quinta-feira, 12 de maio de 2011

DEVEM OS CRENTES BUSCAR O DOM DE PROFECIA HOJE? - PARTE 1

UMA ANÁLISE DE 1 CORÍNTIOS 14.1

“Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis” (1 Coríntios 14.1).

Introdução

A Confissão de Fé de Westminster, um dos símbolos de fé da Igreja Presbiteriana do Brasil, no capítulo intitulado Da Escritura Sagrada afirma o seguinte:

Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna a Escritura Sagrada indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo. [1]

A afirmação em negrito claramente é cessacionista, ou seja, a CFW, indubitavelmente, afirma que a revelação através de sonhos, visões e profecias cessou com a completude do cânon e o fim da era apostólica. Archibald Alexander Hodge afirma que, “aprouve a Deus, subsequentemente, entregar essa revelação para ser escrita, a qual se encontra agora, exclusivamente, circunscrita nas Sagradas Escrituras”.[2]

Frequentemente esforços são envidados na tentativa fútil de descaracterizar a afirmação confessional. Uma dessas tentativas é feita por aqueles que asseveram que a CFW não é um documento confessional cessacionista, pois, de acordo com estudiosos como David Hill[3], David Aune[4] e Wayne Grudem[5], muitos dos divines eram continuacionistas. Grudem, por exemplo, lista algumas “profecias” feitas por homens como John Knox, os puritanos Samuel Rutherford, George Gillespie, William Bridge, Richard Baxter e o batista Charles Spurgeon.[6] Todavia, as afirmações de Grudem têm encontrado pouca recepção no meio teológico, principalmente depois que Garnet Howard Milne provou que, apesar de existirem alguns poucos continuacionistas dentre os divines de Westminster, a ampla maioria era constituída de cessacionistas.[7] No que tange à afirmação confessional, Milne afirma que: “Em anos recentes tem existido considerável discussão sobre essa cláusula. ‘Continuistas’ têm disputado se, de fato, é uma clara, exata afirmação ‘cessacionista’ relegar à antiguidade toda a revelação sobrenatural, incluindo a profecia do Novo testamento e os dons revelacionais miraculosos relatados”.[8]

No Brasil, tem se tornado comum a ordenação de pessoas ao Sagrado Ministério que, no momento dos exames e de responder às perguntas constitucionais têm, no mínimo, agido com reserva mental, prometendo subscrever a Confissão de Fé de Westminster, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo de Westminster, mas praticando outra coisa no decorrer dos anos. São oficiais que têm publicado textos contrários à afirmação confessional supramencionada, inclusive, acusando os cessacionistas de promoverem a ignorância e divisão no Corpo de Cristo, e exortando-os ao arrependimento.

Diante disso, faz-se necessário um exame criterioso de algumas passagens utilizadas por aqueles que, nesse sentido, negaram seus votos de ordenação, disseminando confusão e dúvida no seio da igreja quanto ao que as Escrituras ensinam e a igreja confessa em seu sistema expositivo de doutrina e prática. O objetivo do presente trabalho não é discutir a cessação ou a continuidade dos dons revelacionais da era apostólica, mas, sim, verificar a genuinidade da interpretação continuísta de 1 Coríntios 14.1 Porém, antes da consideração dessa passagem usada para apregoar a contemporaneidade dos dons revelacionais, o dever de os cristãos os buscarem e convocar os cessacionistas ao arrependimento, é imprescindível que o método interpretativo-hermenêutico dos não-cessacionistas seja considerado, ainda que de forma breve, visto que, o modo como eles interpretam algumas passagens neotestamentárias é a verdadeira causa da confusão existente no seio da igrejas protestantes históricas.

A questão hermenêutica

Robert L. Thomas, professor de Novo Testamento no The Master’s Seminary, afirma que “nas últimas duas ou três décadas, o evangelicalismo tem experimentado algumas mudanças dramáticas que não são noticiadas com frequência”.[9] De acordo com ele, “juntamente com as mudanças no evangelicalismo, mudanças também aconteceram na hermenêutica bíblica do evangelicalismo”.[10] De forma específica, a mudança na hermenêutica evangelical diz respeito ao fato de que, “nos dias primitivos, os carismáticos defendiam o seu alegado uso de dons como línguas e profecia puramente sobre a base da experiência, porém, hoje, sua defesa, em muitos casos, tem se deslocado para reivindicações de interpretação bíblica como a base para o seu exercício de tais dons”.[11] Tal alteração, de certo modo, é louvável, visto que o experiencialismo não se constitui, em hipótese alguma, em padrão daquilo que deve ser crido e praticado pela igreja contemporânea. O ponto é: As reivindicações de interpretação bíblica são válidas? É exatamente essa alteração que pode ser percebida na apresentação de alguns argumentos por parte dos continuístas, em defesa da continuidade dos dons extraordinários, como o de profecia.

A grande questão é: quais os pressupostos que guiam a hermenêutica continuísta? Em quê consiste essa hermenêutica empregada pelos defensores da contemporaneidade dos dons revelacionais? Mais uma vez, Robert L. Thomas afirma que, os não-cessacionistas e outros subgrupos evangélicos empregam “um subjetivismo hermenêutico para apresentar, pela primeira vez, uma defesa bíblica do que acreditam”.[12] Tal subjetivismo se expressa através da “incorporação de um novo primeiro passo no processo interpretativo, um passo chamado pré-entendimento”.[13] Isso significa que a interpretação de uma passagem bíblica deixou de ser um exercício objetivo e passou a ser um exercício subjetivo, no qual o intérprete atribui ao texto o significado para o qual ele é inclinado. A consequência disso, conforme Thomas, é que “o texto deixa de falar por si só”.[14]

Como exemplo dessa interpretação a partir de um “pré-entendimento” do texto, ele cita o já mencionado scholar Wayne Grudem:

Wayne Grudem, que não é um pentecostal vitalício, reflete o mesmo pré-entendimento em sua aproximação do texto bíblico. Discutindo o dom de profecia no Novo Testamento, após aludir às posições carismáticas e não-carismáticas, ele escreve: ‘Pode um novo exame do Novo Testamento nos dar uma resolução dessas visões? Pode o próprio texto da Escritura indicar um meio-termo ou uma terceira posição que preserve o que é realmente importante em ambos os lados e ainda seja fiel ao ensinamento do Novo Testamento? Penso que a resposta a essa pergunta é sim’”.[15]

Grudem procurou apresentar um conceito de profecia que não é tão restritivo (i.e., autoritativo) de modo a excluir pessoas inclinadas carismaticamente ou tão frouxo (i.e., não-revelatório) para repelir a posição não-carismática. Ele trabalha com a hipótese de dois dons de profecia – um dom apostólico-profético e um dom de profecia exercido pelos profetas das igrejas locais, sendo que este último é sujeito ao erro por parte do profeta e continuará em exercício até à segunda vinda de Jesus Cristo.[16] Tudo isso, fruto de um pré-entendimento a respeito de passagens como Efésios 2.20.

Creio que é exatamente essa imposição de significado aos textos bíblicos que predomina nos argumentos daqueles que afirmam que as igrejas históricas pecam por não buscarem os dons extraordinários – mais especificamente os revelacionais -, e que os cessacionistas são rebeldes que necessitam de arrependimento.

NOTAS:

[1] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. I.1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 15.

[2] A. A. Hodge. Confissão de Westminster Comentada por A. A. Hodge. São Paulo: Os Puritanos, 1999. p. 53.

[3] David Hill. New Testament Prophecy. London: Marshall, Morgan and Scott, 1979.

[4] David Aune. Prophecy in Early Christianity and the Ancient Mediterranean World. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1983.

[5] Wayne Grudem. O Dom de Profecia do Novo Testamento aos Dias Atuais. São Paulo: Vida, 2004.

[6] Ibid. p. 445-461.

[7] Garnet Howard Milne. The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-Biblical Prophecy is Still Possible. Eugene, OR: Wipf and Stock Publishers, 2007.

[8] Ibid. p. 7.

[9] Robert L. Thomas. “The Hermeneutics of Noncessationism”, In: The Master’s Seminary Journal. Vol. XIV, Nº 2, 2003. p. 288.

[10] Ibid.

[11] Ibid. p. 289.

[12] Ibid.

[13] Ibid.

[14]
Ibid.

[15] Ibid. p. 306-307.

[16] Ibid. p. 307.

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