quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A RELAÇÃO ENTRE A ORAÇÃO E A VONTADE DE DEUS - 3ª PARTE

III - A ORAÇÃO DO REI EZEQUIAS

De particular interesse para o assunto da oração é a passagem de Isaías 38.1-5. Esta passagem apresenta a narrativa da doença do rei Ezequias e a sua cura maravilhosa. Os adeptos do pensamento de Watchman Nee e E. M. Bounds frequentemente recorrem a esta passagem com o objetivo de consubstanciarem a sua tese. Por exemplo, eis o que Bounds escreveu sobre a mesma: “As orações de Ezequias modificaram o propósito de Deus, então quinze anos mais foram acrescentados à sua vida” [1]. O grande problema, que leva muitas pessoas a formarem uma concepção errônea a respeito da oração, é que elas não compreendem o propósito do Senhor na doença e na cura maravilhosa do rei Ezequias. Para isso, é preciso compreender o contexto no qual se deu o episódio.

Um pouco antes, no capítulo 37, Senaqueribe, rei da Assíria invadira Judá e enviara Rabsaqué, seu servo para afrontar tanto o rei Ezequias como o Senhor Deus. Rabsaqué proferiu palavras arrogantes e fez ameaças terríveis. Quando o rei Ezequias soube das palavras do enviado do rei da Assíria, “rasgou as suas vestes, cobriu-se de pano de saco e entrou na Casa do SENHOR” (Isaías 37.1). Ezequias se apoiou em Deus, suplicou a sua misericórdia e o livramento das mãos dos assírios (37.14-20). Deus respondeu à oração do seu servo, destruindo milagrosamente todo o exército assírio. Foi nesse contexto que veio a palavra do Senhor ao rei Ezequias, no sentido de que ele deveria colocar a sua casa em ordem, porque morreria (38.1).

A intenção do Senhor desde o início era a de trabalhar mais a humildade na vida do rei Ezequias. O decreto de Deus, desde o início, era que o rei vivesse mais quinze anos. Comparemos isso com a verdade axiomática afirmada por Davi: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Salmo 139.16). A doença mortal foi o meio que Deus usou para humilhar o seu servo e levá-lo a suplicar a misericórdia. Ezequias confiou na promessa contida no Salmo 50.15: “invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás”. Alguém pode argumentar, que se esse é o caso, então, Deus agiu com egoísmo ou outros motivos escusos. Mas, isso está longe da verdade, pois Deus também tinha o propósito de manter Ezequias livre de todo orgulho ou sentimento de auto-suficiência. Havia o perigo do rei se envaidecer por causa da grande vitória sobre o exército assírio. O Senhor estava cuidando da saúde espiritual do seu servo.

Todos os eventos da vida de uma pessoa já estão determinados pelo Senhor Deus. Não só os eventos em si, como também os meios para a consecução desses eventos. Isso quer dizer que, no caso de Ezequias, tudo já estava determinado: os dias exatos de vida, a sua doença, e a oração e a pasta de figos (2 Reis 20.7), como meios para a cura de Ezequias. O lamentável, é que mesmo depois de ter recebido inúmeros benefícios da parte do Senhor, Ezequias ainda se ensoberbeceu. Diz 2 Crônicas 32.25: “Mas não correspondeu Ezequias aos benefícios que lhe foram feitos; pois o seu coração se exaltou. Pelo que houve ira contra ele e contra Judá e Jerusalém”. A ira de Deus, nesse caso, foi o meio para humilhá-lo novamente (v. 26).

Tendo entendido estas verdades a respeito da doutrina da imutabilidade de Deus, devemos procurar compreender como a oração se enquadra na vontade de Deus.

NOTA:

[1] E. M. Bounds, O Propósito da Oração, (Belo Horizonte: Dynamus, s/d), 21.

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