamente sobre essas pessoas que detestam ser corrigidas e censuradas. Precisamos, então, tentar compreender como o auditório original de Jesus assimilou essa declaração.


Quem são esses “cães” e “porcos”? A palavra “cães” (kusin) aqui usada não faz referência a cães de estimação, mas sim a cães de rua, cães vadios, selvagens e feios[9]. Na Palestina, queridos irmãos, “o cão não era considerado conforme estamos acostumados a fazer na nossa cultura ocidental. O cão era o carniceiro das ruas, e o seu próprio nome representava opróbrio”[10]. Os cães eram considerados imundos e nojentos: “Como o cão que torna ao seu vômito, assim é o insensato que reitera a sua estultícia” (Provérbios 26.11). Eram ameaçadores: “Livra a minha alma da espada, e, das presas do cão, a minha vida” (Salmo 22.20). O termo correspondente no Antigo Testamento era usado também para falsos pastores gananciosos: “Tais cães são gulosos, nunca se fartam; são pastores que nada compreendem, e todos se tornam para seu caminho, cada um para sua ganância, todos sem exceção” (Isaías 56.11). Hendriksen afirma que, “ser devorado por cães era sinal de que sobre uma pessoa pairava uma especial maldição de Deus”[11]. Ele toma as seguintes passagens como exemplos: 1 Reis 14.11; 16.4; 21.24.


Com relação aos “porcos” (xoirôn), o Antigo Testamento os menciona como fazendo parte dos animais imundos (Levítico 11.7; Deuteronômio 14.8). Quando nós lemos a parábola do filho pródigo (Lucas 15.15), podemos imaginar que para ele ser mandado para tomar conta de porcos aumentou a sua aflição e a sua desgraça. Tomar conta de porcos era uma das maiores humilhações para um judeu. “O porco, na mente dos judeus, representava tudo quanto havia de mais imundo, e que precisava ser terminantemente repudiado”[12]. Nós também sabemos muito bem da inclinação que os porcos têm de viverem na lama.


As palavras “santo” (agion) e “pérolas” (margaritas) fazem referência àquilo que é precioso e consagrado pelo Senhor. São coisas que estão diretamente relacionadas a Deus. Quando lemos, por exemplo, Mateus 13.46, vemos que a pérola de grande valor era o valioso e precioso Reino de Deus. As Escrituras também mostram que a repreensão feita por uma pessoa piedosa é comparada a objetos os mais preciosos: “Como pendentes e jóias de ouro puro, assim é o sábio repreensor para o ouvido atento” (Provérbios 25.12). Os bons conselhos e as repreensões são coisas santas e mui preciosas.


Então, irmãos, percebam que Jesus tinha em mente aqui animais imundos. E, como sabemos, Jesus estava aqui usando uma linguagem figurada. Essa metáfora utilizada por Cristo tem o propósito de ensinar que devemos ter o devido discernimento para entendermos que nem todos são nossos irmãos. Os cães e porcos aqui são homens profanos, ímpios, blasfemos, ou, como coloca A. W. Pink, “homens irracionais”[13]. Logicamente, Jesus não está dizendo que não devemos pregar o evangelho da cruz para os descrentes e para as pessoas que estão mortas em seus delitos e pecados. Jesus tem em mente aqui aquelas pessoas cuja impiedade as faz blasfemar sempre que têm algum contato com aquilo que é santo e precioso. “Homens irracionais ridicularizarão e criticarão da maneira mais vil. Sempre que as Sagradas Escrituras forem apresentadas a eles, isso os incitará à blasfêmia. Isso é lançar pérolas diante de porcos”[14].


Isso significa que, os discípulos de Cristo não devem continuar levando a mensagem do evangelho aos que dela escarnecem. Meus irmãos, chega um momento em que a blasfêmia e a impiedade de muitos ouvintes deve ser punida com a retirada da mensagem do evangelho. Um exemplo interessante disso, nós podemos encontrar no próprio Jesus. O evangelista Marcos nos diz que, Herodes Agripa, frequentemente ouvia João Batista pregar o evangelho. Isso de tal maneira, que Herodes ficava perplexo e temia a João. No entanto, a iniquidade de Herodes era tamanha, que ele sempre desconsiderava a pregação de João bem como as suas repreensões, culminando com a ordem de matar o precursor de Jesus Cristo. Então, como Jesus se comportou diante de Herodes Agripa? Encontramos a resposta em Lucas 23: “Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia muito queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava também vê-lo fazer algum sinal. E de muitos modos o interrogava; Jesus, porém, nada lhe respondia” (vv. 8,9). Vejam, Jesus não dava àquele “cão” o que era santo, nem lançava diante daquele “porco” suas pérolas.


De igual modo, queridos irmãos, como Jesus reagiu à cidade de Cafarnaum, que constantemente desprezava a sua pregação e os seus milagres? “Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno; porque, se em Sodoma se tivessem operado os milagres que em ti se fizeram, teria ela permanecido até ao dia de hoje” (Mateus 11.23). Jesus também instruiu os seus discípulos a abandonarem aqueles que rejeitassem os seus ensinamentos (Mateus 10.14,15,23).


Interessantemente, irmãos, os discípulos seguiram essa ordem de Jesus. Observem o exemplo de Paulo (Atos 13.45,46; 18.5,6; Romanos 16.17,18; Tito 3.10). O princípio, queridos, é que, embora devamos ter paciência na pregação do evangelho e na admoestação a pessoas desordenadas, essa paciência, claramente tem um limite.


O mesmo princípio se aplica à exortação e admoestação a pessoas que estão em nossas igrejas. Quantas vezes procuramos algumas pessoas, lhes mostramos que estão seguindo um caminho errado, um caminho que aos seus olhos parecem caminhos de vida, mas que na verdade, são caminhos de morte. E tais pessoas, simplesmente, desprezam, desconsideram os santos conselhos e a repreensão feita em amor.


Jesus nos diz o porquê não devemos dar aos cães o que é santo, nem lançar aos porcos as nossas pérolas: “para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem”. Não podemos persistir pregando a pessoas embrutecidas e admoestando e aconselhando a pessoas empedernidas e zombadoras porque estaremos nos expondo à ira e à fúria dessas pessoas, bem como a pérola em si, o evangelho e todas as coisas preciosas para Deus, seriam objeto de escárnio, consideradas como nada. Já repararam como aquelas pessoas que insistem no erro, e que frequentemente as admoestamos e aconselhamos, acabam nos desprezando e se voltando contra nós. Qual pastor tem mais chance de ser amado por um cão: aquele que mostra a ferida e tenta tratá-la ou aquele que diz que não há ferida alguma? Aquele que diz que não há paz quando não há paz ou aquele que diz que há paz quando não há paz? Aquele que diz para a pessoa que ela é a responsável por seus atos ou aquele que diz que a pessoa é vítima dos atos de outros? Creio que a resposta é óbvia!


• CONCLUSÃO
Ah, queridos, quão distantes estamos de um entendimento correto da ética bíblica no que diz respeito ao nosso relacionamento com aquelas pessoas que possuem uma natureza animalesca. Tudo tem um limite, meus irmãos. Muitas vezes pensamos que desistir de uma pessoa é falta de amor, é falta de piedade. Muitas vezes pensamos que se apartar de alguém incorrigível é uma demonstração de dureza de coração. Muitas vezes pensamos que não querer comunhão com alguém que insiste na desobediência e que insiste no desprezo pela Palavra de Deus é falta de conversão.


Quantas vezes queremos nos apartar de pessoas que agem como cães e porcos e jogam em nossa cara que não podemos fazer isso! Eu pergunto a vocês, meus irmãos: É preciso obedecer ao Senhor Jesus quando ele nos ordena a amar ao nosso próximo como a nós mesmos? Sim, sem sombra de dúvidas! Por outro lado, é preciso obedecer ao Senhor Jesus, quando ele também nos ordena a não dar aos cães o que é santo nem lançar aos porcos as preciosas pérolas do evangelho? Sim! Mil vezes sim!


Lembremos também, queridos, que é necessário muita prudência e discernimento para sabermos quem é nosso irmão e quem é cão e porco. Oremos ao Senhor, para que ele nos dê a capacidade de discernirmos entre quem é irmão e quem é cão e porco! Que ele nos ajude a julgarmos não pela aparência, mas sim pela reta justiça!


Que Deus nos abençoe!


NOTAS:
[1] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), 503.


[2] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, (São José dos Campos: Fiel, 1999), 448, 449.


[3] Ibid.


[4] Ibid.


[5] Ibid, 449.


[6] Ibid.


[7] Esta é a tese de Edward T. Welch, Vícios: Um Banquete no Túmulo, (São Paulo: Nutra Publicações, 2010).


[8] John R. W. Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, (São Paulo: ABU, 1981), 83.


[9] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, 506.


[10] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 464.


[11] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, 506.


[12] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, 464.


[13] A. W. Pink, An Exposition of the Sermon on the Mount. Sermon 43: Unlawful Liberality. Edição eletrônica.


[14] Ibid.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O CRISTÃO E O JULGAMENTO

NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: Estudo ministrado na Igreja Presbiteriana Filadélfia, em Marabá-PA. O mesmo fez parte de uma exposição sequenciada do Sermão do Monte.


“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também. Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão” (Mateus 7.1-5).





• INTRODUÇÃO
Meus queridos irmãos, hoje daremos início ao último capítulo da nossa exposição do Sermão do Monte. Neste capítulo o Senhor Jesus Cristo continua apresentando o modus vivendi daqueles que são os seus verdadeiros discípulos; ele continua expondo o proceder do verdadeiro crente.


O capítulo 7 de Mateus tem sido alvo de inúmeros debates entre os acadêmicos. Isso porque, alguns deles afirmam que este capítulo é constituído de ditos soltos, aforismos sem nenhuma conexão entre si, sem um tópico ou um assunto que uma as suas seções. Não obstante, meus irmãos, “o fio de ligação que corre por todo o capítulo, embora de maneira solta, é o dos relacionamentos [interpessoais]”[1]. Isso é necessário, porque depois de falar a respeito do relacionamento do crente com a Lei de Deus, com a piedade pessoal e os bens terrenos, Jesus ainda precisava abordar a questão dos nossos relacionamentos interpessoais, visto que o cristianismo verdadeiro não é individualista, mas essencialmente comunitário, “e os relacionamentos dentro da comunidade e entre esta e os outros são de suma importância”[2].


O Dr. John Stott apresenta uma divisão interessante desse assunto dentro do capítulo 7 de Mateus[3]:


1. Para com o nosso irmão, em cujo olho percebemos um argueiro e a quem temos a responsabilidade de ajudar, não de julgar (vv. 1-5).


2. Para com um grupo espantosamente designado de "cães" e "porcos". São pessoas, é verdade, mas sua natureza animal é de tal espécie que somos instruídos a não partilhar o evangelho de Deus com elas (v. 6).


3. Para com o nosso Pai celeste, do qual nos aproximamos em oração, confiantes de que ele não nos dará nada menos que “boas coisas” (vv. 7-11).


4. Para com todos de maneira generalizada: a Regra Áurea deveria orientar a nossa atitude e o nosso comportamento para com eles (v. 12).


5. Para com os nossos companheiros de viagem nesta pere¬grinação pelo caminho estreito (vv. 13,14).


6. Para com os falsos profetas, que temos de reconhecer e dos quais devemos nos acautelar (vv. 15-20).


7. Para com Jesus, nosso Senhor, cujos ensinamentos temos de ouvir e obedecer (vv. 21-27).


Então, queridos irmãos, percebam, este capítulo 7 é eminentemente prático. Ele “nos mostra como ordenar corretamente nossas palavras quando são dirigidas tanto ao homem como a Deus”[4]. No trecho específico que acabamos de ler, nosso Senhor Jesus Cristo nos ensina como devemos nos conduzir em relação aos erros dos nossos irmãos.


Aqui, queridos irmãos, é necessário discernimento, clareza de pensamento e oração. A razão disso, é que nós estamos diante de uma das passagens “mais abusadas em toda a Bíblia”[5]. Frequentemente, essa passagem é usada por descrentes e até mesmo por crentes para afirmar que não podemos fazer quaisquer julgamentos ou avaliações morais de outras pessoas. A dinâmica é a seguinte: Quando determinada pessoa comete um erro ou um pecado, imediatamente ela olha para os seus interlocutores e diz: “Não julgueis para não serdes julgados!” É muito comum ouvirmos também a seguinte expressão: “Eu não admito que ninguém me critique! Eu não admito que ninguém me julgue! Quem é Fulano? Quem é Beltrano? Quem é Sicrano? Eles pecam muito mais do que eu!” E o fundamento epistemológico para tal afirmação, frequentemente, é a passagem de Mateus 7.1 mal interpretada. Leon Tolstoy, conhecido escritor russo, achava que “Cristo proíbe a instituição de qualquer tribunal legal”[6]. Essa é uma prova de como as palavras de Jesus são mal intepretadas.


O Rev. Doug Kuiper afirma que esta atitude de tolerância “expressa confusão na igreja cristã, incluindo igrejas que são Reformadas em sua herança. A heresia não é mais denunciada, e os heréticos não são mais disciplinados [...] Devemos tolerar também em nossas igrejas as ações pecaminosas de outros. Não é da nossa conta se duas pessoas não casadas vivem juntas! Não é da nossa conta se um membro da nossa congregação pratica homossexualismo! Não devemos julgá-los”[7].


Ele afirma ainda, que o texto mais citado da Bíblia não é mais João 3.16, mas sim Mateus 7.1. E esta mudança parece ser lógica: “Se Deus me ama e cada outra pessoa, então ele não encontra nenhuma falta em nós, nossas ações e nossas ideias. E se ele não encontra nenhuma falta em nós, não deveríamos encontrar nenhuma falta uns nos outros”[8]. Mas esse pensamento lógico está errado, pois ele parte de premissas erradas: que Deus ama a todos, e que por amar uma pessoa, Deus ignora os seus pecados.


Além disso, meus irmãos, as pessoas se agarram a uma única passagem e desconsideram completamente outras passagens. As pessoas ignoram, por exemplo, João 7.24: “Não julgueis segundo a aparência, e sim pela reta justiça”; 1 Tessalonicenses 5.21: “julgai todas as coisas, retende o que é bom”; 1 João 4.1: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora”. Ignoram passagens como Mateus 18.15-17 e 1 Coríntios 5, que regulam o julgamento no caso de disciplina eclesiástica. Ignoram, acima de tudo, o próprio contexto da passagem em questão. Mesmo em Mateus 7, em várias ocasiões Jesus afirmou a necessidade de se fazer algum tipo de julgamento: “Não deis aos cães o que é santo, nem lanceis ante os porcos as vossas pérolas, para que não as pisem com os pés e, voltando-se, vos dilacerem [...] Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Pelos seus frutos os conhecereis...” (vv. 6,15,16). Percebam, meus irmãos, é preciso, sim, exercitar algum tipo de julgamento, ao passo que é imprescindível evitarmos outro tipo de juízo. É por isso que precisamos entender bem a nossa passagem.


• EXPOSIÇÃO DA PASSAGEM
VERSÍCULOS 1 e 2:
“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também”.


Pelo versículo 1, meus irmãos, fica claro que Jesus proíbe o julgamento. A questão é se Jesus está proibindo todo e qualquer tipo de julgamento, o que nós já vimos, pela leitura de outras passagens, que não é esse o caso. O julgamento estritamente proibido pelo Senhor Jesus é o julgamento hipercrítico. A razão da afirmação de Cristo no versículo 1 está no versículo seguinte: “Pois, com o critério que julgardes, sereis julgados; e, com a medida que tiverdes medido, vos medirão também” (v. 2). O que Jesus está condenando aqui, irmãos, é o “espírito de censura, o juízo áspero, a autojustificação em detrimento de outros, e isso sem misericórdia, sem amor”[9]. É o espírito farisaico brilhantemente ilustrado na parábola do fariseu e do publicano (Lucas 18.9-14).


Queridos, a pessoa que se justifica aos seus próprios olhos, que tem por costume descobrir faltas nos outros, deve lembrar que ela mesma pode esperar ser também condenada, e isso não só por parte dos homens, mas também, e especialmente, por parte de Deus. Jesus nos ensina que o padrão que usarmos para julgar os outros será usado também contra nós. Se julgarmos os outros sem misericórdia, então, seremos julgados sem misericórdia. Por outro lado, se o julgamento que fizermos for permeado por bondade, seremos julgados e tratados com bondade. É exatamente isso que o nosso Senhor quer dizer com as palavras do versículo 2.


O Dr. Martyn Lloyd-Jones, na sua obra Estudos no Sermão do Monte, nos oferece alguns indicativos, a fim de verificarmos a presença de um espírito hipercrítico em nossas vidas. Em primeiro lugar, tal espírito “se manifesta na disposição sempre pronta para exercer julgamento, quando o ponto criticado não nos diz respeito de maneira nenhuma”[10]. Em segundo lugar, tal espírito “ressalta o preconceito no lugar do princípio”[11]. É a pessoa que julga com base apenas naquilo que ela pensa ou que ela pensa que conhece. Em terceiro lugar, um espírito hipercrítico é aquele que possui a “tendência de por personalidades no lugar de princípios”[12]. Em outras palavras, isso quer dizer que, a pessoa hipercrítica se volta contra as pessoas, não contra o erro ou a ideia errada em si. Quarto, o espírito hipercrítico é aquele que frequentemente expressa as suas opiniões sem ter o conhecimento de todos os fatos[13]. Não temos o mínimo direito de proferir qualquer juízo sem antes termos plena consciência dos fatos. Quinto e último, o espírito hipercrítico “nunca se dá ao trabalho de procurar compreender as circunstâncias. E também nunca aceita justificativas. E isso porque jamais se dispõe a exercer misericórdia”[14]. É aquela pessoa que não se dispõe a ouvir aqueles que ela faz de réus. Meus irmãos, há toda a diferença do mundo entre ser hipercrítico e fazer uma crítica justa, misericordiosa, iluminadora e inteligente.


Que nos coloquemos debaixo do julgamento santo e justo da Palavra de Deus, para examinarmos nossas vidas, a fim de sabermos se não temos desenvolvido esse erro denunciado por nosso Senhor.


VERSÍCULOS 3-5: “Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão”.


Aqui, meus irmãos, de forma simples, clara e cristalina, Jesus está condenando a hipocrisia. Ele denuncia a atitude pessoas que não estão aptas a censurar outras, visto que são culpadas das mesmas faltas que acusam nos outros.


Ele diz: “Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu?” Irmãos, o raciocínio de nosso Senhor é extraordinário! Muitas vezes usamos estes versículos, dizendo que ninguém tem o direito de nos julgar, visto que todas as pessoas são pecadoras. Mas, não é isso que Jesus está falando aqui. Ele está pensando em termos de pecados da mesma espécie. Isso fica evidente a partir dos termos “argueiro” (karphós) e “trave” (dokós). As duas palavras fazem referência à madeira. karphós é uma “pequena lasca de madeira”[15], enquanto dokós significa “tora, viga de madeira”[16]. Então, Jesus diz algo mais ou menos assim: “Quem é você para condenar o outro por ter ele adulterado, se em teu coração você também é um adúltero? Por que você se coloca como juiz sobre aquele que mentiu, se você mente durante todo o dia?” O princípio, queridos irmãos, é o de pecados da mesma espécie. Como eu posso reparar no argueiro no olho do meu irmão, se existe uma tora enorme no meu, e sequer me dou conta disso?


E aqui, meus irmãos, existe um princípio subjacente por demais importante, o que certamente nos estimulará a sermos bondosos e misericordiosos nos julgamentos que fizermos. Em muitas ocasiões temos a tendência de superdimensionar as faltas das outras pessoas, ao passo que diminuímos as nossas próprias. Os pecados dos outros, em nossa concepção, sempre são mais graves que os nossos próprios. As palavras de Jesus mostram que, o contrário é que é verdade. Ao usar a ilustração do argueiro e da trave de madeira, o Senhor quis nos ensinar que o pecado maior e mais grave sempre é o nosso próprio. Não importa se o outro consumou relação sexual com outra pessoa e eu apenas olhei pornografia. Não importa se o outro assassinou alguém e eu apenas odiei em meu coração. O Senhor quer me ensinar que o pecado maior e mais grave sempre é o meu! A lascívia e o ódio em meu coração são mais graves que os atos externos de outros, pois eles são meus, e prestarei contas por eles. No olho do meu irmão sempre haverá uma lasca, um argueiro, enquanto no meu, sempre existirá uma enorme tora de madeira. Matthew Henry colocou a coisa nos seguintes termos: “Pois os pecados dos outros devem ser atenuados, enquanto os nossos devem ser agravados”[17]. Ah, queridos, se prestássemos atenção nesse princípio seríamos mais misericordiosos e mais amorosos em nossos julgamentos!


Agir de forma contrária, de acordo com Jesus, é hipocrisia! Vejam o que ele diz: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão” (v. 5). De acordo com o nosso Senhor, meus irmãos, nós precisamos, cada um de nós, tratar da trave que há no nosso olhos, antes de tirarmos o argueiro no olho do nosso irmão. A solução apontada pelo Mestre, não é sermos tolerantes para com o erro. Tampouco é sermos cegos para as nossas próprias faltas e pecados enquanto somos prontos a julgar nossos irmãos. A solução apontada pelo Senhor é, pela graça de Deus e pela ação do Espírito Santo, o exame minucioso do nosso coração.


Nós precisamos tratar o pecado que está alojado em nosso centro religioso, o coração. Antes de julgarmos alguém que caiu em adultério, precisamos examinar nosso coração e nos arrepender da imoralidade que abrigamos. Antes de julgarmos alguém preso a um determinado vício, precisamos olhar para nós mesmos e nos arrependermos por toda manifestação idolátrica em nossos corações. Isso porque todo vício, no final das contas, é a afeição última do coração sendo dirigida a um ídolo[18]. Antes de condenarmos alguém por ter falado mal de nós, devemos nos arrepender pelo desamor que nutrimos em nós mesmos, pois a maledicência nada mais é do que uma forma de desamor.


• CONCLUSÃO
Queridos irmãos, como é comum encontrarmos pensamentos em nossas igrejas que não têm o apoio da inspirada Palavra de Deus. E como é bom perceber que o propósito do Senhor ao nos dar a sua Palavra é nos livrar dos perigosos extremos aos quais a nossa natureza pecaminosa se afeiçoa. No que concerne ao julgamento dos pecados e faltas dos outros, somos tentados a ir para dois extremos: o da crítica severa e danosa, e o da tolerância cega e pecaminosa.


Nós aprendemos que é nosso dever, como cristãos, exercermos o julgamento. Não obstante, não podemos julgar os outros de qualquer forma, ou tomados por um espírito hipócrita e farisaico. Devemos sim julgar, mas, antes, precisamos tratar em nosso próprio coração os pecados que condenamos nos outros. “Devo primeiro corrigir-me para depois estar qualificado e totalmente isento de qualquer culpa e ofensas”[19]. As duas coisas andam juntas: autodisciplina e disciplina mútua[20]. Sejamos tardios em condenar as outras pessoas, em fazer julgamentos duros e precipitados, em exagerar os erros e fraquezas do nosso próximo, e nos recusemos a pensar o pior do nosso irmão. Precisamos “ser muito vagarosos em procurar defeitos no nosso próximo”[21].


Que o Senhor nos conceda essa disposição! Amém!

NOTAS:


[1] John R. W. Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, (São Paulo: ABU, 1981), 81.


[2] Ibid.


[3] Ibid.


[4] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, (Rio de Janeiro: CPAD, 2008), 79.


[5] Vincent Cheung, The Sermon on the Mount, (Boston, MA: Reformation Ministries International, 2004), 112. Versão em português: Vincent Cheung, Julgamento, p. 1. Extraído do site http://www.monergismo.com.


[6] Citado em John R. W. Stott, Contracultura Cristã: A Mensagem do Sermão do Monte, 81.


[7] Doug Kuiper, Julgar: O Dever do Cristão, 5. Extraído do site http://www.monergismo.com.


[8] Ibid.


[9] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), 503.


[10] D. Martyn Lloyd-Jones, Estudos no Sermão do Monte, (São José dos Campos: Fiel, 1999), 448, 449.


[11] Ibid.


[12] Ibid.


[13] Ibid, 449.


[14] Ibid.


[15] Thayer’s Greek Lexicon in BIBLEWORKS 7.0.


[16] Ibid.


[17] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, 80.


[18] Esta é a tese de Edward T. Welch, Vícios: Um Banquete no Túmulo, (São Paulo: Nutra Publicações, 2010).


[19] Matthew Henry, Comentário Bíblico Novo Testamento: Mateus a João, 80.


[20] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Mateus, Vol. 1, 506.


[21] J. C. Ryle, Meditações no Evangelho de Mateus, (São José dos Campos: Fiel, 2002), 46.

QUEM É APAIXONADO, MARCHA... QUEM AMA, CAMINHA...

NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: No geral as críticas apresentadas contra a famigerada Marcha pra Jesus são muito boas!


José Barbosa Júnior

Há tempos pretendia escrever sobre a tal “Marcha Para Jesus”. Na verdade, desde o ano passado, mas acabei perdendo o “tempo”, a marcha se foi... e esse ano voltou, como todo ano volta. E cá estou eu, finalmente escrevendo sobre o “grande evento gospel” do Brasil (sei que a marcha acontece em outros países, mas quero falar de nós, brasileiros).

Fiquei pensando nas grandes mudanças ocorridas nesse intervalo de um ano entre uma marcha e outra. Sim, a “Marcha Para Jesus” é um “ato profético”. Pelo menos foi o que ouvi de um auto-denominado “apóstolo”, marido da “bispa” que é um dos promoters da grande manifestação gospel de nossa igreja genuinamente brasileira. Deve ter mudado alguma coisa, ou então essa profecia é meio estranha. Pelo tempo que a marcha acontece (13 anos) alguma coisa deve ter mudado, e para melhor. Ou não mudou?

O ato profético ao qual a marcha se agarra é o de que “todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado...” (Josué 1.3). Pelo menos isto foi o que ouvi do tal “apóstolo” num debate em uma rádio gospel.

A Marcha Para Jesus é o ponto de encontro dessa geração apaixonada. Vi na Tv a empolgação da grande massa que dançava freneticamente ao som eletrizante dos trios que me fizeram lembrar os trios da Bahia em época de carnaval. Muita dança, muita festa, pouco conteúdo! O grande problema é que gente apaixonada marcha, grita, canta e dança... mas só ENQUANTO está apaixonada. Mas fica a pergunta: e quando a paixão acabar? Sim, paixão é coisa que acaba um dia. Por mais que digam o contrário.

Sinceramente não tenho nada CONTRA a Marcha Para Jesus. Só a considero infantil. Coisa de criança. E em São Paulo toma ares de disputa com a Parada do Orgulho Gay. Quem tem a maior multidão? Quem consegue levar mais gente pra dançar atrás do trio? E aí, segundo a lógica dos organizadores se a MPJ tiver mais gente, é sinal que o nosso exército é maior que o do inimigo. Ô turma pra gostar de números... não é à toa que nossas estatísticas evangélicas costumam ser mentirosas. Mentimos vergonhosamente nos números de membros de nossas igrejas.

Voltando ao “ato profético”. O que a marcha profetizava? O que ela simbolizava? O domínio do território onde os pés “santos” pisaram? Não creio, pois menos de uma semana depois os homossexuais conseguiram colocar mais gente em sua “Parada do Orgulho(?) Gay”. Significava o senhorio de Cristo sobre o Brasil? Sinceramente não creio nesse senhorio “abracadabra”, onde bastam as palavras mágicas (aqui no caso o chavão “O Brasil é do Senhor Jesus”) e num passe de mágica o Brasil inteiro se converteria... bobagem... infantilidade... coisas de gente sem profundidade.

Richard Foster começa seu livro “Celebração da Disciplina” com uma frase que me marca até hoje: “A superficialidade é a maldição do nosso tempo”. Concordo plenamente com ele. E eu iria mais longe. Pior do que a superficialidade é a celebração dessa superficialidade. O povo comemora o fato de não ter profundidade. Essa pra mim é a maior mensagem da Marcha Para Jesus: a celebração da superficialidade evangélica brasileira. É a “rave” dos apaixonados extravagantes, ou como diria Karl Marx, o “ópio do povo”.

Mas em contrapartida ao viver raso dos apaixonados está o amor. Amor é coisa pra gente grande com alma de criança (a pureza que Cristo vê nas crianças, não a superficialidade dos infantis). Paulo parece entender isso quando em sua majestosa poesia sobre o amor, em 1 Coríntios 13: “Quando eu era menino, falava como menino e raciocinava como menino. Quando me tornei homem, deixei para trás as coisas de menino.” O contexto é o amor. O amor nos torna gente grande, sem perder a doçura de criança.

Quem é apaixonado, marcha, grita, pula, dança... mas quem ama caminha, com vigor e serenidade, com força e sabendo ser fraco, com entusiasmo e ponderação. O amor se constrói no caminho... e não tem fim.

Quem ama não precisa marchar um dia, porque em todos os dias toma a sua cruz e segue aquele que o amou primeiro. Quem ama não precisa gritar que Jesus é Senhor do Brasil porque todos os dias fala do amor de Deus de forma tranqüila, para que, ao converterem-se as pessoas, o Brasil venha realmente a ser uma nação santa. Quem ama não precisa pular tanto porque sabe que pular muito “cansa as pernas” e difere muito de um caminhar sadio, onde as “juntas” são muito melhor aproveitadas.

Enfim, quem ama sabe que não há “ato profético” nenhum se não houverem profetas verdadeiros que estejam dispostos a, em suas atitudes, denunciarem o distanciamento do povo de Deus e anunciarem de verdade as boas-novas. Então serão, não “atos proféticos” sem eficácia alguma, mas “atos dos profetas”, que por sua vida e verdade no que dizem e vivem desafiarão o povo ao maior privilégio que poderiam ter: caminhar com Jesus. E essa “Caminhada COM Jesus” só terminará na glória, quando ele, justo juiz, vier buscar os que com ele caminharam.

Quando eu era menino, marchava como menino, pulava como menino, gritava como menino, fazia coreografias como menino, mas agora que me tornei homem, descobri o quão gostoso é caminhar, em amor, com aquele que me chamou para caminhar com Ele.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

7 TESES SOBRE "PASTORES CELEBRIDADES"

Kevin DeYoung


Nos últimos meses tem havido uma boa quantidade de discussão nos blogs (bons blogs de pessoas que eu respeito) sobre os perigos dos “pastores celebridades”. Como é freqüente o caso com essas questões, existem muitas preocupações legítimas que devem ser feitas e muitas reações exageradas que devem ser evitadas.


Então, em nenhuma ordem especial, aqui estão sete teses que devem ser lembradas:


1. Celebridade não é uma palavra de grande ajuda. Uma celebridade é simplesmente alguém que é bem conhecido e facilmente reconhecível. Então, num certo sentido, existem pastores celebridades. Porém, “celebridade” muitas vezes carrega conotações negativas, especialmente nos círculos cristãos. Uma celebridade é alguém que é famoso por nenhuma razão substancial. Ouvimos “celebridade” e pensamos “vão”, “caçador de status”, “importante por motivos superficiais. A menos que seja isso que queiramos dizer sobre alguns cristãos bem-conhecidos (e talvez seja), devemos evitar chamá-los de “pastores celebridades”. Macho Man Randy Savage[1] e Martyn Lloyd-Jones eram famosos e influentes em seus próprios círculos, mas havia uma diferença entre eles.


2. A popularidade é, para usar uma frase de Jonathan Edwards, um não-sinal. Notar que o pastor X é popular, não deve ser visto como um juízo de valor. Hitler foi popular por um tempo, mas assim era Jesus. Não é um sinal necessário de fidelidade ou infidelidade que muitas pessoas vão à igreja do pastor X, amem ouvir suas pregações ou comprar seus livros. Importantes podem ser melhores ou piores.


3. O faccionismo é um perigo, mas faccionismo não é a mesma coisa que ter um seguidor. Muitas pessoas são rápidas para trazer a advertência de Paulo em 1 Coríntios sobre aqueles que dizem “Eu sou de Paulo” ou “Eu sou de Apolo”. Mas Paulo está repreendendo a igreja por causa das divisões (v. 10) e brigas (v. 11), não por ter mestres. Ser atraído por certo pregador por si só não significa que você está cometendo o pecado do sectarismo. Se você pensa que o seu mestre favorito é o único que vale a pena ouvir, se você é apaixonado por segui-lo em vez de por seguir a Cristo, se voe entra em discussões sem sentido para defender o seu mestre, aí sim, você está cometendo o erro contra o qual Paulo advertiu.


4. O coração humano é desesperadamente corrupto, quem pode compreendê-lo? Pregadores populares e mestres não estão imunes à vaidade, orgulho e autoabsorção. Aqueles que os seguem não estão imunes à idolatria, idiotices e de perderem completamente o ponto. E os críticos de todas essas coisas não estão imunes à inveja, cinismo e de minarem a obra de Deus apenas porque parecia estar funcionando.


5. Os homens seguem homens (e com isso eu quero dizer, de forma menos elegante, os humanos seguem outros seres humanos). Enquanto nos lembramos do Heroi, é bom ter herois humanos (Hebreus 13.7). Mostre-me um grande cristão na história da igreja e eu garanto que ele (ou ela) aprendeu aos pés de alguns outros cristãos. Para algumas pessoas é Whitefield ou Hodge ou Warfield. Para outras é Agostinho, Aquino ou Atanásio. Ainda para outras é Susanna Wesley, Sarah Edwards ou Elisabeth Elliot. Para outras pode ser Lloyd-Jones, Lewis ou Machen. Por que deveríamos nos surpreender com o fato de que alguns nomes atuais serão adicionados à lista de instrumentos especiais de Deus?


6. Dê glória a Deus por seus dons onde quer que você os encontre. Isso implica três coisas:


1) Sempre devemos lembrar – e não apenas dar louvor fingido ao fato – que Deus é aquele que distribui dons aos mestres, pastores e autores. As igrejas são edificadas. Deus recebe a glória.


2) Alguns cristãos são mais talentosos do que outros. Isso não apenas é a realidade; essa é a maneira como Deus projetou as coisas. Será melhor aprender sobre João Calvino de alguns professores do que de outros (uma das razões de os palestrantes serem anunciados nas conferências). Frequentemente, aqueles com os dons mais acentuados são os que têm maior influência. E aqueles com maior influência, usualmente, são mais conhecidos do que aqueles com pouca influência. Então, enquanto Deus distribui dons como lhe apraz, não fujamos do fato de que alguns homens têm mais notoriedade e são usados mais intensamente que outros. Se você tivesse que dar uma aula sobre a Reforma, certamente gastaria a maior parte do seu tempo com Lutero, Calvino, Knox e Zwinglio. A mente humana só pode compreender uma parte, por isso tendemos a nos concentrar sobre os homens que (aos nossos olhos imperfeitos) pareciam ser utilizados por Deus exclusivamente em seu plano.


3) Temos de encontrar formas de honrar as partes do corpo que menos são honradas (1 Coríntios 12.24). Isso pode significar agradecer ao seu fiel pastor mais frequentemente, embora seus sermões nunca figurem em uma antologia da pregação. Isso pode significar escrever um agradecimento aos empregados em nossas igrejas que estão por trás dos dons que aparecem. Certamente significa que aqueles com dons destacados de ensino devem procurar formas de direcionar a atenção para fora de si mesmos, de modo que possam honrar “as outras partes do corpo”. Pastores seniores, em particular, devem encontrar formas de elogiar publicamente o resto do seu pessoal. Eles também devem desenvolver o hábito de agradecer em particular os outros. E deveriam orar por esposas que não são facilmente impressionadas (e reconhecer a graça de Deus quando elas não são!).


7. Envergonhe pessoas apenas porque você está certo que algo é verdadeiramente vergonhoso. Seguir seus palestrantes favoritos como adolescentes seguindo John, Paul, George e Ringo é bobagem. Mas tenhamos cuidado para não fazer com que todo cristão que já tenha conseguido um autógrafo ou uma fotografia se sinta uma droga. Há razões estúpidas para esperar na fila para falar com uma pessoa popular. Mas há razões que honram a Deus também. Muitas pessoas desejam simplesmente dizer “muito obrigado”, ou pedir oração, ou pedir um pequeno conselho. Julgamentos facilmente se transformam em sentenças, quando não conhecemos todos os fatos (1 Samuel 16.7). Se em nosso desejo de alertar contra o culto à personalidade nos esquecemos de que Deus usa as pessoas, não prestaremos nenhum favor à igreja ou a Deus nesse assunto.




TRADUÇÃO LIVRE: Alan Rennê Alexandrino Lima


NOTA:


[1] Macho Man Randy Savage ou simplesmente Randy Savage, foi um ex-lutador de wrestling profissional e ator. Savage era melhor conhecido por suas passagens na Total Nonstop Action Wrestling, World Championship Wrestling e mais notavelmente pela World Wrestling Federation.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

ORAR COM FÉ

Wilhelmus à Brakel


A quinta característica da oração é que ela é oferecida em fé. Oração requer fé em um sentido especial: “e tudo quanto pedires em oração, crendo, recebereis” (Mateus 21.22); “Por isso, vos digo que tudo quanto em oração pedirdes, crede que recebestes, e será assim convosco” (Marcos 11.24); “Peça-a, porém, com fé, em nada duvidando” (Tiago 1.6).


Em primeiro lugar, isso exige que o suplicante seja um crente – alguém verdadeiramente convertido (Tiago 5.16). “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los?” (Lucas 18.7). Assim como Deus ouve os jovens corvos quando O chamam, assim também Ele ouve uma pessoa não-convertida, e doará algumas bênçãos a ela. Estas são meramente de natureza temporal, no entanto, provenientes da bondade comum de Deus e à parte de Suas promessas. Não obstante, Seus filhos são os herdeiros da promessa e oram através do Espírito de oração. Portanto, “os olhos do SENHOR repousam sobre os justos, e os seus ouvidos estão abertos ao seu clamor” (Salmo 34.15); “Ele acode à vontade dos que o temem; atende-lhes o clamor e os salva” (Salmo 145.19).


Segundo, isso exige que o suplicante se aproprie de todas as promessas da Palavra de Deus como tendo sido feitas a ele, e que então considere a si mesmo como um herdeiro da promessa (Hebreus 6.17). Ele ainda deve considerar que não são apenas promessas que têm o sim e o amém em Cristo (2 Coríntios 1.20), mas que, para ele, também são fiéis e verdadeiras – particularmente aquelas que pertencem à audição das orações.


Terceiro, é necessário que o suplicante considere, crendo, que:


(1) Deus ordenou a oração como um meio de graça para conceder ao homem tudo aquilo que necessita.


(2) Deus não só é onisciente e conhece os corações de todos os homens, mas também, durante a oração, olha para o suplicante, toma nota das expressões dos seus desejos, e os ouve (Salmos 34; 145).


(3) Deus é onipotente e é capaz de conceder o seu desejo, independentemente de isso ser provável, os meios estarem disponíveis, ou de tudo parecer oposto: “Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós” (Efésios 3.20); “Porque para Deus não haverá impossíveis” (Lucas 1.37).


(4) Deus é bom e, portanto, desejoso de dar ao suplicante o cumprimento do seu desejo. Ele está pronto a perdoar (Salmo 86.5), ama livremente (Oséias 14.4), espera, para poder ser gracioso (Isaías 30.18), e se alegra por fazer o bem ao Seu povo (Jeremias 32.41). Na oração, a fé deve reconhecer Deus como tal.


(5) Deus é fiel em cumprir todas as Suas promessas feitas aos suplicantes: “Abre bem a boca, e ta encherei” (Salmo 81.10).


Quarto, o suplicante deve, com impressão e elevando seu coração crer que:


(1) Todo aquele que vem a Deus por intermédio de Cristo, agrada a Deus em Cristo (Daniel 9.23; Atos 10.30,33).


(2) O Senhor se satisfaz com saudade, lágrimas, gemidos e o choro de Seus filhos dirigidos a Ele: “mostra-me o rosto, faze-me ouvir a tua voz, porque a tua voz é doce, e o teu rosto, amável” (Cântico dos Cânticos 2.14).


(3) Deus vê o seu rosto em Cristo, ouve sua oração, e responde de acordo com Sua vontade: “E será que, antes que clamem, eu responderei; estando eles ainda falando, eu os ouvirei” (Isaías 65.24). Nesses assuntos mencionados o suplicante deve estar certo e seguro, pois eles estão de acordo com a verdade. Quanto mais sustentá-los diante de si com crescente estima, quanto mais orar com fé, mais agradável a sua oração será, mais certo ele estará de que vai obter o assunto pelo qual orou.


Entretanto, muitos filhos de Deus são deficientes aqui. Eles não perseguem ativamente esses assuntos mencionados e essas disposições, e aleatoriamente expressam seus desejos. Muitos também são fracos na fé – particularmente para crer que Deus os ouvirá e concederá o seu desejo. “Pois”, eles pensam, “como eu posso crer, visto que sou tão pecaminoso, e, além disso, tenho experimentado com muita freqüência que não tenho recebido nada em resposta à minha oração”. Para sua instrução, deve ser observado:


(1) Que Deus não ouve a despeito da nossa justiça, mas por causa da justiça de Cristo. Portanto, para aquele que está em Cristo – a medida da graça da luz e vida é irrelevante na medida em que a oração é respondida – é o descuido da sua oração e sua falha em exercitar a fé em oração que impede sua oração de ser respondida.


(2) Você não pode dizer verdadeiramente que Deus nunca respondeu sua oração nem que Ele nunca concedeu o desejo pelo qual você orou. É certo que Deus, frequentemente, tem se agradado das suas lágrimas e gemidos, e tem abençoado a sua oração. Não obstante, você nem mesmo percebe essas bênçãos nem as menciona em sua oração.


(3) Há casos específicos nos quais esses assuntos foram respondidos, tendo sido trazidos diante de Deus. Contudo, Deus não tem tempo prometido, maneira ou medida. Não sabemos o que é melhor, e se Deus atendesse muitos pedidos nos termos em que os fizemos, posteriormente veríamos que teria sido melhor se não os tivéssemos recebido. O suplicante deve realmente crer que sua oração foi agradável a Deus e que Ele a atendeu. Ele deve se submeter, com contentamento à vontade de Deus, e fazer isso sem murmuração, irritabilidade, incredulidade e sem desviar o pensamento: “Deus não me ama e não me ouve de jeito nenhum”. Isso desagrada a Deus e não é benéfico para o suplicante.


(4) Há coisas que, em absoluto, não podemos desejá-las, e, assim, também não podemos orar para recebê-las. Então, o suplicante também não tem liberdade na oração e não deve parecer estranho que ele não as receba. É uma grande tolice desejar que Deus nos dê aquele assunto particular pelo qual não nos atrevemos a orar. Portanto, governe seus desejos de acordo com a vontade de Deus e não seja tão apaixonado em seus desejos por assuntos temporais. Deixe a sabedoria, bondade e vontade de Deus ser o seu prazer. Você será capaz, então, de orar com fé e, de forma submissa, esperar que seja respondido: “é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam” (Hebreus 11.6).



FONTE: Wilhelmus à Brakel. The Christian's Reasonable Service. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2007. pp. 462-464.



TRADUÇÃO LIVRE: Alan Rennê Alexandrino Lima

quinta-feira, 2 de junho de 2011

A DOUTRINA DA EXPIAÇÃO CHRISTUS VICTOR DE GUSTAF AULÉN

I – INTRODUÇÃO
O teólogo sueco Gustaf Aulén apresentou a sua teoria da expiação na Universidade de Uppsala (Suécia), durante os meses de março e abril de 1930. A teoria foi apresentada como uma série de oito palestras que, posteriormente, tomaram a forma de um livro intitulado Christus Victor.

Estritamente falando, o livro é uma exposição histórica que, apesar de não conter nenhuma afirmação explícita da teoria como sendo pessoal, constitui-se numa apologia da primeva teoria do resgate, denominada por Aulén de “a teoria clássica”. A originalidade e importância da obra está no seu forte delineamento da visão da expiação como sendo um resgate, que surge de frases como o próprio título do livro e “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”.

II – A TEORIA DO RESGATE E O CHRISTUS VICTOR
O que chama a atenção na teoria da Gustaf Aulén é que a mesma é uma variação da antiga teoria do resgate, que teve como um dos seus primeiros defensores Orígenes de Alexandria (c. 185-254 d.C.).


Em sua essência, a teoria é a mesma, ou seja, que o próprio Deus veio ao mundo em Jesus Cristo, e libertou o seu povo do domínio tirânico do diabo, do pecado e da carne. Na teoria original de Orígenes não existiam os elementos da transação comercial, e do Pai fazendo uso de um engano astucioso para levar as forças do mal e Satanás à derrota, sendo que este caiu em uma armadilha, não sabendo que Cristo ressuscitaria e não podendo, assim, manter Cristo em suas garras.


A grande contribuição de Aulén está justamente na eliminação dos elementos do pagamento e do engano inseridos na teoria por homens como Gregório de Nissa e Ambrósio de Milão. Com o termo Christus Victor indica, a idéia de “resgate” deve ser entendida simplesmente em termos de uma libertação da humanidade da escravidão do pecado.


No tratamento dispensado a essa questão, Aulén afirma: “Deus em Cristo combate e prevalece sobre os ‘tiranos’ que mantêm a humanidade em escravidão”.[1] O Christus Victor não é aquele que é oferecido em transação como um pagamento, mas sim o combatente que derrota o pecado, a carne e o diabo. Para Aulén, “Deus é pintado como em Cristo realizando um conflito vitorioso contra os poderes do mal que são hostis à sua vontade”.[2] O diabo seria aquele que detém autoridade e direitos jurídicos sobre a humanidade pós-queda. Nesse sentido, a afirmação de Aulén é muito interessante:


No que diz respeito ao engano do diabo. Não precisa ser dito que a aplicação de qualquer pensamento a Deus é, no mínimo perigosa, e que as expressões realistas, se tomadas literalmente, são absurdas. Mas, podemos lembrar a nós mesmos que, enquanto Lutero prontamente adotou essas analogias, mesmo nas suas formas mais grotescas, ele encontra nelas o ponto de partida para alguns dos seus ensinamentos mais profundos sobre o Deus Oculto. É verdade que não encontramos a profundidade dessa interpretação apenas nos Pais. No entanto, por trás de todas as especulações aparentemente fantásticas reside o pensamento de que o poder do mal, em última análise, supera a si mesmo quando entra em conflito com o poder do bem, com o próprio Deus. Ele perde a batalha no momento em que parece ser vitorioso.[3]

Outro ponto que deve ser notado no pensamento de Aulén é a sua afirmação e defesa de que Martinho Lutero era um veemente defensor da teoria Christus Victor. Ele afirma que, “Lutero ama expressões violentas, cores fortes, imagens realistas e, em inumeráveis passagens ele descreve o conflito de Cristo contra os tiranos dessa forma”.[4] Não obstante, Aulén afirma que a maior prova de que Lutero defendia a teoria do resgate pode ser sumariada em três pontos:


1. Nos seus catecismos Lutero sempre ensinou a ideia dramática;


2. Repetidamente ele afirma, que as declarações do significado da expiação em termos dramáticos oferece a verdadeira essência da fé cristã, pois elas são capitalia nostrae theologiae[5];


3. A visão dramática da obra de Cristo está numa relação orgânica com toda a sua perspectiva teológica.[6]


Por fim, é importante que se diga que, para Aulén, a expiação, além de ser central no pensamento teológico cristão, está diretamente relacionada com a natureza de Deus. Ele assevera que, “toda interpretação da expiação está mais intimamente conectada a alguma concepção da natureza divina”.[7] Ligada a esta afirmação está o pensamento apresentado na obra de que a expiação, em essência, é uma obra de Deus, como expresso no seu uso da frase “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo”.[8]

III – AVALIAÇÃO DA TEORIA
Algumas dificuldades podem ser percebidas com muita facilidade da teoria do resgate, denominada por Gustaf Aulén como Christus Victor.


Em primeiro lugar, no que diz respeito ao apelo feito à autoridade de Martinho Lutero, é imprescindível reconhecer que, de fato, o reformador alemão fez amplo uso de imagens dramáticas para descrever a obra expiatória de Jesus Cristo como batalhando e triunfando sobre os poderes demoníacos. Eis um exemplo:


Não apenas os meus pecados e os seus, mas os pecados de todo o mundo, passados, presentes e futuros, atacam a Cristo, tentam condená-lo, e, de fato o condenam. Porém, visto que na mesma Pessoa, que é a mais alta, a maior, e o único pecador, há também justiça eterna e invencível, pois estas duas convergem: o mais alto, maior e o único pecado; e a mais alta, maior e a única justiça. Aqui um deles deve ceder e ser conquistado, uma vez que, juntos, colidem com um poderoso impacto. Assim, o pecado do mundo inteiro ataca a justiça com o maior impacto e fúria possíveis. O que acontece? A justiça é eterna, imortal e invencível. O pecado, também, é um tirano muito poderoso e cruel, dominando e reinando sobre todo o mundo, capturando e escravizando todos os homens. Em suma, o pecado é um grande e poderoso deus, que devora toda a raça humana, todos os homens cultos, incultos, santos, poderosos e sábios. Ele, eu digo, ataca a Cristo e deseja devorá-lo como devorou todo o resto. Mas ele não vê que Jesus é uma Pessoa de justiça eterna e invencível. Nesse duelo, portanto, é necessário que o pecado seja vencido e morto, e que a justiça prevaleça e viva. Assim, em Cristo todo pecado é vencido, morto e sepultado; e a justiça continua a ser a vencedora e governadora por toda a eternidade.[9]

Apesar disso, como observa com muita propriedade Robert Letham:


Ele [Lutero] viu esses poderes, contudo, como agentes da ira de Deus. Segundo ele, o contexto imediato da morte expiatória de Cristo era a nossa culpa e a ira de Deus. Ele viu a libertação do poder do diabo como um fruto do livramento da ira de Deus (LW 26, 276-291; 27, 4). Sua ênfase recai sobre a morte de Cristo como um sacrifício de satisfação substitutiva pelo pecado humano (LW 13, 319; 23, 195; 24, 98; 25, 45, 249, 284, 349).[10]

O que foi dito acima pode ser percebido com muita clareza na seguinte afirmação de Lutero, a respeito do Salmo 110.4:


A cruz foi o altar sobre o qual Ele [Jesus], consumido pelo fogo do amor sem limites, que ardia no seu coração, apresentou o vivo e santo sacrifício de seu corpo e sangue ao Pai com intercessão fervorosa, clamores e quentes e suplicantes lágrimas (Hebreus 5.7). Esse é o verdadeiro sacrifício. De uma vez por todas tira os pecados de todo o mundo e traz uma reconciliação eterna e perdão.[11]

Alhures, Lutero afirma:


A morte de Cristo é a morte do pecado, e Sua ressurreição é a vida de justiça, porque através da sua morte Ele fez satisfação pelo pecado, e através da Sua ressurreição, Ele nos trouxe justiça. E assim, sua morte não apenas significa, mas verdadeiramente efetua a remissão do pecado como uma mais suficiente satisfação. E Sua ressurreição não é apenas um sinal ou sacramento da nossa justiça, mas também produz em nós, se cremos, e é também a causa da mesma. Desses assuntos falaremos em maiores detalhes posteriormente. Este conceito é o que os teólogos escolásticos chamavam de troca: a expulsão do pecado e a infusão da graça.[12]

Em segundo lugar, há uma séria dificuldade quando Aulén afirma que toda interpretação da expiação está intimamente relacionada com alguma concepção da natureza do ser de Deus. A dificuldade está no fato de que, apesar de negar a concepção dualista envolvida na teoria do resgate, ele afirma a soberania do diabo sobre a humanidade pós-queda, incluindo aqueles que seriam posteriormente libertados por Cristo. Afirmar isso é afetar seriamente o ser Deus por negar a sua plena soberania sobre todas as coisas. Ainda que Aulén afirme que o diabo não é “uma força igual e oposta a Deus”[13], ele labora em erro ao conceber Satanás como soberano sobre a humanidade. É verdade que, as Sagradas Escrituras afirmam que o diabo escraviza a humanidade (Efésios 2.2-3). Não obstante, é Deus quem entrega os homens caídos à escravidão. Satanás é meramente um agente da ira divina na qual o ser humano incorreu ao desobedecer. É o próprio Deus quem entrega os homens à escravidão e é Deus quem os liberta desse cativeiro maligno. A ideia de um resgate pago, no caso, não deve ser desconsiderada. As Escrituras são claras a este respeito (Colossenses 1.13-14). Contudo, o resgate não é pago a Satanás, mas sim ao Deus ofendido com o pecado humano.


No que tange ao resgate como sendo uma batalha cósmica entre Deus e os poderes do mal, as Sagradas Escrituras falam claramente de Jesus como derrotando inimigos (1 Coríntios 15.26) e que, na cruz, ele expôs os inimigos publicamente ao desprezo e escárnio (Colossenses 2.15). Porém, Cristo liberta o seu povo não de Satanás, mas do próprio Deus que está irado com o pecado humano (1 Tessalonicenses 1.10). E a expiação é apresentada também como uma satisfação penal substitutiva (Isaías 53; Romanos 5.8).


Ademais, tanto a teoria do resgate original quanto a teoria Christus Victor possuem implicações claramente docéticas, visto que afirmam ser a expiação uma obra de Deus, eclipsando, assim, a necessidade da humanidade de Cristo para que ele fosse um verdadeiro substituto dos pecadores.[14]

NOTAS:
[1] Gustaf Aulén. Christus Victor: An Historical Study of the Three Main Types of the Idea of the Atonement. London: SPCK, 1931. p. 72.


[2] Ibid. p. 21.


[3] Ibid. p. 71.


[4] Ibid. p. 119.


[5] Expressão latina que significa “capitais na nossa teologia”.


[6] Gustaf Aulén. Christus Victor: An Historical Study of the Three Main Types of the Idea of the Atonement. p. 120.


[7] Ibid. p. 29.


[8] Aulén afirma o seguinte: “Its central theme is the idea of the Atonement as a Divine conflict and victory; Christ-Christus Victor-fights against and triumphs over the evil powers of the world, the ‘tyrants’ under which mankind is in bondage and suffering, and in Him God reconciles the world to Himself” (“Seu tema central é a ideia da expiação como um conflito e vitória divines; Cristo – Christus Victor – luta contra e triunfa sobre os poderes maus do mundo, os ‘tiranos’ sobre os quais a humanidade está em escravidão e sofrimento, e nEle Deus reconcilia o mundo consigo”). Ibid. p. 20.


[9] Martin Luther. Luther’s Works: Lectures on Galatians 1535. Vol. 26. St. Louis, MI: Concordia Publishing House, 1963. p. 281.


[10] Robert Letham. A Obra de Cristo. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. pp. 160-161.


[11] Martin Luther. Luther’s Works: Selected Psalms II. Vol. 13. St. Louis, MI: Concordia Publishing House, 1987. p. 319.


[12] Martin Luther. Luther’s Works: Lectures on Romans. Vol. 25. St. Louis, MI: Concordia Publishing House, 1972. p. 284.


[13] Gustaf Aulén. Christus Victor: An Historical Study of the Three Main Types of the Idea of the Atonement. p. 71.


[14] Robert Letham. A Obra de Cristo. p. 161.
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