terça-feira, 7 de setembro de 2010

A URGÊNCIA DA PREGAÇÃO

Albert R. Mohler, Jr.

Será que a pregação diminui em tempos difíceis? Um debate aberto está agora sendo travado sobre o caráter e a centralidade da pregação na igreja. Está em jogo nada menos que a integridade do culto e da pregação cristã.
Como isso aconteceu? Tendo em vista a posição central da pregação na Igreja do Novo Testamento, pareceria que a prioridade da pregação bíblica seria incontestável. Afinal de contas, como John A. Broadus – um dos grandes pregadores da história cristã – observou notavelmente: “Pregação é característica do cristianismo. Nenhuma religião falsa alguma vez tomou providências para a reunião regular e frequente de grande número de pessoas para ouvir instruções e exortação religiosas” [1].

Contudo, inúmeras vozes influentes dentro do evangelicalismo sugerem que a era do sermão expositivo é agora coisa do passado. Em seu lugar, alguns pregadores contemporâneos agora substituem as mensagens intencionalmente projetadas para alcançar congregações seculares ou superficiais – mensagens que evitam pregar um texto bíblico e, assim, evitam um confronto potencialmente embaraçoso com a verdade bíblica.

Uma mudança sutil, visível no início do século 20, tornou-se um grande divisor no final desse século. A mudança da pregação expositiva para abordagens mais tópicas e centradas no ser humano tem se transformado em um debate sobre o lugar da Escritura na pregação e da natureza da pregação em si.

Duas declarações famosas sobre pregação ilustram esta crescente divisão. Refletindo poeticamente sobre a urgência e a centralidade da pregação, o pastor puritano Richard Baxter uma vez comentou: “Eu prego como se nunca fosse pregar de novo, e como um homem morrendo para outros homens morrendo” [2]. Com a expressão vívida e a consciência da importância do evangelho, Baxter compreendeu que a pregação é literalmente um caso de vida ou de morte. A eternidade está no prato da balança enquanto o pregador proclama a Palavra.

Contraste essa afirmação com as palavras de Harry Emerson Fosdick, talvez o mais famoso (ou infame) pregador das primeiras décadas do século 20. Fosdick, pastor da Igreja Riverside, na cidade de Nova York, oferece um contraste instrutivo com o venerável Baxter. “Pregação”, explicou ele, “deveria ser um aconselhamento pessoal em termos de grupo” [3].

Essas duas afirmações sobre a pregação revelam os contornos do debate contemporâneo. Para Baxter, a promessa do céu e os horrores do inferno emolduram a pesada responsabilidade do pregador. Para Fosdick, o pregador é um conselheiro gentil que oferece conselhos úteis e incentivos.

O debate atual sobre a pregação é mais comumente explicado como um argumento sobre o foco e a forma do sermão. Deveria o pregador pregar um texto bíblico por meio de um sermão expositivo? Ou o pregador deveria dirigir o sermão às “necessidades sentidas” e às preocupações observadas nos ouvintes?

Claramente, muitos evangélicos hoje favorecem a segunda abordagem. Instados pelos devotos da “pregação com base nas necessidades”, muitos evangélicos abandonaram o texto sem reconhecer o que fizeram. Esses pregadores podem, eventualmente, chegar ao texto no decorrer do sermão, mas o texto não define a pauta nem estabelece a forma da mensagem.

Ao centrar-se nas chamadas necessidades observadas e ao permitir que essas necessidades definam a pauta da pregação, chega-se inevitavelmente a uma perda da autoridade bíblica e do conteúdo bíblico do sermão. No entanto, esse padrão é cada vez mais a norma em muitos púlpitos evangélicos. Fosdick deve star sorrindo no túmulo.

Os evangélicos mais antigos reconheceram a abordagem de Fosdick como uma rejeição da pregação bíblica. Um teólogo liberal “que saiu do armário”, Fosdick exibia sua rejeição da inspiração bíblica, inerrância e infalibilidade – e rejeitava outras doutrinas centrais da fé cristã. Enamorado das tendências da teoria psicológica, Fosdick se tornou um alegre terapeuta de púlpito do protestantismo liberal. O objetivo de sua pregação foi bem captado no título de um de seus livros: On being a real person (Sobre ser uma pessoa real).

Embora chocante, essa é agora a abordagem evidente em muitos púlpitos evangélicos. A mesa sagrada se tornou um centro de aconselhamento e o banco se tornou o divã do terapeuta. Problemas psicológicos e práticos têm destronado a exegese teológica e o pregador dirige seu sermão à congregação conforme observa as necessidades dela.

O problema é, naturalmente, que o pecador não sabe qual é a sua necessidade mais urgente. Ele é cego à sua necessidade de redenção e reconciliação com Deus e centra-se em necessidades potencialmente reais, mas temporárias, tais como a realização pessoal, a segurança financeira, a paz da família e o avanço na profissão. Sermões em demasia concordam em responder estas necessidades expressas e preocupações, e deixam de proclamar a Palavra da Verdade.

Sem dúvida, os pregadores que seguem essa tendência popular têm a intenção de se afastar da Bíblia. Porém, sob o disfarce de uma intenção de alcançar os homens e as mulheres modernos e seculares “onde eles estão”, o sermão foi transformado em um seminário de sucesso. Alguns versículos da Bíblia podem ser adicionados à mistura, mas para um sermão ser genuinamente bíblico, o texto deve definir a pauta como fundamento da mensagem – não como uma autoridade citada na nota de rodapé espiritual.

Charles Spurgeon enfrentou o mesmo padrão de púlpitos vacilantes no se tempo. Em algumas das mais modernas e bem frequentadas igrejas de Londres, figuraram pregadores das mensagens baseadas em necessidades. Spurgeon – que conseguia chamar a atenção de uns milhares de ouvintes, apesar de sua insistência na pregação bíblica – confessou que “O verdadeiro embaixador de Cristo sente que está diante de Deus e que tem de lidar com as almas no serviço de Deus como um servo de Deus, e... ocupa um lugar solene – um lugar no qual a infidelidade é desumanidade ao homem, bem como traição a Deus” [4].

Spurgeon e Baxter entenderam o mandato perigoso do pregador e, portanto, foram conduzidos à Bíblia como a única autoridade e mensagem. Eles deixavam seus púlpitos tremendo com a preocupação urgente pelas almas de seus ouvintes e plenamente conscientes da responsabilidade perante Deus por pregar a sua Palavra e a sua Palavra somente. Seus sermões foram medidos pelo poder; os de Fosdick pela popularidade.

A pregação expositiva autêntica requer a apresentação da Palavra de Deus como o objetivo central. O propósito do pregador é ler, interpretar, explicar e aplicar o texto. Portanto, o texto conduz o sermão do começo ao fim. De fato, em muitos sermões de hoje em dia, o texto figura apenas como um papel subordinado a outras preocupações.

Exposição verdadeira toma tempo, preparação, dedicação e disciplina. O fundamento da pregação expositiva é a confiança de que o Espírito Santo irá aplicar a Palavra aos corações dos ouvintes – explicado pelos reformadores como o ministro da Palavra e do Espírito. Esse ministério – tão vital para o povo de Deus – está faltando ou foi minimizado em muitas congregações evangélicas.

O debate atual sobre a pregação pode abalar as congregações, as denominações e o movimento evangélico; mas saiba disto: a recuperação e a renovação da igreja nesta geração virão apenas quando, de púlpito a púlpito, o arauto pregar como se nunca fosse pregar novamente, e como um homem morrendo pregando a outros homens morrendo também.

FONTE: MOHLER, Albert. O Desaparecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. pp. 139-142.

NOTAS:

[1] John A. Brodus. A treatise on the preparation and delivery of sermons, (1870; reimpressão, Nova York: Harper and Brothers Publishers, 1926), 1.
NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: Eis o trecho do livro de John A. Broadus na íntegra: “A pregação é típica do cristianismo. Nenhuma outra religião fez da reunião regular e frequente de grupos de pessoas, para ouvir instruções e exortações religiosas, uma parte integral do culto divino. O judaísmo tinha algo semelhante a isso nos profetas e, mais tarde, nos leitores e oradores da sinagoga; mas a pregação não era uma parte essencial no culto do templo.
No mundo greco-romano do primeiro século A.D., o filósofo pregador, fazendo uso do refinado instrumento da retórica grega, não era uma figura desconhecida. Mas nem a religião judaica nem a filosofia grega atribuíram à pregação a importância que ela tem no cristianismo, no qual é função primária da igreja. Seguindo o sucesso da pregação cristã, e especialmente nos tempos modernos, outras religiões e seitas adotaram a pregação de modo limitado. No entanto, permanece verdade que, como serviço básico da igreja em sua história e importância, a pregação é uma instituição notadamente cristã”. Cf. John A. Broadus, Sobre a preparação e a entrega de sermões, (São Paulo: Hagnos, 2009), 1.

[2] Richard Baxter. Poetical fragments, (J. Dunton, 1689), 30.

[3] Harry Emerson Fosdick, The living of these days, (Nova York: Harper and Brothers, 1956), 94.

[4] Charles Spurgeon, “Negotiations for peace: A sermon delivered on the Lord’s-Day evening, de 18 de setembro de 1870”, em The metropolitan tabernacle pulpit, vol. 16, (Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1983).

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