sábado, 7 de maio de 2011

SOBRE A ORDENAÇÃO [1]

Herman Bavinck

Finalmente, em adição ao chamado e exame, existe ainda a ordenação, que tem lugar especialmente pela imposição de mãos. Em Israel, esse gesto cerimonial era feito por ocasião de uma bênção (Gênesis 48.14; Levítico 9.22), um sacrifício (Êxodo 29.10; Levítico 1.4), uma acusação (Levítico 24.14), a consagração de um levita (Números 8.10), a escolha para um ofício (Números 27.18-23), e, por último, também para a instalação de juízes e a promoção de mestres.[2] Jesus impôs as mãos sobre as pessoas para curá-las (Mateus 8.15; 9.18; Marcos 5.23, cf. 2 Reis 4.34; 5.11) e para abençoá-las (Mateus 19.15; Lucas 24.50). Ainda que as pessoas dêem grande valor a esse ato (Mateus 9.18; Marcos 5.23; 7.32), em nenhum lugar lemos que Jesus o tenha realizado na ordenação para o ofício apostólico. Ele nomeou seus apóstolos apenas por pronunciar palavras, não por alguma cerimônia (Mateus 10.1ss.; 28.19). Em relação à nomeação de Matias, Paulo, Barnabé, Silas e Lucas (e assim por diante), não existe em nenhum lugar menção alguma da imposição das mãos. Certamente, não era uma prática universal ao iniciar candidatos em algum ofício eclesiástico. Mas a imposição das mãos tinha lugar por ocasião de uma cura (Atos 9.12,17), comunicação do dom do Espírito (Atos 8.17-19), e na nomeação de diáconos (1 Timóteo 4.14; 2 Timóteo 1.6). De acordo com 1 Timóteo 5.22, era comum usar a imposição das mãos na ordenação para um ofício eclesiástico, e de acordo com Hebreus 6.2 pertencia aos princípios elementares do ensino de Cristo. Mas ela não era uma comunicação real dos dons espirituais do ofício. Atos 6.3 ensina que os diáconos ao serem nomeados deveriam ser, de antemão, cheios do Espírito Santo e de sabedoria. De acordo com 1 Timóteo 1.18 e 4.14, a nomeação de Timóteo como evangelista foi confirmada por testemunhos proféticos e pela imposição das mãos por um corpo de presbíteros (presbyterium). E enquanto em 2 Timóteo 1.6 o dom do ofício é, na verdade, concebido como tendo lugar “através da imposição de mãos”, 1 Timóteo 4.14 diz que ele era concedido “através de profecia” e “com a imposição de mãos” – prova de que a profecia e a imposição de mãos não eram as fontes dos dons, mas os meios pelos quais eles eram introduzidos no serviço da igreja e designados para o ministério.


Dos apóstolos, esse costume de impor as mãos passou à igreja cristã, que o aplicou por ocasião do batismo, curas, a readmissão dos caídos e hereges, casamento, penitência e ordenação. No último caso, o direito de administrar esse costume nos anos posteriores era reservado apenas ao bispo e concebido como a outorga de um dom especial de ofício. Contra o Gnosticismo e o Montanismo, de algum modo, a verdade da igreja era demonstrada pelo fato de que nas igrejas fundadas pelos apóstolos, os bispos eram os detentores da pura tradição. Eles receberam essa tradição dos apóstolos e a transmitiram aos seus sucessores. A “sucessão passada adiante desde o princípio”, argumentada com base em 2 Timóteo 2.2, era a garantia para isso, pois o ofício incluía a comunicação de um “espírito” especial de ofício que preserva o portador do ofício, por mais que, pessoalmente, ele seja ímpio. Na igreja antiga a imposição das mãos, certamente, era costume por ocasião da ordenação de presbíteros, diáconos e ordens menores; ela era sempre acompanhada por oração e observada, posteriormente, por um longo tempo como o sinal simbólico da comunicação do dom do ofício. “A imposição das mãos – o que ela é senão uma oração sobre um ser humano?”[3] Porém, gradualmente, ela passou a ser observada como um sacramento que ex opere operato efetuava uma marca indelével.[4] Os luteranos primeiro a rejeitaram, mas depois a reassumiram e algumas vezes deram grande valor a ela.[5] Os reformados julgaram, por unanimidade, que a imposição de mãos não foi uma ordem de Cristo e, portanto, não era estritamente necessária. Porém, enquanto alguns a consideraram útil, venerável, e digna de ser seguida[6], outros sustentaram ser um assunto indiferente e, por temor de superstição, recomendaram que não fosse usada.[7]


A imposição das mãos não é um elemento essencial na ordenação, pois nem em conexão com o próprio Jesus, nem em conexão com os apóstolos, nem mesmo em conexão com os presbíteros (Atos 14.23; 20.28) há alguma menção de que ela foi feita. Ela também não pode ser observada como uma transmissão mecânica de um “espírito” especial de ofício. De acordo com a Escritura, ela não concede, mas, em vez disso, pressupõe o carisma exigido para o ofício. Ela também não é idêntica à eleição ou chamado para o ofício, mas segue esses eventos e pode, portanto, ser uma designação pública da pessoa chamada para um dado ofício e uma solene introdução e consagração ao ofício. Exatamente como uma cerimônia de casamento diante de um representante do Estado não constitui a essência de um casamento, e a coroação não faz um rei, assim também, a ordenação, com ou sem a imposição das mãos, não é a comunicação de um ofício ou do espírito de um ofício. Antes, a ordenação é a declaração pública solene diante de Deus e sua congregação que a pessoa chamada tem sido enviada por meio de um processo fiel e, portanto, pelo próprio Deus, que essa pessoa possui os dons exigidos e como tal deve ser recebida, reconhecida e honrada pela igreja em questão.[8]


FONTE: Herman Bavinck. Reformed Dogmatics: Holy Spirit, Church, and New Creation. Vol. 4. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008. pp. 381-383.

TRADUÇÃO LIVRE: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

NOTAS:

[1] NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: No original: “Ordination”.

[2] E. Schürer, The History of the Jewish People, II. 164-165.

[3] Agostinho, On Baptism 3, 16.

[4] Concílio de Trento, 23, c. 7; *De Ref., c. 3, 10; Roman Catechism, II, ch. 7, qu. 29 (nota do editor: Bradley and Kevane, II, ch. 6, qu. 32); R. Belarmino, “De clericis”, in Controversiis, I, 14.


[5] Apology of the Augsburg Confession, art. 13.

[6] João Calvino, Institutas, IV.iii.16; IV.xiv.20; IV.xix.31; ver também Aretius, Spanheim, Koelman, et al. NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: João Calvino escreveu o seguinte: “Mas, embora nenhum preceito expresso subsista quanto à imposição de mãos, uma vez que, no entanto, vemo-la vigorar em uso perpétuo pelos apóstolos, essa sua observância tão acurada deve valer-nos por preceito. E certamente é útil como símbolo desta natureza, tanto para recomendar ao povo a dignidade do ministério, quanto para advertir aquele que é ordenado, de que já não é de seu direito, mas antes é dedicado em sevidão a Deus e à Igreja. Isto posto, não será um sinal sem sentido, se for restaurado à sua origem genuína. Ora, se o Espírito de Deus nada institui na Igreja em vão, haveremos de sentir, quando ela for provida por ele, que esta cerimônia não é inútil, desde que não se converta em abuso supersticioso”. Cf. João Calvino. As Institutas: Edição Clássica. IV.iii.16. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. pp. 76-77.


[7] Sínodo de Emden, art. 16: “Os ministros da Palavra devem ser examinados, isto é, questionados, por aqueles que os escolheram. Quando sua doutrina e vida forem reconhecidas como aceitáveis, eles serão instalados com orações apropriadas e com a imposição das mãos (mas sem superstição e como um requerimento)” (De Ridder, 116-117).


Sínodo de Dordrecht (1574), art. 24: “Em vista do fato de que a igreja está apenas em seu princípio, a imposição das mãos pode levar à superstição e ao ridículo por alguns, os irmãos têm decidido que a imposição das mãos deve ser abandonada e apenas os ministros serão confiados a Deus e a congregação como provido nos artigos seguintes” (De Ridder, 155).


Sínodo de Middelburg (1581), art. 5: “Aquele que está preparado para o ministério da Palavra e é chamado por outra congregação será recebido com orações e com a destra da comunhão. Ninguém da congregação será forçado a concordar contra a sua vontade” (De Ridder, 175); G. Voetius, Pol. Eccl., III, 452, 579; B. de Moor, Comm. Theol., V, 352-356; VI, 327-331; C. Vitringa, Doctr. Christ., IX, 209, 353-357.


[8] R. Sohm, Kirchenrecht, 56ss.; Th. Zahn, Introduction to the New Testament, II, 94; E. C. Achelis, Lehrbuch der praktischen Theologie, I, 139-173; E. C. Cremer, “Handauflegung”, in PRE3, VII, 387-389; W. Caspari, “Geistliche”, in PRE3, VI, 471.

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