sábado, 8 de janeiro de 2011

EXCERTOS DE WILHELMUS À BRAKEL

Incentivado pelo Rev. Ewerton Barcelos Tokashiki, comecei a traduzir um dos capítulos da obra The Christian’s Reasonable Service, de autoria do teólogo da Segunda Reforma Holandesa, Wilhelmus à Brakel. Nossa intenção é traduzir, primeiramente, o capítulo sobre “Oração”, com o objetivo de publicá-lo posteriormente. Nesse ínterim, irei postar algumas partes que forem traduzidas.

À guisa de introdução, segue abaixo uma nota biográfica de Wilhelmus à Brakel, a fim de que o leitor do Cristão Reformado conheça um pouco mais desse excepcional teólogo e piedoso servo de Deus. O próximo post constará de uma nota bibliográfica de The Christian’s Reasonable Service. Como fonte para a nota biográfica, fiz uso da excelente obra de Joel R. Beeke e Randall J. Pedersen, Paixão pela Pureza: conheça os puritanos, publicada pela editora PES, págs. 879-885.

NOTA BIOGRÁFICA

Wilhelmus à Brakel nasceu no dia 2 de janeiro de 1635 em Leeuwarden, filho único de Margaretha Homma e de Theodorus à Brakel, um pastor reformado de extraordinária piedade e que veio a ser conhecido por sua obra intitulada De Trappen dês Geestelycken Levens (Os Degraus da Graça na Vida Espiritual). Wilhelmus e suas cinco irmãs foram criados num lar extraordinariamente temente a Deus.

Wilhelmus foi convertido quando menino, provavelmente sob a pregação de seu pai e as orações e rogos de sua mãe. Ele frequentou a escola de latim de Leeuwarden, e depois ingressou na academia de Franeker com dezenove anos de idade, em 1654. Tendo completado os seus estudos em 1659, a Classis[1] de Leeuwarden o admitiu no ministério. Devido à falta de vagas na época, à Brakel continuou seu treinamento teológico por alguns anos em Utrecht, sob Gisbertus Voetius e Andreas Essenius.

À Brakel serviu cinco congregações da igreja nacional da Holanda durante um ministério de quase cinquenta anos. Seu primeiro encargo foi em Exmorra, Friesland (1662-1665), uma congregação difícil por causa da indiferença espiritual generalizada. Durante o seu ministério ali, ele casou-se com Sara Nevius, viúva de Henricus Vege, que tinha sido pastor em Benthuizen. Após a perda do seu primeiro marido, Sara morou em Utrecht, onde participou dos conventículos de Voetius e amadureceu espiritualmente. Ela foi uma grande dádiva para à Brakel e seu ministério.

A segunda congregação de à Brakel, em Stavoren (1665-1670), era maior e lhe propiciou um pastorado mais frutífero. A seguir, à Brakel foi para a florescente cidade portuária de Harlingen (1670-1673), onde o seu ministério e o de seus três colegas foram abençoados com numerosas conversões.

De 1673 a 1683, à Brakel serviu a grande congregação reformada de Leeuwarden, que se reunia em três edifícios de igrejas diferentes, tinha seis ministros e milhares de membros. Todos os domingos três cultos eram dirigidos na Grote Kerk (a Grande Igreja), dois na Galileerkerk (a Igreja da Galiléia) e dois na Westerkerk (a Igreja do Oeste). Três cultos em dias de semana também eram mantidos a cada semana. Cidade onde nasceu e a maior cidade da Friesland, Leeuwarden se gabava de ter uma população de quase 20.000 habitantes.

Na parte final da década de 1670, à Brakel envolveu-se em três controvérsias. Primeiro, como ele tinha feito em Stavoren e em Harlingen, à Brakel estabeleceu conventículos em vários locais de Leeuwarden. Essas reuniões consistiam primariamente de pessoas pertencentes a Deus que partilhavam suas experiências de vida interior da fé e que exortavam umas às outras à piedade. Entretanto, o Consistório[2] de à Brakel temia que esses conventículos promovessem a ideia de igrejas dentro da Igreja e acabassem levando a cisma; em vista disso, o Consistório desencorajou a prática e, em 1676, a Classis de Leeuwarden repreendeu à Brakel por continuar a promovê-los.

Segundo, à Brakel envolveu-se na controvérsia que girava em torno de Jacobus Koelman, ardoroso teólogo da Pós-Reforma que promovia fortes medidas separatistas. Quando Koelman visitou Leeuwarden, à Brakel o deixou pregar do seu púlpito contra os desejos do Consistório, pelo que ele foi repreendido pela Classis de Leeuwarden em 1677. Eventualmente, à Brakel entrou em conflito com o governo sobre Koelman porque o governo havia deposto Koelman do ofício, e à Brakel acreditava que “nenhum corpo político tinha autoridade para depor ministros”. O governo suspendeu à Brakel de todos os seus deveres ministeriais por quatro semanas, mas à Brakel recusou-se a parar de pregar e de trabalhar. Por último, à Brakel assinou uma declaração na qual prometeu respeitar o governo e exortar outros a respeitá-lo também. O conflito todo veio a ser conhecido por toda parte da Holanda, e a fama de à Brakel espalhou-se nas igrejas por sua defesa dos direitos da Igreja.

Finalmente, à Brakel combateu David Flud van Giffen, um ministro seguidor de Cocceius[3] e que pregou do púlpito de à Brakel em 1679 que o Salmo 8 era uma profecia do advento de Cristo. Como o sermão gerou insatisfação, à Brakel pregou sobre o mesmo Salmo na domingo seguinte com base numa posição mais classicamente reformada. Ele publicou seu sermão sob o título de Davids Hallelujah, ofte lof des Heeren in den achste Psalme, verklaert (1680), (Aleluia de Davi, ou os Louvores do Senhor no Salmo 8 Exposto). Depois que van Giffen e à Brakel foram reconciliados, à Brakel acrescentou à sua primeira publicação um extenso tratamento da aliança da graça em Hallelujah, ofte lof des Heeren over het genadeverbond opgesteld (1681), (Aleluia, ou os Louvores do Senhor relativos à Aliança da Graça).

Depois de vinte e um anos de ministério exercido em Friesland, à Brakel aceitou um chamado pastoral em 1683 para Rotterdam, onde permaneceu pelo resto de sua vida. Rotterdam, uma das maiores cidades da república, com uma população de 55.000 habitantes, proveu-lhe um importante campo de trabalho. Ali também os labores de à Brakel foram grandemente abençoados, na edificação dos piedosos em sua fé e na conversão dos incrédulos. Essas bênçãos foram interrompidas na parte final da década de 1680 por dois grandes conflitos. O primeiro levou à Brakel a distanciar-se de Jean de Labadie e seus seguidores, os labadistas, que estavam tentando promover uma “Igreja ideal”, o que os levou a muitos excessos, inclusive o de aconselhar os crentes a não participarem da Ceia do Senhor em igrejas organizadas, todas as quais eles imaginavam ser corruptas. No segundo, à Brakel engajou-se num novo conflito com o governo quando insistiu em que a Igreja é independente do governo e, daí, o governo não tem direito de proibir a extensão de um chamado pastoral vindo de uma congregação local a um ministro particular.

Os anos tranquilos que à Brakel teve na década de 1690 ele dedicou à produção da sua magnum opus, De Redelijke Godsdienst (Discursos Francos sobre o Culto Divino), uma volumosa série de livros que cobrem tanto a teologia sistemática reformada como a ética reformada para leigos interessados, estudantes de teologia e ministros num nível que todos podem entender. Embora ele tivesse dificuldade para encontrar um impressor para a primeira edição (finalmente encontrado um publicador católico-romano), sua obra foi procurada por toda a Holanda dentro de pouco tempo. Redelijke Godsdienst se tornou quase tão popular nos círculos holandeses como o Pilgrim’s Progress de Bunyan nos círculos ingleses. Para o culto doméstico, um típico agricultor do século dezoito costumava ler um “stukje van Vader Brakel” (uma porção ou uma seleção do Pai Brakel) todas as noites, depois de ler as Escrituras. Quando completava a leitura de à Brakel, voltava ao começo e o lia completamente de novo. Redelijke Godsdienst passou por vinte edições, só no século dezoito. Foi reimpresso várias vezes em holandês nos séculos dezenove e vinte também. Esforços para traduzir esta volumosa obra para o inglês (incluindo uma decisão de fazê-lo tomada pelo Sínodo da Igreja Reformada da América em fins do século dezoito) não se materializaram, até o final da década de 1980, mas veio a ser desfrutada em 1995.

A singularidade da obra de à Brakel está no fato de que ela é mais do que uma teologia sistemática. A intenção de à Brakel ao escrevê-la é inevitável: ele deseja intensamente que a verdade exposta se torne uma realidade experimental nos corações dos que a lerem. De maneira magistral, ele estabelece a crucial relação entre a verdade objetiva e a experiência subjetiva dessa verdade.

Além desta obra clássica, à Brakel foi mais bem conhecido em seus dias como um poderoso e efetivo pregador, que podia prender milhares de pessoas com sua eloquência e comunicação intensa. Seu método de pregação era mais analítico que sintético, e era sempre cristocêntrico e experimental. Como faziam os puritanos ingleses, à Brakel aplicava seus sermões a diferentes grupos de pessoas, particularmente aos salvos, aos incrédulos e aos hipócritas. Às vezes ele subdividia a classificação. Por exemplo, entre os incrédulos ele distinguia os ignorantes, os indiferentes, os ímpios e o pecador interessado. Entre os salvos, ele frequentemente propiciava diferentes aplicações aos que estavam interessados e tinham uma fé em Cristo que os levava a “buscar refúgio”, e os que estavam firmes e possuíam plena certeza da fé em Cristo. Ele promovia o exame pessoal, introspectivo, centralizado em Cristo e na Palavra, e advertia muitas vezes contra os pecados da libertinagem e do mundanismo.

No verão de 1711, à Brakel adoeceu gravemente. Quando inquirido em seu leito de morte sobre como estava sua alma, ele respondeu: “Muito bem; posso repousar em meu Jesus. Estou unido a Ele e aguardo Sua Vinda para mim; enquanto isso, em me submeto serenamente a Ele”. No dia 30 de outubro de 1711 à Brakel morreu, com setenta e seis anos de idade. Daniël LeRoy e Abraham Hellenbroek pregaram em seu funeral.

À Brakel foi um popular e proeminente representante da Pós-Reforma Holandesa de mentalidade puritana. Ele foi tão amado entre seu povo por seu ministério paternal, tanto do púlpito como em sua obra pastoral, que muitos lhe chamacam carinhosamente “Pai Brakel”. Esse título honorário ainda hoje permanece indelével nos lares de muitos holandeses na Holanda, os quais ainda leem sua obra clássica e apreciam a tradição puritana experimental, pietista, que ele tão habilmente representou.

NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: Para mais informações sobre Wilhelmus à Brakel, ver: WILHELMUS À BRAKEL (1635-1711) - Série biografia 2


[1] Assembleia ou conselho eclesiástico com capacidade de tribunal. Nota do tradutor.

[2] Conselho que exerce o governo da igreja local. Nota do tradutor.

[3] Convém lembrar que Johannes Cocceius (1603-1669), teólogo e hebraísta holandês, foi um dos principais expoentes da teologia federal (sistema baseado na aliança). Nota do tradutor.

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