quinta-feira, 12 de maio de 2011

DEVEM OS CRENTES BUSCAR O DOM DE PROFECIA HOJE? - PARTE 2

A Ordem Apostólica de 1 Coríntios 14.1

Uma das passagens na qual a hermenêutica subjetivista dos continuístas pode ser percebida é 1 Coríntios 14.1: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis”. No caso, a igreja contemporânea teria o solene dever de seguir o amor, buscar com diligência os dons espirituais, sendo que o dom que deve ser mais buscado é o de profecia. Dizem os não-cessacionistas que essa passagem deve ser interpretada e aplicada às igrejas protestantes históricas na íntegra. Consequentemente, não fazer isso se constitui em sério pecado. Além de 1 Coríntios 14.1, outras passagens da mesma epístola são citadas com o propósito de fundamentar a ideia de que não buscar os dons revelacionais é pecado, rebeldia e desobediência[1]: “Entretanto, procurai com zelo os melhores dons” (1 Coríntios 12.31a); “Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar e não o proibais o falar em outras línguas” (1 Coríntios 14.39).

Estaria o apóstolo Paulo estabelecendo uma ordem que exigiria cumprimento perpétuo? Interessantemente, alguns defensores continuístas, ao usarem as passagens de 1 Corítnios como dicta probantia do seu ponto de vista, não apresentam nenhuma análise das passagens, ainda que perfuntória. Na verdade, contentam-se apenas em reproduzir as conclusões do carismático Wayne Grudem, que faz a seguinte pergunta retórica: “Se este estudo sobre o dom de profecia for convincente para alguns e se existe consenso de que suas conclusões são realmente o que a própria Bíblia ensina sobre o dom de profecia, então naturalmente surge a pergunta: que fazer com isso?”[2] Ele crê que deve existir consenso acerca de a sua pesquisa sobre o dom de profecia ser inquestionável.

O que Grudem afirma em seu livro é exatamente a mesma coisa afirmada por seus sequazes não-cessacionistas. Eis um exemplo dos argumentos grudenianos que, são repetidos sem nenhuma base exegética:

Contudo, outros versículos nas cartas de Paulo mostram que ele esperava que os coríntios assumissem a postura positiva de buscar o dom de profecia para si mesmos. “... busquem com dedicação os melhores dons” (1Co 12.31). “... busquem com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom de profecia” (1Co 14.1). “... busquem com dedicação o profetizar” (1Co 14.39). Aparentemente, Paulo achava que os coríntios saberiam como fazer isso, apesar de ele nunca haver explicado o que essa busca envolveria. Todavia, existem várias indicações no texto de que Paulo esperava que pelo menos alguns passos os coríntios dessem.[3]

Grudem também não se preocupa em examinar a passagem aludida, reservando para si o direito de, meramente, citar a passagem buscando apoio para sua posição. Um típico exemplo da hermenêutica subjetivista contemporânea. Deve ser salientado que, em todos os lugares da sua obra O Dom de Profecia do Novo Testamento aos Dias Atuais, onde a passagem de 1 Coríntios 14.1 é mencionada, não há sequer uma única análise da mesma.[4] Simplesmente, assume-se um significado a seu respeito. Ademais, pode-se perceber certa confusão na sua argumentação, visto que, em determinada parte do livro Grudem afirma algo contrário à sua suposição: “Nesse contexto Paulo está argumentando que, ao procurar os dons espirituais, os coríntios deveriam buscar especificamente o dom de profetizar (14.1)”.[5] Ora, Paulo está ordenando que os coríntios busquem os dons, especialmente o dom de profecia, ou está dizendo que ao buscarem os dons, que dêem preferência à profecia? E, mais importante, será que há qualquer ordem no sentido de se buscar os dons revelacionais? Antes das respostas a esses questionamentos, é necessário entender o contexto maior da passagem: 1 Coríntios 12-14.

Isto posto, quando observado o contexto da passagem, de imediato pode-se perceber que o imperativo apostólico, em 1 Coríntios 14.1, era, antes de tudo, situacional, ou seja, visava remediar dificuldades existentes no seio daquela igreja local. A igreja de Corinto enfrentava problemas em diversas áreas: divisionismo, pecadores impenitentes, irmãos arrastando outros irmãos às barras dos tribunais, dúvidas quanto ao casamento, dúvidas em relação à participação em banquetes pagãos, a autoridade apostólica de Paulo, questões relacionadas à submissão feminina no culto e o uso do véu, embriaguez durante a Ceia do Senhor, e, finalmente, sérios problemas quanto ao exercício dos dons espirituais. Paulo trata desse último problema do capítulo 12 ao 14 de 1 Coríntios. A intenção do apóstolo Paulo era sanar as dificuldades existentes, normatizando o exercício dos dons espirituais em operação na igreja de Corinto.

O capítulo 12 coloca a ênfase na ação soberana do Espírito Santo quanto à distribuição dos carismas:

A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes. Sabeis que, outrora, quando éreis gentios, deixáveis conduzir-vos aos ídolos mudos, segundo éreis guiados. Por isso, vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: Anátema, Jesus! Por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo. Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso. Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las. Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente (vv. 1-11).

Simon Kistemaker afirma que: “O primeiro segmento desse capítulo revela mais sobre a operação do Espírito Santo do que qualquer outra passagem em 1 Coríntios”.[6] No trecho que vai do verso 1 ao verso 8, o termo grego pneuma aparece doze vezes. O Espírito Santo exerce um papel preponderante ao soberanamente dotar os crentes com dons para o bom funcionamento do corpo.

Geralmente é dito por parte dos não-cessacionistas, que o apóstolo Paulo condena aqui a ignorância quanto à existência e função dos dons, inclusive os revelacionais, no Corpo. Entende-se por “ignorância” a mesma coisa que “desconhecimento prático”. Diz-se que, as igrejas históricas não ensinam sobre os dons por causa da ignorância sobre o assunto. Afinal de contas, como ensinar e estimular algo que nunca fora vivenciado? A exigência da experiência para assegurar o ensino a respeito dos dons é um sofisma, afinal de contas, para que alguém possa ensinar sobre determinado assunto nas Escrituras, obrigatoriamente, deve tê-lo experimentado.

Além disso, o que Paulo quer dizer, exatamente, quando diz aos coríntios que não deseja que eles sejam ignorantes a respeito dos dons? O vocábulo agnoein, traduzido como “ignorantes” não tem o sentido de “ignorância prática”, como se os coríntios soubessem da existência dos dons e, mesmo assim, não os “buscassem”. Ao utilizar o vocábulo agnoein o apóstolo Paulo “deseja que os coríntios entendam a origem, a natureza, e o propósito das manifestações extraordinárias do poder divino, e que possam distingui-los”.[7] No que diz respeito à prática, o termo “se refere não apenas ao fato de ‘não saber’, como também pode se empregar num sentido geral para a ‘ignorância’ ou ‘falta de educação’”.[8] Nesse sentido, o comentário de Simon Kistemaker é interessante: “Paulo não quer que os coríntios desconheçam o uso apropriado dos dons espirituais. Em vez de usá-los em benefício de irmãos da igreja, alguns coríntios exibiam esses dons como distintivos de superioridade”.[9] “Paulo emprega o negativo duplo implícito para ressaltar que deseja pôr fim à falta de conhecimento dos seus leitores, fazendo com que participassem do conhecimento dele”.[10] O sentido é o de alguém que não está informado a respeito de algo. Trata-se de um sofisma afirmar que muitas pessoas pecam por saberem da existência dos dons miraculosos e revelacionais e, ainda assim, não os buscarem. É arbitrário e desonesto dizer que Paulo aqui condena a “ignorância prática”.

Nos versículos de 8 a 10, Paulo esboça alguns dons do Espírito, como por exemplo: palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, fé, dons de curas, operações de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas, e capacidade de interpretar as línguas.

Na seção seguinte (vv. 12-31), o apóstolo Paulo introduz o assunto do funcionamento e utilização dos diversos dons concedidos pelo Espírito Santo. Em primeiro lugar, o apóstolo combate o egoísmo de algumas pessoas que desprezavam aquelas que possuíam dons aparentemente mais simples (vv. 12-27). Em seguida, no versículo 28, Paulo apresenta outra lista de dons, que inclui alguns dos já mencionados anteriormente: apóstolos, profetas, mestres, operadores de milagres, dons de curas, socorros, governos, variedades de línguas e capacidade para interpretar as línguas (v. 30).

O capítulo 13 de 1 Coríntios é considerado pelos estudiosos como um interlúdio a respeito do amor. Paulo gasta todo um capítulo da sua epístola para ensinar os coríntios, tão cheios de si, a respeito daquele que é o “caminho sobremodo excelente”, o amor. Interessantemente, no versículo 8, o apóstolo Paulo faz uma afirmação a respeito das línguas, da profecia e da ciência: “O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará”. Há um enorme debate acerca desse versículo e dos subsequentes (vv. 9 e 10), no entanto, devido ao escopo do presente trabalho, a questão da cessação e do que é o “perfeito” não será discutida aqui.

NOTAS:

[1] Cf. Vincent Cheung. Cessacionismo e Rebelião. Brasília: Monergismo, 2009. p. 2.

[2] Wayne Grudem. O Dom de Profecia do Novo Testamento aos Dias Atuais. p. 281.

[3] Ibid. p. 229.

[4] Conferir as páginas: 160, 229, 230, 251, 295, 417, 432 e 455.

[5] Wayne Grudem. O Dom de Profecia do Novo Testamento aos Dias Atuais. p. 160. Ênfase acrescentada.

[6] Simon Kistemaker. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 570.

[7] Moisés C. Bezerril. A Natureza Apostólica dos Dons Espirituais de 1 Coríntios 12: Uma Abordagem Exegética aos Dons da Era Apostólica. Teresina: Berith Publicações, 2005. p. 3.

[8] E. Schütz. “agnoew”, In: Lothar Coenen e Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 406.

[9] Simon Kistemaker. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. p. 572.

[10] E. Schütz. “agnoew”, In: Lothar Coenen e Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 1. p. 406.

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