quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A INDISSOCIABILIDADE DA PALAVRA E DO ESPÍRITO

“Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mateus 22.29)

Com muita frequência, as palavras do texto acima são utilizadas por alguns pentecostais e neopentecostais para estereotipar e rotular os cristãos reformados. Certa feita, eu discutia com determinada pessoa, que acabara de sair de uma igreja presbiteriana por ter sido seduzido pela operação do erro neopentecostal. Depois de questionar os supostos fenômenos narrados, ele olhou nos meus olhos e disse o seguinte: “Jesus afirmou: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus. Pois é, os presbiterianos conhecem muito as Escrituras, porém, não conhecem o poder de Deus”. Outra passagem que frequentemente é utilizada pelos grupos carismáticos e entusiastas para estabelecer uma dissociação entre a Palavra e o Espírito, é 2 Coríntios 3.6: “o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito edifica”. Dizem eles, que os grupos reformados se prendem demais à letra e não ao Espírito.

Tais afirmações são absurdamente inverídicas e fruto de uma estrutura hermenêutica deficiente. João Calvino, que em sua época já lutava contra essa postura arrogante, afirmou que, “aqueles que, repudiada a Escritura, imaginam não sei que via de acesso a Deus, devem ser considerados não só possuídos pelo erro, mas também exacerbados pela loucura”.[1] Tais loucos já dissociavam a Palavra do Espírito, e a rotulavam de “letra morta”. Diz Calvino: “fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata”.[2]

Calvino, seguindo o cristalino ensinamento das Sagradas Escrituras, afirma que é demonstração de insanidade e “nefando sacrilégio” separar os dois elementos unidos por um vínculo inviolável. O reformador francês fundamenta seu argumento, nas Institutas, na passagem de Isaías 59.21: “Quanto a mim, esta é a minha aliança com eles, diz o SENHOR: o meu Espírito, que está sobre ti, e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se apartarão dela, nem da de teus filhos, nem da dos filhos de teus filhos, não se apartarão desde agora e para todo o sempre, diz o SENHOR”. Os dois elementos estão unidos aqui: o Espírito e a Palavra. No seu comentário de Isaías, Calvino afirma que, “este é o mais valioso tesouro da Igreja, que Ele [Deus] escolheu para si uma habitação em que, para habitar nos corações dos crentes por seu Espírito, e junto a isso preservar entre eles a doutrina do evangelho”.[3]

O Senhor Jesus Cristo afirmou em João 6.63: “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida”. A Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, em suas proposições e sentenças é espírito e é vida. Colocando esse versículo lado a lado com 2 Coríntios 3.6, podemos perceber que, logicamente, Jesus e Paulo estão falando de coisas diferentes. Mais uma vez, Calvino afirma o seguinte: “Ora, salta à vista que Paulo está ali [2Co 3.6] a contender com os falsos apóstolos, os quais, na realidade, insistindo na lei à parte de Cristo, alienavam o povo da graça de Cristo”.[4] Os pentecostais laboram em erro na interpretação do texto paulino. O fato, é que é impossível que o Espírito Santo e a Palavra de Deus sejam separados. Prova adicional disso, é quando entendemos a obra do Espírito na regeneração. Esta é um ato monergístico e soberano do Espírito (João 3.3-8). Ao mesmo tempo, o ensino escriturístico é que a Palavra possui papel preponderante na regeneração: “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tiago 1.18).

Creio que o fundamento dessa bendita verdade está na Palavra como o ponto de contato entre o Criador e o homem. O verdadeiro conhecimento e a verdadeira comunhão com Deus só são possíveis por meio da revelação especial de Deus: a Palavra escriturada e, acima de tudo, a Palavra encarnada, Jesus Cristo. Sem a revelação especial todas as tentativas de se conhecer a Deus de forma pessoal são, em última análise, vazias, fúteis e sem sentido. É por isso que, no Antigo Testamento encontramos os profetas empregando a conhecida fórmula da elocução profética: “Assim diz o SENHOR”, e no Novo Testamento já encontramos o Senhor Jesus Cristo dizendo: “Em verdade, em verdade vos digo”. Aqui, a Palavra, o Verbo é Deus!

Aqueles, pois, que pela graça e misericórdia de Deus, verdadeiramente conhecem as Escrituras também conhecem o poder de Deus. É impossível conhecer verdadeira e de forma pessoal a Palavra e não conhecer a Deus. Segue-se disso, que também é impossível conhecer a Deus verdadeira e pessoalmente e não conhecer o seu poder.
Louvado seja o Senhor por Sua Palavra!

NOTAS:

[1] João Calvino, As Institutas: Edição Clássica, I.9.1, (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), 99.

[2] Ibid.

[3] John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, Vol. 4, Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1999), 170. Extraído do site http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom16.html. Minha tradução.

[4] João Calvino, As Institutas: Edição Clássica, I.9.3, 101.

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