domingo, 29 de maio de 2011

DECISÃO DO STF - DIREITO DE PECAR?

Rev. Josafá Vasconcelos

Estive lendo alguns blogs, de colegas, bem como manifestações de entidades religiosas de cunho evangélico, que apóiam a decisão do STF, sobre a união estável dos homossexuais, como sendo um direito legítimo de uma classe minoritária. Alegam que discordam do homossexualismo, mas que, os que escolheram essa opção devem usufruir da liberdade de existir como qualquer outro seguimento da sociedade. Confesso que até eu, a princípio, ponderei que fosse razoável pensar assim; contudo examinando as Escrituras, lendo esses pronunciamentos, acompanhando os debates e orando, vi que esse modo de pensar está totalmente errado e completamente contrário ao bom senso e ao que ensina a Palavra de Deus, pelas seguintes razões:

1. Por causa da Glória de Deus.

O pecado avilta a glória de um Deus santo. Deus é santo, e nada irá diminuir a Sua santidade. Nossos pecados não diminuem nem um milímetro da Sua glória, mas o propósito do diabo é o descontentamento de Deus por ver criaturas suas, tão preciosas, criadas à Sua Imagem, profanando Seu Nome diante da Sua face. Como podemos aceitar isso? Não podemos proibir homens e mulheres de serem homossexuais, prostitutas, viciados, alcoólatras, etc. e de afrontarem a Deus com sua práticas, mas podemos lutar para que não tenham as facilidades da lei para fazê-lo. Temos que lutar para impedir que a podridão avance; não é isso que o sal faz? Eles precisam saber que é porque amamos a Deus, acima de tudo, que não podemos concordar que continuem a blasfemar do Seu santo nome, do contrário, não poderíamos orar de sã consciência a oração do Pai Nosso, “Santificado seja o Teu Nome”. Cristo amou os pecadores, mas jamais negociou seu objetivo maior que era glorificar o Pai. A decisão do STF, avilta, insulta, afronta e depõe contra a glória de Deus.

2. Porque ninguém tem o direito de pecar.

Não existe tal direito. O pecado é uma ofensa ao Deus o Criador, é um insulto aos céus. O homem foi criado para a glória de Deus e para obedecer seus mandamentos, não havia outra opção no Éden e nem há agora, a única é obedecer, fora disso, morte! Não há tolerância da parte de Deus para os que rejeitam seus mandamentos. Os sofrimentos de Cristo, o cálice da Ira que Ele teve de beber, a agonia e o pavor da morte que sentiu no Getsêmani, mostram como Deus trata o pecado. Portanto, Ele não dá aos homens o direito de pecar, ao contrário, por causa do pecado, constitui-se inimigo do pecador, e não lhes dará sossego, serão atormentados o tempo todo pela, “norma da lei escrita em seus corações testemunhando-lhes a consciência e os seus pensamentos, mutuamente acusando-os…” , pelo Espírito Santo, que contende com o espírito do homem (Gn 6:3), pelos flagelos, que são conseqüência do próprio pecado, e até pelo Diabo, que acaba sendo um instrumento nas mãos de Deus, “peneirando-os” para ver se alguns deles, através do sofrimento, encontram arrependimento e sejam salvos no dia do juízo (1 Co 5:5); tudo Deus faz para atormentá-los, sem lhes dar trégua, a fim de saberem que ninguém têm o direito de viver na face da terra em rebeldia contra Ele. Essa aflição contínua, ainda é uma oportunidade misericordiosa da parte de Deus, na expectativa que se voltem para Ele, pois já há muito deveriam ser destruídos, como diz as Escrituras: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos…” (Lm 3:22). Por essa razão, não podemos apoiar nada que possa favorecê-los em seus pecados. Aprendemos muito com o Senhor Jesus sobre como devemos nos compadecer de pecadores, mas não encontramos nada na Bíblia que nos ensine a apoiar a institucionalização da prática do pecado. Ele disse a mulher pecadora, eu te perdôo, mas imediatamente disse. “VAI E NÃO PEQUES MAIS”.

3. Porque os amamos.

Se os amamos, aí é que devemos cooperar para o seu desconforto. A melhor forma de demonstrar nosso amor, é odiar e condenar aquilo que os subjuga e os destrói. Eu percebo que esses irmãos dos blogs, estão preocupados em não serem injustos com essas minorias, “descriminadas e desfavorecidas”, mas, seria o caso de favorecer para que pequem mais confortavelmente, com direitos garantidos? E seria essa a forma, de exercer piedade para com eles? Certamente que não. Ao contrario, os “amigos” que apóiam essa união infame, estão sendo cruéis e desalmados. Se você sabe que existe um inferno e crê que ele é um lugar de “trevas e ranger de dentes, onde seu bicho não morre e o fogo nunca se apaga…”, se você sabe que as escolhas que esses queridos fizeram os leva a passos largos para a perdição eterna num “lago que arde com fogo e enxofre” e, mesmo assim, deixa de advertí-los, e pior, apóia e favorece o que lhes aumentará o juízo: Sinto muito, mas você não os ama! Não seria melhor ser honesto e dizer a eles: “Eu amo vocês, estou pronto a ajudar e apoiar qualquer coisa que possa livrá-los dessa situação, mas de sã consciência, pelo que creio ser verdade absoluta, não posso cooperar com o seu pecado. O conforto desta união estável, e a solução que isso possa trazer para resolver todos os problemas temporais, lhes resultará em mais juízo e maior tormento na eternidade, dessa forma, sinto, eu os amo: não posso apoiar”?

4. Porque o Estado é Ministro de Deus.

Estão dizendo: “mas o Estado tem que regular o mal que já existe, não tem jeito”. Até citam textos, para justificar, como o de Salomão aceitando a condição das prostitutas ao julgar o caso do bebê de uma delas (formando doutrina de um fato descritivo) e o de José que teria sustentado os Sacerdotes de Osíris, (como se não fosse o segundo no reino, porque se fosse o primeiro os teria imediatamente expulsado) ou Daniel, que governou admitindo todos os problemas de um reino pagão, contudo, seja qual for a interpretação, não poderá contradizer o que está claro sobre qual é a vontade de Deus para o Estado.

Os Ministros do Supremo Tribunal, a Presidente e todas as autoridades constituídas em poder, deveriam saber, e se não sabem, temos profeticamente de ensiná-los, que eles são Ministros de Deus, por Ele instituídos para o bem da sociedade. Para promover o bem e reprimir o mal (Rm 13:1-7). É dever dos magistrados, exercer em nome de Deus toda autoridade contra tudo que ameaça a sociedade e não favorecer. Serão responsabilizados pela aprovação de leis como: Divórcio por qualquer motivo, legalização do aborto em caso de estupro, da maconha, etc.

Ora, a história é testemunha, de que grandes civilizações foram aniquiladas e desapareceram do mapa por causa da degradação moral, tendo o homossexualismo como o componente mais importante e fator predominante para a destruição daquelas sociedades. São tão inteligentes, tão cultos, e não aprenderam isso? Nós, no entanto, sabemos pela história e pelo relato bíblico o fim que tiveram Sodoma e Gomorra. Dessa forma, somos indesculpáveis e estaremos pecando se concordarmos com o Estado quando aprova, contra Deus, o direito de pecar, porque toda vez que isso acontece o Estado se torna em nome de Deus, ministro do pecado, e nós seus cúmplices.

Conclusão

Como Igreja, não podemos agir de modo contrário à vontade de Cristo o cabeça do corpo, cujo propósito maior, que lhe consumia a alma era fazer a vontade do Pai, “Ele, porém, lhes disse: Uma comida tenho para comer, que vós não conheceis”; “… disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”, “glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer”. Por isso não podemos negociar, por nada desse mundo, a Glória de Deus! É isso que deveria nos consumir também, afinal esse é o fim principal do homem, segundo o nosso Símbolo de Fé. Qualquer coisa que venha a ameaçar essa glória, mesmo que possa ferir ou magoar alguém muito querido, não pode extinguir o zelo em nosso coração pela glória de Deus.

FONTE: http://www.grandemomento.org/2011/05/28/decisao-do-stf-direito-de-pecar/

sexta-feira, 13 de maio de 2011

DEVEM OS CRENTES BUSCAR O DOM DE PROFECIA HOJE? - PARTE 3

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A Ordem Apostólica em 1 Coríntios 14.1 - CONTINUAÇÃO


Após discorrer sobre a natureza do amor, o apóstolo Paulo, no capítulo 14, volta a discorrer sobre a profecia e o dom de línguas, visando ensinar aos coríntios que as línguas eram um dom inferior à profecia. Mais uma vez, os não-cessacionistas impõem sentidos estranhos à passagem ao afirmarem que Paulo “define o que é profecia” nesse trecho. Ele não faz isso. Ele não define a natureza da profecia. Pelo contrário, ele pressupõe que os coríntios têm conhecimento acerca do que é a profecia. A ignorância deles em relação aos dons dizia respeito ao modo como usá-los. Não obstante, é possível saber o que era a profecia no pensamento do apóstolo: “A natureza da profecia para Paulo está claramente impregnada pela natureza da profecia expressa pelos profetas literários de Israel”.[1]

1 Coríntios 14.1 diz o seguinte: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis”. Existem três verbos na passagem em questão: diôkete, zêloute e profêteuête. Os dois primeiros verbos se encontram imperativo presente. Já o último se encontra no subjuntivo presente. Literalmente, o versículo deve ser traduzido assim: “Segui o amor, zelai pelos dons espirituais, preferencialmente que profetizeis”. De fato, os dois primeiros verbos expressam uma ordem direta e o terceiro, uma ordem indireta. A grande questão é se o tempo presente dos três verbos significa que o mandamento para se buscar os dons, especialmente o dom de profecia, ainda é válido para os nossos dias. Isso porque, de acordo com os melhores gramáticos, o tempo presente expressa “a ação continuada, que se processa na ocasião do escrever, ou falar”.[2] Parte da dificuldade em relação à interpretação de 1 Coríntios 14.1 se deve à conjectura – em muitos casos não declarada – de que o tem presente dos três verbos é o chamado presente gnômico, que “anuncia algo verdadeiro para todos os tempos”[3], ou seja, anuncia verdades universais e absolutas, como por exemplo: Todo homem é mentiroso, o sol se levanta todas as manhãs, Deus é bom e etc. O grande problema com essa conjectura é que o presente gnômico, seguindo a linha de raciocínio continuísta, pode ser aplicado a todos os verbos que, no Novo Testamento grego, encontram-se no tempo presente. A questão é: Qual critério é utilizado para dizer qual se encontra no presente gnômico?

No entanto, argumentar somente a partir do tempo verbal é insuficiente e, pode se constituir em desonestidade intelectual. O modo imperativo é determinante para o correto entendimento da passagem. Os verbos diôkete e zêloute se encontram no imperativo presente, que de acordo com William D. Mounce: “O imperativo que é formado da raiz do tempo presente é chamado de imperativo presente, e indica uma ação contínua”.[4] A questão que surge, então, é: A ação de buscar os dons deveria continuar até quando? Essa ação deveria atravessar os séculos da história, chegando ao século XXI? Deve a igreja contemporânea buscar os dons, especialmente o dom de profecia, em razão do imperativo presente de 1 Coríntios 14.1? Mounce diz ainda que, “com o imperativo, não existe significância temporal”[5], ou seja, o imperativo grego não tem o propósito de definir durante quanto tempo tal ordem deve ser cumprida.

Atenção especial deve ser dada ao verbo traduzido como “procurai, com zelo” (zêloute). Nesse caso, Paulo estaria ordenando aos coríntios que buscassem os dons espirituais imbuídos de zelo e toda consideração para com os mesmos. Outras versões seguem o mesmo sentido:

Almeida Revista e Corrigida: “Segui a caridade e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar”.

Almeida Corrigida Fiel: “Segui o amor, e procurai com zelo os dons espirituais, mas principalmente o de profetizar”.

Nova Versão Internacional (NVI): “Sigam o caminho do amor e busquem com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom de profecia”.

Outras versões tradução o verbo de uma maneira um pouco diferente:

Bíblia de Jerusalém: “Procurai a caridade. Entretanto, aspirai aos dons do Espírito, principalmente à profecia”.

King James Version: “Follow after charity, and desire spiritual gifts, but rather that ye may prophesy” (“Segui a caridade, e desejai os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis”).

O que pode ser percebido nessas traduções, é que o verbo zêloute é traduzido com o sentido de “busca zelosa” e “aspiração” ou “desejo”. Todavia, todas essas traduções são perfeitamente questionáveis. Isso porque, o verbo grego zêloô aparece 11 vezes no Novo Testamento (Atos 7.9; 17.5; 1 Coríntios 12.31; 13.4; 14.1,39; 2 Coríntios 11.2; duas vezes em Gálatas 4.17; 4.18; Tiago 4.2). Em três ocasiões ele possui a conotação negativa de “inveja” e “ciúme”: “E os patriarcas, invejosos (zêlôsantei) de José, venderam-no para o Egito; mas Deus estava com ele” (Atos 7.9); “Os judeus, porém, movidos de inveja (zêlôsantei), trazendo consigo alguns homens maus dentre a malandragem, ajuntando a turba, alvoroçaram a cidade e, assaltando a casa de Jasom, procuravam trazê-los para o meio do povo” (Atos 17.5); “Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais (zêloute), e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis” (Tiago 4.2). Em quatro outras ocorrências zêloô tem o sentido de “ter zelo” ou “ter cuidado”: “Porque zelo (zêlô) por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo” (2 Coríntios 11.2); “Os que vos obsequiam (zêlousin) não o fazem sinceramente, mas querem afastar-vos de mim, para que o vosso zelo seja em favor deles (zêloute). É bom ser sempre zeloso (zêlousthai) pelo bem e não apenas quando estou presente convosco” (Gálatas 4.17,18).

Há ainda o verbo cognato zêleuô, que é utilizado pelo apóstolo João em Apocalipse 3.19: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso (zêleue) e arrepende-te”.[6]

O grande questionamento que surge, é: Por qual razão, apenas em 1 Coríntios, zêloô é traduzido como “busca zelosa” e “aspiração”? Por qual razão o verbo não é traduzido por “ter zelo”, como nas outras ocorrências em que ele assume uma conotação positiva? O mais inquietante é que muitos léxicos seguem essas traduções, desconsiderando o significado primário, que é o de “ter zelo”[7]. Louw e Nida apresentam uma tradução menos problemática do verbo, em 1 Coríntios 12.31: “Coloquem seus corações sobre os dons mais importantes”[8]. Ainda assim, não se trata de uma tradução exata de zêloô, e permanece a dúvida acerca do porquê desse verbo ser traduzido indevidamente. É perfeitamente possível que as traduções disponíveis sejam, de certa forma, influenciadas pela Vulgata, que traduz 1 Coríntios 14.1[9] da seguinte forma: “Segui a caridade e os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis”. A Vulgata aglutina os dois verbos gregos traduzindo-os em um só: “Segui”, dando a ideia de que os dons devem ser buscados, assim como o amor. Isso pode ser percebido, por exemplo, no comentário do erudito D. A. Carson: “A importância do amor não quer dizer que ele deve ser buscado ás custas dos dons espirituais: eles também devem ser desejados com avidez”[10]. Anthony Thiselton traduz o verbo como “cultivar uma postura de avidez”[11], não obstante, interpreta o versículo de uma forma correta. Diz ele que o apóstolo Paulo está falando que os coríntios devem “estar ansiosos por permitirem uma preocupação corporativa pelo bem-estar da comunidade, isto é, que esses dons possam operar na igreja, que é o horizonte da preocupação de Paulo”.[12]

Conclusão

Os não-cessacionistas, como afirmado por Robert L. Thomas, não permitem que o texto fale “por si só”. Visto que estão comprometidos com um “pré-entendimento” de 1 Coríntios 14.1, eles simplesmente se dão ao trabalho de citar a passagem – sem uma exegese séria da mesma – acusar os cessacionistas de provocarem divisão, confusão e ignorância no Corpo de Cristo, e conclamá-los ao arrependimento. Eles afirmam que tal busca ainda deve ser empreendida porque partem do pressuposto de que os dons revelacionais e miraculosos não cessaram com o fim da era apostólica. Visto que eles possuem esse “pré-entendimento” a leitura que fazem da passagem em questão acaba sendo subjetivada. E para agravar ainda mais, tudo indica que esse “pré-entendimento” é meramente a repetição das ideias – também subjetivadas – de Wayne Grudem. Será esse o tipo de “análise” que fará o cessacionismo cair por terra? A resposta é óbvia.

Através de uma análise da passagem ficou claro que, o apóstolo Paulo ordena que os coríntios sigam o caminho sobremodo excelente do amor, zelem, cuidem dos dons que estavam em operação na sua igreja local, sendo que, o principal desses dons, aquele que deveria ser alvo de um maior desvelo, era o dom de profecia. O princípio permanece válido para a igreja de hoje. Ela deve seguir o caminho sobremodo excelente do amor, deve zelar pelos dons espirituais em operação e, principalmente, pela fiel exposição das Sagradas Escrituras, o aspecto profético que permanece em nossos dias. Visto que Paulo não teve como preocupação definir o que era a profecia, o presente trabalho também não abordará essa questão, embora o seu autor não veja motivo plausível para considerar a profecia neotestamentária como algo diferente da profecia do Antigo Testamento.[13]

No mais, que aqueles que usam de reserva mental no momento de responder às perguntas constitucionais e prometer subscrever a Confissão de Fé de Westminster se arrependam dessa flagrante quebra do nono mandamento[14], bem como da divisão e confusão que, verdadeiramente semeiam no meio das igrejas reformadas.

SOLI DEO GLORIA!

NOTAS:

[1] C. M Robeck Jr. “Profecia, Profetizar”, In: Gerald F. Hawthorne, Ralph P. Martin e Daniel G. Reid (Orgs.). Dicionário de Paulo e suas Cartas. São Paulo: Vida Nova/Paulus/Edições Loyola, 2008. p. 1009.

[2] William Douglas Chamberlain. Gramática Exegética do Grego Neotestamentário. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989. p. 96.

[3] Ibid. p. 97.

[4] William D. Mounce. Fundamentos do Grego Bíblico. São Paulo: Vida, 2009. p. 371.

[5] Ibid.


[6] Há uma leitura variante em Apocalipse 3.19. Alguns poucos manuscritos trazem o verbo zêloô no imperativo aoristo ativo (zêlôson). Todavia, considerando o contexto e a necessidade perene de zelo, a leitura correta é a que traz o verbo zêleuô no imperativo presente ativo (zêleue).

[7] Como por exemplo: Thayer’s Greek Lexicon, Gingrich Lexicon, LEH Lexicon, Liddell-Scott Lexicon, UBS Lexicon e Friberg Lexicon, todos disponíveis no BIBLEWORKS 7.0. Cf. também: Harold K. Moulton. Léxico Grego Analítico. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. p. 193; F. Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker. Léxico do NT Grego/Português. São Paulo: Vida Nova, 2004. p. 92.

[8] Louw-Nida Greek Lexicon in BIBLEWORKS 7.0. Minha tradução.

[9] O texto, como se encontra na Vulgata, diz o seguinte: “sectamini caritatem aemulamini spiritalia magis autem ut prophetetis”.

[10] D. A. Carson. Showing the Spirit: A Theological Exposition of 1 Corinthians 12-14. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 1996. p. 101.

[11] Anthony C. Thiselton. New International Greek Testament Commentary: The First Epistle to the Corinthians. Grand Rapids, MI: W. B. Eerdmans Publishing Company, 2000. sem numeração de páginas.

[12] Ibid.

[13] Para uma análise interessante da natureza da profecia neotestamentária, as seguintes obras cessacionistas são de grande importância: Moisés Cavalcanti Bezerril. Os Profetas do Novo Testamento: Um Estudo sobre a Natureza da Profecia no Novo Testamento e uma Avaliação da Moderna Teoria dos Dois Níveis de Profecia. Recife: Berith Publicações, 1999, 91p; Richard B. Gaffin Jr. Perspectivas sobre o Pentecostes. São Paulo: Os Puritanos, 2010, 130p; Walter J. Chantry. Sinais dos Apóstolos: Observações sobre o Pentecostalismo Antigo e Moderno. São Paulo: PES, 1996, 136p; Sinclair B. Ferguson. O Espírito Santo. São Paulo: Os Puritanos, 2000, 360p; O. Palmer Robertson. A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje. São Paulo: Os Puritanos, 1999, 168p; George W. Knight III. A Profecia no Novo Testamento. São Paulo: Os Puritanos, 1998, 36p; Victor Budgen. The Charismatics and the Word of God. Faverdale North, Darlington: Evangelical Press, 2001, 320p.

[14] Ver a exposição feita pelo CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, na pergunta 145.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

DEVEM OS CRENTES BUSCAR O DOM DE PROFECIA HOJE? - PARTE 2

A Ordem Apostólica de 1 Coríntios 14.1

Uma das passagens na qual a hermenêutica subjetivista dos continuístas pode ser percebida é 1 Coríntios 14.1: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis”. No caso, a igreja contemporânea teria o solene dever de seguir o amor, buscar com diligência os dons espirituais, sendo que o dom que deve ser mais buscado é o de profecia. Dizem os não-cessacionistas que essa passagem deve ser interpretada e aplicada às igrejas protestantes históricas na íntegra. Consequentemente, não fazer isso se constitui em sério pecado. Além de 1 Coríntios 14.1, outras passagens da mesma epístola são citadas com o propósito de fundamentar a ideia de que não buscar os dons revelacionais é pecado, rebeldia e desobediência[1]: “Entretanto, procurai com zelo os melhores dons” (1 Coríntios 12.31a); “Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar e não o proibais o falar em outras línguas” (1 Coríntios 14.39).

Estaria o apóstolo Paulo estabelecendo uma ordem que exigiria cumprimento perpétuo? Interessantemente, alguns defensores continuístas, ao usarem as passagens de 1 Corítnios como dicta probantia do seu ponto de vista, não apresentam nenhuma análise das passagens, ainda que perfuntória. Na verdade, contentam-se apenas em reproduzir as conclusões do carismático Wayne Grudem, que faz a seguinte pergunta retórica: “Se este estudo sobre o dom de profecia for convincente para alguns e se existe consenso de que suas conclusões são realmente o que a própria Bíblia ensina sobre o dom de profecia, então naturalmente surge a pergunta: que fazer com isso?”[2] Ele crê que deve existir consenso acerca de a sua pesquisa sobre o dom de profecia ser inquestionável.

O que Grudem afirma em seu livro é exatamente a mesma coisa afirmada por seus sequazes não-cessacionistas. Eis um exemplo dos argumentos grudenianos que, são repetidos sem nenhuma base exegética:

Contudo, outros versículos nas cartas de Paulo mostram que ele esperava que os coríntios assumissem a postura positiva de buscar o dom de profecia para si mesmos. “... busquem com dedicação os melhores dons” (1Co 12.31). “... busquem com dedicação os dons espirituais, principalmente o dom de profecia” (1Co 14.1). “... busquem com dedicação o profetizar” (1Co 14.39). Aparentemente, Paulo achava que os coríntios saberiam como fazer isso, apesar de ele nunca haver explicado o que essa busca envolveria. Todavia, existem várias indicações no texto de que Paulo esperava que pelo menos alguns passos os coríntios dessem.[3]

Grudem também não se preocupa em examinar a passagem aludida, reservando para si o direito de, meramente, citar a passagem buscando apoio para sua posição. Um típico exemplo da hermenêutica subjetivista contemporânea. Deve ser salientado que, em todos os lugares da sua obra O Dom de Profecia do Novo Testamento aos Dias Atuais, onde a passagem de 1 Coríntios 14.1 é mencionada, não há sequer uma única análise da mesma.[4] Simplesmente, assume-se um significado a seu respeito. Ademais, pode-se perceber certa confusão na sua argumentação, visto que, em determinada parte do livro Grudem afirma algo contrário à sua suposição: “Nesse contexto Paulo está argumentando que, ao procurar os dons espirituais, os coríntios deveriam buscar especificamente o dom de profetizar (14.1)”.[5] Ora, Paulo está ordenando que os coríntios busquem os dons, especialmente o dom de profecia, ou está dizendo que ao buscarem os dons, que dêem preferência à profecia? E, mais importante, será que há qualquer ordem no sentido de se buscar os dons revelacionais? Antes das respostas a esses questionamentos, é necessário entender o contexto maior da passagem: 1 Coríntios 12-14.

Isto posto, quando observado o contexto da passagem, de imediato pode-se perceber que o imperativo apostólico, em 1 Coríntios 14.1, era, antes de tudo, situacional, ou seja, visava remediar dificuldades existentes no seio daquela igreja local. A igreja de Corinto enfrentava problemas em diversas áreas: divisionismo, pecadores impenitentes, irmãos arrastando outros irmãos às barras dos tribunais, dúvidas quanto ao casamento, dúvidas em relação à participação em banquetes pagãos, a autoridade apostólica de Paulo, questões relacionadas à submissão feminina no culto e o uso do véu, embriaguez durante a Ceia do Senhor, e, finalmente, sérios problemas quanto ao exercício dos dons espirituais. Paulo trata desse último problema do capítulo 12 ao 14 de 1 Coríntios. A intenção do apóstolo Paulo era sanar as dificuldades existentes, normatizando o exercício dos dons espirituais em operação na igreja de Corinto.

O capítulo 12 coloca a ênfase na ação soberana do Espírito Santo quanto à distribuição dos carismas:

A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes. Sabeis que, outrora, quando éreis gentios, deixáveis conduzir-vos aos ídolos mudos, segundo éreis guiados. Por isso, vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: Anátema, Jesus! Por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo. Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso. Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra do conhecimento; a outro, no mesmo Espírito, a fé; e a outro, no mesmo Espírito, dons de curar; a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las. Mas um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as, como lhe apraz, a cada um, individualmente (vv. 1-11).

Simon Kistemaker afirma que: “O primeiro segmento desse capítulo revela mais sobre a operação do Espírito Santo do que qualquer outra passagem em 1 Coríntios”.[6] No trecho que vai do verso 1 ao verso 8, o termo grego pneuma aparece doze vezes. O Espírito Santo exerce um papel preponderante ao soberanamente dotar os crentes com dons para o bom funcionamento do corpo.

Geralmente é dito por parte dos não-cessacionistas, que o apóstolo Paulo condena aqui a ignorância quanto à existência e função dos dons, inclusive os revelacionais, no Corpo. Entende-se por “ignorância” a mesma coisa que “desconhecimento prático”. Diz-se que, as igrejas históricas não ensinam sobre os dons por causa da ignorância sobre o assunto. Afinal de contas, como ensinar e estimular algo que nunca fora vivenciado? A exigência da experiência para assegurar o ensino a respeito dos dons é um sofisma, afinal de contas, para que alguém possa ensinar sobre determinado assunto nas Escrituras, obrigatoriamente, deve tê-lo experimentado.

Além disso, o que Paulo quer dizer, exatamente, quando diz aos coríntios que não deseja que eles sejam ignorantes a respeito dos dons? O vocábulo agnoein, traduzido como “ignorantes” não tem o sentido de “ignorância prática”, como se os coríntios soubessem da existência dos dons e, mesmo assim, não os “buscassem”. Ao utilizar o vocábulo agnoein o apóstolo Paulo “deseja que os coríntios entendam a origem, a natureza, e o propósito das manifestações extraordinárias do poder divino, e que possam distingui-los”.[7] No que diz respeito à prática, o termo “se refere não apenas ao fato de ‘não saber’, como também pode se empregar num sentido geral para a ‘ignorância’ ou ‘falta de educação’”.[8] Nesse sentido, o comentário de Simon Kistemaker é interessante: “Paulo não quer que os coríntios desconheçam o uso apropriado dos dons espirituais. Em vez de usá-los em benefício de irmãos da igreja, alguns coríntios exibiam esses dons como distintivos de superioridade”.[9] “Paulo emprega o negativo duplo implícito para ressaltar que deseja pôr fim à falta de conhecimento dos seus leitores, fazendo com que participassem do conhecimento dele”.[10] O sentido é o de alguém que não está informado a respeito de algo. Trata-se de um sofisma afirmar que muitas pessoas pecam por saberem da existência dos dons miraculosos e revelacionais e, ainda assim, não os buscarem. É arbitrário e desonesto dizer que Paulo aqui condena a “ignorância prática”.

Nos versículos de 8 a 10, Paulo esboça alguns dons do Espírito, como por exemplo: palavra de sabedoria, palavra de conhecimento, fé, dons de curas, operações de milagres, profecia, discernimento de espíritos, variedade de línguas, e capacidade de interpretar as línguas.

Na seção seguinte (vv. 12-31), o apóstolo Paulo introduz o assunto do funcionamento e utilização dos diversos dons concedidos pelo Espírito Santo. Em primeiro lugar, o apóstolo combate o egoísmo de algumas pessoas que desprezavam aquelas que possuíam dons aparentemente mais simples (vv. 12-27). Em seguida, no versículo 28, Paulo apresenta outra lista de dons, que inclui alguns dos já mencionados anteriormente: apóstolos, profetas, mestres, operadores de milagres, dons de curas, socorros, governos, variedades de línguas e capacidade para interpretar as línguas (v. 30).

O capítulo 13 de 1 Coríntios é considerado pelos estudiosos como um interlúdio a respeito do amor. Paulo gasta todo um capítulo da sua epístola para ensinar os coríntios, tão cheios de si, a respeito daquele que é o “caminho sobremodo excelente”, o amor. Interessantemente, no versículo 8, o apóstolo Paulo faz uma afirmação a respeito das línguas, da profecia e da ciência: “O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará”. Há um enorme debate acerca desse versículo e dos subsequentes (vv. 9 e 10), no entanto, devido ao escopo do presente trabalho, a questão da cessação e do que é o “perfeito” não será discutida aqui.

NOTAS:

[1] Cf. Vincent Cheung. Cessacionismo e Rebelião. Brasília: Monergismo, 2009. p. 2.

[2] Wayne Grudem. O Dom de Profecia do Novo Testamento aos Dias Atuais. p. 281.

[3] Ibid. p. 229.

[4] Conferir as páginas: 160, 229, 230, 251, 295, 417, 432 e 455.

[5] Wayne Grudem. O Dom de Profecia do Novo Testamento aos Dias Atuais. p. 160. Ênfase acrescentada.

[6] Simon Kistemaker. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 570.

[7] Moisés C. Bezerril. A Natureza Apostólica dos Dons Espirituais de 1 Coríntios 12: Uma Abordagem Exegética aos Dons da Era Apostólica. Teresina: Berith Publicações, 2005. p. 3.

[8] E. Schütz. “agnoew”, In: Lothar Coenen e Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 1. São Paulo: Vida Nova, 2007. p. 406.

[9] Simon Kistemaker. Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios. p. 572.

[10] E. Schütz. “agnoew”, In: Lothar Coenen e Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Vol. 1. p. 406.

DEVEM OS CRENTES BUSCAR O DOM DE PROFECIA HOJE? - PARTE 1

UMA ANÁLISE DE 1 CORÍNTIOS 14.1

“Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis” (1 Coríntios 14.1).

Introdução

A Confissão de Fé de Westminster, um dos símbolos de fé da Igreja Presbiteriana do Brasil, no capítulo intitulado Da Escritura Sagrada afirma o seguinte:

Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência manifestam de tal modo a bondade, a sabedoria e o poder de Deus, que os homens ficam inescusáveis, todavia não são suficientes para dar aquele conhecimento de Deus e de sua vontade, necessário à salvação; por isso foi o Senhor servido, em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua vontade; e depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda. Isso torna a Escritura Sagrada indispensável, tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar a sua vontade ao seu povo. [1]

A afirmação em negrito claramente é cessacionista, ou seja, a CFW, indubitavelmente, afirma que a revelação através de sonhos, visões e profecias cessou com a completude do cânon e o fim da era apostólica. Archibald Alexander Hodge afirma que, “aprouve a Deus, subsequentemente, entregar essa revelação para ser escrita, a qual se encontra agora, exclusivamente, circunscrita nas Sagradas Escrituras”.[2]

Frequentemente esforços são envidados na tentativa fútil de descaracterizar a afirmação confessional. Uma dessas tentativas é feita por aqueles que asseveram que a CFW não é um documento confessional cessacionista, pois, de acordo com estudiosos como David Hill[3], David Aune[4] e Wayne Grudem[5], muitos dos divines eram continuacionistas. Grudem, por exemplo, lista algumas “profecias” feitas por homens como John Knox, os puritanos Samuel Rutherford, George Gillespie, William Bridge, Richard Baxter e o batista Charles Spurgeon.[6] Todavia, as afirmações de Grudem têm encontrado pouca recepção no meio teológico, principalmente depois que Garnet Howard Milne provou que, apesar de existirem alguns poucos continuacionistas dentre os divines de Westminster, a ampla maioria era constituída de cessacionistas.[7] No que tange à afirmação confessional, Milne afirma que: “Em anos recentes tem existido considerável discussão sobre essa cláusula. ‘Continuistas’ têm disputado se, de fato, é uma clara, exata afirmação ‘cessacionista’ relegar à antiguidade toda a revelação sobrenatural, incluindo a profecia do Novo testamento e os dons revelacionais miraculosos relatados”.[8]

No Brasil, tem se tornado comum a ordenação de pessoas ao Sagrado Ministério que, no momento dos exames e de responder às perguntas constitucionais têm, no mínimo, agido com reserva mental, prometendo subscrever a Confissão de Fé de Westminster, o Catecismo Maior e o Breve Catecismo de Westminster, mas praticando outra coisa no decorrer dos anos. São oficiais que têm publicado textos contrários à afirmação confessional supramencionada, inclusive, acusando os cessacionistas de promoverem a ignorância e divisão no Corpo de Cristo, e exortando-os ao arrependimento.

Diante disso, faz-se necessário um exame criterioso de algumas passagens utilizadas por aqueles que, nesse sentido, negaram seus votos de ordenação, disseminando confusão e dúvida no seio da igreja quanto ao que as Escrituras ensinam e a igreja confessa em seu sistema expositivo de doutrina e prática. O objetivo do presente trabalho não é discutir a cessação ou a continuidade dos dons revelacionais da era apostólica, mas, sim, verificar a genuinidade da interpretação continuísta de 1 Coríntios 14.1 Porém, antes da consideração dessa passagem usada para apregoar a contemporaneidade dos dons revelacionais, o dever de os cristãos os buscarem e convocar os cessacionistas ao arrependimento, é imprescindível que o método interpretativo-hermenêutico dos não-cessacionistas seja considerado, ainda que de forma breve, visto que, o modo como eles interpretam algumas passagens neotestamentárias é a verdadeira causa da confusão existente no seio da igrejas protestantes históricas.

A questão hermenêutica

Robert L. Thomas, professor de Novo Testamento no The Master’s Seminary, afirma que “nas últimas duas ou três décadas, o evangelicalismo tem experimentado algumas mudanças dramáticas que não são noticiadas com frequência”.[9] De acordo com ele, “juntamente com as mudanças no evangelicalismo, mudanças também aconteceram na hermenêutica bíblica do evangelicalismo”.[10] De forma específica, a mudança na hermenêutica evangelical diz respeito ao fato de que, “nos dias primitivos, os carismáticos defendiam o seu alegado uso de dons como línguas e profecia puramente sobre a base da experiência, porém, hoje, sua defesa, em muitos casos, tem se deslocado para reivindicações de interpretação bíblica como a base para o seu exercício de tais dons”.[11] Tal alteração, de certo modo, é louvável, visto que o experiencialismo não se constitui, em hipótese alguma, em padrão daquilo que deve ser crido e praticado pela igreja contemporânea. O ponto é: As reivindicações de interpretação bíblica são válidas? É exatamente essa alteração que pode ser percebida na apresentação de alguns argumentos por parte dos continuístas, em defesa da continuidade dos dons extraordinários, como o de profecia.

A grande questão é: quais os pressupostos que guiam a hermenêutica continuísta? Em quê consiste essa hermenêutica empregada pelos defensores da contemporaneidade dos dons revelacionais? Mais uma vez, Robert L. Thomas afirma que, os não-cessacionistas e outros subgrupos evangélicos empregam “um subjetivismo hermenêutico para apresentar, pela primeira vez, uma defesa bíblica do que acreditam”.[12] Tal subjetivismo se expressa através da “incorporação de um novo primeiro passo no processo interpretativo, um passo chamado pré-entendimento”.[13] Isso significa que a interpretação de uma passagem bíblica deixou de ser um exercício objetivo e passou a ser um exercício subjetivo, no qual o intérprete atribui ao texto o significado para o qual ele é inclinado. A consequência disso, conforme Thomas, é que “o texto deixa de falar por si só”.[14]

Como exemplo dessa interpretação a partir de um “pré-entendimento” do texto, ele cita o já mencionado scholar Wayne Grudem:

Wayne Grudem, que não é um pentecostal vitalício, reflete o mesmo pré-entendimento em sua aproximação do texto bíblico. Discutindo o dom de profecia no Novo Testamento, após aludir às posições carismáticas e não-carismáticas, ele escreve: ‘Pode um novo exame do Novo Testamento nos dar uma resolução dessas visões? Pode o próprio texto da Escritura indicar um meio-termo ou uma terceira posição que preserve o que é realmente importante em ambos os lados e ainda seja fiel ao ensinamento do Novo Testamento? Penso que a resposta a essa pergunta é sim’”.[15]

Grudem procurou apresentar um conceito de profecia que não é tão restritivo (i.e., autoritativo) de modo a excluir pessoas inclinadas carismaticamente ou tão frouxo (i.e., não-revelatório) para repelir a posição não-carismática. Ele trabalha com a hipótese de dois dons de profecia – um dom apostólico-profético e um dom de profecia exercido pelos profetas das igrejas locais, sendo que este último é sujeito ao erro por parte do profeta e continuará em exercício até à segunda vinda de Jesus Cristo.[16] Tudo isso, fruto de um pré-entendimento a respeito de passagens como Efésios 2.20.

Creio que é exatamente essa imposição de significado aos textos bíblicos que predomina nos argumentos daqueles que afirmam que as igrejas históricas pecam por não buscarem os dons extraordinários – mais especificamente os revelacionais -, e que os cessacionistas são rebeldes que necessitam de arrependimento.

NOTAS:

[1] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. I.1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. p. 15.

[2] A. A. Hodge. Confissão de Westminster Comentada por A. A. Hodge. São Paulo: Os Puritanos, 1999. p. 53.

[3] David Hill. New Testament Prophecy. London: Marshall, Morgan and Scott, 1979.

[4] David Aune. Prophecy in Early Christianity and the Ancient Mediterranean World. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1983.

[5] Wayne Grudem. O Dom de Profecia do Novo Testamento aos Dias Atuais. São Paulo: Vida, 2004.

[6] Ibid. p. 445-461.

[7] Garnet Howard Milne. The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-Biblical Prophecy is Still Possible. Eugene, OR: Wipf and Stock Publishers, 2007.

[8] Ibid. p. 7.

[9] Robert L. Thomas. “The Hermeneutics of Noncessationism”, In: The Master’s Seminary Journal. Vol. XIV, Nº 2, 2003. p. 288.

[10] Ibid.

[11] Ibid. p. 289.

[12] Ibid.

[13] Ibid.

[14]
Ibid.

[15] Ibid. p. 306-307.

[16] Ibid. p. 307.

sábado, 7 de maio de 2011

SOBRE A ORDENAÇÃO [1]

Herman Bavinck

Finalmente, em adição ao chamado e exame, existe ainda a ordenação, que tem lugar especialmente pela imposição de mãos. Em Israel, esse gesto cerimonial era feito por ocasião de uma bênção (Gênesis 48.14; Levítico 9.22), um sacrifício (Êxodo 29.10; Levítico 1.4), uma acusação (Levítico 24.14), a consagração de um levita (Números 8.10), a escolha para um ofício (Números 27.18-23), e, por último, também para a instalação de juízes e a promoção de mestres.[2] Jesus impôs as mãos sobre as pessoas para curá-las (Mateus 8.15; 9.18; Marcos 5.23, cf. 2 Reis 4.34; 5.11) e para abençoá-las (Mateus 19.15; Lucas 24.50). Ainda que as pessoas dêem grande valor a esse ato (Mateus 9.18; Marcos 5.23; 7.32), em nenhum lugar lemos que Jesus o tenha realizado na ordenação para o ofício apostólico. Ele nomeou seus apóstolos apenas por pronunciar palavras, não por alguma cerimônia (Mateus 10.1ss.; 28.19). Em relação à nomeação de Matias, Paulo, Barnabé, Silas e Lucas (e assim por diante), não existe em nenhum lugar menção alguma da imposição das mãos. Certamente, não era uma prática universal ao iniciar candidatos em algum ofício eclesiástico. Mas a imposição das mãos tinha lugar por ocasião de uma cura (Atos 9.12,17), comunicação do dom do Espírito (Atos 8.17-19), e na nomeação de diáconos (1 Timóteo 4.14; 2 Timóteo 1.6). De acordo com 1 Timóteo 5.22, era comum usar a imposição das mãos na ordenação para um ofício eclesiástico, e de acordo com Hebreus 6.2 pertencia aos princípios elementares do ensino de Cristo. Mas ela não era uma comunicação real dos dons espirituais do ofício. Atos 6.3 ensina que os diáconos ao serem nomeados deveriam ser, de antemão, cheios do Espírito Santo e de sabedoria. De acordo com 1 Timóteo 1.18 e 4.14, a nomeação de Timóteo como evangelista foi confirmada por testemunhos proféticos e pela imposição das mãos por um corpo de presbíteros (presbyterium). E enquanto em 2 Timóteo 1.6 o dom do ofício é, na verdade, concebido como tendo lugar “através da imposição de mãos”, 1 Timóteo 4.14 diz que ele era concedido “através de profecia” e “com a imposição de mãos” – prova de que a profecia e a imposição de mãos não eram as fontes dos dons, mas os meios pelos quais eles eram introduzidos no serviço da igreja e designados para o ministério.


Dos apóstolos, esse costume de impor as mãos passou à igreja cristã, que o aplicou por ocasião do batismo, curas, a readmissão dos caídos e hereges, casamento, penitência e ordenação. No último caso, o direito de administrar esse costume nos anos posteriores era reservado apenas ao bispo e concebido como a outorga de um dom especial de ofício. Contra o Gnosticismo e o Montanismo, de algum modo, a verdade da igreja era demonstrada pelo fato de que nas igrejas fundadas pelos apóstolos, os bispos eram os detentores da pura tradição. Eles receberam essa tradição dos apóstolos e a transmitiram aos seus sucessores. A “sucessão passada adiante desde o princípio”, argumentada com base em 2 Timóteo 2.2, era a garantia para isso, pois o ofício incluía a comunicação de um “espírito” especial de ofício que preserva o portador do ofício, por mais que, pessoalmente, ele seja ímpio. Na igreja antiga a imposição das mãos, certamente, era costume por ocasião da ordenação de presbíteros, diáconos e ordens menores; ela era sempre acompanhada por oração e observada, posteriormente, por um longo tempo como o sinal simbólico da comunicação do dom do ofício. “A imposição das mãos – o que ela é senão uma oração sobre um ser humano?”[3] Porém, gradualmente, ela passou a ser observada como um sacramento que ex opere operato efetuava uma marca indelével.[4] Os luteranos primeiro a rejeitaram, mas depois a reassumiram e algumas vezes deram grande valor a ela.[5] Os reformados julgaram, por unanimidade, que a imposição de mãos não foi uma ordem de Cristo e, portanto, não era estritamente necessária. Porém, enquanto alguns a consideraram útil, venerável, e digna de ser seguida[6], outros sustentaram ser um assunto indiferente e, por temor de superstição, recomendaram que não fosse usada.[7]


A imposição das mãos não é um elemento essencial na ordenação, pois nem em conexão com o próprio Jesus, nem em conexão com os apóstolos, nem mesmo em conexão com os presbíteros (Atos 14.23; 20.28) há alguma menção de que ela foi feita. Ela também não pode ser observada como uma transmissão mecânica de um “espírito” especial de ofício. De acordo com a Escritura, ela não concede, mas, em vez disso, pressupõe o carisma exigido para o ofício. Ela também não é idêntica à eleição ou chamado para o ofício, mas segue esses eventos e pode, portanto, ser uma designação pública da pessoa chamada para um dado ofício e uma solene introdução e consagração ao ofício. Exatamente como uma cerimônia de casamento diante de um representante do Estado não constitui a essência de um casamento, e a coroação não faz um rei, assim também, a ordenação, com ou sem a imposição das mãos, não é a comunicação de um ofício ou do espírito de um ofício. Antes, a ordenação é a declaração pública solene diante de Deus e sua congregação que a pessoa chamada tem sido enviada por meio de um processo fiel e, portanto, pelo próprio Deus, que essa pessoa possui os dons exigidos e como tal deve ser recebida, reconhecida e honrada pela igreja em questão.[8]


FONTE: Herman Bavinck. Reformed Dogmatics: Holy Spirit, Church, and New Creation. Vol. 4. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008. pp. 381-383.

TRADUÇÃO LIVRE: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

NOTAS:

[1] NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: No original: “Ordination”.

[2] E. Schürer, The History of the Jewish People, II. 164-165.

[3] Agostinho, On Baptism 3, 16.

[4] Concílio de Trento, 23, c. 7; *De Ref., c. 3, 10; Roman Catechism, II, ch. 7, qu. 29 (nota do editor: Bradley and Kevane, II, ch. 6, qu. 32); R. Belarmino, “De clericis”, in Controversiis, I, 14.


[5] Apology of the Augsburg Confession, art. 13.

[6] João Calvino, Institutas, IV.iii.16; IV.xiv.20; IV.xix.31; ver também Aretius, Spanheim, Koelman, et al. NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: João Calvino escreveu o seguinte: “Mas, embora nenhum preceito expresso subsista quanto à imposição de mãos, uma vez que, no entanto, vemo-la vigorar em uso perpétuo pelos apóstolos, essa sua observância tão acurada deve valer-nos por preceito. E certamente é útil como símbolo desta natureza, tanto para recomendar ao povo a dignidade do ministério, quanto para advertir aquele que é ordenado, de que já não é de seu direito, mas antes é dedicado em sevidão a Deus e à Igreja. Isto posto, não será um sinal sem sentido, se for restaurado à sua origem genuína. Ora, se o Espírito de Deus nada institui na Igreja em vão, haveremos de sentir, quando ela for provida por ele, que esta cerimônia não é inútil, desde que não se converta em abuso supersticioso”. Cf. João Calvino. As Institutas: Edição Clássica. IV.iii.16. São Paulo: Cultura Cristã, 2006. pp. 76-77.


[7] Sínodo de Emden, art. 16: “Os ministros da Palavra devem ser examinados, isto é, questionados, por aqueles que os escolheram. Quando sua doutrina e vida forem reconhecidas como aceitáveis, eles serão instalados com orações apropriadas e com a imposição das mãos (mas sem superstição e como um requerimento)” (De Ridder, 116-117).


Sínodo de Dordrecht (1574), art. 24: “Em vista do fato de que a igreja está apenas em seu princípio, a imposição das mãos pode levar à superstição e ao ridículo por alguns, os irmãos têm decidido que a imposição das mãos deve ser abandonada e apenas os ministros serão confiados a Deus e a congregação como provido nos artigos seguintes” (De Ridder, 155).


Sínodo de Middelburg (1581), art. 5: “Aquele que está preparado para o ministério da Palavra e é chamado por outra congregação será recebido com orações e com a destra da comunhão. Ninguém da congregação será forçado a concordar contra a sua vontade” (De Ridder, 175); G. Voetius, Pol. Eccl., III, 452, 579; B. de Moor, Comm. Theol., V, 352-356; VI, 327-331; C. Vitringa, Doctr. Christ., IX, 209, 353-357.


[8] R. Sohm, Kirchenrecht, 56ss.; Th. Zahn, Introduction to the New Testament, II, 94; E. C. Achelis, Lehrbuch der praktischen Theologie, I, 139-173; E. C. Cremer, “Handauflegung”, in PRE3, VII, 387-389; W. Caspari, “Geistliche”, in PRE3, VI, 471.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

OS PAIS CHUPARAM UVAS VERDES E OS FILHOS EMBOTARAM OS DENTES

UM ESTUDO INTRODUTÓRIO A RESPEITO DAS MALDIÇÕES HEREDITÁRIAS

INTRODUÇÃO
Vivemos num período caracterizado por uma tremenda confusão doutrinária. Na verdade, de um lado existem aqueles que desprezam os estudos teológicos por acharem que teologia “esfria” a Igreja. Por outro lado existem aqueles, que são herdeiros de uma tradição rica em conceitos sadios e que concordam com a sã doutrina da Palavra de Deus, mas que mesmo assim, se apóiam em doutrinas completamente contrárias aos ensinamentos da Palavra de Deus.

Isso acontece porque tais pessoas desconhecem um princípio hermenêutico (princípio de interpretação) bíblico sadio e correto. A maior verdade de interpretação existente é de que A BÍBLIA INTERPRETA A PRÓPRIA BÍBLIA. Em outras palavras, isso quer dizer que as passagens que são complicadas devem ser interpretadas por outras passagens mais claras. Outro princípio diz que as passagens bíblicas devem ser interpretadas dentro do seu contexto. É bem conhecido aquele ditado que diz que “texto sem contexto é pretexto pra heresia”. Um exemplo de pessoas que viviam dessa forma eram os cristãos da cidade de Beréia que conferiam nas Escrituras se Paulo estava pregando corretamente.

Tais noções nos ajudam contra doutrinas erradas que muitas vezes são passadas dos púlpitos das nossas igrejas. Uma destas doutrinas é a conhecida doutrina das maldições hereditárias. Esta doutrina tão perniciosa é definida por um de seus principais defensores no Brasil da seguinte forma:

A maldição é a autorização dada ao diabo por alguém que exerce autoridade sobre outrem, para causar dano à vida do amaldiçoado... A maldição é a prova mais contundente do poder que têm as palavras. Prognósticos negativos são responsáveis por desvios sensíveis no curso da vida de muitas pessoas, levando-as a viver completamente fora dos propósitos de Deus... As pragas se cumprem.[1]

Algumas perguntas surgem nas nossas mentes: será que Deus castiga os filhos por causa dos pecados dos pais? Será Deus um agente arbitrário que castiga os filhos que não cometeram pecado no lugar dos pais, que são os verdadeiros culpados? Ou há algo que deve ser entendido devidamente nas passagens onde Deus fala sobre maldição hereditária? São exatamente estas perguntas que nos propomos a responder dentro da única regra de fé e prática da Igreja: A BÍBLIA SAGRADA.

EXAME DAS PASSAGENS QUE FALAM SOBRE MALDIÇÃO HEREDITÁRIA

Dentro da revelação bíblica, a primeira passagem onde ocorre um pronunciamento divino a respeito de castigar nos filhos os pecados dos pais é em Êxodo 20: 4-6, que diz exatamente assim: “Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás, nem lhes darás culto; porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”. Há algumas coisas que devem ser percebidas na passagem acima, as quais são muito elucidativas para o problema em questão.

Primeiramente, devemos notar que essa ameaça divina está dentro do contexto da entrega dos Dez Mandamentos. Deus estava entregando ao seu servo Moisés uma regra de vida para o seu povo escolhido. Percebamos que a advertência divina está logo após a declaração do segundo mandamento “não farás para ti imagem de escultura...”. logo em seguida o Senhor Deus Todo-poderoso dá a razão porque o povo de Israel não poderia fazer imagens: “porque eu sou o SENHOR, teu Deus, Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles que me aborrecem e faço misericórdia até mil gerações daqueles que me amam e guardam os meus mandamentos”. Deve ser notado o uso da palavra “porque”, que indica a razão do segundo mandamento. De forma simples, a advertência divina de castigar nos filhos os pecados dos pais sempre está conectada com a possibilidade do pecado de idolatria.

Em segundo lugar, Deus diz que é Deus zeloso. A palavra “zeloso” quando usada a respeito de Deus descreve o amor que Deus tem pelo seu nome santo, um zelo que exige a devoção exclusiva de seu povo. Ela é usada quando essa reivindicação é ameaçada por falsos deuses (conferir Dt 6.15; Js 24.19). É por causa do zelo que tem pelo próprio nome que Deus adverte o povo de Israel contra o pecado da idolatria e faz a ameaça de castigar as gerações subseqüentes. João Calvino comenta essa passagem de forma interessante. Ele diz o seguinte: “Ora é completamente estranho à equidade da justiça divina o castigar no inculpado o castigo do pecado alheio”.[2] Ele continua dando a razão pela qual essa advertência seria efetivada: “onde esta maldição pesou, que se pode esperar, senão que o pai de família, destituído do Espírito Santo de Deus, viva de forma abominável e o filho, de forma semelhante, abandonado pelo Senhor por causa da iniquidade do pai, siga o mesmo caminho de perdição? Finalmente, o neto e o bisneto, a mesma semente de homens idólatras também se precipitem nos mesmos pecados”.[3] No catecismo que escreveu para a Igreja de Genebra, Calvino afirma que essa imprecação se concretizaria em todos os descendentes que perpetuassem a iniqüidade de seus antepassados. Ele diz o seguinte:

É como se Deus dissesse que ele é o único a quem devemos nos apegar. Ele não pode tolerar a companhia de outro deus e irá demonstrar sua majestade e glória se alguém transferi-las a imagens ou qualquer outra coisa; e não somente uma única vez, mas nos pais, nos filhos e descendentes, ou seja, em todos enquanto sigam a iniqüidade de seus pais; assim também ele manifestará perpetuamente a sua misericórdia e bondade para com aqueles que o ama e guardam a sua lei. Ele declara a grandiosidade de sua misericórdia nisto, em que ele a estende até mil gerações enquanto designa apenas quatro gerações para sua vingança.[4]

Também é interessante a síntese do pensamento calviniano na obra de J. P. Willes:

Acrescenta-se que o Senhor é um Deus zeloso, para demonstrar que ele não tolerará rival algum, e sim vingará o insulto cometido contra a sua glória, se esta for transferida a criaturas ou imagens de escultura; e que essa vingança será visitada nos netos e bisnetos, visto que estes seguirão nos maus passos dos seus pais.[5]

De forma prática, a fim de que entendamos esta passagem de Êxodo, lembremos que desde os tempos mais antigos, os pais de família são os sacerdotes dos seus lares. Lembremos do caso de Jó, que oferecia sacrifícios continuamente pelos possíveis pecados de seus filhos (Jó 1. 5). Os pais sempre foram os responsáveis primários pela educação religiosa de seus filhos. No livro de Deuteronômio 6. 6, 7 encontramos esta verdade: “Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te”. A família deve ser uma comunidade de ensino e aprendizado a respeito de Deus e da piedade cristã. As crianças devem ser ensinadas pelos seus pais a amarem ao Senhor de todo coração (Gn 18.18, 19; Dt 4.9; 11.18-21; Pv 22.6; Ef 6.4). Logicamente, os pais que falhassem nessa tarefa estariam contribuindo para que seus filhos permanecessem ignorantes a respeito da lei de Deus e, conseqüentemente, dariam abertura para que seus filhos se tornassem idólatras, pecassem contra o Senhor e fossem assim, severamente castigados pelo Deus santo e justo. Somente nesse sentido é que Deus castigaria nos filhos os pecados de seus pais. Reflitamos: nesse caso, qual o pecado dos pais? A resposta é a idolatria e o falso ensinamento para seus filhos. Qual o pecado dos filhos? A resposta é a idolatria aprendida dos pais e a passagem dos maus costumes para os netos de seus pais. Essa é a interpretação correta. Todas as outras passagens onde esta ameaça ocorre, ela está vinculada à possibilidade de pecado e rebeldia contra o Senhor Deus (conferir Isaías 44.15; Deuteronômio 4.24; Números 14.18, 33).

Mais especificamente, há uma outra passagem no Antigo Testamento que mostra que a responsabilidade pelo pecado é pessoal e individual. A passagem é Ezequiel 18.20: “A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniqüidade do pai, nem o pai, a iniqüidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este”. Esta passagem é muito esclarecedora, onde o próprio Deus afirma que cada um dará contas dos seus próprios pecados. Os filhos não têm culpa dos pecados de seus pais, nem os pais têm culpa dos pecados dos filhos. Mas isso desde que um deles tenha vivido de acordo com a vontade de Deus revelada na sua Palavra. No início do capítulo está escrito: “Que tendes vós, vós que acerca da erra de Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá (Ez 18.2-4). Ezequiel está explicando que Deus responde de acordo com os atos de cada indivíduo e geração. Cada um é punido por seus próprios pecados. Recomendo que a Igreja leia para um melhor entendimento todo o capítulo 18 de Ezequiel, de forma mais específica, os versículos que se estendem de 10 a 18. Em suma, o pai não leva a culpa pelo pecado do filho, nem o filho leva a culpa pelo pecado de seu pai, desde que um deles tenha vivido uma vida santa, reta, dedicada ao serviço e adoração ao Deus verdadeiro.

RESPOSTA A UMA MÁ UTILIZAÇÃO DE UMA PASSAGEM DO NOVO TESTAMENTO PARA DAR SUPORTE AO ERRO AQUI COMBATIDO

Muitas pessoas enfatuadas, arrogantes e na verdade ignorantes a respeito da Palavra de Deus utilizam, de forma indevida uma passagem neotestamentária para apoiar sua falsa doutrina de maldição hereditária. A passagem é João 9.1, 2, que diz o seguinte: “Caminhando Jesus, viu um homem cego de nascença. E os discípulos perguntaram: Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse cego?” A resposta de Jesus foi extraordinária: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestassem nele as obras de Deus” (v. 3). Agora eu pergunto aos que afirmam que aqui há uma base para a maldição hereditária: onde esse texto dá apoio à essa doutrina satânica e perniciosa? A resposta é óbvia: EM NENHUM LUGAR! Quereis vós, que distorcem o cristalino ensino da Palavra inerrante de Deus basear os seus falsos ensinamentos apenas na pergunta dos discípulos? Pois bem, não percebem que esta pergunta foi taxada como errada pelo próprio Jesus? A resposta de Jesus Cristo mostra quão errada é esta noção, quão deturpada é a doutrina que ensina que os filhos são castigados pelos pecados dos seus pais. Na verdade, o propósito pelo qual aquele homem havia nascido cego era para que na vida dele as obras poderosas de Deus fossem manifestadas. Ele havia nascido cego para que a glória de Deus fosse manifestada através da cura realizada por Jesus Cristo, a fim de que a sua pregação a respeito do Reino de Deus fosse credenciada diante das pessoas que o ouviam. Esta passagem não ensina nada sobre maldição hereditária a não ser uma única coisa: que esta doutrina é errada!

CONCLUSÃO

Alguns de nossos sofrimentos, como os de Jó, são para a glória de Deus, pois ou resultam em nosso próprio aperfeiçoamento ou em cura espetacular, como no caso do cego de nascença. O propósito de Deus nem sempre é conhecido por nós, mas devemos como cristãos ter a firme convicção de que o seu propósito é bom (Romanos 8.28).

Diante da reflexão aqui empreendida, deve restar a certeza de que Deus trata cada um segundo as suas próprias obras. Digo isso não com relação à salvação, pois se assim fosse, ninguém seria beneficiário da salvação, em virtude da mesma ser única e exclusivamente pela graça soberana do Deus do Pacto; mas esta afirmação tem a ver com a imposição de castigos temporais. Deus disciplinas aos filhos que tanto ama.

Devemos rejeitar toda e qualquer doutrina que vá contra a Palavra de Deus. No caso, uma doutrina que afirme que Deus visita a iniqüidade dos pais nos filhos é uma falsa doutrina e deve ser rejeitada e condenada como herética. Sempre existiram pessoas dispostas a afirmar isso, mas ultimamente tal afirmação ganhou força com a Igreja Universal do Reino de Deus, a qual, nós bem sabemos que é uma instituição que ensina outro evangelho, não o de Cristo. A orientação bíblica é para que rejeitemos também os falsos mestres, que na linguagem do apóstolo João são nada mais nada menos do que “enganadores” (2 João 7).

Em suma, a autoridade para resolver qualquer dúvida a respeito de crença e prática da Igreja é a Escritura Sagrada. Ela é a Palavra inerrante do Deus Todo-poderoso. Ouçamo-la.

SOLI DEO GLORIA!


[1] Jorge Linhares, Bênção e Maldição. Belo Horizonte: Getsêmani, s/d. p. 16.

[2] João Calvino, As Institutas ou Tratado da Religião Cristã, Livro I, cap. VIII, 19. p. 146.

[3] Ibid. p. 147.

[4] João Calvino, Instrução na Fé: Princípios Para A Vida Cristã. Goiânia: Logos, 2003. p. 23.

[5] J. P. Willes, Ensino Sobre O Cristianismo. São Paulo: PES, 2002. p. 177.

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