sexta-feira, 13 de maio de 2011

DEVEM OS CRENTES BUSCAR O DOM DE PROFECIA HOJE? - PARTE 3

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A Ordem Apostólica em 1 Coríntios 14.1 - CONTINUAÇÃO


Após discorrer sobre a natureza do amor, o apóstolo Paulo, no capítulo 14, volta a discorrer sobre a profecia e o dom de línguas, visando ensinar aos coríntios que as línguas eram um dom inferior à profecia. Mais uma vez, os não-cessacionistas impõem sentidos estranhos à passagem ao afirmarem que Paulo “define o que é profecia” nesse trecho. Ele não faz isso. Ele não define a natureza da profecia. Pelo contrário, ele pressupõe que os coríntios têm conhecimento acerca do que é a profecia. A ignorância deles em relação aos dons dizia respeito ao modo como usá-los. Não obstante, é possível saber o que era a profecia no pensamento do apóstolo: “A natureza da profecia para Paulo está claramente impregnada pela natureza da profecia expressa pelos profetas literários de Israel”.[1]

1 Coríntios 14.1 diz o seguinte: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis”. Existem três verbos na passagem em questão: diôkete, zêloute e profêteuête. Os dois primeiros verbos se encontram imperativo presente. Já o último se encontra no subjuntivo presente. Literalmente, o versículo deve ser traduzido assim: “Segui o amor, zelai pelos dons espirituais, preferencialmente que profetizeis”. De fato, os dois primeiros verbos expressam uma ordem direta e o terceiro, uma ordem indireta. A grande questão é se o tempo presente dos três verbos significa que o mandamento para se buscar os dons, especialmente o dom de profecia, ainda é válido para os nossos dias. Isso porque, de acordo com os melhores gramáticos, o tempo presente expressa “a ação continuada, que se processa na ocasião do escrever, ou falar”.[2] Parte da dificuldade em relação à interpretação de 1 Coríntios 14.1 se deve à conjectura – em muitos casos não declarada – de que o tem presente dos três verbos é o chamado presente gnômico, que “anuncia algo verdadeiro para todos os tempos”[3], ou seja, anuncia verdades universais e absolutas, como por exemplo: Todo homem é mentiroso, o sol se levanta todas as manhãs, Deus é bom e etc. O grande problema com essa conjectura é que o presente gnômico, seguindo a linha de raciocínio continuísta, pode ser aplicado a todos os verbos que, no Novo Testamento grego, encontram-se no tempo presente. A questão é: Qual critério é utilizado para dizer qual se encontra no presente gnômico?

No entanto, argumentar somente a partir do tempo verbal é insuficiente e, pode se constituir em desonestidade intelectual. O modo imperativo é determinante para o correto entendimento da passagem. Os verbos diôkete e zêloute se encontram no imperativo presente, que de acordo com William D. Mounce: “O imperativo que é formado da raiz do tempo presente é chamado de imperativo presente, e indica uma ação contínua”.[4] A questão que surge, então, é: A ação de buscar os dons deveria continuar até quando? Essa ação deveria atravessar os séculos da história, chegando ao século XXI? Deve a igreja contemporânea buscar os dons, especialmente o dom de profecia, em razão do imperativo presente de 1 Coríntios 14.1? Mounce diz ainda que, “com o imperativo, não existe significância temporal”[5], ou seja, o imperativo grego não tem o propósito de definir durante quanto tempo tal ordem deve ser cumprida.

Atenção especial deve ser dada ao verbo traduzido como “procurai, com zelo” (zêloute). Nesse caso, Paulo estaria ordenando aos coríntios que buscassem os dons espirituais imbuídos de zelo e toda consideração para com os mesmos. Outras versões seguem o mesmo sentido:

Almeida Revista e Corrigida: “Segui a caridade e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar”.

Almeida Corrigida Fiel: “Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar”.

Nova Versão Internacional (NVI): “Sigam o caminho do amor e busquem com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom de profecia”.

Outras versões tradução o verbo de uma maneira um pouco diferente:

Bíblia de Jerusalém: “Procurai a caridade. Entretanto, aspirai aos dons do Espírito, principalmente à profecia”.

King James Version: “Follow after charity, and desire spiritual gifts, but rather that ye may prophesy” (“Segui a caridade, e desejai os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis”).

O que pode ser percebido nessas traduções, é que o verbo zêloute é traduzido com o sentido de “busca zelosa” e “aspiração” ou “desejo”. Todavia, todas essas traduções são perfeitamente questionáveis. Isso porque, o verbo grego zêloô aparece 11 vezes no Novo Testamento (Atos 7.9; 17.5; 1 Coríntios 12.31; 13.4; 14.1,39; 2 Coríntios 11.2; duas vezes em Gálatas 4.17; 4.18; Tiago 4.2). Em três ocasiões ele possui a conotação negativa de “inveja” e “ciúme”: “E os patriarcas, invejosos (zêlôsantei) de José, venderam-no para o Egito; mas Deus estava com ele” (Atos 7.9); “Os judeus, porém, movidos de inveja (zêlôsantei), trazendo consigo alguns homens maus dentre a malandragem, ajuntando a turba, alvoroçaram a cidade e, assaltando a casa de Jasom, procuravam trazê-los para o meio do povo” (Atos 17.5); “Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais (zêloute), e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis” (Tiago 4.2). Em quatro outras ocorrências zêloô tem o sentido de “ter zelo” ou “ter cuidado”: “Porque zelo (zêlô) por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo” (2 Coríntios 11.2); “Os que vos obsequiam (zêlousin) não o fazem sinceramente, mas querem afastar-vos de mim, para que o vosso zelo seja em favor deles (zêloute). É bom ser sempre zeloso (zêlousthai) pelo bem e não apenas quando estou presente convosco” (Gálatas 4.17,18).

Há ainda o verbo cognato zêleuô, que é utilizado pelo apóstolo João em Apocalipse 3.19: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso (zêleue) e arrepende-te”.[6]

O grande questionamento que surge, é: Por qual razão, apenas em 1 Coríntios, zêloô é traduzido como “busca zelosa” e “aspiração”? Por qual razão o verbo não é traduzido por “ter zelo”, como nas outras ocorrências em que ele assume uma conotação positiva? O mais inquietante é que muitos léxicos seguem essas traduções, desconsiderando o significado primário, que é o de “ter zelo”[7]. Louw e Nida apresentam uma tradução menos problemática do verbo, em 1 Coríntios 12.31: “Coloquem seus corações sobre os dons mais importantes”[8]. Ainda assim, não se trata de uma tradução exata de zêloô, e permanece a dúvida acerca do porquê desse verbo ser traduzido indevidamente. É perfeitamente possível que as traduções disponíveis sejam, de certa forma, influenciadas pela Vulgata, que traduz 1 Coríntios 14.1[9] da seguinte forma: “Segui a caridade e os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis”. A Vulgata aglutina os dois verbos gregos traduzindo-os em um só: “Segui”, dando a ideia de que os dons devem ser buscados, assim como o amor. Isso pode ser percebido, por exemplo, no comentário do erudito D. A. Carson: “A importância do amor não quer dizer que ele deve ser buscado ás custas dos dons espirituais: eles também devem ser desejados com avidez”[10]. Anthony Thiselton traduz o verbo como “cultivar uma postura de avidez”[11], não obstante, interpreta o versículo de uma forma correta. Diz ele que o apóstolo Paulo está falando que os coríntios devem “estar ansiosos por permitirem uma preocupação corporativa pelo bem-estar da comunidade, isto é, que esses dons possam operar na igreja, que é o horizonte da preocupação de Paulo”.[12]

Conclusão

Os não-cessacionistas, como afirmado por Robert L. Thomas, não permitem que o texto fale “por si só”. Visto que estão comprometidos com um “pré-entendimento” de 1 Coríntios 14.1, eles simplesmente se dão ao trabalho de citar a passagem – sem uma exegese séria da mesma – acusar os cessacionistas de provocarem divisão, confusão e ignorância no Corpo de Cristo, e conclamá-los ao arrependimento. Eles afirmam que tal busca ainda deve ser empreendida porque partem do pressuposto de que os dons revelacionais e miraculosos não cessaram com o fim da era apostólica. Visto que eles possuem esse “pré-entendimento” a leitura que fazem da passagem em questão acaba sendo subjetivada. E para agravar ainda mais, tudo indica que esse “pré-entendimento” é meramente a repetição das ideias – também subjetivadas – de Wayne Grudem. Será esse o tipo de “análise” que fará o cessacionismo cair por terra? A resposta é óbvia.

Através de uma análise da passagem ficou claro que, o apóstolo Paulo ordena que os coríntios sigam o caminho sobremodo excelente do amor, zelem, cuidem dos dons que estavam em operação na sua igreja local, sendo que, o principal desses dons, aquele que deveria ser alvo de um maior desvelo, era o dom de profecia. O princípio permanece válido para a igreja de hoje. Ela deve seguir o caminho sobremodo excelente do amor, deve zelar pelos dons espirituais em operação e, principalmente, pela fiel exposição das Sagradas Escrituras, o aspecto profético que permanece em nossos dias. Visto que Paulo não teve como preocupação definir o que era a profecia, o presente trabalho também não abordará essa questão, embora o seu autor não veja motivo plausível para considerar a profecia neotestamentária como algo diferente da profecia do Antigo Testamento.[13]

No mais, que aqueles que usam de reserva mental no momento de responder às perguntas constitucionais e prometer subscrever a Confissão de Fé de Westminster se arrependam dessa flagrante quebra do nono mandamento[14], bem como da divisão e confusão que, verdadeiramente semeiam no meio das igrejas reformadas.

SOLI DEO GLORIA!

NOTAS:

[1] C. M Robeck Jr. “Profecia, Profetizar”, In: Gerald F. Hawthorne, Ralph P. Martin e Daniel G. Reid (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas Cartas. São Paulo: Vida Nova/Paulus/Edições Loyola, 2008. p. 1009.

[2] William Douglas Chamberlain. Gramática Exegética do Grego Neotestamentário. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989. p. 96.

[3] Ibid. p. 97.

[4] William D. Mounce. Fundamentos do Grego Bíblico. São Paulo: Vida, 2009. p. 371.

[5] Ibid.


[6] Há uma leitura variante em Apocalipse 3.19. Alguns poucos manuscritos trazem o verbo zêloô no imperativo aoristo ativo (zêlôson). Todavia, considerando o contexto e a necessidade perene de zelo, a leitura correta é a que traz o verbo zêleuô no imperativo presente ativo (zêleue).

[7] Como por exemplo: Thayer’s Greek Lexicon, Gingrich Lexicon, LEH Lexicon, Liddell-Scott Lexicon, UBS Lexicon e Friberg Lexicon, todos disponíveis no BIBLEWORKS 7.0. Cf. também: Harold K. Moulton. Léxico Grego Analítico. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. p. 193; F. Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker. Léxico do NT Grego/Português. São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 92.

[8] Louw-Nida Greek Lexicon in BIBLEWORKS 7.0. Minha tradução.

[9] O texto, como se encontra na Vulgata, diz o seguinte: “sectamini caritatem aemulamini spiritalia magis autem ut prophetetis”.

[10] D. A. Carson. Showing the Spirit: A Theological Exposition of 1 Corinthians 12-14. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 1996. p. 101.

[11] Anthony C. Thiselton. New International Greek Testament Commentary: The First Epistle to the Corinthians. Grand Rapids, MI: W. B. Eerdmans Publishing Company, 2000. sem numeração de páginas.

[12] Ibid.

[13] Para uma análise interessante da natureza da profecia neotestamentária, as seguintes obras cessacionistas são de grande importância: Moisés Cavalcanti Bezerril. Os Profetas do Novo Testamento: Um Estudo sobre a Natureza da Profecia no Novo Testamento e uma Avaliação da Moderna Teoria dos Dois Níveis de Profecia. Recife: Berith Publicações, 1999, 91p; Richard B. Gaffin Jr. Perspectivas sobre o Pentecostes. São Paulo: Os Puritanos, 2010, 130p; Walter J. Chantry. Sinais dos Apóstolos: Observações sobre o Pentecostalismo Antigo e Moderno. São Paulo: PES, 1996, 136p; Sinclair B. Ferguson. O Espírito Santo. São Paulo: Os Puritanos, 2000, 360p; O. Palmer Robertson. A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje. São Paulo: Os Puritanos, 1999, 168p; George W. Knight III. A Profecia no Novo Testamento. São Paulo: Os Puritanos, 1998, 36p; Victor Budgen. The Charismatics and the Word of God. Faverdale North, Darlington: Evangelical Press, 2001, 320p.

[14] Ver a exposição feita pelo CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, na pergunta 145.

3 comentários:

Milton Almeida disse...

‎"Através de uma análise da passagem ficou claro que, o apóstolo Paulo ordena que os coríntios sigam o caminho sobremodo excelente do amor, zelem, cuidem dos dons que estavam em operação na sua igreja local, sendo que, o principal desses dons, aquele que deveria ser alvo de um maior desvelo, era o dom de profecia. O princípio permanece válido para a igreja de hoje. Ela deve seguir o caminho sobremodo excelente do amor, deve zelar pelos dons espirituais em operação e, principalmente, pela fiel exposição das Sagradas Escrituras, o aspecto profético que permanece em nossos dias. Visto que Paulo não teve como preocupação definir o que era a profecia, o presente trabalho também não abordará essa questão, embora o seu autor não veja motivo plausível para considerar a profecia neotestamentária como algo diferente da profecia do Antigo Testamento."

Esta é minha posição a qual reconheço, ninguém a está pedindo. Adiciono, apenas como conjectura, que creio que a razão Paulo comanda "maior desvelo" ao dom de profecia é que este, se considerarmos sua qualidade de "exortar, edificar, e consolar", algo que foi muito útil em meio a rispidez inegável do Conselho de Jerusalem em Atos 15, onde Judas e Silas, com seu dom de profetizar, "exortaram e confirmaram (a E.S.V. utiliza "encorajaram e fortaleceram) os irmãos", é um dom acessório do amor. Totalmente distinto do que hoje a maioria dos não-cessassionistas que anseiam fazer do dom de profecia no N.T. aquilo que nunca o foi, este dom é, repito, se um dom "exortador, edificador, encorajador e fortalecedor, é inseparavelmente ligado ao dom maior, o dom do amor.

Nota final: Não creio que a evidência Bíblica, como descrito nas passagens citadas acima, indica que o dom de profecia no N.T. seja uma continuidade do dom de profecia do V.T., e aí é que eu digo que quanto ao dons, "não sou continuista."

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