sábado, 18 de setembro de 2010

A RELAÇÃO ENTRE A ORAÇÃO E A VONTADE DE DEUS - 4ª PARTE

IV – A DOUTRINA DA VONTADE DE DEUS [1]

O termo “vontade”, geralmente, é definido nos dicionários etimológicos como “capacidade de escolha, de decisão”, “anseio” e “desejo” [2]. O termo quando aplicado a seres humanos é entendido como a faculdade da escolha [3]. Entretanto, quando se referindo à pessoa do Deus Todo-poderoso, o vocábulo tem o seu significado essencial ampliado para a capacidade de autodeterminação inerente à divindade. A vontade de Deus está acoplada à sua supremacia soberana. Ontologicamente, Deus é um ser volitivo, ou seja, a sua vontade soberana determina, estabelece e permeia toda a sua constituição perfeita. Com isto, todos os seus atos também são soberanos.

Deve ser entendido também que Deus é um ser tanto pessoal quanto moral. Sendo assim, a sua vontade diz respeito tanto à sua prerrogativa soberana quanto a sua moralidade. No que concerne a essa última, Deus, por ser infinitamente santo, prescreve leis e ordenanças que devem ser observadas devidamente por suas criaturas. E como governador soberano que é, Deus faz tudo o que lhe apraz na vida das suas criaturas e na administração (governo) da ordem criada. Deus é o Legislador Soberano. Essas são apenas duas formas de Deus exprimir a sua vontade [4]. A Confissão de Fé de Westminster expressa devidamente esta verdade, quando afirma:

Há um só Deus, vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeição, um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões, imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, sapientíssimo, santíssimo, soberano, absoluto, operando todas as coisas segundo o conselho de sua própria e imutável e justíssima vontade, para sua própria glória [5].

Ainda com base na afirmação confessional, pode-se perceber, com muita sensibilidade, que a expressão da vontade soberana de Deus possui um caráter teleológico, ou seja, possui um alvo a ser atingido, a saber, a manifestação de sua própria glória (cf. Romanos 11.36).

A vontade soberana de Deus possui algumas peculiaridades que devem ser mencionadas aqui sucintamente. Ela é uma vontade livre, isto é, sua expressão é livre. Essa característica possui estreita afabilidade com sua soberania; é uma vontade necessária, na qual o próprio Deus é o receptáculo da sua vontade. Por necessidade “ele ama a si próprio e tem prazer na contemplação das suas perfeições” [6]; é uma vontade eterna, pois assim como Deus é eterno, segue-se que tudo no ser divino também o é. Os seus decretos eternos são expressões da sua vontade eterna; é imutável, possuindo o mesmo princípio da característica anterior, ou seja, “a imutabilidade da vontade divina está fundada na imutabilidade do seu ser” [7]; assim como Deus é onipotente, tal é a sua vontade, isto é, ela é irresistível. Nada, nem ninguém, em todo o universo criado, tem a capacidade de se opor e contrariar a vontade soberana de Deus. Isso é perfeitamente aplicável até mesmo quando os filhos de Deus têm boas aspirações (cf. Atos 16.6-10). A vontade divina é também eficaz, contudo, essa verdade diz respeito apenas aos decretos soberanos de Deus. A vontade decretiva de Deus nunca é ineficaz, ou seja, direta ou indiretamente, Deus sempre realiza a sua vontade (Isaías 14.24-27; 55.11); a vontade de Deus é autolimitada, com isto quer-se dizer que Deus é tão poderoso que estabelece limites para Ele próprio. Sua santa vontade limita o uso do seu poder, ou, em outras palavras, “Deus pode fazer tudo o que ele deseja, porém ele não deseja fazer tudo o que pode” [8]. Com isto, cai por terra a teoria do inglês Thomas Hobbes (1588-1679) que afirmava que os déspotas humanos eram os éctipos do arquétipo Deus, pois este sempre agia de forma arbitrária [9]. Deus é a sua própria lei, o seu próprio legislador, de modo que ele faz somente o que é justo [10] (Êxodo 3.14; Números 23.19; 1 Samuel 15.29); e, por fim, sua vontade é sábia, ou seja, para que ele seja justo em tudo aquilo em que ele se apraz e se deleita, por obrigatoriedade, sua sabedoria também permeia sua vontade. A vontade de Deus é sábia porque ele sempre escolhe o que é melhor. “A operação da sabedoria de Deus envolve a expressão de sua vontade” [11], (Salmo 104.1-34; Romanos 11.33; 1 Co 2.7).

É pertinente notar que algumas diferenciações [12] podem ser aplicadas à vontade de Deus, como por exemplo, Vontade Decretiva e Vontade Prescritiva. Discorreremos sucintamente sobre cada uma delas, visando proporcionar um melhor entendimento para a nossa discussão da relação entre a vontade soberana de Deus e as orações dos seus filhos.

Por Vontade Decretiva nos referimos ao plano eterno de Deus e que Ele levará a cabo perfeitamente (Daniel 4.17,25,32,35; Romanos 9.18,19). Louis Berkhof assim define a vontade decretiva: “A primeira é a vontade de Deus pela qual ele projeta ou decreta tudo que virá a acontecer, quer pretenda realizá-lo efetivamente (causativamente), quer permita que venha a ocorrer por meio da livre ação das Suas criaturas racionais” [13]. O insight do Dr. Heber Carlos de Campos a respeito da vontade decretiva é extraordinário:

Nessa vontade Deus não permite ser resistido. Para executar essa sua vontade ele não consulta a opinião dos homens. Os homens não têm participação nessas suas decisões. Com ela nós devemos nos alegrar, porque essa vontade de Deus “é perfeita, boa, e agradável” (Rm 12.2) e por ela devemos dar graças (1 Ts 5.18) [14].

Isso significa dizer, que não há nada que o homem possa fazer que modifique o decreto divino, nem mesmo orações e súplicas. A vontade decretiva de Deus é imutável. A afirmação do autor aos Hebreus não deixa espaço para pensarmos o contrário: “Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu propósito, se interpôs com juramento” (6.17). Deus nunca volta atrás na sua vontade decretiva, pois ela é o fundamento de toda a existência humana ao longo da história e já possui o seu clímax previsto e anunciado pelas Sagradas Escrituras. Nada do que Deus decidiu fazer mudará. Ninguém pode fazer Deus voltar atrás ou impedi-lo de concretizar os seus propósitos. Parábolas como a de Lucas 18.1-8, sobre o juiz iníquo e a viúva, não ensinam que Deus pode ser persuadido. O único propósito de Jesus é ensinar o dever da perseverança na oração. Afirmar que Deus pode ser convencido a agir a partir de parábolas como esta é afirmar algo que nunca passou pela mente dAquele que está em perfeita sintonia com o Pai.

Já a Vontade Prescritiva diz respeito ao aspecto da vontade divina, em que Deus dá às suas criaturas racionais e morais um modus vivendi (modo de vida) correto, isto é, trata-se dos seus preceitos e prescrições. Esse aspecto da vontade de Deus está perfeitamente revelado nas Sagradas Escrituras (2 Crônicas 27.6; Salmo 40.8; 143.8-10; Mateus 7.21; 12.50). É costume nos referirmos à vontade de Deus como sendo o que Ele determina em sua Palavra sobre os nossos deveres. Por exemplo, os Dez Mandamentos, que ensinam uma perfeita regra de vida podem ser entendidos perfeitamente como expressão da vontade de Deus para o seu povo. Enquanto a vontade decretiva não pode ser resistida ou desobedecida, a vontade prescritiva, com frequência é resistida e desobedecida. Nem tudo o que Deus requer de nós como norma de vida é obedecido. Heber Campos coloca isso em forma de perguntas: “Você conhece a vontade de Deus? Sim, se você lê o que está escrito na Palavra de Deus. Você faz exatamente todas as coisas que Deus quer de você? Não. Esta vontade, portanto, pode e, frequentemente, é resistida” [15].

Depois de compreendermos o ensino bíblico e sistemático sobre a vontade de Deus, podemos avançar para a sua relação com a oração.

NOTAS:
[1] Esta seção foi extraída com adaptações de: Alan Rennê Alexandrino Lima, Multiformes Manifestações da Soberania de Deus, (Monografia), (Teresina, 2005), 74-76.

[2] Antonio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997), 828.

[3] A. W. Pink, Deus é Soberano, (São José dos Campos: Fiel, 2002), 106.

[4] Heber Carlos de Campos, O Ser de Deus e os seus Atributos, (São Paulo: Cultura Cristã, 1999), 352.

[5] A. A. Hodge, A Confissão de Fé de Westminster Comentada por A. A. Hodge, (São Paulo: Os Puritanos, 2001), 75.

[6] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), 75.

[7] Heber Carlos Campos, O Ser de Deus e os seus Atributos, 354.

[8] Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, (São Paulo: Hagnos, 2002), vol. I, 287.

[9] Thomas Hobbes, O Leviatã, (São Paulo: Martin Claret, 2001), 111.

[10] A. W. Pink, Os Atributos de Deus, 40.

[11] J. I. Packer, Teologia Concisa, (São Paulo: Cultura Cristã, 1996), 46.

[12] É importante salientar a essa altura, que apesar das distinções existentes, o texto encontrado em Mateus 6.9-13, traz uma assertiva por demais interessante a respeito da vontade de Deus. O versículo 10 afirma: “venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu”. A referência à vontade soberana de Deus nesse versículo inclui tanto a sua vontade decretiva como a sua vontade prescritiva. Com isso, fica evidente, que pelo menos nesse caso, pode-se perceber uma unicidade com relação à vontade de Deus. O Dr. William Hendriksen apresenta uma posição diferente com base em que a vontade decretiva de Deus já é perfeitamente cumprida na terra, ao passo que isso não acontece com a sua vontade prescritiva. Comentário do Novo Testamento: Mateus, (São Paulo: Cultura Cristã, 2000), vol. I, 465, 466. Entretanto, o Dr. R. B. Kuiper apresenta uma interpretação que envolve estes dois aspectos da vontade divina. Evangelização Teocêntrica, (São Paulo: PES, 1996), 45.

[13] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, 74.

[14] Heber Carlos Campos, O Ser de Deus e os seus Atributos, 354. Ênfase acrescentada.

[15] Ibid, 362.

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