domingo, 6 de fevereiro de 2011

ORAÇÃO SOB CONSCIÊNCIA DE UM PECADO COMETIDO

Wilhelmus à Brakel

Aqueles que, presentemente, sabem que foram trasladados da morte para a vida espiritual, ou que percebem as evidências dentro de si mesmos por meio das quais podem concluir isso (mesmo que a segurança disso não seja tão forte), ocasionalmente entram em uma condição mais pecaminosa do que a tendência comum da vida. Também podem ser levados cativos pelo pecado a tal ponto que, no momento, não podem tomar uma resolução completa, alegre e corajosa de se levantarem desse pecado e de se esforçarem seriamente contra ele. Ou pode ser que quando a tendência de sua vida é boa, ocasionalmente caiam em um pecado específico. Se, sob tais condições, eles imediatamente se engajassem na oração – isto é, sem primeiro examinar a si mesmos, tomando uma resolução para se arrependerem, de maneira que seus corações os convencessem de que estão corretos em sua intenção – isso seria um empreendimento irreverente e desagradável a Deus. Tais pessoas não teriam liberdade na oração, nem orariam com santa atenção, pois seus corações as condenariam enquanto estivessem engajadas na oração. Aqueles que estão em tal condição devem primeiro se recuperar, de modo que possam ter uma intenção reta para batalhar contra o pecado, e de se colocarem em oração para implorarem a Deus pela reconciliação e força contra esse pecado. Então, eles estarão em liberdade, porque seus corações nãos os condenarão (1 João 3.20,21).

Ocasionalmente, se algo acontece que uma pessoa regenerada está inteiramente vazia de desejos – não em essência, mas no exercício. Quando tal pessoa se engaja na oração, ela não sabe o que orar, pois não tem vontade para nada. Ela tem perdido de vista o desejo por tais assuntos devido à escuridão espiritual, ou se encontrada desencorajada por não ter recebido o seu desejo após ter orado. Isto fechará o seu coração. O que ela deve fazer? Orar? Ela não pode. Ela deve negligenciar a oração? – tal pessoa negligencia tudo com frequência, e, devido a esta negligência, afasta-se completamente da oração. Ela não pode fazer isso, pois sua natureza regenerada não permitirá e continuamente a inclinará para orar. Tal pessoa não deve resistir a tais fracas inclinações, o que é fácil fazer; pelo contrário, ela deve ser como uma pequenina criança. Ou, como alguém que revive de um desmaio, e se move fracamente, falando baixinho, ela deve seguir suas fracas inclinações, apresentá-las perante o Senhor, perseverar em oração, e familiarizar-se com o Senhor – ou, então, ela apostatará ainda mais. Entretanto, ao fazê-lo ela experimentará que Ele “atendeu à oração do desamparado e não lhe desdenhou as preces” (Salmo 102.17).

FONTE: Wilhelmus à Brakel. The Christian's Reasonable Service. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 2007. p. 454.

TRADUÇÃO LIVRE: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

6 comentários:

Camom T. Tomé disse...

Eu acho interessante esse tipo de escrito... uma teologia bem experimental! O que percebo é que muito do que estes santos escreviam era fruto de experiência e observação... às vezes com poucas referências bíblicas. Fica ai uma questão para o Rev. Alan Rennê, sobre o lugar da experiência pessoal e observação no labor teológico!

Alan Rennê disse...

Grande Camom,

Muito obrigado pela visita e pelo comentário!

De fato, uma das características mais marcantes dos puritanos ingleses, escoceses e seus correspondentes holandeses era o que é comumente chamado de Calvinismo Experimental, que antes de qualquer coisa, não está fundamentado na experiência de forma nua e crua, mas sim, que busca e explica pela Escritura a forma como os cristãos devem viver, onde cada um tem tropeçado e falhado, apresentando as implicações práticas de uma dada forma de se viver.

O Dr. Joel Beeke, por exemplo, no prefácio da obra "Paixão pela Pureza" afirma o seguinte: "Os puritanos procuravam pesquisar as Escrituras, conferir os seus achados e aplicá-los a todas as áreas da vida. Ao fazerem isso, os puritanos também tinham por objetivo serem confessionais e teológicos, e dependeram muito da dedicada erudição cristã" (pág. 35). Um pouco mais à frente, na página 38, o Dr. Beeke aponta como uma das características dos escritos puritanos o fato de "eles modelarem a vida pelas Escrituras". Eis suas palavras: "Os puritanos insistiam com os crentes que fossem centralizados na Palavra, quanto à fé e quanto à prática. Em sua obra Christian Directory, Richard Baxter mostrou que os puritanos consideravam a Bíblia como um fidedigno guia para todos os aspectos da vida. Todos os casos de consciência eram submetidos às diretrizes das Escrituras".

Então, Camom, percebe-se que eles nao partiam da observação, mas, em vez disso, analisavam as Escrituras com o objetivo de validar ou não as suas experiências.

No caso de à Brakel, tenho me impressionado positivamente pelo modo como o mesmo aborda a teologia da oração bem como a sua prática. Depois que comecei a traduzir estes textos tenho repensado seriamente a minha prática.

Um grande abraço, my friend!

Camom T. Tomé disse...

De fato não se pode argumentar que o ponto de partida é a observação, mas acredito que seja algo mais ou menos assim. Esses homens alcançados pela graça de Deus têm agora sua mente iluminada para compreender em profundidade as realidades da revelação escrita. Com essa mente iluminada eles passam à meditação e observação/experimentação dessas verdades que aprenderam na Bíblia em sua vida particular e no mundo. As conclusões de sua observação/experiência por tanto são baseadas em um intelecto iluminado e cheio da verdade da Palavra de Deus. Por isso um texto como esse que tem poucas referências bíblicas e argumentação em torno de textos, e com bastante argumento experimental não deixa de ser bíblico... o que acha?

Alan Rennê disse...

Camom,

Acredito que seja mais ou menos como o processo de retroalimentação: Começa com a leitura, estudo e meditação nas Sagradas Escrituras. O Espírito Santo aplica de maneira poderosa a Palavra aos corações dos seus servos, de maneira que eles recebem as condições para meditarem de forma mais profunda acerca dos assuntos espirituais, e, buscam, em seguida, a orientação do Senhor em sua santa Palavra.

E como vc colocou, mesmo as referências não aparecendo de forma explícita, podemos perceber com muita sensibilidade que o conteúdo do texto é saturado de Escritura. Exemplo interessante disso é o que aparece nas edições dos livros de John Owen, recém publicados pela Cultura Cristã. Os editores fazem um esclarecimento, no sentido de que as referências que aparecem entre colchetes foram inseridas ali pelos próprios editores, quando John Owen apenas mencionou o assunto do texto ou mesmo citou a passagem de cabeça.

Muito interessante! Macho véi, à medida que leio os escritos desses servos do Senhor, apaixono-me cada vez mais pela ênfase na harmonia entre piedade prática e erudição.

Leonardo Bruno Galdino disse...

Alan,

Por sua causa, estou curtindo demais o à Brakel. Muito bom, mesmo! Precisa ser mais divulgado entre os reformados. Continue firme nas traduções.

Abraços!

Alan Rennê disse...

Grande Leonardo,

Obrigado pelo comentário!

Rapaz, mea culpa! Mea maxima culpa! rsrsrsrsrsrs... Assumo com grande alegria!

Minha oração é que não só ele, mas outros grandes teólogos e pastores da Segunda Reforma Holandesa, tais como Herman Witsius, Jodocus van Lodenstein, sejam conhecidos em nosso meio!

Grande abraço!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...