terça-feira, 30 de novembro de 2010

É SANTO O "HOLY HIP-HOP"?*


Dr. David Murray[i]

Eu me sinto realmente encorajado pelo movimento Novo Calvinismo, e o vejo como positivo em linhas gerais. Não acho que já tenha escrito alguma crítica sobre ele. Na verdade, tenho aprendido muito com os seus pregadores e blogueiros. Desejo ser um incentivador, em vez de um crítico. Porém, estou cada vez mais preocupado com a promoção cada vez maior do “Rap Gospel” ou “Holy Hip Hop” nos círculos do Novo Calvinismo, até mesmo por homens a quem eu admiro e muito estimo no Senhor.

Eu entendo o motivo – geralmente muito louvável o desejo de alcançar os perdidos nos bairros pobres. Definitivamente, não estou dizendo que os rappers cristãos e seus simpatizantes não são convertidos – simplesmente, embora gravemente, enganados. E não aceito que, na misericórdia e graça de Deus, almas têm sido salvas por esse meio.

Na Desiring God Pastors Conference deste ano, eu me sentei ao lado de três sinceros jovens de diferentes origens raciais. Eles me disseram que eram “Rapper Pastors”. Sem nunca ter ouvido o termo, pedi-lhes que me explicassem. Disseram-me que estavam trabalhando entre as gangues de Chicago, levado o evangelho aos jovens nas ruas através do Rap. “Por que Rap?”, perguntei. Eles responderam que era a única forma dessas gangues compreenderem, visto que foi nesse meio que receberam qualquer educação. Um deles me mostrou letras impressionantes, gravadas em seu iPhone, baseadas na palestra daquele dia de conferência. Ele iria fazer um “rap” com ela e com outras palestras da conferência, para a igreja que se reúne em sua casa, em Chicago, e para os jovens nas ruas de Chicago.

Evangelismo de trampolin?[ii]

Enquanto conversávamos, eu estava profundamente humilhado e desafiado por sua sinceridade, coragem e zelo. E, apesar de admitir que ainda me sentia desconfortável com o seu método evangelístico, pude entender a plausibilidade de seu argumento. Afinal de contas, foi assim que eles ouviram o evangelho primeiro. Agora, tendo usado isso como um trampolim, eles ouviam o ensino da Bíblia em profundidade por uma hora de duração.

Mas um argumento discutível de evangelismo de trampolim entre as gangues de Chicago é bastante diferente de cristãos maduros de culturas completamente diferentes promoverem shows e danças de “Holy Hip-Hop”, com apresentações em igrejas e etc. Com base em Êxodo 20.7 (cf. a exposição do Terceiro Mandamento do Catecismo Maior de Westminster, ou Calvino sobre esse assunto) e no princípio bíblico geral de “frutos revelarem raízes” (e.g. Mateus 7.16-20), eu tenho uma pergunta que resume as minhas preocupações:

As origens, associações e os presentes frutos de um gênero musical ou sub-cultura devem ser seriamente considerados quando se decide incorporá-los no culto público de Deus?

Presume que a maioria dos cristãos responderá afirmativamente a esta questão cuidadosamente estruturada (note a ênfase no culto público). No entanto, a maioria dos cristãos tem pouca ideia a respeito das origens, associações e presentes frutos da cultura Hip-Hop. Eles veem uma versão sanitizada nos palcos da igreja, mas não conhecem quase nada sobre como ela começou, ao que está associada, e não ter que viver com o brutal, aterrorizante, encharcado de sangue, e os frutos de lágrimas derramadas dia após dia, noite após noite nos bairros pobres. Por favor, não responda a este artigo até que você tenha investigado um pouco isso.

Redimir a cultura?

Mas não podemos resgatá-la para o Senhor? Não podemos pegar a batida, as roupas, as posturas, a cultura, e simplesmente mudar as palavras de violência, rebeldia, orgulho, desrespeito, vaidade, auto-adoração, ódio à mulher, glorificação do estupro, de brutalidade, cruéis e obcecadas por sexo e transformá-las à imagem de Cristo e da pregação e/ou adoração centrada na cruz? (É difícil saber se “Holy Hip Hop” é pregação ou louvor. Eu pressuponho, como a maioria – mesmo seus simpatizantes – que é quase impossível se juntar a ele e “cantar”. É mais uma forma de pregação do que louvor).

A igreja sempre corre o risco de escorregar lenta e imperceptivelmente, para longe da “loucura da pregação” em direção à aparentemente razoável e persuasiva “sabedoria deste mundo”. Na cultura antiga, a sabedoria do mundo disse aos pregadores do evangelho: “Use a filosofia!” ou “Use milagres!”, mas estava Paulo preso ao método aparentemente tolo de um só, a voz humana desacompanhada autoritativamente declarando a verdade. Ele não usou o método comum grego socrático nem aceitou o modelo judaico rabínico. Ele usou o método de Deus e o modelo da pregação – culturalmente inaceitável como agora.

Através dos anos, a Igreja tem sido continuamente tentada a usar vários modismos e tendências culturais para alcançar os perdidos – punk rock cristão, glam rock cristão, death metal cristão – normalmente com frutos pouco duradouros. As tentações assumem diferentes formas em diferentes culturas, mas Deus planejou e designou a pregação para ser o meio universal de reunir os Seus eleitos, não importando a cultura ou época em que vivemos.

Questões desafiadoras

Estou apenas expressando uma preferência cultural? Estou sendo apenas um tradicionalista ou legalista? Estou tornando a minha consciência, às vezes falha, em uma regra para outros? Estou ameaçando o precioso dom da liberdade cristã? Tenho que responder a estas perguntas desafiadoras de forma honesta e em oração ao escrever algo como isto. E eu continuo a examinar meus motivos e objetivos.

Mas não posso também desafiar irmãos muito estimados no Senhor a fazerem algumas perguntas a si mesmos? Seu desejo é semelhante ao de Cristo para a salvação das almas perdidas em nossos bairros pobres, e talvez a sua amizade pessoal com alguns rappers cristãos, impedem você de examinar o Hip-Hop através da afiada lente bíblica e de uma abordagem bíblica coerente para o culto público? Talvez, você, às vezes, confunde os efeitos incrivelmente poderosos da música e do ritmo sobre o espírito humano com os poderosos efeitos do Espírito Santo? O “Holy Hip-Hop” está conduzindo líderes cristãos e não-cristãos para longe do Hip-Hop profano e sua cultura, ou os mantém na mesma, e talvez até distanciando mais? Há sempre uma linha a ser desenhada em que dizemos: Esta cultura está tão corrompida que a separação, ao invés da transformação, pode ser a resposta cristã correta?[iii] Você está correndo risco de, inadvertidamente, prejudicar a dependência da pregação bíblica simples, reformada e que glorifica a Deus para salvar todos os tipos de almas, independentemente da cor de sua pele? Se a mensagem realmente é mais importante e poderosa do que a música, você poderia remover a música e deixar as palavras nuas excitar o mesmo interesse e produzir o mesmo efeito? Porque, principalmente as igrejas brancas estão fornecendo uma plataforma para isto, e por que são tantas as igrejas afro-americanas relutantes em acolher um gênero musical que tanto tem feito para destruir suas comunidades e devastar vidas jovens?

Promoção pública

Enviei versões deste artigo para alguns dos líderes do movimento do Novo Calvinismo e recebi críticas úteis e desafiadoras. Em resposta, tenho editado e re-elaborado este post ao longo de muitas e muitas horas em uma tentativa de apresentar isso de forma pacífica e respeitosa o máximo possível. Confio que você irá me permitir o direito de expressar estas preocupações dessa forma, e também que você responderá em um espírito semelhante.

Se a promoção indiscriminada do “Holy Hip-Hop” não tivesse se tornado tão pública e difundida nos últimos dias e semanas, provavelmente, eu teria tentado conduzir uma discussão mais particular sobre minhas preocupações. Talvez os promotores do “Holy Hip-Hop” pudessem ter sido mais prudentes ao fazerem uma consulta mais ampla e diálogo sério com outros cristãos fora de seus círculos, antes de irem assim cada vez mais ao público com seu apoio imparcial e incondicional de que eles devem saber que dividirão o movimento reformado. Embora agora eu me sinta, obrigado pela consciência, a colocar isto em domínio público, continuo a acolher o diálogo, tanto público como privado.

Estou esperançoso de que o movimento do Novo Calvinismo está agora velho e maduro o suficiente para considerar com seriedade e espírito de oração, algumas preocupações de outros cristãos fora de seus círculos internos, daqueles que os amam, apreciam-nos, e sinceramente, desejam sua prosperidade espiritual a longo prazo.

Eu odeio polêmica e temo a resposta a isso. Tenho certeza de que algumas pessoas muito mais inteligentes que eu conseguirão abrir alguns buracos em alguns dos meus argumentos. (Estou disposto a ser corrigido). Entretando, uma vez que a reação inicial arrefeceu, eu espero que haja séria consideração do meu apelo geral, alguma oração que busque sondar a alma, e uma reforma de vidas e igrejas corajosa e fortalecida pelo evangelho.


Eu removerei quaisquer comentários que tornem isso pessoal contra indivíduos citados ou usem isso como uma desculpa para evitar o Novo Calvinismo.


* TRADUÇÃO: Alan Rennê Alexandrino Lima, com as significativas colaborações de Daniel Gomes Silveira, Marcos Vasconcelos e Rogério Portella.

[i] Professor de Antigo Testamento e Teologia Prática no Puritan Reformed Theological Seminary. O Dr. David Murray foi um dos preletores do Simpósio Os Puritanos, em 2009.

[ii] NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: No original “stepping-stone evangelism”. Literalmente, significa “evangelismo pedra de passagem”. É o evangelismo que se utiliza de um “trampolim” ou um pretexto para reunir pessoas e torná-las ouvintes em potencial. As pessoas são convidadas para um show de rock ou um campeonato de Vale-Tudo, para depois evangelizá-las. Agradeço ao meu amigo Rogério Portela pelo esclarecimento.

[iii] NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: Para uma avaliação da ênfase no mandato cultural, recomendo: Cornelis Pronk, Neocalvinismo: Uma Avaliação crítica. São Paulo: Os Puritanos, 2010. p. 16-19.

2 comentários:

Lucineia disse...

Meu irmão, entendo sua preocupação, também sou cristão, e o sou ativamente há mais de duas décadas. Creio que, se seu intuito é mesmo, como você disse no início do texto, masi de apoiar, então, observando sua própria anotação de que movimentos vieram e não foram duradouros, prefiro continuar com a assertiva de Gamaliel sobre a pregação dos apóstolos e do próprio Cristo, afinal, se não é obra divinia, não permanecerá, mas, se é obra divina, criticá-la, será também criticar o próprio Deus que irá julgá-los pelos seus atos e nós pelos nossos, não é?
Então, meu desafio é sempre orar por novos movimentos dentro da igreja, pelos seus líderes e especialmente pelos seus públicos-alvos, para que Deus se manifeste.

TonMoura disse...

Desculpe novamente, o comentário anterior deve ter ido no nome de Lucinéia, uma amiga, eu não havia percebido que ela havia logado no meu notebook, mas é meu. Por favor, apague-o afim de evitar problemas pra de falsa identidade, ok?
gostei do seu bolog e vou seguí-lo e adicioná-lo na minha lista de links, um abraço fraerno.

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