terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A NATUREZA OU ESSÊNCIA DA ORAÇÃO

Wilhelmus à Brakel

Em nosso tratamento do assunto da oração iremos, primeiramente, mostrar qual é a sua natureza, e, então, moveremos você ao exercício da oração. A fim de expandir a verdadeira essência da oração, iremos apresentar: 1) sua definição (sobre a qual discorreremos abaixo); 2) suas características; 3) suas ocorrências externas; e 4) o exercício da oração, consistindo em preparação, prática e reflexão.

Oração é a expressão de santos desejos a Deus, em nome de Cristo, que, por meio da operação do Espírito Santo, procede de um coração regenerado, junto com o pedido do cumprimento desses desejos. Cada palavra possui importância enfática e necessita ser desenvolvida abaixo.

Oração é a expressão de desejos. Com esta frase desejamos expressar qual é a atividade da alma na oração. Há total envolvimento, isto é, o intelecto, vontade, paixões, olhos, boca, mãos, joelhos, a alma inteira, e o corpo inteiro estão envolvidos.

(1) O suplicante está focado em si mesmo. Ele conhece, vê e percebe sua deficiência. Ele perece de fome e deseja ser saciado. Ele percebe sua impotência – sua inabilidade para ajudar a si mesmo. Ele também sabe que nenhuma criatura pode lhe conceder isso e ele também não deseja receber isso da criatura. Somente Deus pode dar isso a ele, mas ele sabe e percebe com tristeza e angústia de coração sua indignidade, odiosidade e abominação. Desse modo, Deus pode não ser movido a ajudá-lo por sua disposição – de fato, isto logo provocaria Sua ira. Ele percebe que não é digno – nem de longe – de se dirigir a Deus, pois sua oração é tão pecaminosa e tão deficiente que por ela, não pode mover a Deus para ouvi-lo e ajudá-lo. Ele está focado tão intensamente sobre sua disposição que desfalece em miséria e desespero, e não tem esperança em nada dentro de si ou que procede de si.

(2) O suplicante está focado em Deus, mantendo o Senhor diante dele como sendo majestoso, onisciente, glorioso, imanente, santo – bem como gracioso em Cristo, misericordioso, e onipotente. Aqui ele se curva em humildade e treme devido ao respeito que tem. Aqui ele toma liberdade para receber a Cristo e fazer conhecer seus desejos em e por meio dEle, sabendo que Deus é glorificado em ouvir e socorrer pecadores arrependidos.

(3) O suplicante está focado nos assuntos que ele deseja – seja a libertação de um sofrimento que o oprime ou o ameaça, ou uma bênção para a alma ou o corpo. Ele percebe quão necessário e benéfico seria para ele ou ser libertado disso ou receber a bênção. Ele sabe o que deseja, vividamente reflete sobre isso, está encantado com isso, e anseia por isso.

O suplicante confunde estas três questões. Em um movimento ele foca em si mesmo, Deus e o assunto em questão. Estando nesta disposição, ele não apenas se apresenta diante de Deus como tal, mas também dá expressão aos seus desejos diante do Senhor. A expressão de desejos é vividamente apresenta na Escritura, transmitindo-nos tanto o assunto em si, como também todos aqueles que estão ou estiveram em tal disposição. Além disso, a Escritura desperta inclinações para tal disposição – sim, frequentemente faz com que uma alma esteja disposta. Aquilo que denominamos como uma “expressão”, a Escritura denomina:

(1) um derramamento: “... porém venho derramando a minha alma perante o SENHOR” (1 Samuel 1.15); (2)[i] “Oração do aflito que, desfalecido, derrama o seu queixume perante o SENHOR” (Salmo 102.1);

(3) uma declaração: “Eu tenho declarado meus caminhos, e tu me ouviste” (Salmo 119.26)[ii];

(4) uma elevação: “A ti, SENHOR, elevo a minha alma” (Salmo 25.1);

(5) um olhar para cima: “De manhã dirigirei a ti a minha oração (isto é, organizar tudo de forma tão organizada, da mesma forma que um exército é organizado em linhas e divisões) e olharei para cima” (Salmo 5.3)[iii];

(6) uma conversa: “Quando tu disseste: Buscai a minha face, meu coração disse a ti: Tua face, Senhor, eu buscarei” (Salmo 27.8)[iv];

(7) um choro, um suspiro: “Eles choraram a ti, e foram libertos” (Salmo 22.5); “Como a corsa suspira por ribeiros de água, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus” (Salmo 42.1)[v];

(8) uma busca com todo o nosso coração e todo o nosso desejo: “de todo o coração, eles juraram e, de toda boa vontade, buscaram ao SENHOR” (2 Crônicas 15.15)[vi].

Todas estas expressões indicam o envolvimento intenso da alma na oração. Quando a alma intenta orar, frequentemente, ela pode não encontrar palavras – sim, todas as palavras são tão inferiores e inadequadas para expressar o desejo e a intensa disposição da alma. Por conseguinte:

(1) Ela faz isso por simplesmente manifestar sua disposição ao Senhor;

(2) Algumas vezes ela o faz através de um suspiro, que transmite mais do que ela pode expressar;

(3) Quando a alma é mais dilatada, ela começa a formular palavras, ainda que de forma estritamente mental, ou silenciosamente, com a boca, apenas movendo os lábios sem fazer barulho, ou ainda com um suave sussurro;

(4) Como os desejos aumentam em intensidade, a voz também se torna mais alta, e se está tão longe das pessoas, de maneira que elas não podem ser ouvidas, haverá um chamado;

(5) E se as emoções se tornam maia abundantes, haverá lágrimas, especialmente se a esperança e o amor se tornam mais fortes. Quão maravilhoso é quando um homem, que não é movido facilmente às lágrimas e se envergonharia se chorasse (sendo isto incompatível com a sua dignidade), algumas vezes se derrete diante do Senhor, em lágrimas, que correm pelo rosto como rios! A alma nunca esteve mais em seu ambiente do que quando ela foi suave e capaz de chorar de uma forma sincera. Jó, um homem que não era emotivo, foi capaz de chorar: “Clamo a ti” (30.20). Davi, que era um heroi valente, que tinha o coração de um leão, chorou diante do Senhor como uma criança: “todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago” (Salmo 6.6); “não te emudeças à vista de minhas lágrimas” (Salmo 39.12). O bravo e respeitado Paulo, comumente orava com lágrimas: “servindo ao Senhor com toda a humildade, lágrimas e provações” (Atos 20.19).

FONTE: Wilhelmus à Brakel. The Christian's Reasonable Service. Vol. 3. Grand Rapids, MI: Reformation Heritage Books, 1992. pp. 446-448. Edição em pdf., disponível aqui.

TRADUÇÃO: Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

[i] Colocamos (1) e (2) no mesmo título, “um derramamento”, visto que as palavras holandesas “uitgieten” e “uitstorten” são traduzidas como “derramar” na KJV.

[ii] Tradução livre.

[iii] Tradução livre.

[iv] Tradução livre.

[v] Tradução livre.

[vi] Tradução livre.

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