segunda-feira, 18 de abril de 2011

PREDESTINAÇÃO NÃO É SUFICIENTE

R. Scott Clark

Este ensaio é um tanto retrospectivo e, portanto, não pode deixar de parecer conservador e, para alguns, talvez até retrógrado. O argumento deste livro, entretanto, não é “conservador”, ao menos não como o adjetivo é usualmente empregado. Tenho pouco interesse em preservar o status quo nas igrejas reformadas conservadoras, mesmo porque muitas vezes estamos conservando as coisas erradas. O argumento desse livro não é conservador, mas radical, visto que é um chamado aos cristãos reformados para que retornem às suas raízes confessionais.

Esse chamado ao radicalismo é libertador no sentido de que recuperar e agir por princípio sempre é libertador. Desde o século 16 aprendemos algumas coisas importantes. Como já observamos antes, aprendemos que a cristandade foi um erro e modificamos nossa confissão apropriadamente. Aprendemos também que usar a Bíblia como livro-texto para política ou ciências naturais é errado. Nesses exemplos, temos um modelo que sugere que a teologia, a piedade e a prática reformadas não são inerentemente reacionárias. Nesses exemplos, em princípio, temos um modelo para enfrentar os desafios futuros.

Assim como ser confessional nos permite criticar elementos do nosso passado, também nos coloca em conflito com alguns aspectos da teologia, piedade e prática reformadas contemporâneas. Um ponto em que o confessionalismo reformado nos colocará em conflito com alguns segmentos do cristianismo reformado contemporâneo está na maneira como a palavra “reformado” é definida e usada. Em um artigo da revista Christianity Today, Colin Hanson narrou o surgimento de líderes “Jovens, Inquietos e Reformados” no evangelicalismo. [1] O artigo descreve a popularidade e a reação gerada por vários líderes evangélicos, sendo que nenhum deles é identificado com qualquer denominação ou confissão reformadas históricas. Para propósitos do presente argumento, entretanto, o que me interessa no artigo e na discussão subsequente é a forma como o adjetivo “reformado” é usado. Está claro no artigo que o que se entende pelo termo “reformado” é “predestinacionismo”. Parece nunca ocorrer a ninguém na discussão que é necessário correlacionar a palavra “reformado” às igrejas e confissões reformadas históricas.

Imagine, no entanto, se transportássemos a discussão atual para o início do século 16, quando as igrejas reformadas estavam se definindo na forja da controvérsia com Roma, os arminianos, e os racionalistas da época. Imagine que esses líderes “jovens, inquietos e reformados” viajassem para o Sínodo de Dort e se apresentassem às igrejas Reformadas da Europa e da Inglaterra como “cristãos reformados”. Eles seriam aceitos como reformados? Naturalmente, as primeiras perguntas seriam: “O que vocês querem dizer com ‘reformados’?”, “Vocês subscrevem a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg?”. Nesse ponto a discussão logo cairia por terra, porque, embora esses visitantes tivessem muito em comum com o sínodo quanto à soteriologia, teriam bem menos em comum com o sínodo quanto às doutrinas da igreja e dos sacramentos, e a hermenêutica da teologia do pacto. Não se pode duvidar que os nossos viajantes do tempo voltariam para casa decepcionados por serem rejeitados pelo Sínodo de Dort, mas se tentassem novamente na Assembleia de Westminster, encontrariam uma recepção igualmente fria.

Se os nossos teólogos jovens, inquietos e reformados não puderam encontrar hospitalidade em Dort e Westminster, podemos, razoavelmente, perguntar se o adjetivo “reformado” está sendo usado adequadamente por eles. Se, como este volume tem argumentado, as confissões reformadas são a medida do que significa ser reformado, então não pode incluir aqueles que, por mais fervorosos que sejam, negam doutrinas que são a essência da teologia, piedade e prática reformadas.

Talvez ainda mais interessante do que o nosso experimento de viagem no tempo seja a questão sobre como foi que o evangelicalismo passou a usar a palavra “reformado” para praticamente qualquer um que sustente a doutrina da predestinação, independentemente de tudo mais que ele professe. A primeira parte da resposta é que é falso presumir que a predestinação é a nossa crença distintiva, da qual deriva toda a nossa teologia. A segunda parte da resposta, no entanto, é menos óbvia: temos falado e definido a nós mesmos por essa única doutrina. Quando o evangelicalismo mais amplo usa as palavras “reformado” e “predestinacionismo” como sinônimos, está apenas imitando o que ouviram e leram acerca do que temos dito sobre nós mesmos.

Enquanto escrevo, existe ainda outra conversação na Internet amplamente lida e discutida acerca da chamada Visão Federal. Durante a discussão, um dos proponentes da Visão Federal confessou que, 35 anos atrás, a única coisa que o interessava na fé reformada era a sua ênfase na Bíblia. Ele confessou que considera perguntas sobre o Princípio Regulador do Culto ou o pacto das obras por demais enigmáticas. O que o atraiu para a fé reformada, como ele a entende, foi a sua visão-de-mundo-e-vida, que penso significar sua utilidade para seu programa de transformação cultural. Ele lamenta que, quando se tornou reformado, em contraste com o presente momento, tudo que precisava era ser conservador e predestinacionista. Considero que esteja dizendo que a maior parte daquilo que as igrejas reformadas realmente confessam não lhe interessa.

Talvez seja por isso que, em meados da década de 1970, as confissões recebiam menos atenção das igrejas do NAPARC (North American Presbyterian and Reformed Council) do que agora. Como consequência da controvérsia modernista-fundamentalista, que durou décadas, as confissões foram, de certa forma, marginalizadas em favor de uma ampla coalizão conservadora contra o liberalismo teológico. Independentemente das suas virtudes, essa coalizão não conseguiria se sustentar. Ao longo de todo este livro, vimos que a prole dessa união não se assemelha muito à fé reformada, como sintetizada em nossas confissões e entendida pela tradição. Por questão de princípio (ecclesia reformata semper reformanda), os pilares do conservadorismo e a predestinação não são suficientes para sustentar as igrejas e os cristãos que se pretendem reformados. A escolha está diretamente diante de nós: podemos nos contentar com um mínimo denominador comum na teologia, piedade e prática, diferentes dos vigentes no evangelicalismo e no fundamentalismo apenas em graus, ou podemos, com o coração e a mente, recuperar a confissão reformada.

FONTE: R. Scott Clark. Recovering the Reformed Confession: Our Theology, Piety, and Practice. Phillipsburg, NJ: Presbyterian and Reformed Publishing, 2008. pp. 343-345.

TRADUÇÃO LIVRE: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

NOTAS: Collin Hansen, "Young, Restless, and Reformed: Calvinism Is Making a Comeback - and Shaking Up the Church", Christianity Today 50:9 (2006). pp. 32-38. Ver também, Young, Restless, and Reformed: A Journalist's Journey with the New Calvinists (Wheaton, IL: Crossway, 2008).

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