segunda-feira, 28 de março de 2011

ANTIGO E "NOVO" CALVINISMO

NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: A publicação do artigo do Dr. R. Scott Clark não possui fins polêmicos. A intenção é meramente apresentar uma crítica existente e, assim, estabelecer o diálogo. Creio que as colocações do autor são respeitosas, acima de tudo.

R. Scott Clark

Em resposta ao recente artigo da revista TIME sobre a YRR, Mark Driscoll publicou um texto a respeito do Resurgence, contrastando os “novos” calvinistas com os “antigos” calvinistas. Ele foi seguido por um texto com um tratamento gentil e bondoso do cansado, velho e fugitivo dos centros urbanos, o sufocado Calvinismo. Darryl Hart respondeu ao post desaparecido, apontando o fato de que, muito do que o Driscoll aconselhou tem sido tentado. Esse programa é chamado Christian and Missionary Aliance.

Ao invés de responder ponto por ponto do post original do Pastor Driscoll, eu quero desafiar a premissa sobre o qual ele se fundamenta, nomeadamente que a sua teologia, piedade e prática são genuinamente “calvinistas”, e segundo, que “Calvinismo” pode ser reduzido à doutrina da predestinação, que por sua vez pode ser recontextualizada em congregações que estão em desacordo com a confissão Reformada.

Observemos o primeiro ponto. Há dois mitos persistentes sobre o “Calvinismo”. O primeiro parece ser o mais amplamente aceito entre os evangélicos como é pelos críticos do Calvinismo, isto é, que o dogma central, ou princípio organizador do Calvinismo, é a doutrina da Predestinação. Porque os evangélicos aceitam essa premissa (eles parecem não ler muito Calvino e seus sucessores), falam de qualquer protestante que sustenta qualquer um dos cinco pontos do Sínodo de Dort como um “calvinista”. Isto conduz à estranha expressão: “Fulano de tal é um 1 (ou 2 ou 3 ou 4 ou 5) ponto calvinista. O segundo mito é o corolário do primeiro, isto é, que Calvino era um tirano. Esta é uma ficção criada pelos críticos de Calvino e seus seguidores, com o pressuposto de que quem defendeu a doutrina da absoluta soberania divina deve ter sido um tirano (mesmo que as evidências digam o contrário).

As Igrejas Reformadas confessam muito mais do que a doutrina da predestinação. Confessamos um sistema completo de doutrina, isto é, uma teologia, uma piedade e uma prática eclesiástica. Você pode ler tudo sobre isso no fascinante novo livro Recovering the Reformed Confession. De acordo com as Igrejas Reformadas (em oposição aos evangélicos não-históricos) a doutrina da predestinação é uma doutrina necessária, mas não uma doutrina suficiente. Imagine tentar jogar hóquei no gelo apenas com o bastão de hóquei. Sem dúvida, o bastão é uma peça essencial ao equipamento de hóquei no gelo, mas ele é apenas o começo. Hóquei no gelo é impossível sem gelo, patins, um disco, e um objetivo. Assim como há mais no hóquei no gelo do que bastões, há mais no Calvinismo do que a Predestinação. De fato, a velha escola do Calvinismo nos séculos 16 e 17 confessou a doutrina de Deus, humanidade, Cristo, salvação, igreja (incluindo os sacramentos), e últimas coisas.

Tirar fora e isolar a doutrina da predestinação e recontextualizá-la muda o seu caráter. Vários teólogos medievais ensinavam uma alta doutrina da predestinação. Eles também ensinavam que Deus soberanamente infunde graça e cria justiça dentro do pecador com o fundamento de que Deus pode corretamente justificar o justo. Havia teólogos medievais que ensinavam, com efeito, os cinco pontos de Dort, mas nenhum desses teólogos seria admitido para o ministério das Igrejas Reformadas. Todos eles ensinaram a doutrina da justificação de um modo incompatível com a doutrina protestante (reformada). Muitos deles sustentavam uma Cristologia em desacordo com a nossa. Eles tinham uma visão da Igreja e dos sacramentos incompatível com a nossa. Em outras palavras, a doutrina da predestinação, ou até mesmo a expiação limitada, não os tornava “reformados”. Se antes era assim, então, é também agora.

Segundo, é importante notar que há pouca evidência de que a doutrina confessada e pregada na Mars Hill Church seja reformada. Há pouca evidência de que a Mars Hill Church é, reconhecidamente, uma congregação reformada. Compare a declaração doutrinária da Mars Hill Church com a Confissão Belga, o Catecismo de Heidelberg, os Cânones de Dort, ou os Padrões de Westminster. A doutrina continuacionista do Espírito confessada por Driscoll e Mars Hill Church se aproxima mais dos anabatistas do que de Calvino (que considerava os anabatistas como “fanáticos”), Beza, o Sínodo de Dort, ou da Assembléia de Westminster. A doutrina do batismo confessada por Driscoll e Mars Hill Church é exatamente oposta àquela confessada por todas as Igrejas Reformadas, desde o princípio do século 16.

Se Mark Driscoll apresentasse a si mesmo para a membresia na Igreja de São Pedro, na Genebra de Calvino, ele seria rejeitado. Por quê? Ele não acredita na fé confessada pela igreja. Ele seria rejeitado pelos consistórios e sínodos nos Países Baixos, França, e pelos presbitérios na Escócia. Eles não reconheceriam a sua confissão como reformada.

A verdade nua e crua é que muitas pessoas reformadas estão tão excitadas pelo fato de um proeminente líder no evangelicalismo, alguém com crescente visibilidade na mídia, identificar-se como reformado. O Pastor Driscoll se sente confortável co-optando o adjetivo “calvinista” porque os verdadeiros calvinistas, aqueles que verdadeiramente acreditam e praticam o que Calvino acreditou e praticou, deixam-no usá-lo.

O Pastor Driscoll fez bem ao adicionar numa segunda publicação, amenizando a pancada da publicação original, mas a original reflete o seu menosprezo pelo calvinismo histórico e confessional. Tudo bem. Ele tem direito à opinião dele. Eu acharia melhor que ele tivesse dito o que pensa sobre o quanto somos mortos, desprezivelmente banais e desinteressados em evangelização, ou seja, lá o que for que ele acha que somos, do que ser menosprezados por amor às relações públicas. O melhor, porém, é que ele e nós sejamos honestos quanto ao fato de o Pr. Driscoll não ser um calvinista de verdade. Ele pode não estar satisfeito com os “antigos” calvinistas, mas eles, pelo menos, eram calvinistas de verdade.

FONTE: http://heidelblog.wordpress.com/2009/03/15/calvinism-old-and-new/

TRADUÇÃO LIVRE: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

quinta-feira, 17 de março de 2011

AS CARACTERÍSTICAS DA VERDADEIRA ORAÇÃO - PARTE 3

Wilhelmus à Brakel

Terceiro, deve existir sinceridade e fervor. Isto não consiste em chamar em voz alta, nem com uma longa expressão de palavras em uma sequência fluente, nem em uma junção de argumentos intelectuais de uma maneira apaixonada e chorosa. Tudo isto um homem natural é capaz de fazer. Pelo contrário, fervor é um movimento intenso do coração, que é gerado por um forte desejo, expresso em uma maneira compreensiva e pensativa. Fervor é o envolvimento de toda a energia da alma e do corpo. Ele penetra através de toda a oposição e vence o vaguear dos pensamentos, a letargia da carne, e o surgimento de pensamentos incrédulos (tais como, “Isto é vão; Deus não vai te ouvir; você não receberá o que deseja”, etc.), e os enganos sutis e insinuações de Satanás, etc. O crente não pode desistir tão facilmente, pois seus desejos são também fortes; ele persevera. “Não te deixarei ir se me não abençoares” (Gênesis 32.26). Como a mulher cananeia, o crente persegue o Senhor com oração e súplica (Mateus 15.22). Não obstante, fervor não leva embora a reverência a Deus, nem a disposição calma e serena da alma. Quietude e fervor andam de mãos dadas aqui. Aqueles que, por assim dizer, não podem fazer chegar a si mesmos à oração, mas, em vez disso, a evitam e olham por cima dela, deveriam se envergonhar. Quando, sem culpa sua, um impedimento se apresenta em seu tempo devocional, eles não estão tristes, mas, secretamente, estão satisfeitos por estarem isentos do dever da oração. É possível que alguém ore mais para satisfazer sua consciência (por ter orado) do que para atingir a satisfação dos seus desejos. Ele permite a si mesmo ser facilmente prejudicado por um pensamento incrédulo, no sentido de que, não será ouvido. Não possui desejos ardentes direcionados a um assunto e, portanto, movem-se de um assunto para outro por meramente enumerá-los – assunto, palavras, e desejos estando ausentes. Isto é um assunto abominável. Se você não tem desejos, então, desapareça. Se você não vir com suas próprias necessidades, você não precisa vir simplesmente por causa da vontade de Deus. Ele não deseja tal serviço morno, apático e preguiçoso.

Os sacrifícios e incenso tinham de ser acesos com fogo, e nossas orações também devem ser inflamadas com fervor. As razões para isso são as seguintes:

(1) Suplicantes fervorosos são agradáveis aos olhos de Deus: “Meus suplicantes... trarão a minha oferta” (Sofonias 3.10);

(2) Uma oração sincera é muito proveitosa diante de Deus: “Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tiago 5.16);

(3) O crente deve ser fervoroso em tudo aquilo que faz: “... sede fervorosos de espírito” (Romanos 12.11); “Sê, pois, zeloso” (Apocalipse 3.19);

(4) Os exemplos dos santos, cujos passos devemos seguir, estimulam-nos a sermos fervorosos na oração. Toda a sua vida consistia de oração. Davi levantava-se à meia-noite. Ele clamou, e chorou; e não cessou. Devemos fazer o mesmo, para que o Senhor possa perceber que nosso objetivo é conhecê-Lo e reconhecê-Lo como o Doador – como o Único que dá livremente – e que é a graça somente que pode nos ajudar.

FONTE: Wilhelmus à Brakel. The Christian's Reasonable Service. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2007. pp. 458-459.

TRADUÇÃO LIVRE: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

sexta-feira, 11 de março de 2011

AS CARACTERÍSTICAS DA VERDADEIRA ORAÇÃO - PARTE 2

Wilhelmus à Brakel

Em segundo lugar, a oração é feita em espírito e em verdade. Recitar verbalmente o que foi memorizado (mesmo que preste atenção a cada palavra e mesmo que o nosso objetivo geral seja orar a Deus) mas não entender os assuntos, e se ao entendê-los não os desejamos, isso é zombar de Deus. é tolice se nós desejamos um assunto, e para esse fim recitamos a oração do Senhor, uma manhã ou uma oração vespertina, a fim de consegui-lo.

Orar em espírito e em verdade:

(1) Consiste de uma oração com entendimento; isto é, estar familiarizado com o Senhor a quem se está orando; com o Cristo através do qual alguém se aproxima de Deus; com nós mesmos em nossa perplexidade e indignidade; com o assunto que nós desejamos; e com o objetivo em pedir o assunto. Não apenas é necessário estar familiarizado habitualmente com isto (estando, assim, capazes de estar conscientes se dermos ouvidos a isto), mas é preciso haver um conhecimento real de tudo isto. Assim, enquanto oramos presentemente, perceberemos e observaremos o que está sendo expresso, e por tal percepção seremos movidos e nos tornaremos ativos: “Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente” (1 Coríntios 14.15).

(2) É um exercício da vontade, de maneira que nós desejamos os assuntos em verdade. Nossa consciência deve testificar diante de Deus que nós os desejamos, que isso é o nosso objetivo – não apenas quando considerando o assunto em si, mas também juntamente com as suas circunstâncias presentes, renunciando voluntariamente a tudo aquilo que está em oposição ao assunto desejado. Uma pessoa não-convertida quando ouve o desejo de santidade apresentado como tal talvez dirá: “Sim, eu quero isso, e eu tenho um desejo por santidade”. Se, entretanto, ela vê o pecado como uma prática honesta, se o estima, deleita-se nele, e o considera proveitoso é observado sob essa luz, e percebe que deve renunciá-lo por completo, ela não deseja santidade, mas, sim, o pecado em seu lugar. Alexandre desejava ser Diógenes, se não fosse Alexandre. O jovem rico tinha um desejo por salvação e por guardar os mandamentos de Deus; entretanto, quando ele precisou partilhar os seus bens, afastou-se triste (Mateus 19.21,22).

(3) É também acompanhada por reflexão e atenção. Devemos estar atentos para o fato de que a paixão não é executada antes do entendimento e da vontade; pelo contrário, o engajamento do entendimento e da vontade deve preceder, estimular e governar nosso zelo. Se as coisas acontecem dessa forma, o coração permanecerá em uma disposição própria: “Guarda o pé, quando entrares na Casa de Deus [...] Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras” (Eclesiastes 5.1,2).

Espírito e verdade são absolutamente essenciais na oração, pois:

[1] “Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24);

[2] Deus requer o coração: “Dá-me, filho meu, o teu coração” (Provérbios 23.26);

[3] Deus conhece o coração, bem como a mente do Espírito: “... porque tu, só tu, és conhecedor do coração de todos os filhos dos homens” (1 Reis 8.39);

[4] Deus deseja a verdade no íntimo (Salmo 58.8);

[5] “Ah! SENHOR, não é para a fidelidade que atentam os teus olhos?” (Jeremias 5.3), “porque são estes que o Pai procura para seus adoradores” (João 4.23);

[6] Deus odeia e pune aqueles que se aproximam dEle fisicamente e não com o coração: “Visto que este povo se aproxima de mim e com a sua boca e com os seus lábios me honra, mas o seu coração está longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, que maquinalmente aprendeu, continuarei a fazer obra maravilhosa no meio deste povo; sim, obra maravilhosa e um portento; de maneira que a sabedoria dos seus sábios perecerá, e a prudência dos seus prudentes se esconderá” (Isaías 29.13,14).

FONTE: Wilhelmus à Brakel. The Christian's Reasonable Service. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2007. pp. 457-458.

TRADUÇÃO LIVRE: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima
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