quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E RELEVÂNCIA DOS SOLAS - 5ª PARTE

IV – SOLA FIDE (SOMENTE A FÉ)

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8, 9). “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo” (Romanos 5.1).

Este quarto slogan é como que uma consequência do anterior, pois se a salvação toda se deve à graça divina, isso realça melhor ainda o evangelho da livre justificação. Isso quer dizer que os crentes são justificados por Deus pela fé, inteiramente à parte de quaisquer obras que tenham feito ou que possam fazer. Essa doutrina da Justificação por meio de Cristo unicamente pela fé tornou-se a doutrina primordial da Reforma. Ela foi uma reação de Martinho Lutero contra a idéia de que o ser humano pudesse se tornar justo e aceitável aos olhos de Deus por meio das boas obras e das indulgências que eram vendidas na época. Lutero disse que a justificação pela fé é a doutrina pela qual a igreja se mantém de pé ou cai.

E nesse ponto nós precisamos entender qual o problema histórico. A tradução oficial da igreja medieval era a Vulgata Latina. Quando Lutero leu a tradução que o famoso Erasmo de Roterdam fez a partir do grego e percebeu discrepâncias entre a Vulgata e o Novo Testamento Grego. A mais gritante, pelo menos do ponto de vista de Lutero, era a tradução errada da palavra grega “justificar”. O original grego, que significa “declarar justo” estava traduzido pela palavra latina justificare, que quer dizer “fazer justo”. Dessa forma, a justificação foi vista como processo de se tornar ou ser feito justo em vez de um ato declarativo de um tribunal. Isso levava o indivíduo a crer que para ser salvo, ele precisava cooperar com a graça de Deus à medida que era transformado em pessoa justa.

Só que, quando estava estudando Romanos e Gálatas, Lutero percebeu que Deus exige uma justiça perfeita. Ele não exige apenas a disposição de cooperar com a graça. Assim, ele percebeu que a única justiça perfeita é a de Cristo. Então, ele acabou convicto de que as Escrituras ensinavam claramente dois pontos essenciais: Deus não pode aceitar uma justiça imperfeita, e por isso ele imputa (credita) ao crente a “justiça alienígena” de Jesus Cristo, que é perfeita.assim, o crente é simul justus et peccator - “simultaneamente justo e ainda pecador”.

Mas em nossos dias essa doutrina tem sido amplamente esquecida, ignorada, raramente central, e muitas vezes até negada pelos teólogos e pastores evangélicos. De acordo com uma pesquisa feita, 87% dos evangélicos são praticantes católico-romanos medievais quanto a seu conceito de como o indivíduo se relaciona com Deus. Freqüentemente, a ênfase recai sobre a obra de Cristo ou do Espírito Santo dentro do crente para que ele atinja a “vida cristã vitoriosa”, ou sobre passos e princípios para que ele se aproxime de Deus. A ênfase da nossa geração é puramente subjetiva e terapêutica, a ponto de existir uma “Comunidade Evangélica Spa Espiritual”, no sudeste do país. É desesperadora a necessidade de ouvirmos o famoso conselho que Lutero deu ao seu discípulo Melanchthon: “O evangelho se acha inteiramente fora de você!”

Dissemos que é pela doutrina da justificação pela fé que a igreja se mantém de pé ou cai, portanto, a que se deve o atual declínio do evangelicalismo brasileiro? Simplesmente porque landmarks como Justificação, Santificação e Redenção estão captulando diante de conceitos como terapia, bem-estar espiritual, felicidade, vida vitoriosa, entretenimento, e muitas outras coisas. As pessoas que estão fora da igreja não sentem a necessidade de serem justificadas, visto que ofenderam a um Deus que é Santo. Muito pelo contrário, elas sentem a necessidade é de terem seus anseios, e até mesmo suas ambições, atendidas por Deus. Deus não é mais “justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias” (Salmo 7.11), agora ele é o Deus-servo de uma geração corrupta e pervertida, existindo apenas para atender aos desvarios do homem decadente. Em 1993, a revista Newsweek publicou uma matéria sobre uma igreja enorme no estado americano do Arizona que tinha abandonado o discipulado bíblico e a pregação em favor de “uma Escola Dominical com coisas apelativas tipo Steven Spielberg e música genérica Amy Grant nos cultos bem como drama em lugar do sermão”.

APLICAÇÃO
O que podemos dizer sobre o Sola Fide? Precisamos recuperar a doutrina da justificação pela fé em Cristo Jesus. Este não é um assunto popular nos círculos evangélicos porque a justificação não é vista como uma necessidade. E é precisamente porque a justificação não é a “necessidade sentida” do não-crente que nós precisamos pregar a Lei de Deus. E por quê? Porque mesmo as pessoas religiosas que achavam que estavam vencendo sentem o fundo do poço de sua depravação quando clamam com o publicano: “Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” (Lucas 18.13). A necessidade de misericórdia só é sentida depois que a realidade da culpa impressiona. Só então o evangelho pode aliviar.

Pensem, por um instante, meus irmãos, que motivo você para sentir a necessidade da justiça de Cristo, se você não perceber sua nudez perante um Deus santo? De fato, pregar sobre a ira de Deus, sobre pecado, inferno e muitos outros assuntos não vai apelar aos ouvintes dos nossos dias, e isso não deve nos surpreender. O grito pelo socorro da graça nunca cativará o ouvido enquanto não houver novamente um sentimento de culpa e desespero em nossas igrejas.

Essa verdade não foi feita para ser apenas afirmada como parte de uma confissão, mas para ser proclamada como a “boa nova” que justifica não só o crente diante de Deus como também a existência da igreja no mundo.

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