segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E RELEVÂNCIA DOS SOLAS - 4ª PARTE

III – SOLA GRATIA (SOMENTE A GRAÇA)
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2.8, 9). “Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça” (Salmo 6.4). “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos” (Romanos 3.23-25).

O terceiro slogan oriundo da Reforma Protestante do Século XVI é o Sola Gratia, que significa, literalmente, “Somente a Graça”. O que essa terceira frase deseja enfatizar? Aqui, os Reformadores insistiram em que os pecadores não têm nenhum direito a reivindicar de Deus, que Deus não lhes deve nada senão o castigo por seus pecados, e que, se ele os salva apesar de suas transgressões, como é o caso daqueles que são salvos, é só porque agrada a Deus fazer isso. Eles ensinavam que a salvação é somente pela Graça.

Infelizmente, hoje a maioria das pessoas crê que o homem é basicamente bom, que Deus tem a obrigação de dar a cada um a oportunidade de ser salvo, e se, somos salvos, em última análise é por causa da nossa boa decisão de receber o Jesus que nos é oferecido no Evangelho. Já existem até grupos que dizem que aqueles que já são salvos têm o direito de fazer cobranças a Deus, no sentido de que ele cumpra as promessas da Aliança. Alguns dias atrás vi o teleevangelista “S. S. Souastro” dizendo que, por causa da Aliança o crente pode cobrar que Deus cumpra suas promessas. Sobre isso, duas coisas podem ser observadas: 1) uma promessa é uma livre-expressão de alguém, no sentido de que fará ou dará algo a outrem, sem qualquer exigência. Por isso, promessa é algo que não se cobra. Vocês não cobram promessas que seus amigos humanos falíveis fazem, quanto mais cobrar a Deus que é fiel à sua própria natureza; 2) o homem, mesmo depois de salvo, não se encontra numa relação em pé de igualdade com Deus. Ainda existe a “infinita diferença qualitativa” entre Deus e o homem. Portanto, quem sou eu para determinar alguma coisa pra Deus?

Essa confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Esta confiança falsa enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da auto-estima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transformaram o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores até aqueles que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas. Assusta-me o quão incoerentes nós costumamos ser. Não costumamos refletir acerca das implicações das afirmações que fazemos, pois se os seres humanos são basicamente bons e o mal pode ser atribuído a forças impessoais, a estruturas, instituições e criação, então a doutrina da graça – a essência do evangelho – fica completamente sem sentido. Foi exatamente por isso que Jesus disse: “Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores” (Marcos 2.17). Então, se a pessoa não se vê como doente, ela não tem por que receber tratamento de um médico; se a pessoa não se vê como pecadora destituída da glória de Deus, conseqüentemente, ela não se verá como carente da graça de Deus.

Irmãos, percebam como uma coisa está atrelada à outra. Em nossos dias, o enfraquecimento da doutrina do pecado e a perda da percepção do desespero e da decadência humana na pregação, ensino e publicação de livros nos conduziram a uma visão míope da graça. Se a pessoa se sente totalmente condenada e impotente, um evangelho que proclama a graça divina como perdão é a resposta indubitável. Mas se ela se sente apenas extraviada, infeliz, não-realizada e fraca, um evangelho que ofereça uma assistência infundida já é suficiente.

Irmãos queridos, dizer que a salvação é pela graça não é simplesmente afirmar o caráter sobrenatural da salvação, mas é também excluir qualquer forma de cooperação entre o homem e Deus. Definitivamente, o ser humano não coopera em nada. Do começo ao fim a salvação é obra de Deus. Vejam o que afirmou o profeta Jonas: “Mas, com a voz de agradecimento, eu te oferecerei sacrifício; o que votei pagarei. Ao SENHOR pertence a salvação!” (Jonas 2.9). No que diz respeito ao Novo Nascimento a decisão e o esforço humanos são totalmente excluídos como tendo qualquer papel atuante: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia” (Romanos 9.16). Salvação, queridos, não depende do desejo nem do esforço do homem, mas da misericórdia de Deus. Este foi o grito dos Reformadores.

APLICAÇÃO
De que maneira essa verdade se aplica a nós, resbiterianos do século XXI, mas herdeiros da Reforma Protestante do século XVI?

Primeiramente, devemos ter a convicção de que fomos salvos única e exclusivamente pela graça divina. Não fizemos absolutamente nada que nos ajudasse na nossa salvação. Foi unicamente Deus, com a sua graça e a sua misericórdia, que nos salvou. Não há em tua vida nenhuma bondade, nenhuma justiça, nada que tenha despertado a simpatia de Deus. A salvação é pela graça apenas: “E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça” (Romanos 11.6).

Em segundo lugar, se estamos realmente convencidos da justeza da crítica que a Reforma fez à Roma medieval, também não podemos mais aceitar a doutrina arminiana dentro dos círculos protestantes. Não é só Roma que precisa ser rejeitada, mas a idéia de que o homem é “bonzinho”, o pentecostalismo, a teologia da prosperidade e a tradição avivalista, no ponto em que cada um deles deixa de honrar suficientemente a graça de Deus.

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