sábado, 30 de outubro de 2010

A REFORMA PROTESTANTE: HISTÓRIA E RELEVÂNCIA DOS SOLAS - 1ª PARTE

Palestra ministrada na Igreja Presbiteriana Filadélfia (Marabá-PA)

• INTRODUÇÃO
Meus amados e queridos irmãos, no dia 31 do presente mês a Reforma Protestante completará a extraordinária idade de 493 anos. Talvez você possa se perguntar: “O quê que eu tenho a ver com isso?” Pois bem, eu respondo a você que: TUDO! Visto que você só se encontra hoje na Igreja Presbiteriana do Brasil, porque, no passado, Deus usou um homem para dar início a esse empreendimento tão fantástico.

O que é interessante é que a partir do momento em que a Reforma estourou, os adeptos desse movimento passaram a ser conhecidos como “os Protestantes”. Por exemplo, o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, define o termo protestante como, “1. Que protesta; 2. Relativo ao, ou próprio do protestantismo; 3. Diz-se de membros de igrejas[sic] não-católicas”. Como tal, o termo define bem aqueles que tomaram parte no protesto encabeçado por Martinho Lutero. O que nós temos a ver com a Reforma Protestante? Nós somos protestantes.

O lamentável, é que vivemos uma época em que isso tem sido esquecido, ou pelo menos eclipsado por pessoas que estão no seio da igreja evangélica, mas que consideram esse evento como apenas um detalhe que ficou num passado bem distante. Infelizmente, não enxergam na Reforma princípios bíblicos que são imprescindíveis para a nossa saúde espiritual. Existem pessoas que acham que a verdade é uma espécie de elemento mutável, ou seja, ela muda com o passar dos anos e dos séculos. Isso quer dizer que, existem indivíduos desagregadores dentro de nossas igrejas que pensam que o que foi verdade na época em que a Reforma estourou não é verdade hoje. Por conseguinte, não precisa ser investigada hoje, muito menos estabelecida como corpo de verdades de nossa igreja.

Nós somos jovens, e num sentido bem específico, somos o futuro da Igreja Protestante. Aqui se encontram (assim eu espero), futuros líderes da Igreja Protestante de um modo geral, e futuros líderes da Igreja Presbiteriana Filadélfia. Assim sendo, considero como de extrema importância que vocês, meus amados irmãos, tão bombardeados pela nossa sociedade, vocês que são os principais alvos do inimigo na tentativa de minar a vitalidade espiritual de nossa igreja, vocês precisam conhecer o que motivou a Reforma e os seus princípios, para enxergar neles, princípios úteis para a nossa época moribunda e decadente.

ELUCIDAÇÃO HISTÓRICA
A primeira coisa que precisamos compreender é: POR QUE ACONTECEU A REFORMA? O QUE MOTIVOU A REFORMA PROTESTANTE? A resposta a essa pergunta não é fácil. Ela exigiria uma análise histórica que remontasse há muitos anos antes, pelo menos até aos séculos XIV e XV, com os homens que são considerados como os “pré-reformadores”, que são eles: o inglês John Wycliff, que atacou as irregularidades do clero da igreja medieval, as superstições, o purgatório, o celibato clerical, e a autoridade papal. O outro foi o sacerdote e professor da Universidade de Praga, o boêmio John Huss, que atacou a autoridade papal. Ambos foram perseguidos e excomungados pela igreja católica romana. John Huss foi assassinado em uma fogueira, enquanto Wycliff teve os seus ossos exumados e jogados fora.

É interessante, meus amados irmãos, como um único evento na história do Cristianismo recebe interpretações tão diversas como a Reforma Protestante do século XVI. Por exemplo, historiadores protestantes interpretam a Reforma amplamente como um movimento religioso que procurou redescobrir a pureza do cristianismo primitivo como ele é descrito no Novo Testamento. Esta interpretação tende a ignorar os fatores econômicos, políticos e intelectuais que ajudaram a promover a Reforma. Segundo esta interpretação, a Providência divina é o fator primordial e precede todos os outros fatores.

Já os historiadores católicos romanos interpretam a Reforma como uma heresia inspirada por Martinho Lutero por causa de várias razões, entre as quais a vontade de se casar. O protestantismo é visto como um cisma herético que destruiu a unidade teológica e eclesiástica da igreja católica medieval. De acordo com esse ponto de vista católico, Lutero foi um herege, mas esses historiadores geralmente se esquecem de que a igreja medieval já tinha se afastado do ideal do Novo Testamento, ou seja, ela já havia se tornado herege. É certo que, existiram causas econômicas, sociais, políticas, intelectuais e morais envolvidas. No entanto, temos como pressuposto que a Reforma foi um movimento que aconteceu como uma ação de Deus, em trazer a sua Igreja de volta à pureza que ela havia perdido com o passar do tempo. Os reformadores estavam interessados em desenvolver uma teologia que estivesse em completa concordância com o Novo Testamento; eles criam que isto seria possível a partir do instante em que a Bíblia se tornasse a autoridade final da igreja.

Agora, passemos aos eventos que culminaram na Reforma Protestante, propriamente dita.

Martinho Lutero nasceu no ano de 1483. Ele era filho de um latifundiário de minas. A vontade do pai de Lutero era que o seu filho estudasse direito e se tornasse advogado. Entretanto, após sobreviver a uma grande tempestade, Lutero fez uma promessa a Santa Ana que se tornaria monge. Em 1507, ele foi ordenado monge e celebrou sua primeira missa.

Lutero era um homem profundamente angustiado por causa da sua alma. Ele tornou-se um importante professor de teologia na Universidade de Wittenberg. Os seus estudos só fizeram aguçar a sua luta interior. Ele não entendia como Deus poderia se relacionar com pecadores, visto que a justiça de Deus era entendida por ele apenas em sentido punitivo. A idéia da justiça de Deus atormentava Lutero. Foi então que, no ano de 1517, quando estava dando aulas sobre a Epístola de Paulo aos Romanos, mais precisamente quando leu o verso 17 do capítulo 1, que Lutero se convenceu de que somente pela fé em Cristo era possível alguém se tornar justo aos olhos de Deus. Esse princípio, posteriormente, foi desenvolvido e se apresentou como a famosa doutrina da Justificação pela Fé. Além disso, ele passou a entender que apenas a Bíblia, apenas a Escritura era a autoridade única para o crente.

Isso é importante por causa dos acontecimentos posteriores. Em 1517, um monge dominicano, chamado John Tetzel, começou a vender indulgências na cidade de Jüterborg, próximo a Wittenberg. Lutero se revoltou contra a exploração do povo pelo sistema de venda das indulgências, e decidiu fazer um protesto público. Tetzel ensinava que o arrependimento não era necessário para quem comprasse uma indulgência, por si mesma capaz de dar perdão completo de todo pecado.

No dia 31 de outubro de 1517, Lutero afixou suas 95 Teses na porta da Catedral de Wittenberg. Nelas, ele condenava os abusos do sistema das indulgências e desafiava a todos para um debate sobre um assunto. O interessante, meus amados irmãos, é que Lutero confiava que receberia o apoio do papa pelo fato de revelar os males do tráfico das indulgências. Quem lê as 95 Teses pode perceber que Lutero critica apenas a venda das indulgências com a intenção de reformá-lo. Por exemplo, a Tese nº 1, diz o seguinte: “Dizendo nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo: Arrependei-vos..., certamente quer que toda a vida dos seus crentes na terra seja contínuo arrependimento”. A Tese nº 5 também é muito interessante: “O papa não tem o desejo nem o poder de perdoar quaisquer penas, exceto aquelas que ele impôs por sua própria vontade ou segundo a vontade dos cânones”. Inicialmente, não era intenção de Lutero se separar da igreja católica romana. Mas, entre 1518 e 1521, ele foi forçado a admitir que a separação do romanismo era a única alternativa para se chegar a uma reforma que honrasse a Deus e levasse a Igreja para mais perto do ideal do Novo Testamento. Infelizmente, são poucos que conhecem as 95 Teses de Lutero. A grande maioria não conhece nenhuma delas. E como disse certa vez o pastor suíço Karl Barth, “uma igreja que não conhece a sua história é uma igreja alienada”. Na verdade, é como uma pessoa que não conhece os seus verdadeiros pais. Ela não sabe de onde vem, e fica sem referenciais para ir adiante.

Não é meu propósito falar acerca de todos os acontecimentos envolvidos na Reforma Protestante do século XVI. Isso requereria muito mais tempo do que dispomos. Precisaria de muito tempo pra falar sobre toda a contribuição de Lutero na Alemanha, de Calvino na França e na Suíça, de Zuínglio na Suíça, de John Knox, fundador do presbiterianismo, na Escócia. Mas não farei isso. Nesta noite, eu gostaria de iniciar pra vocês, meus amados jovens em Cristo, a exposição de uma parte do legado que a Reforma Protestante nos deixou. Em 493 anos, esses princípios, solidamente embasados na Bíblia, são reconhecidos como verdadeiros tesouros, os quais a Igreja do Senhor deve amar e defender contra qualquer investida do inimigo. Quero iniciar hoje a exposição dos Cinco Solas da Reforma: Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solus Christus, e Soli Deo Gloria.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A PARÁBOLA DE JOTÃO

I - INTRODUÇÃO
Vivemos um período importante para a nossa nação. Atravessamos o período eleitoral, no qual, através do voto, escolhemos aqueles que liderarão nosso país. Os cristãos protestantes de tradição reformada e presbiteriana convivem com eleições de uma forma mais ampla do que a maioria das pessoas, visto que, com frequência, têm de escolher através do voto os seus líderes espirituais. As ocasiões nas quais os reformados escolhem os seus líderes são as mais variadas. Existem eleições para: sociedades internas, diáconos, presbíteros regentes, presbíteros docentes (pastores), comissão executiva de presbitério, sínodo e supremo concílio (tesoureiro, secretário executivo, secretário de atas, secretário de protocolo, vice-presidente e presidente).

Com isso em mente, creio que deveríamos atentar para alguns princípios existentes na passagem de Juízes 9.7-21, passagem esta conhecida como A Parábola de Jotão.[1] Antes disso, é extremamente necessário compreendermos o contexto no qual o texto está inserido.

II – O CONTEXTO
Juízes 9 tem início com o relato da trama arquitetada por Abimeleque, filho de Gideão.[2] Abimeleque não desempenhou papel como um dos juízes de Israel. Na verdade, ele era filho ilegítimo de Gideão. Sua mãe era “uma concubina de Siquém, lugar que se tornara um centro do culto de Baal, embora fosse o sítio onde Josué celebrara a cerimônia de renovação do pacto”.[3] Evidentemente, Abimeleque era um homem sem piedade alguma, o que fica claro pela forma como obteve o seu reinado: assassinato, conspiração e usurpação. O texto nos diz que Abimeleque, em conluio e conchavo com os habitantes de Siquém, assassinou sessenta e nove de seus meio-irmãos, escapando apenas Jotão, o filho caçula de Gideão (9.1-5). Logo após o massacre, os cidadãos de Siquém e Bete-Milo proclamaram Abimeleque rei (v. 6). Algo que não pode ser olvidado na leitura e interpretação de Juízes, é a anarquia reinante na época: “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada um fazia o que achava mais reto” (21.25; cf. 17.6). Esta espécie de refrão literário é de suma importância para podermos compreender as narrativas de Juízes. A proclamação de Abimeleque como rei, bem como sua impiedosa trama, claramente, se apresentam como manifestações da iniquidade característica daquele período.

III – A PARÁBOLA
Quando Jotão soube da proclamação, colocou-se no alto do monte Gerizim, e, tendo chamado a atenção de todos os habitantes de Siquém, proferiu sua parábola (vv. 8-15):
8 Foram, certa vez, as árvores ungir para si um rei e disseram à oliveira: Reina sobre nós. 9 Porém a oliveira lhes respondeu: Deixaria eu o meu óleo, que Deus e os homens em mim prezam, e iria pairar sobre as árvores? 10 Então, disseram as árvores à figueira: Vem tu e reina sobre nós. 11 Porém a figueira lhes respondeu: Deixaria eu a minha doçura, o meu bom fruto e iria pairar sobre as árvores? 12 Então, disseram as árvores à videira: Vem tu e reina sobre nós. 13 Porém a videira lhes respondeu: Deixaria eu o meu vinho, que agrada a Deus e aos homens, e iria pairar sobre as árvores? 14 Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu e reina sobre nós. 15 Respondeu o espinheiro às árvores: Se, deveras, me ungis rei sobre vós, vinde e refugiai-vos debaixo de minha sombra; mas, se não, saia do espinheiro fogo que consuma os cedros do Líbano.

3.1. As árvores frutíferas
A parábola de Jotão fala de diferentes árvores que buscam para si um rei. As árvores consultadas quanto à possibilidade de se tornarem reis foram: a Oliveira (v. 8), A Figueira (v. 10), a Videira (v. 12), e por último, o Espinheiro (v. 14). Nas árvores desejosas de um rei “temos a representação figurada do povo de Siquém, que estava descontente com o governo de Deus e ansiava por um líder nominal e visível, como tinham as nações pagãs vizinhas”.[4] Claramente, Abimeleque é representado na parábola pelo Espinheiro. Quando procuradas, a Oliveira, A Figueira e a Videira recusaram a proclamação como reis, em função do serviço que prestavam a Deus e aos homens (vv. 9,11,13). Matthew Henry diz o seguinte: “Elas [a oliveira, a figueira e a videira] o recusaram, preferindo servir a governar, fazer o bem a controlar”.[5] É deveras interessante o fato de que, as três árvores se recusam a “pairar sobre as árvores”. Elas foram convidadas a reinar, não obstante se recusaram a pairar. O que isso significa? O verbo hebraico nûa´ tem como ideia básica “a de um movimento repetitivo de um lado para outro”.[6] No caso, a ideia do verbo nuâ´ na resposta dada pelas três árvores frutíferas é que elas não estavam dispostas a deixarem suas ocupações úteis e seu serviço a Deus e aos homens para ficarem perambulando “de um lado para outro entre as árvores na condição de governante”.[7] Carl Edward Armerding afirma o mesmo: “Qualquer árvore com uma função útil na natureza estaria ocupada demais para dominar sobre as árvores. Somente o espinheiro, uma moita notória por espalhar fogo pelo solo do deserto, tem audácia de aceitar o convite”.[8] A utilidade do serviço das três árvores frutíferas consistia no fato, de que “azeite, figos e vinho eram os produtos mais valiosos da terra de Canaã, ao passo que o espinheiro não era bom para nada, mas para queimar”.[9] As três árvores frutíferas representam, no contexto, a Gideão e aos outros juízes, “que tinham recusado aceitar o estado e poder de rei”.[10] No capítulo 8, encontramos Gideão demonstrando modéstia, recusando governar sobre o povo de Israel: “Então, os homens de Israel disseram a Gideão: Domina sobre nós, tanto tu com teu filho e o filho de teu filho, porque nos livraste do poder dos midianitas. Porém Gideão lhes disse: Não dominarei sobre vós, nem tampouco meu filho dominará sobre vós; o SENHOR vos dominará”. Gideão preferiu continuar servindo a Deus obedientemente. Creio que Gideão, conhecendo o seu próprio coração, temia ser seduzido pelo poder e pelas honrarias. “O cargo honorífico pode tornar as pessoas orgulhosas e indolentes, e dessa forma estragar a sua utilidade, por meio da qual, em uma esfera inferior, honravam a Deus e ao homem. Por isso, aqueles que desejam fazer o bem têm medo de ser grandes”.[11]

Entendendo devidamente a parábola de Jotão, no que diz respeito à oliveira, figueira e videira, creio que podemos extrair um princípio por demais útil e edificante para nossas vidas como servos do Senhor, imbuídos da escolha de nossos líderes através de eleições. Devemos observar atentamente a existência ou não de ambição nas vidas dos potenciais líderes, pois como afirma Artur E. Cundall: “As pessoas de dignidade e influência dentro da comunidade, não estavam ansiosas para abandonar suas esferas de trabalho construtivo, trocando-o pela honraria dúbia da monarquia”.[12]

3.2. O Espinheiro
Os versículos 14 e 15 apresentam o convite das árvores ao espinheiro: “Então, todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu e reina sobre nós. Respondeu o espinheiro às árvores: Se, deveras, me ungis rei sobre vós, vinde e refugiai-vos debaixo de minha sombra; mas, se não, saia do espinheiro fogo que consuma os cedros do Líbano”. Diferentemente das outras três árvores, o espinheiro não tinha nada de produtivo ou de valor a oferecer. Era uma planta absolutamente improdutiva, sendo, na verdade, um arbusto, e não uma árvore.[13] Nem mesmo sombra e abrigo eram proporcionados por esse arbusto. É mister recordar que, a maldição imprecada pelo Senhor em Gênesis 3.18 envolvia a produção de plantas infrutíferas e espinhosas, como cardos e abrolhos: “O espinheiro teve sua origem por meio de uma maldição e acabará no fogo”.[14] Cundall salienta que, o espinheiro se constituía em uma séria ameaça aos donos de lavouras, pois “no calor do verão, quando fagulhas incrementadas pelo vento podiam produzir incêndios de velocidade incrível, alimentados pelos excelentes combustíveis, os espinheiros secos”.[15]

O espinheiro, ao ser convidado pelas árvores prontamente aceitou a proposta. As suas palavras: “vinde e refugiai-vos debaixo da minha sombra”, indicam prontidão e até mesmo uma prévia ambição pelo posto honorífico oferecido. Ele não achou necessário pedir um tempo para refletir e considerar se deveria aceitar ou não. Além disso, apesar de convidar as árvores a se refugiarem debaixo da sua sombra, o espinheiro era incapaz de providenciar sombra para alguém: “o espinheiro, crescendo rente ao chão, praticamente não tem sombra, não podendo oferecer nenhuma proteção aos gigantes da floresta a cujos pés jazia”.[16] Qualquer que se chegasse para perto do espinheiro na busca por sombra, iria, na verdade, se machucar com os seus espinhos. Keil e Delitzsch afirmam que, “as palavras do espinheiro [...] contêm uma profunda ironia, na verdade, os siquemitas logo descobririam isso”.[17] Armerding também afirma: “O retrato é ridículo: a árvore que não consegue prover nenhuma sombra se oferece para ser sombra para as outras; aquela árvore que não tem nenhuma função se considera melhor do que os seus irmãos”.[18] Logo em seguida a esta falsa promessa, o espinheiro fala daquilo que lhe é próprio, a saber, a destruição: “mas, se não, saia do espinheiro fogo que consuma os cedros do Líbano”. Esta era a verdadeira natureza do espinheiro. A única coisa que ele poderia oferecer às demais árvores era o perigo da destruição e o sofrimento.

A interpretação dessa parte da parábola é simples e transparente na passagem. O próprio Jotão a apresenta:

Agora, pois, se deveras e sinceramente, procedestes, proclamando rei Abimeleque, e se bem vos portastes para com Jerubaal e para com a sua casa, e se com ele agistes segundo o merecimento dos seus feitos (porque meu pai pelejou por vós e, arriscando a vida, vos livrou das mãos dos midianitas; porém vós, hoje, vos levantastes contra a casa de meu pai e matastes seus filhos, setenta homens sobre uma pedra; e a Abimeleque, filho de sua serva, fizestes reinar sobre os cidadãos de Siquém, porque é vosso irmão), se, deveras e sinceramente, procedestes, hoje, com Jerubaal e com a sua casa, alegrai-vos com Abimeleque, e também ele se alegre convosco. Mas, se não, saia fogo de Abimeleque e consuma os cidadãos de Siquém e Bete-Milo; e saia fogo dos cidadãos de Siquém e Bete-Milo, que consuma a Abimeleque (vv. 16-20).

O espinheiro representa a pessoa ignominiosa de Abimeleque. Assim como aquele espinheiro, Abimeleque não tinha a mínima condição de prover qualquer benefício para os habitantes de Siquém. Ele não tinha capacidade de oferecer verdadeira segurança aos homens de Siquém. Inerente a Abimeleque era apenas a sua capacidade de oferecer dor, sofrimento e destruição.

Após lembrar as benesses que Gideão realizara em prol de todas aquelas pessoas, Jotão mostra a insensibilidade dos siquemitas em relação à família de seu pai. Eles não agiram conforme “o merecimento dos seus feitos”. Jotão foca a loucura de Abimeleque e dos siquemitas.

IV - CONCLUSÃO
Que lições extraordinárias, sérias, graves e solenes podem ser extraídas dessa passagem! O exemplo do espinheiro Abimeleque ensina que aqueles que são ávidos pelo poder e pelas posições honoríficas, na verdade, são pessoas indignas daquilo que tanto anseiam. Matthew Henry diz algo muito interessante: “Não vamos nos surpreender em ver o tolo assentar-se em grandes alturas (Ec 10.6), os mais vis dos filhos dos homens serem exaltados (Sl 12.8) e os homens serem cegos para os seus próprios interesses na escolha dos seus guias”.[19]

Através do exemplo das árvores frutíferas podemos aprender que ausência de ambição é uma evidência por demais importante de dignidade e verdadeira vocação. Homens dignos não se degladiam na busca pelo poder. Pelo contrário, eles relutam diante das honrarias oferecidas. A história apresenta exemplos que consubstanciam isso. Tem-se o exemplo do profeta Jeremias, que via a si mesmo como um menino (Jeremias 1.6). Tem-se o exemplo de Moisés, que via sua dificuldade no falar como incapacidade para a grandiosa tarefa que Deus colocava diante de si (Êxodo 4.10). Os melhores e mais capazes homens não ambicionam reinar sobre o povo. O Senhor Jesus Cristo deixou isso claro: “Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva” (Mateus 20.25,26). Há algo maior que ser rei, presidente de presbitério, sínodo e Supremo Concílio.

Outra lição que pode ser extraída da parábola de Jotão, é que quando os ambiciosos, por seu egoísmo, procuram todos os meios para ocuparem posições honrosas e nelas se perpetuarem, isso certamente resultará em prejuízo para aqueles que são governados. Quando vemos homens maquinando, organizando conluios e conchavos, utilizando-se de expedientes escusos, legais, porém antiéticos para galgarem a presidência de determinadas diretorias, podemos estar certos de se tratarem de Abimeleques do nosso tempo. Particularmente, fico preocupado quando vejo homens ambicionando cargos honoríficos em nosso meio. Nossas árvores acabam sendo lideradas por espinheiros, consequentemente, seremos vítimas do seu fogo.

Por fim, uma palavra a respeito de muitas pessoas que recusam cargos de liderança, motivados não por verdadeira humildade, mas por algum outro sentimento carnal. A Igreja recebeu de Deus o discernimento para escolher seus líderes, portanto, ela é capaz de reconhecer os dons e a vocação que pessoas receberam da parte do Senhor. Em muitas ocasiões, em eleições de sociedades internas e até mesmo nos concílios da Igreja, pessoas verdadeiramente preparadas e capacitadas rejeitam cargos. O resultado, como pode ser visto na parábola de Jotão, é que quando as árvores frutíferas dos nossos dias rejeitam peremptoriamente cargos na Igreja, e por motivos completamente alheios aos apresentados pelas árvores frutíferas da parábola, espinheiros acabam ocupando tais cargos e trazendo fogo sobre todas as árvores. Portanto, tenhamos cuidado e examinemos nossa consciência na hora de aceitar ou recusar um cargo de liderança. Devemos nos perguntar: Por qual razão desejo estou aceitando esse cargo? Por qual razão estou recusando o mesmo? Tanto aceitar motivado por ambição quanto recusar motivado por egoísmo é pecado diante do Senhor. O exemplo de verdadeira humildade pode ser encontrado na pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo, que “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20.28).

Que o Senhor nos abençoe! Amém!

NOTAS:

[1] Existe muita discussão quanto à classificação dessa perícope. Alguns não aceitam o seu caráter parabólico, reputando-a como uma simples fábula ou um mero apólogo. Não obstante, concordo com o arrazoado feito pelo estudioso Herbert Lockyer, que defende que Juízes 9.7-21 é uma parábola. Para a discussão empreendida por Lockyer, ver a sua excelente obra Todas as Parábolas da Bíblia, (São Paulo: Vida, 2006), 35. De igual modo, Gerard van Groningen classifica a passagem em questão como uma parábola. Cf. Revelação Messiânica no Antigo Testamento, (São Paulo: Cultura Cristã, 2004), 257.

[2] Juízes 9.1 diz o seguinte: “Abimeleque, filho de Jerubaal...”. Devemos lembrar que, em Juízes 6.32, Gideão passou a se chamar Jerubaal, em razão de ter ele derribado o altar de Baal. Cf. Juízes 7.1.

[3] Gerard van Groningen, Revelação Messiânica no Antigo Testamento, 256.

[4] Herbert Lockyer, Todas as Parábolas da Bíblia, 36.

[5] Matthew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento: Josué a Ester, (Rio de Janeiro: CPAD, 2010), 136.

[6] Andrew Bowling, In: R. Laird Harris, Gleason L. Archer Jr., e Bruce K. Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, (São Paulo: Vida Nova, 2001), 940.

[7] Ibid.

[8] Carl Edward Armerding, In: F. F. Bruce (Org.), Comentário Bíblico NVI Antigo e Novo Testamentos, (São Paulo: Vida, 2009), 447.

[9] C. F. Keil and F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament in Ten Volumes: Joshua, Judges, Ruth, I & II Samuel, Vol. 2, (Grand Rapids, MI: Eerdmans Publishing Company, 1991), 363. Minha tradução.

[10] Matthew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento: Josué a Ester, 136.

[11] Ibid, 137.

[12] Artur E. Cundall e Leon Morris, Juízes e Rute: Introdução e Comentário, (São Paulo: Vida Nova, 2008), 125.

[13] Herbert Lockyer, Todas as Parábolas da Bíblia, 37.

[14] Matthew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento: Josué a Ester, 137.

[15] Artur E. Cundall e Leon Morris, Juízes e Rute: Introdução e Comentário, 125.

[16] Ibid.

[17] C. F. Keil and F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament in Ten Volumes: Joshua, Judges, Ruth, I & II Samuel, Vol. 2, 364.

[18] Carl Edward Armerding, In: F. F. Bruce (Org.), Comentário Bíblico NVI Antigo e Novo Testamentos, 447.

[19] Matthew Henry, Comentário Bíblico Antigo Testamento: Josué a Ester, 137.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A INDISSOCIABILIDADE DA PALAVRA E DO ESPÍRITO

“Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mateus 22.29)

Com muita frequência, as palavras do texto acima são utilizadas por alguns pentecostais e neopentecostais para estereotipar e rotular os cristãos reformados. Certa feita, eu discutia com determinada pessoa, que acabara de sair de uma igreja presbiteriana por ter sido seduzido pela operação do erro neopentecostal. Depois de questionar os supostos fenômenos narrados, ele olhou nos meus olhos e disse o seguinte: “Jesus afirmou: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus. Pois é, os presbiterianos conhecem muito as Escrituras, porém, não conhecem o poder de Deus”. Outra passagem que frequentemente é utilizada pelos grupos carismáticos e entusiastas para estabelecer uma dissociação entre a Palavra e o Espírito, é 2 Coríntios 3.6: “o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito edifica”. Dizem eles, que os grupos reformados se prendem demais à letra e não ao Espírito.

Tais afirmações são absurdamente inverídicas e fruto de uma estrutura hermenêutica deficiente. João Calvino, que em sua época já lutava contra essa postura arrogante, afirmou que, “aqueles que, repudiada a Escritura, imaginam não sei que via de acesso a Deus, devem ser considerados não só possuídos pelo erro, mas também exacerbados pela loucura”.[1] Tais loucos já dissociavam a Palavra do Espírito, e a rotulavam de “letra morta”. Diz Calvino: “fazem pouco caso de toda leitura da Bíblia e se riem da simplicidade daqueles que ainda seguem, como eles próprios a chamam, a letra morta e que mata”.[2]

Calvino, seguindo o cristalino ensinamento das Sagradas Escrituras, afirma que é demonstração de insanidade e “nefando sacrilégio” separar os dois elementos unidos por um vínculo inviolável. O reformador francês fundamenta seu argumento, nas Institutas, na passagem de Isaías 59.21: “Quanto a mim, esta é a minha aliança com eles, diz o SENHOR: o meu Espírito, que está sobre ti, e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se apartarão dela, nem da de teus filhos, nem da dos filhos de teus filhos, não se apartarão desde agora e para todo o sempre, diz o SENHOR”. Os dois elementos estão unidos aqui: o Espírito e a Palavra. No seu comentário de Isaías, Calvino afirma que, “este é o mais valioso tesouro da Igreja, que Ele [Deus] escolheu para si uma habitação em que, para habitar nos corações dos crentes por seu Espírito, e junto a isso preservar entre eles a doutrina do evangelho”.[3]

O Senhor Jesus Cristo afirmou em João 6.63: “O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida”. A Palavra de Deus, a Bíblia Sagrada, em suas proposições e sentenças é espírito e é vida. Colocando esse versículo lado a lado com 2 Coríntios 3.6, podemos perceber que, logicamente, Jesus e Paulo estão falando de coisas diferentes. Mais uma vez, Calvino afirma o seguinte: “Ora, salta à vista que Paulo está ali [2Co 3.6] a contender com os falsos apóstolos, os quais, na realidade, insistindo na lei à parte de Cristo, alienavam o povo da graça de Cristo”.[4] Os pentecostais laboram em erro na interpretação do texto paulino. O fato, é que é impossível que o Espírito Santo e a Palavra de Deus sejam separados. Prova adicional disso, é quando entendemos a obra do Espírito na regeneração. Esta é um ato monergístico e soberano do Espírito (João 3.3-8). Ao mesmo tempo, o ensino escriturístico é que a Palavra possui papel preponderante na regeneração: “Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (Tiago 1.18).

Creio que o fundamento dessa bendita verdade está na Palavra como o ponto de contato entre o Criador e o homem. O verdadeiro conhecimento e a verdadeira comunhão com Deus só são possíveis por meio da revelação especial de Deus: a Palavra escriturada e, acima de tudo, a Palavra encarnada, Jesus Cristo. Sem a revelação especial todas as tentativas de se conhecer a Deus de forma pessoal são, em última análise, vazias, fúteis e sem sentido. É por isso que, no Antigo Testamento encontramos os profetas empregando a conhecida fórmula da elocução profética: “Assim diz o SENHOR”, e no Novo Testamento já encontramos o Senhor Jesus Cristo dizendo: “Em verdade, em verdade vos digo”. Aqui, a Palavra, o Verbo é Deus!

Aqueles, pois, que pela graça e misericórdia de Deus, verdadeiramente conhecem as Escrituras também conhecem o poder de Deus. É impossível conhecer verdadeira e de forma pessoal a Palavra e não conhecer a Deus. Segue-se disso, que também é impossível conhecer a Deus verdadeira e pessoalmente e não conhecer o seu poder.
Louvado seja o Senhor por Sua Palavra!

NOTAS:

[1] João Calvino, As Institutas: Edição Clássica, I.9.1, (São Paulo: Cultura Cristã, 2006), 99.

[2] Ibid.

[3] John Calvin, Commentary on the Book of the Prophet Isaiah, Vol. 4, Grand Rapids, MI: Christian Classics Ethereal Library, 1999), 170. Extraído do site http://www.ccel.org/ccel/calvin/calcom16.html. Minha tradução.

[4] João Calvino, As Institutas: Edição Clássica, I.9.3, 101.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O que significa quando dizemos que os sacramentos (Ceia e batismo) são sinais e selo?

Os termos "sinais" e "selos", falando dos sacramentos, denotam o seu caráter externo em distinção da realidade espiritual a eles unida. Os elementos utilizados nos sacramentos (água no batismo, pão e vinho na Ceia do Senhor) são as realidades externas ou símbolos das realidades espirituais sacramentais.

Um abraço e obrigado pela pergunta!

Pode perguntar... qualquer coisa...

Qual é sua posição escatológica? Amilenista, Pré-milenista histórico, pré-milenista dispensacionalista ou pós-milenista? E por quê ?

Antes de tudo, desculpe pela demora.

Muito embora eu ainda precise refinar melhor minha articulação a este respeito, minha posição escatológica é o amilenismo. As razões que me levam a isso são as seguintes (tentarei ser sintético): 1) não vejo o texto de Apocalipse 20.1-6 ensinando um milênio literal-futuro, mas sim simbolicamente; 2) eventos mencionados no Novo Testamento, como por exemplo, o retorno de Cristo e a ressurreição dos mortos (que acontecerá uma única vez), vindo logo em seguida o grande julgamento e o estado eterno. Ademais, tenho sérias dificuldades com o teonomismo compartilhado por muitos pós-milenistas. No mais, simpatizo com o preterismo parcial na interpretação de Apocalipse.

Um enorme abraço e obrigado pela pergunta!

Pode perguntar... qualquer coisa...

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

INCLINANDO-SE DIANTE DE ESPANTALHOS: UMA ANÁLISE DA NOVA PERSPECTIVA EM PAULO

R. C. SPROUL

R. C. Sproul nasceu em 1939, no estado da Pensilvânia. É ministro presbiteriano, pastor da Igreja St. Andrews Chapel, na Florida; fundador e presidente do ministério Ligonier, professor e palestrante em seminários e conferências; autor de dezenas de livros, vários deles publicados em português; possui um programa de rádio chamado: Renove sua Mente, o qual é transmitido para uma grande audiência nos EUA e para mais de 60 outros países; Suas graduações incluem passagem pelas seguintes universidades e centros de estudos teológicos: Westminster College, Pennsylvania, Pittsburgh Theological Seminary, Universidade livre de Amsterdã e Whitefield Theological Seminary. É casado com Vesta Ann e o casal tem dois filhos, já adultos.

“Não somos justificados pela fé por crermos na justificação pela fé. Somos justificados pela fé por crermos no próprio evangelho – em outras palavras, por crermos que Jesus é Senhor e que Deus o ressuscitou dos mortos” – N. T. Wright (“New Perspectives on Paul”, em Justification in Perspective).

Nos anos recentes, N. T. Wright, bispo inglês e erudito em Novo Testamento, emergiu como um ícone de teologia bíblica ao redor do mundo. Sua obra excelente sobre a ressurreição de Cristo tem influenciado muitas pessoas, incluindo Antony Flew, o ex-ateísta e famoso filósofo de seu próprio país, que se converteu ao deísmo. Wright é famoso também por ser um dos principais arquitetos da Nova Perspectiva sobre Paulo, na qual ele redefine a doutrina da justificação de um modo que transcende a disputa histórica entre o catolicismo romano e o protestantismo da Reforma. Em um sentido, Wright diz: “Uma praga em ambas as casas”, afirmando que tanto Roma como a Reforma entenderam errado e distorceram o ponto de vista bíblico quanto à justificação. Em sua resposta à crítica de John Piper à sua obra, Wright expressa condescendente menosprezo por Piper e por todos os que adotam o ponto de vista tradicional protestante quanto à justificação. Wright critica as tradições teológicas que ele acha não entendem o ensino bíblico.

No curso do debate, um dos argumentos mais enganadores e eficazes usado freqüentemente chama-se “falácia do espantalho”. O valor de um espantalho está no fato de que ele é uma imitação de um ser humano e idealizado para afastar alguns pássaros. É um recurso eficiente, mas não é tão eficaz como se um lavrador vigiasse seus próprios campos com uma espingarda. O lavrador feito de palha não é tão formidável como o verdadeiro lavrador. Isso é verdade no que diz respeito à diferença entre o autêntico e o falsificado. A falácia do espantalho acontece quando alguém cria um falso conceito da posição de seus oponentes em uma representação distorcida pela qual ele, então, destrói facilmente essa posição, em total refutação.

Uma das afirmações que N. T. Wright emprega, usando esse mesmo estratagema, é a declaração de que “não somos justificados pela fé por crermos na justificação pela fé”. Insinuar que a ortodoxia protestante crê que somos justificados por crermos na doutrina da justificação pela fé é o rei de todo os espantalhos. É o Golias dos espantalhos, o King Kong das falácias do espantalho. Em outras palavras, é uma grande mentira. Não sei de nenhum teólogo na história da tradição reformada que crê ou argumenta que uma pessoa pode ser justificada por crer na doutrina da justificação pela fé. Isso é pura e simples distorção da tradição reformada.

Na afirmação de Wright, vemos um argumento de espantalho que cai por seu próprio peso. Contém mais palha do que a figura de galhos pode suportar. A doutrina da justificação pela fé somente não ensina que a justificação acontece por crermos na doutrina da justificação pela fé somente; mas, de fato, ela ensina aquilo que é exatamente o oposto dessa idéia. A expressão “justificação pela fé somente” é uma abreviação teológica para afirmar que a justificação se dá somente por meio de Cristo. Qualquer um que entende e advoga a doutrina da justificação pela fé somente sabe que o ponto central é aquilo que justifica – confiança em Cristo e não confiança na doutrina.

Um dos termos-chave da expressão “justificação pela fé” é o vocábulo “por”, o qual demonstra que a fé é o meio ou o instrumento que nos une a Cristo e aos seus benefícios. O conceito indica que a fé é a causa “instrumental” de nossa justificação. O que está em vista na formulação protestante é uma distinção do ponto de vista católico romano quanto à causa instrumental. Roma declara que o sacramento do batismo, em primeira instância, e o da penitência, em segunda instância, são as causas instrumentais da justificação. Por isso, a disputa a respeito de que instrumento é a base pela qual somos justificados foi e continua sendo a disputa clássica entre a Igreja de Roma e o protestantismo. O ponto de vista protestante, seguindo o ensino de Paulo no Novo Testamento, é o de que a fé é o único instrumento pelo qual somos unidos a Cristo.

Intimamente relacionada a isso, está a disputadíssima questão dos fundamentos de nossa justificação diante de Deus. Nesse ponto, o conceito bíblico da imputação é sobremodo importante. Aqueles que negam a imputação como fundamento de nossa justificação declaram que isso é uma ficção jurídica, um erro judicial ou mesmo uma manifestação de abuso infantil cósmico. No entanto, ao mesmo tempo, a imputação é a explicação bíblica para o fundamento de nossa redenção. Nenhum texto bíblico ensina isso mais claramente esse conceito de transferência ou imputação do que o texto de Isaías 53, que a igreja do Novo Testamento ressaltou como uma explicação profética crucial do drama da redenção. O Novo Testamento declara que Cristo é a nossa justiça, e é precisamente a nossa confiança na justiça de Cristo como fundamento de nossa justificação que é o foco da doutrina da justificação pela fé. Entendemos que crer na doutrina de Sola Fides não salva ninguém. A fé em uma doutrina não é suficiente para salvar. Contudo, embora não sejamos salvos por crer na doutrina da justificação, a negação dessa mesma doutrina pode ser fatal, porque nega a doutrina da justificação pela fé somente. O apóstolo Paulo mostrou, na Epístola aos Gálatas, que tal negação equivale a rejeitar o evangelho e substituí-lo por alguma outra coisa; e isso resultaria em sua anatematização por parte de Paulo. O evangelho é importante demais para ser rejeitado por inclinar-nos diante de espantalhos.


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Traduzido por: Wellington Ferreira

Copyright:© Ligonier Ministries / Tabletalk Magazine / R. C. Sproul

© Editora FIEL 2010.

Traduzido do original em inglês: Tilting at Scarecrows, publicado na Revista Tabletalk, Fevereiro de 2010. Com permissão de Ligonier Ministries.

O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.
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