segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A PARÁBOLA DE JOTÃO

I - INTRODUÇÃO
Vivemos um período importante para a nossa nação. Atravessamos o período eleitoral, no qual, através do voto, escolhemos aqueles que liderarão nosso país. Os cristãos protestantes de tradição reformada e presbiteriana convivem com eleições de uma forma mais ampla do que a maioria das pessoas, visto que, com frequência, têm de escolher através do voto os seus líderes espirituais. As ocasiões nas quais os reformados escolhem os seus líderes são as mais variadas. Existem eleições para: sociedades internas, diáconos, presbíteros regentes, presbíteros docentes (pastores), comissão executiva de presbitério, sínodo e supremo concílio (tesoureiro, secretário executivo, secretário de atas, secretário de protocolo, vice-presidente e presidente).

Com isso em mente, creio que deveríamos atentar para alguns princípios existentes na passagem de Juízes 9.7-21, passagem esta conhecida como A Parábola de Jotão.[1] Antes disso, é extremamente necessário compreendermos o contexto no qual o texto está inserido.

II – O CONTEXTO
Juízes 9 tem início com o relato da trama arquitetada por Abimeleque, filho de Gideão.[2] Abimeleque não desempenhou papel como um dos juízes de Israel. Na verdade, ele era filho ilegítimo de Gideão. Sua mãe era “uma concubina de Siquém, lugar que se tornara um centro do culto de Baal, embora fosse o sítio onde Josué celebrara a cerimônia de renovação do pacto”.[3] Evidentemente, Abimeleque era um homem sem piedade alguma, o que fica claro pela forma como obteve o seu reinado: assassinato, conspiração e usurpação. O texto nos diz que Abimeleque, em conluio e conchavo com os habitantes de Siquém, assassinou sessenta e nove de seus meio-irmãos, escapando apenas Jotão, o filho caçula de Gideão (9.1-5). Logo após o massacre, os cidadãos de Siquém e Bete-Milo proclamaram Abimeleque rei (v. 6). Algo que não pode ser olvidado na leitura e interpretação de Juízes, é a anarquia reinante na época: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (21.25; cf. 17.6). Esta espécie de refrão literário é de suma importância para podermos compreender as narrativas de Juízes. A proclamação de Abimeleque como rei, bem como sua impiedosa trama, claramente, se apresentam como manifestações da iniquidade característica daquele período.

III – A PARÁBOLA
Quando Jotão soube da proclamação, colocou-se no alto do monte Gerizim, e, tendo chamado a atenção de todos os habitantes de Siquém, proferiu sua parábola (vv. 8-15):
8 Foram, certa vez, as árvores ungir para si um rei e disseram à oliveira: Reina sobre nós. 9 Porém a oliveira lhes respondeu: Deixaria eu o meu óleo, que Deus e os homens em mim prezam, e iria pairar sobre as árvores? 10 Então, disseram as árvores à figueira: Vem tu e reina sobre nós. 11 Porém a figueira lhes respondeu: Deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto e iria pairar sobre as árvores? 12 Então, disseram as árvores à videira: Vem tu e reina sobre nós. 13 Porém a videira lhes respondeu: Deixaria eu o meu vinho, que agrada a Deus e aos homens, e iria pairar sobre as árvores? 14 Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu e reina sobre nós. 15 Respondeu o espinheiro às árvores: Se, deveras, me ungis rei sobre vós, vinde e refugiai-vos debaixo de minha sombra; mas, se não, saia do espinheiro fogo que consuma os cedros do Líbano.

3.1. As árvores frutíferas
A parábola de Jotão fala de diferentes árvores que buscam para si um rei. As árvores consultadas quanto à possibilidade de se tornarem reis foram: a Oliveira (v. 8), A Figueira (v. 10), a Videira (v. 12), e por último, o Espinheiro (v. 14). Nas árvores desejosas de um rei “temos a representação figurada do povo de Siquém, que estava descontente com o governo de Deus e ansiava por um líder nominal e visível, como tinham as nações pagãs vizinhas”.[4] Claramente, Abimeleque é representado na parábola pelo Espinheiro. Quando procuradas, a Oliveira, A Figueira e a Videira recusaram a proclamação como reis, em função do serviço que prestavam a Deus e aos homens (vv. 9,11,13). Matthew Henry diz o seguinte: “Elas [a oliveira, a figueira e a videira] o recusaram, preferindo servir a governar, fazer o bem a controlar”.[5] É deveras interessante o fato de que, as três árvores se recusam a “pairar sobre as árvores”. Elas foram convidadas a reinar, não obstante se recusaram a pairar. O que isso significa? O verbo hebraico nûa´ tem como ideia básica “a de um movimento repetitivo de um lado para outro”.[6] No caso, a ideia do verbo nuâ´ na resposta dada pelas três árvores frutíferas é que elas não estavam dispostas a deixarem suas ocupações úteis e seu serviço a Deus e aos homens para ficarem perambulando “de um lado para outro entre as árvores na condição de governante”.[7] Carl Edward Armerding afirma o mesmo: “Qualquer árvore com uma função útil na natureza estaria ocupada demais para dominar sobre as árvores. Somente o espinheiro, uma moita notória por espalhar fogo pelo solo do deserto, tem audácia de aceitar o convite”.[8] A utilidade do serviço das três árvores frutíferas consistia no fato, de que “azeite, figos e vinho eram os produtos mais valiosos da terra de Canaã, ao passo que o espinheiro não era bom para nada, mas para queimar”.[9] As três árvores frutíferas representam, no contexto, a Gideão e aos outros juízes, “que tinham recusado aceitar o estado e poder de rei”.[10] No capítulo 8, encontramos Gideão demonstrando modéstia, recusando governar sobre o povo de Israel: “Então, os homens de Israel disseram a Gideão: Domina sobre nós, tanto tu com teu filho e o filho de teu filho, porque nos livraste do poder dos midianitas. Porém Gideão lhes disse: Não dominarei sobre vós, nem tampouco meu filho dominará sobre vós; o SENHOR vos dominará”. Gideão preferiu continuar servindo a Deus obedientemente. Creio que Gideão, conhecendo o seu próprio coração, temia ser seduzido pelo poder e pelas honrarias. “O cargo honorífico pode tornar as pessoas orgulhosas e indolentes, e dessa forma estragar a sua utilidade, por meio da qual, em uma esfera inferior, honravam a Deus e ao homem. Por isso, aqueles que desejam fazer o bem têm medo de ser grandes”.[11]

Entendendo devidamente a parábola de Jotão, no que diz respeito à oliveira, figueira e videira, creio que podemos extrair um princípio por demais útil e edificante para nossas vidas como servos do Senhor, imbuídos da escolha de nossos líderes através de eleições. Devemos observar atentamente a existência ou não de ambição nas vidas dos potenciais líderes, pois como afirma Artur E. Cundall: “As pessoas de dignidade e influência dentro da comunidade, não estavam ansiosas para abandonar suas esferas de trabalho construtivo, trocando-o pela honraria dúbia da monarquia”.[12]

3.2. O Espinheiro
Os versículos 14 e 15 apresentam o convite das árvores ao espinheiro: “Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu e reina sobre nós. Respondeu o espinheiro às árvores: Se, deveras, me ungis rei sobre vós, vinde e refugiai-vos debaixo de minha sombra; mas, se não, saia do espinheiro fogo que consuma os cedros do Líbano”. Diferentemente das outras três árvores, o espinheiro não tinha nada de produtivo ou de valor a oferecer. Era uma planta absolutamente improdutiva, sendo, na verdade, um arbusto, e não uma árvore.[13] Nem mesmo sombra e abrigo eram proporcionados por esse arbusto. É mister recordar que, a maldição imprecada pelo Senhor em Gênesis 3.18 envolvia a produção de plantas infrutíferas e espinhosas, como cardos e abrolhos: “O espinheiro teve sua origem por meio de uma maldição e acabará no fogo”.[14] Cundall salienta que, o espinheiro se constituía em uma séria ameaça aos donos de lavouras, pois “no calor do verão, quando fagulhas incrementadas pelo vento podiam produzir incêndios de velocidade incrível, alimentados pelos excelentes combustíveis, os espinheiros secos”.[15]

O espinheiro, ao ser convidado pelas árvores prontamente aceitou a proposta. As suas palavras: “vinde e refugiai-vos debaixo da minha sombra”, indicam prontidão e até mesmo uma prévia ambição pelo posto honorífico oferecido. Ele não achou necessário pedir um tempo para refletir e considerar se deveria aceitar ou não. Além disso, apesar de convidar as árvores a se refugiarem debaixo da sua sombra, o espinheiro era incapaz de providenciar sombra para alguém: “o espinheiro, crescendo rente ao chão, praticamente não tem sombra, não podendo oferecer nenhuma proteção aos gigantes da floresta a cujos pés jazia”.[16] Qualquer que se chegasse para perto do espinheiro na busca por sombra, iria, na verdade, se machucar com os seus espinhos. Keil e Delitzsch afirmam que, “as palavras do espinheiro [...] contêm uma profunda ironia, na verdade, os siquemitas logo descobririam isso”.[17] Armerding também afirma: “O retrato é ridículo: a árvore que não consegue prover nenhuma sombra se oferece para ser sombra para as outras; aquela árvore que não tem nenhuma função se considera melhor do que os seus irmãos”.[18] Logo em seguida a esta falsa promessa, o espinheiro fala daquilo que lhe é próprio, a saber, a destruição: “mas, se não, saia do espinheiro fogo que consuma os cedros do Líbano”. Esta era a verdadeira natureza do espinheiro. A única coisa que ele poderia oferecer às demais árvores era o perigo da destruição e o sofrimento.

A interpretação dessa parte da parábola é simples e transparente na passagem. O próprio Jotão a apresenta:

Agora, pois, se deveras e sinceramente, procedestes, proclamando rei Abimeleque, e se bem vos portastes para com Jerubaal e para com a sua casa, e se com ele agistes segundo o merecimento dos seus feitos (porque meu pai pelejou por vós e, arriscando a vida, vos livrou das mãos dos midianitas; porém vós, hoje, vos levantastes contra a casa de meu pai e matastes seus filhos, setenta homens sobre uma pedra; e a Abimeleque, filho de sua serva, fizestes reinar sobre os cidadãos de Siquém, porque é vosso irmão), se, deveras e sinceramente, procedestes, hoje, com Jerubaal e com a sua casa, alegrai-vos com Abimeleque, e também ele se alegre convosco. Mas, se não, saia fogo de Abimeleque e consuma os cidadãos de Siquém e Bete-Milo; e saia fogo dos cidadãos de Siquém e Bete-Milo, que consuma a Abimeleque (vv. 16-20).

O espinheiro representa a pessoa ignominiosa de Abimeleque. Assim como aquele espinheiro, Abimeleque não tinha a mínima condição de prover qualquer benefício para os habitantes de Siquém. Ele não tinha capacidade de oferecer verdadeira segurança aos homens de Siquém. Inerente a Abimeleque era apenas a sua capacidade de oferecer dor, sofrimento e destruição.

Após lembrar as benesses que Gideão realizara em prol de todas aquelas pessoas, Jotão mostra a insensibilidade dos siquemitas em relação à família de seu pai. Eles não agiram conforme “o merecimento dos seus feitos”. Jotão foca a loucura de Abimeleque e dos siquemitas.

IV - CONCLUSÃO
Que lições extraordinárias, sérias, graves e solenes podem ser extraídas dessa passagem! O exemplo do espinheiro Abimeleque ensina que aqueles que são ávidos pelo poder e pelas posições honoríficas, na verdade, são pessoas indignas daquilo que tanto anseiam. Matthew Henry diz algo muito interessante: “Não vamos nos surpreender em ver o tolo assentar-se em grandes alturas (Ec 10.6), os mais vis dos filhos dos homens serem exaltados (Sl 12.8) e os homens serem cegos para os seus próprios interesses na escolha dos seus guias”.[19]

Através do exemplo das árvores frutíferas podemos aprender que ausência de ambição é uma evidência por demais importante de dignidade e verdadeira vocação. Homens dignos não se degladiam na busca pelo poder. Pelo contrário, eles relutam diante das honrarias oferecidas. A história apresenta exemplos que consubstanciam isso. Tem-se o exemplo do profeta Jeremias, que via a si mesmo como um menino (Jeremias 1.6). Tem-se o exemplo de Moisés, que via sua dificuldade no falar como incapacidade para a grandiosa tarefa que Deus colocava diante de si (Êxodo 4.10). Os melhores e mais capazes homens não ambicionam reinar sobre o povo. O Senhor Jesus Cristo deixou isso claro: “Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mateus 20.25,26). Há algo maior que ser rei, presidente de presbitério, sínodo e Supremo Concílio.

Outra lição que pode ser extraída da parábola de Jotão, é que quando os ambiciosos, por seu egoísmo, procuram todos os meios para ocuparem posições honrosas e nelas se perpetuarem, isso certamente resultará em prejuízo para aqueles que são governados. Quando vemos homens maquinando, organizando conluios e conchavos, utilizando-se de expedientes escusos, legais, porém antiéticos para galgarem a presidência de determinadas diretorias, podemos estar certos de se tratarem de Abimeleques do nosso tempo. Particularmente, fico preocupado quando vejo homens ambicionando cargos honoríficos em nosso meio. Nossas árvores acabam sendo lideradas por espinheiros, consequentemente, seremos vítimas do seu fogo.

Por fim, uma palavra a respeito de muitas pessoas que recusam cargos de liderança, motivados não por verdadeira humildade, mas por algum outro sentimento carnal. A Igreja recebeu de Deus o discernimento para escolher seus líderes, portanto, ela é capaz de reconhecer os dons e a vocação que pessoas receberam da parte do Senhor. Em muitas ocasiões, em eleições de sociedades internas e até mesmo nos concílios da Igreja, pessoas verdadeiramente preparadas e capacitadas rejeitam cargos. O resultado, como pode ser visto na parábola de Jotão, é que quando as árvores frutíferas dos nossos dias rejeitam peremptoriamente cargos na Igreja, e por motivos completamente alheios aos apresentados pelas árvores frutíferas da parábola, espinheiros acabam ocupando tais cargos e trazendo fogo sobre todas as árvores. Portanto, tenhamos cuidado e examinemos nossa consciência na hora de aceitar ou recusar um cargo de liderança. Devemos nos perguntar: Por qual razão desejo estou aceitando esse cargo? Por qual razão estou recusando o mesmo? Tanto aceitar motivado por ambição quanto recusar motivado por egoísmo é pecado diante do Senhor. O exemplo de verdadeira humildade pode ser encontrado na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20.28).

Que o Senhor nos abençoe! Amém!

NOTAS:

[1] Existe muita discussão quanto à classificação dessa perícope. Alguns não aceitam o seu caráter parabólico, reputando-a como uma simples fábula ou um mero apólogo. Não obstante, concordo com o arrazoado feito pelo estudioso Herbert Lockyer, que defende que Juízes 9.7-21 é uma parábola. Para a discussão empreendida por Lockyer, ver a sua excelente obra Todas as Parábolas da Bíblia, (São Paulo: Vida, 2006), 35. De igual modo, Gerard van Groningen classifica a passagem em questão como uma parábola. Cf. Revelação Messiânica no Antigo Testamento, (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), 257.

[2] Juízes 9.1 diz o seguinte: “Abimeleque, filho de Jerubaal...”. Devemos lembrar que, em Juízes 6.32, Gideão passou a se chamar Jerubaal, em razão de ter ele derribado o altar de Baal. Cf. Juízes 7.1.

[3] Gerard van Groningen, Revelação Messiânica no Antigo Testamento, 256.

[4] Herbert Lockyer, Todas as Parábolas da Bíblia, 36.

[5] Matthew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento: Josué a Ester, (Rio de Janeiro: CPAD, 2010), 136.

[6] Andrew Bowling, In: R. Laird Harris, Gleason L. Archer Jr., e Bruce K. Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, (São Paulo: Vida Nova, 2001), 940.

[7] Ibid.

[8] Carl Edward Armerding, In: F. F. Bruce (Org.), Comentário Bíblico NVI Antigo e Novo Testamentos, (São Paulo: Vida, 2009), 447.

[9] C. F. Keil and F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament in Ten Volumes: Joshua, Judges, Ruth, I & II Samuel, Vol. 2, (Grand Rapids, MI: Eerdmans Publishing Company, 1991), 363. Minha tradução.

[10] Matthew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento: Josué a Ester, 136.

[11] Ibid, 137.

[12] Artur E. Cundall e Leon Morris, Juízes e Rute: Introdução e Comentário, (São Paulo: Vida Nova, 2008), 125.

[13] Herbert Lockyer, Todas as Parábolas da Bíblia, 37.

[14] Matthew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento: Josué a Ester, 137.

[15] Artur E. Cundall e Leon Morris, Juízes e Rute: Introdução e Comentário, 125.

[16] Ibid.

[17] C. F. Keil and F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament in Ten Volumes: Joshua, Judges, Ruth, I & II Samuel, Vol. 2, 364.

[18] Carl Edward Armerding, In: F. F. Bruce (Org.), Comentário Bíblico NVI Antigo e Novo Testamentos, 447.

[19] Matthew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento: Josué a Ester, 137.

Um comentário:

Roots disse...

Muito boa explanação do assunto !
Fiquei feliz com a sabedoria que o Senhor lhe concedeu !
Continue assim para melhor !

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