sábado, 3 de dezembro de 2011

APÓSTOLOS HOJE?

Por Abraham Kuyper

“Não sou eu, porventura, livre? Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor? Acaso, não sois fruto do meu trabalho no Senhor?” (1Co 9.1).

Nós não podemos encerrar o assunto do apostolado sem dar uma última olhada no círculo de seus membros. Esse é um círculo fechado, e todo esforço para reabri-lo tende a obliterar uma característica da nova aliança.

No entanto, grande esforço tem sido empreendido nesse sentido repetidas vezes. Nós o vemos na sucessão apostólica de Roma; na concepção ética que, gradualmente, apaga a linha de separação entre os apóstolos e os crentes; e na sua forma mais ousada e concreta, entre os irvingitas.[1]

Os últimos asseveram que não apenas o Senhor deu à sua Igreja um colégio de apóstolos no início, mas também, agora, chamou uma corporação de apóstolos para preparar seu povo para a segunda vinda.

Entretanto, essa posição não pode ser sustentada com êxito. Nem nos discursos de Cristo, nem nas epístolas dos apóstolos, nem no Apocalipse nós encontramos a mínima insinuação de tal evento. O fim de todas as coisas é repetidamente anunciado. O Novo Testamento frequentemente relata em detalhes os eventos e sinais que deverão preceder a volta do Senhor. Eles são registrados tão minuciosamente que alguns dizem que até a data exata pode ser fixada. E, contudo, entre todas essas profecias, nós falhamos em descobrir o menor sinal de um apostolado subsequente. No panorama das coisas por vir, literalmente não há lugar para ele.

Tampouco os resultados obtidos por esses irmãos lograram satisfazer as suas expectativas. O seu apostolado tem sido um grande desapontamento. Ele não tem realizado quase nada. Eles têm ido e vindo sem deixar rastro. Nós não negamos que alguns desses homens fizeram coisas maravilhosas, mas, em primeiro lugar, os sinais realizados foram bem inferiores aos dos apóstolos; em segundo lugar, que um homem, como o pastor Blumhardt, também realizou sinais que merecem ser notados; terceiro, a Igreja Católica Romana algumas vezes oferece sinais que não são simulados nem artificiais; por último, o Senhor nos advertiu que estes seriam feitos por homens que não lhe pertencem.

Além disso, não vamos nos esquecer de que falta totalmente aos apóstolos dos irvingitas as marcas do apostolado. Esses sinais são: (1) uma chamada diretamente do Rei da Igreja; (2) uma qualificação peculiar do Espírito Santo, tornando-os infalíveis no serviço da igreja. Esses homens não têm nenhuma dessas marcas. Eles nos falam, na verdade, de um chamado que lhes chegou pela boca de profetas, mas isso é de pouco ou nenhum propósito, pois um chamado por um profeta não é igual a um chamado diretamente de Cristo, e o nome “profeta” é extremamente enganoso. A palavra profeta tem, nas páginas sagradas, uma aplicação ampla, e ocorre em dois sentidos, um limitado e outro geral. O primeiro envolve a revelação de um conhecimento que mera iluminação não pode produzir, enquanto o último se aplica a homens falando em êxtase santo para o louvor de Deus. Nós concordamos que a profecia no sentido geral é um dom permanente da igreja, razão pela qual os reformadores do século 16 tentaram reavivar esse ofício. Se os irvingitas, portanto, acreditarem que, em seus círculos, a atividade profética foi reavivada, nós não vamos discutir, embora não possamos dizer que os relatos das suas profecias tenham tido um efeito muito forte sobre nós. Digamos que o dom tenha sido restaurado. Mesmo assim nós perguntamos: o que ganharam com isso? Não há qualquer sinal de que esses profetas e profetizas sejam como os seus predecessores do Antigo Testamento. A vontade não revelada de Deus não foi revelada por eles. Se eles forem de algum modo profetas, então as suas profecias são meramente um falar para o louvor de Deus num estado de êxtase espiritual.

A inutilidade de um apelo a tais profetas para apoiar esse novo apostolado é evidente. Trata-se meramente de um esforço para apoiar um apostolado insustentável por um profetismo igualmente insustentável.

Tampouco deve-se esquecer que o trabalho desses que se chamam apóstolos não tem cumprido o seu papel. Eles têm falhado em exercer uma influência perceptível sobre o curso dos eventos. As instituições fundadas por eles em nenhum aspecto ultrapassaram as muitas organizações de novas igrejas testemunhadas por esse século. Eles não estabeleceram qualquer princípio novo; os seus trabalhos não manifestaram nenhum poder novo. Seja o que for que tiverem feito não traz o selo de uma origem celestial. E quase nenhum desses novos apóstolos morreu como os 12 genuínos apóstolos, na cruz ou na fogueira, mas em suas camas, rodeados por amigos e admiradores.

Entretanto, isso não é tudo. O nome apóstolo pode ser tomado (1) no sentido de ser chamado diretamente por Jesus como um embaixador de Deus, ou (2) num sentido geral, denotando todo homem enviado por Jesus à sua vinha, pois a palavra apóstolo significa uma pessoa que foi enviada. Em Atos 14.14, Barnabé é chamado de apóstolo não porque pertencesse ao grupo apostólico, mas meramente para indicar que ele tinha sido enviado pelo Senhor como seu missionário ou embaixador. Em Atos 13.1,2, Barnabé é mencionado antes de Saulo, que não é nem ao menos chamado pelo nome apostólico, o que mostra que esse chamado do Espírito Santo tinha caráter temporário apenas, para a missão em especial. Por essa razão, o Senhor Jesus Cristo, como aquele que foi enviado pelo Pai, o grande Missionário, veio a este mundo, o Embaixador de Deus à sua Igreja é chamado de Apóstolo: “Por isso, santos irmãos [...] considerai atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus” (Hb 3.1).

Se os irvingitas tivessem chamado de apóstolos os grandes reformadores do século 16 ou alguns líderes proeminentes da atualidade, não poderia haver qualquer grande objeção. Mas não foi isso o que quiseram dizer. Eles alegam que esses novos apóstolos devem ficar à frente da igreja num caráter peculiar, no mesmo plano que os primeiros apóstolos, embora empregados de forma diferente. Isso não pode ser aceito. Isso estaria em oposição direta com a declaração apostólica de 1Coríntios 4.9: “A mim me parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar,[2] como se fôssemos condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens”. Como o apóstolo Paulo podia falar de últimos apóstolos, se estivesse nos planos de Deus enviar outros 12 apóstolos ao mundo depois de 18 séculos?

Em vista dessa palavra positiva do Espírito Santo, nós remetemos a todos aqueles que entram em contato com os irvingitas o que as Escrituras dizem com respeito àqueles que se chamam de apóstolos e não o são: “Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo” (2Co 11.13). E o Senhor Jesus testifica à igreja de Éfeso: “Puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos” (Ap 2.2).

A noção de que os falsos apóstolos devem ser um tipo de diabo encarnado não se aplica de modo nenhum aos homens calmos, respeitáveis e veneráveis que frequentemente são vistos nos círculos dos irvingitas. Mas à parte dessa noção absurda e considerando que os falsos profetas do Antigo Testamento se pareciam tanto com os verdadeiros que algumas vezes enganaram até mesmo o povo de Deus, nós entendemos que os falsos apóstolos dos dias de João podiam ser detectados somente por um discernimento espiritual mais elevado e que os falsos apóstolos do século 19, que, pela sua semelhança com os genuínos 12 cegaram os olhos ao superficial, podem ser detectados apenas pela prova da Palavra de Deus. a Palavra declara que os 12 apóstolos do tempo de Paulo eram os últimos apóstolos, o que resolve o assunto desse pretenso apostolado.

Esse erro dos irvingitas não é, portanto, tão inocente. É fácil explicar como ele se originou. O estado deplorável e desditoso da igreja deve necessariamente dar lugar a numerosas seitas. Nós, de bom grado, reconhecemos que os irvingitas têm enviado muitas advertências e bem merecidas repreensões à nossa igreja superficial e dividida, mas esses bons préstimos de forma nenhuma justificam a prática daquilo que é condenado pela Palavra de Deus. Aqueles que têm se permitido ser influenciados pelos seus ensinamentos irão, cedo ou tarde, experimentar o seu resultado fatal. Já se tornou manifesto que esse movimento, que começou entre nós sob o pretexto de unir a Igreja pela reunião do povo do Senhor, conseguiu pouco mais do que acrescentar outra seita ao número já grande delas, dessa maneira roubando da Igreja de Cristo os poderes excelentes, que agora estão sendo desperdiçados.

Que o apostolado foi um círculo fechado, e não uma teoria flexível, está evidente em Atos 1.24,25: “Tu, Senhor... revela-nos qual desses dois tens escolhido para preencher a vaga nesse ministério e apostolado...”. Novamente, da palavra do apóstolo Paulo: “por intermédio de quem viemos a receber graça e apostolado” (Rm 1.5); e novamente: “Se não sou apóstolo para outrem, certamente o sou para vós outros; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor” (1Co 9.2); e, por fim: “Aquele que operou eficazmente em Pedro para o apostolado da circuncisão também operou eficazmente em mim para com os gentios” (Gl 2.8). Essa exclusividade também é evidente pelos seguintes fatos: os apóstolos sempre aparecem como os 12; eles foram especialmente nomeados e ordenados por Jesus, que soprou sobre eles o dom oficial do Espírito Santo; pelo poder e pelos dons excepcionais, eles estavam ligados ao apostolado. É especialmente de seu lugar conspícuo na vinda do reino de nosso Senhor Jesus Cristo que o apostolado obtém seu caráter definido. As Sagradas Escrituras ensinam que os apóstolos deverão se sentar sobre 12 tronos para julgar as 12 tribos de Israel (Mt 19.28) e também que a muralha da Nova Jerusalém “tinha 12 fundamentos, e sobre esses estavam os 12 nomes dos 12 apóstolos do Cordeiro” (Ap 21.14).

O apóstolo Paulo nos oferece em sua própria pessoa a prova mais convincente de que o apostolado era um colégio fechado. Se não tivesse sido, a questão de se ele era um apóstolo ou não nunca poderia ter causado tanta contenda. No entanto, uma grande parte da Igreja se recusou a reconhecer seu apostolado. Ele não era um dos 12 e não tinha andado com Jesus. Como ele podia ser uma testemunha? Foi contra essa contenda que por várias vezes levantou sua voz com veemência. Esse fato é a chave para a compreensão de suas epístolas aos coríntios e aos gálatas. Elas ardem com um santo zelo pela realidade de seu apostolado, pois ele estava profundamente convencido de que era um apóstolo igual a Pedro e aos outros. Essa certeza não se baseava em mérito pessoal; em si mesmo, ele não era digno de ser chamado um apóstolo (1Co 15.9), mas tão logo seu ofício é atacado Paulo se levanta como um leão, pois isso toca a honra de seu Mestre, que lhe apareceu no caminho de Damasco não como se diz comumente, para convertê-lo – pois isso não é trabalho de Cristo, mas do Espírito Santo – mas para designá-lo apóstolo na Igreja que ele estava perseguindo.

Quanto à questão de como a adição do apóstolo Paulo aos 12 é consistente com esse número, nós estamos convencidos de que não o nome de Matias, mas o de Paulo, está escrito sobre as fundações da Nova Jerusalém junto com os outros; e que não Matias, mas o apóstolo Paulo, se sentará para julgar as 12 tribos de Israel. Como uma das tribos de Israel foi substituída por duas outras, isso também ocorreu no apostolado, pois, como Simeão, que se desviou, foi substituído por Manassés e Efraim, também Judas foi substituído por Matias e Paulo.

Nós não estamos dizendo que os apóstolos erraram em eleger Matias para preencher a vaga deixada pelo suicídio de Judas. Ao contrário, a inteireza do número apostólico não podia ser retardada até a conversão de Paulo. A vaga tinha de ser preenchida imediatamente. Mas deve-se dizer que, quando os discípulos escolheram Matias, tinham uma concepção muito diminuta da bondade do Senhor. Eles pensavam que, por um Judas, receberiam um Matias, e, veja só, Jesus deu-lhes Paulo. Quanto ao primeiro, as Escrituras mencionam sua eleição e nada mais. Contudo, embora para a Igreja dos tempos posteriores o apostolado sem o apóstolo Paulo fosse inimaginável, e embora tenha sido concedido à sua pessoa o primeiro lugar entre os apóstolos e aos seus escritos a autoridade mais elevada entre as Escrituras do Novo Testamento, à pessoa de Matias a eleição ao apostolado deve ter sido mais honrosa. O apostolado é uma posição tão elevada que o fato de ter sido identificado com ele, mesmo que temporariamente, comunica maior distinção ao nome de um homem do que uma coroa real.

FONTE: Abraham Kuyper. A Obra do Espírito Santo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. pp. 185-189.


[1] Os irvingitas são conhecidos na Inglaterra e América do Norte como Igreja Católica Apostólica (Henry de Vries).

[2] De acordo com a tradução holandesa utilizada por Kuyper, o texto diz: “Eu penso que Deus nos colocou como os últimos apóstolos, como se fôssemos condenados à morte” (N. do R.).

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A PESSOA E A OBRA DO ESPÍRITO SANTO (O DOM DE LÍNGUAS NA IGREJA APOSTÓLICA E HOJE) - 2ª PARTE

1.3. AS LÍNGUAS NO NOVO TESTAMENTO ERAM PARA USO PÚBLICO

Nosso terceiro ponto sobre o estudo do dom de línguas nos diz que ele fora dado por Deus à igreja apostólica para ser usado publicamente, não privativamente. Por que isso é importante? Mais uma vez, os nossos irmãos pentecostais se equivocam quanto ao dom de línguas, dessa vez, no que diz respeito à esfera do seu uso. Sobre isso, é importante lermos o que o apóstolo Paulo escreveu em 1 Coríntios 12.4-7: “Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso”. Logo após estas palavras, o apóstolo passa a desenvolver o argumento de que a Igreja de Cristo é um corpo. A cada parte do corpo é dada uma função para auxiliar o resto do corpo. Por exemplo, “o olho impede o corpo de tropeçar. A boca fornece nutrição ao corpo. O ouvido ouve para o resto do corpo. Todos os diversos dons capacitam os membros do corpo de Cristo a ministrar uns aos outros”.[i] Nenhum membro do corpo recebe uma função para usar em seu próprio benefício. Então, esse é o primeiro entendimento que devemos possuir.

Com isso em mente, estamos prontos para avançarmos rumo à passagem de 1 Coríntios 14.18, 19. O apóstolo Paulo diz o seguinte: “Dou graças a Deus, porque falo em outras línguas mais do que todos vós. Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua”. Os pentecostais afirmam que aqui, o apóstolo Paulo está fazendo uma distinção entre sua preferência de falar em línguas privativamente e falar em língua conhecida publicamente, na igreja. Entretanto, isto está errado. A comparação não é entre línguas, mas entre Paulo e os coríntios, que eram desejosos de promoverem o uso das línguas. A ordem das palavras do versículo 18 na língua original é interessante: “Dou graças a Deus, com relação a todos vós, falo mais em línguas” (Euvcaristw/ tw/| qew/|( pa,ntwn u`mw/n ma/llon glw,ssaij lalw). Talvez, para o espanto e a surpresa dos coríntios, o apóstolo Paulo afirmou que fala em línguas mais do que todos eles.

Então, no versículo 19, “Contudo, prefiro falar na igreja cinco palavras com o meu entendimento, para instruir outros, a falar dez mil palavras em outra língua”, Paulo afirma que o seu conhecimento do dom de línguas é maior que o dos coríntios, e apesar de possuir tal conhecimento, ele não se deixa levar por isso, e na igreja, ele entende que a instrução pública tem a prioridade. Línguas, no Novo Testamento, sempre se destinaram ao uso público. Foi assim no dia de Pentecostes (Atos 2), na casa de Cornélio (Atos 10), entre os novos convertidos efésios (Atos 19), e foi assim na conturbada igreja de Corinto.

Com isso em mente, podemos perceber que as línguas contemporâneas não são as línguas neotestamentárias. Alguém pode objetar, dizendo que hoje em dias as pessoas falam em línguas publicamente. Mas, eu pergunto: apenas publicamente? A resposta é não! Pois elas são estimuladas a exercitarem o dom privativamente, em suas casas, ou “orando em línguas” baixinho durante o culto.

Existem ainda outros versículos que, aparentemente, fornecem ajuda aos carismáticos de nosso tempo. 1 Coríntios 14.27, 28: “No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus”. Uma coisa não pode sair da nossa cabeça. Os dons foram dados visando a edificação do Corpo, não apenas de uma pessoa. Eles foram dados para servirem a toda a comunidade de remidos. Este pressuposto deve guiar a nossa leitura do versículo 28. Reconhecemos o assunto principal de uma passagem a partir da ênfase que o autor coloca sobre ela. Aqui, Paulo está, mais uma vez, regulamentando o uso do dom de línguas no culto público. Percebam que o foco do apóstolo está no uso correto do dom. Ele diz que, apenas duas pessoas, quando muito três, poderiam falar em línguas na igreja (o padrão já é diferente das manifestações contemporâneas, onde inúmeras pessoas falam em línguas). Além disso, deveria existir uma ordem, um deveria falar após o outro, não ao mesmo tempo (mais uma vez, os pentecostais estão em desarmonia com o padrão apostólico, pois inúmeras pessoas falam em línguas ao mesmo tempo). A última exigência de Paulo é o pré-requisito da presença de um intérprete ou tradutor no culto. Sem isso, a pessoa deveria ficar calada na igreja. Mas, logo em seguida ele diz: “falando consigo mesmo e com Deus”. Não seria esse um indicativo de que o dom possui uma esfera privativa? A resposta também é não! Este falar indica reflexão no íntimo e agradecimento pelo dom concedido. E mesmo que o dom visasse o uso particular, isso só seria permitido quando não houvesse condições de beneficiar, primeiramente, todo o corpo. Em qualquer caso, o contexto pressupõe o uso público dos dons.

1.4. AS LÍNGUAS NO NOVO TESTAMENTO ERAM UM SINAL

Em quarto lugar, através da instrução do apóstolo Paulo à igreja de Corinto, nós podemos aprender que um dos propósitos do dom de línguas na igreja primitiva era servir como um sinal. O Dr. Palmer Robertson afirma o seguinte sobre as línguas: “As línguas serviam como sinal da parte de Deus concernente ao cumprimento de profecias particulares acerca de uma dramática mudança na direção do procedimento de Deus para operar no mundo”.[ii] Diz o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 14.20-22: “Irmãos, não sejais meninos no juízo; na malícia, sim, sede crianças; quanto ao juízo, sede homens amadurecidos. Na lei está escrito: Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos; mas a profecia não é para os incrédulos, e sim para os que crêem”.

Em primeiro lugar, Paulo chama as línguas de “sinal” (shmei/o,n). As línguas são um sinal do cumprimento do Pacto. Percebam, que o apóstolo faz uma citação de uma passagem do Antigo Testamento, Isaías 28.11. No entanto, pelo menos “três diferentes autores em três diferentes livros do Velho Testamento explicitamente profetizam sobre as línguas”.[iii] Uma outra referência foi feita bem antes, por Moisés, em Deuteronômio 28.49: “O SENHOR levantará contra ti uma nação de longe, da extremidade da terra virá, como o vôo impetuoso da águia, nação cuja língua não entenderás”. Este versículo se encontra no trecho de Deuteronômio que contém as bênçãos e as maldições decorrentes do Pacto. O terceiro profeta a falar das línguas como um sinal de maldição foi Jeremias: “Eis que trago sobre ti uma nação de longe, ó casa de Israel, diz o SENHOR; nação robusta, nação antiga, nação cuja língua ignoras; e não entendes o que ela fala” (Jeremias 5.15). Em cada caso, as Escrituras indicam que as línguas são um sinal de maldição para Israel.

Na citação de Isaías, Paulo quer dar a entender que as pessoas da igreja de Corinto estavam agindo infantilmente no que diz respeito à importância exagerada que elas davam ao dom de línguas. Elas estavam agindo como crianças, sem nenhuma maturidade, sem nenhum juízo. Eles estavam agindo como os israelitas que ouviram a profecia de Isaías. Eles agiam como crianças desmamadas, afastadas dos seios maternos. Os coríntios usavam esse dom como que por diversão, sem se preocupar se os outros entendiam ou não o significado da língua.

O povo de Israel na época de Isaías se comportava como criança. Então, o profeta anunciou o juízo divino sobre o povo em decorrência de sua insensatez: “Pelo que por lábios gaguejantes e por língua estranha falará o SENHOR a este povo” (Isaías 28.11). O sentido é que se você não ouvir a clara Palavra de Deus em sua língua materna, então Deus lhe falará através de um idioma estrangeiro. Ele lhe falará para que ouça palavras da forma como crianças ouvem a conversação do mundo adulto. Quando um adulto fala com um bebê, o bebê ouve apenas balbucios. Ele não compreende. A mesma coisa aconteceria com Israel quando ouvisse as línguas.

Mais particularmente, a criancinha Israel ouve palavras de juízo. As línguas representavam a chegada do juízo divino sobre Israel. Quando o povo impenitente ouvisse os homens que invadiram sua terra falando em linguagem estranha, deveria reconhecer em tal fato um sinal de que Deus trouxe seu juízo sobre eles por meio de um exército estrangeiro. Mais uma vez, o comentário do Dr. Palmer Robertson é muito interessante: “Uma nação cuja língua não era a língua deles viria sobre eles para executar a ira e a maldição de Deus. Sua relação favorável para com eles terminaria através de um povo cuja língua eles não poderiam entender”.[iv] Este contexto nos ajuda a entendermos a afirmação de Paulo, de que “as línguas são um sinal”.

Um sinal não deve ser considerado como um fim em si mesmo. Um sinal aponta para algo. Um sinal serve como um indicador, apontando para algo de muito maior valor. Um sinal pode indicar uma mudança de direção. Nesse sentido, as línguas estrangeiras funcionam como um sinal, indicando que Deus está fazendo uma mudança.

E que mudança seria essa? Deus estava indicando que não mais um único idioma a um único povo. Agora, através do dom de línguas no Pentecostes, Deus indica que pretende falar a muitos povos em muitos idiomas. Ele falará em todos os idiomas do mundo, a todos os povos da terra. Nesse sentido, as línguas significavam juízo para Israel. Basta lermos as palavras de Jesus para entendermos isso: “Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos” (Mateus 21.43).

As línguas faladas nos dias de Pentecostes eram um sinal de maldição pactual para Israel. Deus não os teria mais como povo exclusivo. “O cristianismo não era mais uma religião exclusivamente ‘judaica’, a despeito de suas origens claramente judaicas”.[v]

Os pentecostais e os carismáticos ignoram esse propósito do dom de línguas. Para eles, esse sinal diz respeito apenas ao “resultado negativo do abuso específico das línguas (ou seja, seu uso sem interpretação na assembléia pública)”.[vi] Isso quer dizer que, para os pentecostais, o termo “sinal” quer dizer algo negativo que acaba espantando os incrédulos.

1.5. AS LÍNGUAS NO NOVO TESTAMENTO ERAM TEMPORÁRIAS

O quinto e último ponto do nosso estudo a respeito do dom de línguas diz respeito à sua temporariedade. Isso quer dizer que, o dom como tal (idiomas estrangeiros, possuindo conteúdo revelacional, para o uso público na igreja e como um sinal), não mais existe. A teologia reformada é cessacionista, ou seja, ela afirma que os dons revelacionais e miraculosos cessaram, não mais existem.

Deteremo-nos na questão do dom de línguas. Veremos alguns argumentos que nos levam a crer que o dom apostólico não mais existe.

O primeiro argumento, está embutido na característica das línguas como sinal. Quando passamos por um sinal indicador ele fica pra trás. Quando mudamos a direção do nosso trajeto, o sinal que indicou a direção ficou para trás. Um sinal é de caráter temporariamente limitado. “O viajante não apanha o sinal para levá-lo consigo. Uma vez tenha-se completado a conversão, o sinal terá completado a sua utilidade”.[vii] Uma vez que Deus já mudou a direção do tratamento para com o mundo, e não se relaciona mais exclusivamente com Israel, não há mais nenhuma necessidade para o sinal que foi empregado por Ele. Se o Evangelho hoje é pregado a praticamente todos os idiomas, qual a necessidade do dom em nossos dias? Nenhuma!

Além disso, o apóstolo Paulo, corrigindo abusos existentes no uso dos dons, deu outra razão para que os coríntios não dessem grande importância ao dom de línguas: ele cessaria! Muitas pessoas ignoram a declaração do apóstolo Paulo em 1 Coríntios 13.8-10: “O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência passará; porque em parte conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado”. Percebam, irmãos, que já naqueles dias, Paulo aguardava o período em que as línguas cessariam. A cessação das línguas era uma certeza. O verbo “cessarão” (pau,sontai) está no modo indicativo, o que denota a certeza absoluta do seu cumprimento. A grande pergunta é: quando as línguas deveriam cessar? Paulo nos responde no versículo 10: “Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado”. Quando o “perfeito” vier, esse é o tempo da cessação das línguas. Mas, que “perfeito” é esse?

Algumas pessoas que o termo “perfeito” aqui se aplica a Jesus em seu retorno. Esse entendimento é defendido pelos pentecostais e por alguns que são abertos a essas manifestações. Para eles, o dom de línguas vai continuar até chegarmos ao céu. Entretanto, como diz Samuel R. Davidson, o termo “perfeito” (te,leion) “naqueles versículos, expressa claramente o sentido daquilo que é ‘completo’, sem faltar nada”.[viii] Outra coisa que devemos entender é a referência que Paulo faz à visão “face a face” (v. 12). Novamente, alguns pensam que temos uma referência à volta de Jesus. No entanto, devemos entender que “face a face” está contrastando com o termo “espelho”. Essa palavra tem um “sentido figurativo, e significa que quando ele escreveu havia muitas coisas concernentes ao plano de Deus e à Igreja que ainda não tinham sido claramente reveladas”.[ix] Além disso, os espelhos da época de Paulo não eram como os nossos. “Devemos entender que um espelho no tempo de Paulo era um pedaço de metal polido que muitas vezes era colocado deitado sobre uma mesa”.[x] Conseqüentemente, a imagem refletida não era perfeita. Assim sendo, com “face a face”, Paulo está falando de um tempo quando chegaria uma revelação completa e exata sobre a vontade de Deus para a sua Igreja.

Que revelação perfeita é essa, meus amados irmãos? Que revelação divina é perfeita e completa? Que revelação divina é suficiente para guiar a Igreja do Senhor em todas as coisas? A resposta é uma só: a perfeita, completa e suficiente Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, o Cânon completo das Escrituras.

Quando o cânon foi completado com o último versículo do Apocalipse de João, e quando o autor desse livro, o último dos apóstolos morreu, logicamente, a Igreja passou a possuir a revelação perfeita de Deus, e a revelação parcial cessou. Tal entendimento é confirmado pelo caráter das línguas. Vimos que as línguas eram revelacionais. Então, a igreja não necessita mais da revelação que as línguas puderam fornecer. A única coisa de que a Igreja e o mundo precisam hoje é a proclamação da Palavra de Deus a nós legada desde os tempos de outrora. Não se necessita de nada mais.

A História da Igreja também confirma isso. Com a morte de João, as línguas cessaram. Percorremos toda a história e não ouvimos falar absolutamente nada sobre o dom de línguas, com exceção de movimentos heréticos, como o Montanismo, por exemplo. Nenhum dos pais da Igreja mencionou as línguas. Nenhum dos Reformadores. Por que Deus faria o dom retornar 1800 anos depois? E só na ala pentecostal? Não deveria ser em toda a cristandade?

· CONCLUSÃO

Concluímos nosso estudo sobre o dom de línguas. Pudemos verificar que o que as Escrituras ensinam sobre esse dom é bem diferente, mas bem diferente mesmo, do que é ensinado pelo pentecostalismo:

PENTECOSTALISMO

ESCRITURAS

As línguas são um idioma celestial ou angelical.

As línguas são dialetos ou idiomas estrangeiros.

As línguas são uma forma de comunicação com Deus: oração.

As línguas são uma forma de comunicação de Deus: revelação.

As línguas devem ser usadas privativamente.

As línguas devem ser usadas publicamente.

As línguas não são um sinal de maldição para Israel.

As línguas são um sinal de maldição do Pacto.

As línguas ainda continuarão até o retorno de Jesus Cristo.

As línguas cessaram com o fechamento do Cânon bíblico.

As diferenças são perceptíveis, meus amados irmãos. O pentecostalismo e a Bíblia não estão “falando a mesma língua”. Um dos dois tem de estar errado. Eu acredito piamente que esse alguém não é a Bíblia, a perfeita e inerrante Palavra de Deus. Pois bem, se não é a Bíblia a outra parte deve estar errada. Com certeza!

A grande pergunta é: DE QUE LADO VOCÊ VAI SE POSICIONAR? VAI FICAR EM CIMA DO MURO? Não existe meia-verdade. Existe verdade completa e mentira completa.

Que Deus nos abençoe!

Rev. Alan Rennê Alexandrino Lima

SDG!


[i] O. Palmer Robertson, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje, 43.

[ii] Ibid, 47.

[iii] Ibid, 49.

[iv] O. Palmer Robertson, Línguas: Sinal de Maldição e de Bênção do Pacto, 17.

[v] O. Palmer Robertson, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje, 55.

[vi] C. Samuel Storms em Wayne Grudem (org.), Coleção Debates Teológicos: Cessaram os Dons Espirituais?, 228.

[vii] O. Palmer Robertson, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje, 54.

[viii] Samuel R. Davidson, Dom de Línguas, pág. 4. Artigo extraído do site http://www.monergismo.com. Sem data de acesso.

[ix] Ibid.

[x] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios, 650.

A PESSOA E A OBRA DO ESPÍRITO SANTO (O DOM DE LÍNGUAS NA IGREJA APOSTÓLICA E HOJE) - 1ª PARTE

TEXTO (ATOS 2.1-11)

1. Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam reunidos no mesmo lugar; 2. de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. 3. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. 4. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. 5. Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. 6. Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. 7. Estavam, pois, atônitos e se admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos esses que aí estão falando? 8. E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? 9. Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, 10. da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, 11. tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?

· INTRODUÇÃO

Meus amados irmãos, na semana passada estudamos o que o Novo Testamento ensina a respeito do Batismo com o Espírito Santo. Naquela oportunidade pudemos concluir que o que nos é apresentado pela revelação apostólica do Novo Testamento é diametralmente oposto àquilo que é afirmado pela teoria Pentecostal.

Vimos que os pentecostais se firmam, basicamente sobre quatro premissas: 1) o batismo com o Espírito Santo é uma segunda experiência, um revestimento de poder que o indivíduo recebe algum tempo depois da conversão; 2) nem todos os crentes são batizados com o Espírito Santo; 3) para que o indivíduo receba esse batismo, ele deve buscar, se esvaziar, orar incessantemente; e 4) a evidência inicial do batismo pentecostal é o falar em línguas, ou seja, só é batizado com o Espírito Santo aquele que fala em outras línguas.

Em seguida, através de um exame detalhado do que o Novo Testamento nos diz, vimos que a teoria pentecostal carece de fundamento bíblico. Vimos que o agente ou executor desse batismo é o próprio Senhor Jesus Cristo, o Espírito Santo é o instrumento do batismo efetuado pelo Senhor Jesus Cristo. Além disso, o pensamento de que o indivíduo deve buscar o batismo é antibíblico, pois o batismo com o Espírito Santo teve o seu cumprimento histórico inaugural por ocasião de Pentecostes, como pudemos observar. Por fim, vimos que o batismo com o Espírito não é algo reservado apenas para um grupo especial dentro da Igreja de Cristo. Pelo contrário, todos os crentes, por ocasião da sua regeneração, justificação e conversão recebem o batismo com o Espírito Santo. A idéia de que existe um grupo dentro da igreja que é detentor dessa bênção traz danos enormes para a obra, visto que a mentalidade de dois grupos (nós-eles) pode levar ao ciúme, orgulho e divisão. Fica no ar a noção de certa superioridade espiritual experimentada apenas por um grupo de privilegiados.

Resta-nos tratarmos do famigerado dom de línguas. Ele ainda existe? Qual a sua função? De que natureza é o dom de línguas? São línguas dos anjos, como afirmam os pentecostais? Devemos desejar falar em línguas? E o que dizer daquelas pessoas que afirmam falar em línguas? Isso é importante, meus queridos irmãos, dado o fato de que a teoria pentecostal considera este como um dos dons mais importantes, dando-lhe muita ênfase. Por exemplo, a Constituição do Conselho Geral das Assembléias de Deus afirma o seguinte: “O batismo dos crentes no Espírito Santo é atestado pelo sinal físico inicial do falar em outras línguas conquanto o Espírito de Deus lhes forneça expressão”.[i]

· TEMA: O DOM DE LÍNGUAS NA IGREJA APOSTÓLICA E HOJE

I – A NATUREZA DO DOM DE LÍNGUAS

1.1. AS LÍNGUAS NO NOVO TESTAMENTO ERAM IDIOMAS ESTRANGEIROS

A primeira coisa que precisamos considerar é a natureza do dom de línguas. Que línguas eram essas? Os pentecostais insistem que as línguas se referem a um tipo de idioma celestial, ou a língua dos anjos. Eles baseiam sua teoria na passagem de 1 Coríntios 13.1: “Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine”. Existem dois problemas com a fundamentação pentecostal: 1) Paulo não está afirmando que fala as línguas dos homens e dos anjos. Tanto em português como em grego o modo subjuntivo expressa incerteza e dúvida. O apóstolo está apenas fazendo uso de uma conjetura ou suposição. Simon Kistemaker afirma que, “não sabemos que linguagem sobrenatural os anjos falam”.[ii] De opinião semelhante é o Dr. Sinclair Ferguson, quando afirma que, “é possível que ‘línguas dos anjos’ expresse uma pretensão dos coríntios, e não um conceito apostólico”[iii], ou seja, os coríntios agiam de forma irrefletida como os pentecostais a respeito do dom em questão. John MacArthur Jr., por sua vez, diz que Paulo “estava usando uma hipérbole – um exagero – a fim de ressaltar um fato”[iv]; e 2) em toda a Bíblia, sempre que os anjos aparecem falando, eles se comunicam com as pessoas em termos humanos (Gênesis 16.9-11; Números 22.32, 35; 1 Reis 13.18; 19.5, 7; Isaías 6.3; Zacarias 1.12-19; Mateus 1.20; 2.13, 19-20; 28.5; Lucas 1.11-13; Atos 1.10, 11). Percebam, que a fundamentação pentecostal é insustentável. Então, nossa primeira obrigação é tirarmos de nossa cabeça a possibilidade de que o “moderno dom de línguas” seja a elocução de idiomas angelicais.

Feito isso, precisamos observar, com base apenas na Bíblia, qual a verdadeira natureza do dom apostólico de línguas.

Em Atos 2, nós encontramos verdades preciosas a esse respeito: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem... E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna?... tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?” (vv. 4, 8, 11). Nestes versículos, duas palavras intercambiáveis são usadas para traduzir “línguas”: glw,ssaij e dia,lektoj. A palavra glw,ssaij diz respeito a “língua, discurso, conversa, idioma, linguagem, linguagem não familiar, nação, definida por sua linguagem ou idioma”.[v] Simon Kistemaker diz que, “a palavra língua equivale ao conceito de idioma falado”.[vi] Já o termo dia,lektoj significa “discurso, maneira de falar, linguagem peculiar de uma nação, dialeto, idioma vernáculo”.[vii] Novamente, o comentário de Kistemaker sobre o termo dia,lektoj é muito interessante:

A língua é o veículo de comunicação que, para cada pessoa, é a sua língua materna. Quando os estrangeiros residentes em Jerusalém ouvem o idioma que aprenderam no país onde nasceram e foram criados, eles ficam completamente pasmos. As barreiras lingüísticas que embaraçam a comunicação eficaz são removidas quando o Espírito Santo capacita os crentes a transmitirem a revelação de Deus em vários idiomas.[viii]

As línguas faladas no dia de Pentecostes eram idiomas humanos estrangeiros. Não eram idiomas angelicais, nem expressões estáticas sem sentido. “Naqueles tempos aqueles que recebiam o dom falaram em idiomas que nunca aprenderam e que eram entendidos por aqueles que os ouviam”.[ix] Podemos identificar alguma dessas línguas ou idiomas? algumas nós podemos, como por exemplo, o egípcio, o caldeu ou babilônico (Mesopotâmia), o líbio, latim. “Eles até mesmo falavam diferentes dialetos da mesma língua (os frígios e panfílios falavam diferentes dialetos do grego)”.[x]

Para sustentar a tese das línguas angelicais, os pentecostais não podem recorrer a 1 Coríntios 13.1. Então, como eles fazem? Ouçamos um defensor falar:

Embora possa estar empregando hipérbole, é igualmente provável que [Paulo] esteja se referindo a dialetos celestiais ou angelicais que o Espírito Santo os capacita a falar... cita evidências de fontes judaicas antigas, segundo as quais se acreditava que os anjos tivessem idioma próprio ou dialetos celestiais e que, por meio do Espírito, seria possível falar com eles.[xi]

Percebam, meus queridos, a que ponto eles precisam chegar para fundamentar sua tese. Eles se baseiam em “fontes judaicas antigas”. Isso é equivalente a material extra-bíblico! Eles não fundamentam sua teoria e prática nas Escrituras canônicas, mas sim, em material apócrifo. Uma dessas “fontes judaicas antigas” é o Testamento de Jó, no capítulo 48.3, uma das filhas de Jó, Hemera (comparar com Jó 42.14. Seria esse o nome de uma das filhas de Jó que morreu?), fala num dialeto angelical.[xii] Irmãos, desde quando devemos basear aquilo em que cremos e aquilo que fazemos em nossa caminhada cristã naquilo que livros apócrifos afirmam? Alguns apócrifos ensinam a rezar pelos mortos. Deveríamos começar a rezar pelos mortos? De maneira nenhuma!

A teoria pentecostal fica mais fragilizada ainda, quando observamos que a natureza do dom de línguas exercido em Corinto é a mesma de Atos dos Apóstolos: “a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las” (1 Coríntios 12.10). Observem o nome do dom dado pelo apóstolo Paulo: variedade de línguas. O nome do dom aponta para a natureza do dom. Precisamos observar três coisas nesse versículo: 1) novamente, a palavra usada para “línguas” é glw/ssa, referente a idiomas; 2) existe uma distinção entre as línguas. O termo “variedade” é ge,nh, que significa “espécies, variedade, gêneros”[xiii], ou “identidade comum como uma raça de grupo étnica, espécies distintivas de algo, classe”.[xiv] “As línguas eram distintas porque eram idiomas falados que podiam ser diferenciados”[xv]. Comentando o termo ge,nh, o Dr. Brian Schwertley afirma o seguinte: “Existem várias famílias de línguas no mundo – semítica, eslava, latina, etc. todas elas têm uma coisa em comum, elas possuem um vocabulário definido e construção gramatical”[xvi]. Então, queridos irmãos, “Paulo certamente não podia ter misturado línguas estrangeiras conhecidas com expressões desconhecidas e estáticas colocando-as sob uma mesma classificação. Elas simplesmente não têm nenhuma relação entre si”[xvii]; e 3) no texto grego aparece uma palavra que não foi transposta para a nossa versão: e`te,rw, que significa “diferentes”. Assim sendo, literalmente, o versículo 10 de 1 Coríntios 12 diz o seguinte: “a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, diferentes variedades de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las”.

Outra tentativa dos pentecostais de configurar as línguas como línguas angelicais ou celestiais pode ser percebida na tradução adotada pelas igrejas pentecostais, a Almeida Revista e Corrigida. Esta versão acrescenta uma palavra no capítulo 14 de 1 Coríntios que, simplesmente não existe no original grego, muito menos aparece em outras traduções. Observem o seguinte esquema:

PASSAGEM

ACF

ARA

ARC

1 Coríntios 14.5

E eu quero que todos vós faleis em línguas, mas muito mais que profetizeis; porque o que profetiza é maior do que o que fala em línguas, a não ser que também interprete para que a igreja receba edificação.

Eu quisera que todos vós falásseis em outras línguas; muito mais, porém, que profetizásseis; pois quem profetiza é superior ao que fala em outras línguas, salvo se as interpretar, para que a igreja receba edificação.

E eu quero que todos vós faleis línguas estranhas; mas muito mais que profetizeis, porque o que profetiza é maior do que o que fala em línguas estranhas, a não ser que também interprete, para que a igreja receba edificação.

1 Coríntios 14.6

E agora, irmãos, se eu for ter convosco falando em línguas, que vos aproveitaria, se não vos falasse ou por meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina?

Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se vos não falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina?

E, agora, irmãos, se eu for ter convosco falando em línguas estranhas, que vos aproveitaria, se vos não falasse ou por meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina?

1 Coríntios 14.23

Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão porventura que estais loucos?

Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos?

Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem línguas estranhas, e entrarem indoutos ou infiéis, não dirão, porventura, que estais loucos?

Percebam, que há um acréscimo ao texto bíblico. Em todas as outras versões “não encontramos a expressão “línguas estranhas”, o que sugere uma tradução não tão feliz”.[xviii]

Existe outro argumento que vá de encontro à suposição pentecostal/carismática de que o dom de língua faz referência a línguas dos anjos? Existe sim. Outro texto que vai de encontro à posição pentecostal é 1 Coríntios 14.21, 22: “Na lei está escrito: Falarei a este povo por homens de outras línguas e por lábios de outros povos, e nem assim me ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos; mas a profecia não é para os incrédulos, e sim para os que crêem”. Este texto, irmãos, é uma referência a Isaías 28.11: “Pelo que por lábios gaguejantes e por língua estranha falará o SENHOR a este povo”. Esta é uma palavra de juízo que Deus trouxe sobre os judeus impenitentes na época do Antigo Testamento. Aqui o termo “língua” refere-se a uma língua real, um idioma estrangeiro. Em Isaías temos uma promessa sobre a chegada dos assírios, cuja língua os judeus, naturalmente, não entenderiam. Precisamos entender o pano de fundo histórico de Isaías 28.7-13. Aqui Isaías está sendo ridicularizado por sacerdotes e profetas que viviam embriagados e zombando de Isaías. O profeta Isaías afirma que a resposta infantil do povo (desmamados e os que foram afastados dos seios maternos) ofende a Deus. Como “não quiseram ouvir” (v. 12), “então Deus lhes falaria como se estivessem ainda aprendendo a falar por meio de rimas infantis”.[xix] Era apenas: “preceito sobre preceito, preceito e mais preceito; regra sobre regra, regra e mais regra” (28.10, 13). A fraseologia em hebraico é muito interessante, bem mais interessante que em português: “wq"+l' wq:å wq"ßl' wq:ï wc'êl' wc;ä ‘wc'l' wc;Û” (sav lasav sav lasav kav lakav kav lakav). A simplicidade destas palavras em hebraico é notória. Os judeus “desprezavam Isaías, que foi a eles com a Palavra de Deus expressa em hebraico simples e claro. Agora Deus lhes viria com forças armadas assírias, cujos soldados lhes falariam em língua estrangeira”.[xx]

Nosso argumento de que o termo “línguas” se refere a idiomas estrangeiros é apoiado ainda pela palavra grega utilizada por Paulo quando ele diz que “línguas” devem ser interpretadas: “a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las” (1 Coríntios 12.10); “Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro interpretação. Seja tudo feito para edificação... Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus” (1 Coríntios 14.26, 28). A palavra para “interpretação” é e`rmhnei,a. “Quando a palavra hermeneuo não é utilizada para descrever a exposição das Escrituras, ela simplesmente significa ‘traduzir o que foi falado ou escrito em uma língua estrangeira”.[xxi] Friberg nos dá um bom significado desse termo: “interpretação, explanação, tradução; como um dom do Espírito, a habilidade de tornar palavras inteligíveis, que de outro modo, não seriam entendidas”.[xxii] Outro léxico explica o significado de e`rmhneu,w como segue: “Traduzir no vernáculo o que foi falado ou escrito em uma língua estrangeira”.[xxiii] Por esse prisma, meus queridos irmãos, um intérprete é alguém que traduz um idioma estrangeiro para um outro compreensível à audiência presente.[xxiv] “O dom da interpretação (e`rmhnei,a) era um dom empregado para traduzir construções sintáticas de um outro idioma não conhecido pela assembléia”.[xxv] Palmer Robertson diz que, “as línguas de 1 Coríntios 14 eram traduzíveis, o que se sugere que eram idiomas estrangeiros”.[xxvi]

1.2. AS LÍNGUAS NO NOVO TESTAMENTO ERAM REVELACIONAIS

Continuando o nosso estudo sobre o dom de línguas, chegamos num ponto muito importante para o nosso entendimento sobre o mesmo. Já vimos que, as línguas faladas no período apostólico eram idiomas ou dialetos humanos e estrangeiros. Não se tratavam de línguas celestiais ou angelicais. Esse pensamento é pura ficção pentecostal! Várias razões foram dadas para isso: 1) o fenômeno no dia de Pentecostes; 2) o nome que o dom recebe em 1 Coríntios 12: “variedades de línguas”; 3) a necessidade de tradução, o que pressupõe vocabulário e sintaxe; e 4) a aplicação paulina de profecias a respeito de nações de línguas diferentes que viriam contra Israel.

Precisamos avançar no nosso estudo a respeito da glossolalia. Precisamos analisar mais um ponto importante sobre a natureza desse dom apostólico. O nosso foco, agora, concentra-se na afirmação pentecostal de que, quem fala em línguas ora em línguas estranhas, ou seja, os pentecostais asseveram que as línguas são uma forma de oração muito íntima, que se dá entre a pessoa e Deus. Segundo esse pensamento, “falar em línguas é principalmente um discurso dirigido a Deus (ou seja, oração ou louvor)”.[xxvii] Os pentecostais baseiam esse pensamento em alguns versículos do capítulo 14 de 1 Coríntios: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (v. 2); “O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja” (v. 4); “Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus” (v. 28). Com base nestes versículos os pentecostais afirmam que o falar em línguas é uma espécie de oração e louvor a Deus.

A teologia reformada, ao contrário do pentecostalismo, crê que o dom de línguas não possuía a função de servir como uma forma de oração entre o indivíduo e Deus. Cremos que o dom de línguas era de natureza revelacional, possuindo a função de comunicar a vontade do Senhor para a sua igreja apostólica que ainda não possuía o cânon perfeito das Escrituras. Dividiremos a nossa análise em duas partes: 1) analisaremos os textos usados pelos carismáticos; e 2) estabeleceremos o verdadeiro conceito das línguas.

1.2.1. Demolindo o argumento pentecostal

Será que as passagens usadas realmente dão o suporte esperado pelos defensores da contemporaneidade dos dons? Primeiramente, observemos o versículo 2 de 1 Coríntios 14: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios” (o` ga.r lalw/n glw,ssh| ouvk avnqrw,poij lalei/ avlla. qew/|\ ouvdei.j ga.r avkou,ei( pneu,mati de. lalei/ musth,ria\). A primeira coisa que precisamos ter em mente é que, nesse capítulo de 1 Coríntios o apóstolo Paulo está corrigindo abusos que estavam acontecendo durante os cultos na igreja de Corinto. Então, irmãos, lembrem-se, aqui Paulo não está nem elogiando nem endossando a prática dos coríntios. Esse capítulo chega mais a uma repreensão do que qual quer outra coisa. No verso 2, o apóstolo Paulo está afirmando a conseqüência da preferência injustificada e do mau uso do dom de línguas no seio da igreja. Ele não está afirmando o que o dom é em si mesmo. Muito pelo contrário, o apóstolo está mostrando o que acontece quando o dom é exercido de forma errada. O que, então, acontece? A igreja não é edificada. Isso é tão tal, que Paulo inicia o capítulo 14 com essa preocupação em mente. Ele inicia falando sobre dois dons de comunicação da vontade de Deus: “Segui o amor e procurai, com zelo, os dons espirituais, mas principalmente que profetizeis” (v. 1). Observem, que ele se dirige a toda a igreja enquanto corpo congregacional: os verbos “segui”, “procurai” e “profetizeis” todos estão na 2ª pessoa do plural. Então, ele não tem apenas um indivíduo em mente, mas sim toda a igreja, todo aquele ajuntamento, o qual ele denominou de “Corpo”. Por que a igreja deveria se preocupar em profetizar? Eis a resposta no versículo 2: “Pois quem fala em outra língua não fala a homens, senão a Deus, visto que ninguém o entende, e em espírito fala mistérios”. Em outras palavras, que fala em línguas sozinho, não contribui para a edificação do Corpo, pois não comunica a homens.[xxviii] O dom de línguas sem interpretação não edifica a igreja, pois atrapalha a comunicação.

Mas, como isso interfere no entendimento de que é oração dirigida a Deus? O verso diz que quem fala em línguas, fala a Deus. Como entender isso, sem chegarmos à conclusão de que se trata de oração? Pergunto: se eu falasse aqui em línguas da mesma forma como acontecia no período apostólico, vocês entenderiam? E Deus, será que entenderia? É óbvio! É exatamente isso que o apóstolo Paulo está afirmando! O Dr. Simon Kistemaker afirma: “Embora Deus conheça cada palavra dita, seu povo é incapaz de compreender essas palavras e, portanto, não é edificado”.[xxix] Calvino é de opinião semelhante quando afirma: “A razão porque ‘ele não fala a homens’ é que ‘ninguém entende’, ou seja, as palavras não podem ser distinguidas. Pois os ouvintes ouvem um som, porém não entendem o sentido da linguagem”.[xxx]

Outra verdade interessante reside no termo “mistério” (musth,rion), utilizado no versículo 2. Algumas pessoas “argumentam que o termo mistério é empregado para referir-se ao fato das línguas não serem compreendidas, tornando-se, assim, ‘um mistério’”.[xxxi] Entretanto, devemos perceber que o apóstolo Paulo não afirma “falar em mistério”, e sim “falar mistério”, “o que pode ser muito bem entendido à luz de Atos 2.11, como ‘falar as grandezas de Deus’ que estavam ocultas”.[xxxii] Esta palavra “inclui a idéia de comunicação da revelação divina”.[xxxiii] O Dr. Palmer Robertson faz uma análise interessante do termo musth,rion:

Como já foi observado, um ‘mistério’, no Novo Testamento, é uma verdade sobre o método divino de efetuar a redenção que outrora esteve oculta, mas agora foi revelada. Em sua própria essência, um ‘mistério’, no Novo Testamento, é um fenômeno revelacional.[xxxiv]

O termo musth,rion ocorre cerca de vinte e oito vezes no Novo Testamento. Vejamos algumas passagens que confirmam o nosso entendimento sobre o termo musth,rion:

“Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido” (Mateus 13.11). Os mistérios aqui não são mais ocultos dos discípulos de Jesus. Agora se tratam de verdades reveladas, não ocultas.

“Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério (para que não sejais presumidos em vós mesmos): que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios” (Romanos 11.25). O mistério acerca de Israel não mais seria uma matéria de ignorância, pois ele foi revelado.

“Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme a revelação do mistério guardado em silêncio nos tempos eternos, e que, agora, se tornou manifesto e foi dado a conhecer por meio das Escrituras proféticas, segundo o mandamento do Deus eterno, para a obediência por fé, entre todas as nações” (Romanos 16.25, 26). Aqui o apóstolo afirma que pode pregar com confiança, porque o mistério do evangelho agora se revelou.

“Ora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja; da qual me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento à palavra de Deus: o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos; aos quais Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória” (Colossenses 1.24-27). Mais uma vez o mistério está associado à revelação do evangelho de Jesus Cristo (cf. Colossenses 4.3).

Então, percebam como o uso do termo musth,rion não dá nenhum suporte para a teoria pentecostal do falar em línguas como uma oração dirigida a Deus.

Sobre o versículo 4 de 1 Coríntios 14, não é preciso muito argumento exegético para mostrar que não está tratando as línguas como orações. Para entendermos o sentido do versículo, basta ler o verso 5: “O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja. Eu quisera que vós todos falásseis em outras línguas; muito mais, porém, que profetizásseis; pois que profetiza é superior ao que fala em outras línguas, salvo se as interpretar, para que a igreja receba edificação”. De acordo com Paulo no verso 5, as línguas interpretadas são equivalentes à profecia. Podemos estabelecer o nosso argumento por meio de um silogismo:

PREMISSA MAIOR: O dom de línguas quando interpretado é equivalente à profecia;

PREMISSA MENOR: Profecia é diferente de oração.

CONCLUSÃO: Portanto, o dom de línguas é diferente de oração.

Se o apostolo Paulo quisesse ensinar que as línguas são uma forma de se dirigir a Deus em oração, ele não teria utilizado “fala em outra língua” (lalw/n glw,ssh), e sim “ora em outra língua”. Mas somente num único lugar do Novo Testamento o verbo “orar” (proseu,comai) se encontra associado ao dom de línguas: “Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera” (v. 14). Percebam que, aqui a palavra “se” (eva,n) deixa claro que o apóstolo está, mais uma vez, fazendo apenas uma suposição. Ele não está tratando de um fato estabelecido. Além disso, é límpida a percepção que aqui ele favorece a oração numa língua conhecida ou vernacular. O Dr. Anthony Hoekema faz a seguinte afirmação: “a interpretação mais provável do versículo 15 não é que Paulo favoreça o orar em línguas no culto da igreja, mas que favoreça o orar em uma língua conhecida, a fim de que seu espírito e sua mente estejam ativos”.[xxxv]

Podemos concluir, então, que mais uma vez, o argumento pentecostal sobre o dom de línguas é falacioso, falso e antibíblico.

1.2.2. A verdadeira natureza do dom de línguas

O entendimento bíblico-reformado a respeito do dom de línguas, é que esse dom era revelacional, ou seja, o conteúdo não se dirigia do indivíduo para Deus, mas sim de Deus para a igreja pela instrumentalidade de um indivíduo. Como podemos entender isso? Várias passagens do Novo Testamento confirmam isso:

“Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (Atos 2.4). Observem a expressão “segundo o Espírito lhes concedia que falassem” (kaqw.j to. pneu/ma evdi,dou avpofqe,ggesqai auvtoi/j). O verbo utilizado para “falassem” é o verbo grego avpofqe,ggomai. É um verbo diferente para o empregado na cláusula “e passaram a falar em outras línguas” (kai. h;rxanto lalei/n e`te,raij glw,ssaij). Aqui, o verbo para “falar” é lale,w. O significado do uso de avpofqe,ggomai é que ele é empregado para a fala produzida pelo Espírito Santo, e até onde sabemos, fala inspirada pelo Espírito Santo de Deus é fala inspirada:

Com este termo, Lucas deu total ênfase na idéia de que línguas consistia na ‘fala do Espírito’... Esta expressão é correlata das afirmações proféticas do Antigo Testamento ‘Assim diz o Senhor’. Dessa forma, línguas consiste numa manifestação profética na qual Deus fala ao homem.[xxxvi]

Por sua vez, o verbo lale,w, se refere à capacidade natural de falar.

“tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus” (Atos 2.11). O fenômeno da glossolalia no dia de Pentecostes teve como propósito a pregação das “grandezas de Deus” a pessoas de diferentes nações, etnias, idiomas e dialetos: partos, medos, elamitas, mesopotâmios, judeus, capadócios, pontenses, asiáticos, frígios, panfílios, egípcios, líbios, cirineus, romanos, cretenses e arábios. Todas estas etnias ouviram a pregação das “grandezas de Deus” em suas próprias línguas maternas. Diz o Dr. Kistemaker,

Os crentes cheios do Espírito Santo proclamam os milagres realizados por Deus. Presumimos que eles declaram especialmente as maravilhas relacionadas à ressurreição e ascensão de Jesus. Lucas diz que os judeus piedosos residentes em Jerusalém ou os que estão em visita à cidade ouvem acerca dessas maravilhas em suas línguas maternas.[xxxvii]

A passagem de 1 Coríntios também é decisiva nessa questão. Mais uma vez, o caráter revelacional do dom de línguas se faz evidente aqui. Voltemos a 1 Coríntios 14.4, 5: “O que fala em outra língua a si mesmo se edifica, mas o que profetiza edifica a igreja. Eu quisera que vós todos falásseis em outras línguas; muito mais, porém, que profetizásseis; pois que profetiza é superior ao que fala em outras línguas, salvo se as interpretar, para que a igreja receba edificação”. Lembremos, que as línguas interpretadas são equivalentes à profecia. Com isso em mente, se a profecia tem caráter revelacional, por que seria diferente com as línguas? O exegeta da Reforma, João Calvino, comentando o versículo 5, diz que no exercício do dom de línguas, “se a interpretação for adicionada, então teremos profecia”.[xxxviii] Esta é a mesma interpretação de Gordon Lyons: “Se uma pessoa quem fala em uma língua pode interpretar o que diz, então, pode trazer uma mensagem da parte de Deus para a igreja naquela língua, desde que, traduzida corretamente”.[xxxix]

O termo “edificação” (oivkodomh,) no versículo 5 é muito importante. Este termo “só é empregado quando alguma coisa é acrescentada à mente... As línguas, portanto, deveriam edificar, ou seja, trazer conteúdo inteligível à mente”.[xl] Em outras palavras, a função das línguas, quando interpretadas é edificar, ou seja, acrescentar conteúdo na igreja de Deus.

No versículo 16, Paulo mostra o real conteúdo das línguas: “Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se vos não falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina?”. Paulo mostra que as línguas são um dom doutrinário, e que, por meio dele, a igreja deveria receber o mesmo conteúdo de profecia, revelação, conhecimento e ensino. “sendo assim, as línguas eram um dom que trazia acréscimo teológico à igreja quanto à doutrina da Nova Aliança”.[i] Se a utilidade do dom aparece quando, por meio dele, a igreja é doutrinada e ensinada, isso mostra, indubitavelmente, que o propósito do dom de línguas era o de revelar a vontade de Deus.


[i] Ibid.


[i] Citado em Brian Schwertley, Os Carismáticos e as Novas Revelações do Espírito, (São Paulo: Os Puritanos, 2000), 23.

[ii] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios, (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), 627.

[iii] Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, (São Paulo: Os Puritanos, 2000), 293.

[iv] John F. MacArthur Jr., Os Carismáticos, (São José dos Campos: Fiel, 2000), 156.

[v] Harold K. Moulton, Léxico Grego Analítico, (São Paulo: Cultura Cristã, 2008), 86.

[vi] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos, Vol. 1, (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), 111.

[vii] Harold K. Moulton, Léxico Grego Analítico, 99.

[viii] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos, Vol. 1, 115.

[ix] Joseph Mizzi, Batismo no Espírito e Falar em Línguas. pág. 2. Artigo extraído do site http://www.monergismo.com. Sem data de acesso.

[x] Brian Schwertley, Os Carismáticos e as Novas Revelações do Espírito, 25.

[xi] C. Samuel Storms em Wayne Grudem (org.), Coleção Debates Teológicos: Cessaram os Dons Espirituais? 4 Pontos de Vista, (São Paulo: Vida, 2003), 229.

[xii] Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, 293.

[xiii] Moisés Bezerril, Alan Rennê Alexandrino, Alenilton Marques de Andrade, André de Souza Pereira, Ciro de Menezes Ferreira e José Ornilton de Carvalho, A Natureza Apostólica dos Dons Espirituais de 1 Coríntios 12: Uma Abordagem Exegética aos Dons da Era Apostólica, (Teresina: Berith Publicações, 2005), 15.

[xiv] Friberg Lexicon in BIBLEWORKS 7.0.

[xv] Moisés Bezerril, Alan Rennê Alexandrino, Alenilton Marques de Andrade, André de Souza Pereira, Ciro de Menezes Ferreira e José Ornilton de Carvalho, A Natureza Apostólica dos Dons Espirituais de 1 Coríntios 12: Uma Abordagem Exegética aos Dons da Era Apostólica, 15.

[xvi] Brian Schwertley, Os Carismáticos e as Novas Revelações do Espírito, 27.

[xvii] Ibid.

[xviii] Felipe Sabino de Araújo Neto, Resposta a um Pentecostal. pág. 6. Artigo extraído do site http://www.monergismo.com. Sem data de acesso.

[xix] O. Palmer Robertson, Línguas: Sinal de Maldição e de Bênção do Pacto, (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991), 15.

[xx] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios, 693.

[xxi] Brian Schwertley, Os Carismáticos e as Novas Revelações do Espírito, 28.

[xxii] Friberg Lexicon in BIBLEWORKS 7.0.

[xxiii] J. H. Thayer, Thayer’s Greek Lexicon in BIBLEWORKS 7.0.

[xxiv] Deve ser observado que todos os léxicos consultados admitem que os termos gregos e`rmhneu,w e e`rmhnei,a referem-se a tradução de línguas estrangeiras (cf. Harold K. Moulton, Léxico Analítico Grego, 177; Gingrich Lexicon; LEH Greek Lexicon; LS Greek Lexicon; Louw-Nida Lexicon e UBS Greek Lexicon, todos disponíveis na versão eletrônica em BIBLEWORKS 7.0.)

[xxv] Moisés Bezerril, Alan Rennê Alexandrino, Alenilton Marques de Andrade, André de Souza Pereira, Ciro de Menezes Ferreira e José Ornilton de Carvalho, A Natureza Apostólica dos Dons Espirituais de 1 Coríntios 12: Uma Abordagem Exegética aos Dons da Era Apostólica, 18.

[xxvi] O. Palmer Robertson, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje, (São Paulo: Os Puritanos, 1999),

[xxvii] Wayne Grudem, Teologia Sistemática, (São Paulo: Vida Nova, 2002), 910. Aqui Grudem não está apenas apresentando pensamento pentecostal. Na verdade, esse é o pensamento do próprio Wayne Grudem.

[xxviii] Digno de nota é o verbo traduzido como “fala” (lalei/). Este verbo é empregado para se referir a comunicação, não a oração.

[xxix] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: 1 Coríntios, 662.

[xxx] João Calvino, Comentário à Sagrada Escritura: 1 Coríntios, (São Bernardo do Campo: Prakletos, 2003), 414.

[xxxi] Moisés Bezerril, Alan Rennê Alexandrino, Alenilton Marques de Andrade, André de Souza Pereira, Ciro de Menezes Ferreira e José Ornilton de Carvalho, A Natureza Apostólica dos Dons Espirituais de 1 Coríntios 12: Uma Abordagem Exegética aos Dons da Era Apostólica, 17.

[xxxii] Ibid, 18.

[xxxiii] O. Palmer Robertson, A Palavra Final: Resposta Bíblica à Questão das Línguas e Profecias Hoje, 29.

[xxxiv] Ibid.

[xxxv] Anthony Hoekema, ...E as Línguas? pág. 53. Livro extraído do site http://www.monergismo.com. Sem data de acesso.

[xxxvi] Moisés Bezerril, Alan Rennê Alexandrino, Alenilton Marques de Andrade, André de Souza Pereira, Ciro de Menezes Ferreira e José Ornilton de Carvalho, A Natureza Apostólica dos Dons Espirituais de 1 Coríntios 12: Uma Abordagem Exegética aos Dons da Era Apostólica, 17.

[xxxvii] Simon Kistemaker, Comentário do Novo Testamento: Atos, Vol. 1, 119. O posicionamento de Wayne Grudem sobre o dom de línguas é tão estranho quanto o seu posicionamento sobre o dom de profecia: “Assim, falar em línguas, ao que parece, é oração ou louvor dirigido a Deus, brotando do ‘espírito’ da pessoa que está falando. Isso não discorda da narrativa em Atos 2, porque a multidão disse: ‘Como ouvimos falar em nossas línguas as grandezas de Deus?’ (At 2.11), uma descrição que certamente significaria que os discípulos estavam todos glorificando a Deus e proclamando suas obras grandiosas em adoração, e a multidão começou a ouvir isso que ocorria em várias línguas” (cf. Wayne Grudem, Teologia Sistemática, 910, 911). Em termos de necessidade e utilidade, o que se encaixa melhor no contexto: revelação ou oração? Qual a necessidade de orações nas diferentes línguas em Atos 2? Além disso, nem mesmo Grudem tem convicção daquilo que afirma, pois apenas “parece” que o falar em línguas é oração.

[xxxviii] João Calvino, Comentário à Sagrada Escritura: 1 Coríntios, 416.

[xxxix] Gordon Lyons, New Testament Expository Notes: 1 Corinthians. pág. 167. Extraído do site http://www.1-word.com. Sem data de acesso.

[xl] Moisés Bezerril, Alan Rennê Alexandrino, Alenilton Marques de Andrade, André de Souza Pereira, Ciro de Menezes Ferreira e José Ornilton de Carvalho, A Natureza Apostólica dos Dons Espirituais de 1 Coríntios 12: Uma Abordagem Exegética aos Dons da Era Apostólica, 16.

[xli] Ibid.

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