terça-feira, 14 de setembro de 2010

A RELAÇÃO ENTRE A ORAÇÃO E A VONTADE DE DEUS - 2ª PARTE

II – A DOUTRINA DA IMUTABILIDADE DE DEUS

Afirmar que a oração tem a capacidade de mudar ou alterar os planos de Deus é dirigir um ataque frontal à doutrina de Deus. É atacar o atributo incomunicável da imutabilidade de Deus. O Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta 7 afirma o seguinte: “Deus é Espírito, em si e por si infinito em seu ser, glória, bem-aventurança e perfeição; todo-suficiente, eterno, imutável, insondável, onipresente, infinito em poder, sabedoria, santidade, justiça, misericórdia e clemência, longanimidade, cheio de bondade e verdade” [1]. A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo II, seção i, faz a seguinte declaração a respeito do Ser de Deus:
Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeições. Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões, é imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, fazendo tudo para sua própria glória e segundo o conselho da sua própria vontade, que é reta e imutável. É cheio de amor, é gracioso, misericordioso, longânimo, muito bondoso e verdadeiro galardoador dos que o buscam, e, contudo, justíssimo e terrível em seus juízos, pois odeia todo pecado; de modo algum terá por inocente o culpado [2].

Por imutabilidade queremos dizer que Deus não muda em absolutamente nada. Nas palavras de Franklin Ferreira e Alan D. Myatt: “Deus não muda seu ser, planos, propósitos, promessas e perfeições” [3]. A imutabilidade de Deus está estritamente relacionada com a sua perfeição. Ora, sendo Deus perfeito, é impossível qualquer tipo de mudança, pois “qualquer mudança implicaria em que ele se tornasse mais, ou menos, perfeito” [4]. Se Deus mudasse para melhor, isso significaria que ele ainda não era perfeito. Se mudasse para pior, deixaria de ser perfeito. É o que é afirmado por Tiago: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (1.17).

É importante frisar muito bem que, a imutabilidade de Deus diz respeito ao seu ser, perfeições, propósitos e promessas. Robert Reymond afirma que, “esta doutrina afirma que Deus, ontológica e decretivamente falando, não faz e não pode mudar” [5]. A. W. Pink nos provê um entendimento adequado dessa afirmação ao asseverar que Deus é imutável [6]:

1. Em sua essência. Sua natureza e seu Ser são infinitos e, assim, não sujeitos a mutação alguma (Malaquias 3.6; Êxodo 3.14);

2. Em seus atributos. Seu poder é imbatível, sua sabedoria não sofre diminuição, sua santidade é imaculada, sua veracidade é imutável, seu amor é eterno, sua misericórdia não cessa (Salmo 119.89; João 13.1; Salmo 100.5);

3. Em seu conselho. Sua vontade nunca muda, seu propósito nunca se altera (Romanos 11.29; Jó 23.13).

Pessoas como Nee e Bounds gostam de recorrer a passagens que falam do arrependimento de Deus, como por exemplo, Gênesis 6.6; Êxodo 32.14; 1 Samuel 15.35; 1 Crônicas 21.15; Jeremias 26.19; Amós 7.3,6; Jonas 3.10. Dizer, com base nestes versículos, que Deus muda de intenção e se arrepende, é dizer que as Sagradas Escrituras se contradizem, visto que Números 23.19 declara que: “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?”. Também encontramos o seguinte em 1 Samuel 15.29: “Também a glória de Israel não mente, nem se arrepende, porquanto não é homem, para que se arrependa”. O Salmo 110.4 afirma: “O SENHOR jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. Outras passagens que mostram que Deus não se arrepende são: Jeremias 4.28; Ezequiel 24.14 e Zacarias 8.14,15. Será que os defensores da teoria de que Deus se arrepende chegariam ao ponto de afirmar que as Escrituras estão cheias de contradições? Como entender, então, as passagens que falam do arrependimento de Deus? Mais uma vez evocando Pink:

Quando fala de si mesmo, Deus frequentemente acomoda a Sua linguagem às nossas capacidades limitadas. Ele Se descreve a Si mesmo como revestido de membros corporais com olhos, ouvidos, mãos, etc. Fala de Si como tendo despertado (Salmo 78.65) e como ‘madrugando’ (Jeremias 7.13), apesar de que Ele não cochila nem dorme. Quando Ele estabelece uma mudança em Seu procedimento para com os homens, descreve a Sua linha de conduta em termos de arrepender-se [7].

Se há alguma mudança em Deus, é meramente na sua forma de se relacionar conosco. E tal mudança só acontece, porque, primeiramente, há uma mudança realizada em nós. Mais uma vez, o Dr. Robert Reymond afirma de forma acertada:

Em outras palavras, Deus sempre age da mesma forma em relação ao mal moral e da mesma forma em relação ao bem moral. Em toda reação sua às respostas dos homens a Ele, a fixação moral imutável do seu caráter é evidente [8].

Caso interessante é o da passagem de 1 Samuel 15.35: “Nunca mais viu Samuel a Saul até ao dia da sua morte; porém tinha pena de Saul. O SENHOR se arrependeu de haver constituído Saul rei sobre Israel”. Seis versículos antes (1 Samuel 15.29) lemos que Deus não se arrepende. Como, então, conciliar estas duas passagens? A palavra hebraica para “se arrependeu” (nacham). Este verbo é significa “ter pena, arrepender-se, lamentar, ser consolado, consolar” [9]. M. R. Wilson afirma que quando este verbo é usado para se referir a Deus, “a expressão é antropopática” [10], ou seja, é usada com o propósito de se acomodar ao nosso entendimento limitado. Além disso, o sentido que se quer comunicar com o uso do verbo é que Deus ficou movido de compaixão ou de tristeza. Isso fica mais claro quando consideramos que o termo “arrependimento” tanto no hebraico quanto no grego significa “mudança de mente”. Deus não sofre nenhuma mudança em seu Ser, consequentemente, não sofre nenhuma mudança em sua mente.

Continua...

NOTAS:

[1] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, (São Paulo: Cultura Cristã, 2002), 13. Ênfase acrescentada.

[2] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, (São Paulo: Cultura Cristã, 2003), 26. Ênfase acrescentada.

[3] Franklin Ferreira e Alan Myatt, Teologia Sistemática: Uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual, (São Paulo: Vida Nova, 2007), 216.

[4] Ibid.

[5] Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith, (Nashville, TN: Thomas Nelson, 1998), 177. Minha tradução.

[6] A. W. Pink, Os Atributos de Deus, (São Paulo: PES, 2001), 52-57.

[7] Ibid, 54.

[8] Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith, 181. Minha tradução.

[9] Marvin R. Wilson in: R. Laird Harris, Gleason L. Archer Jr., e Bruce K. Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, (São Paulo: Vida Nova, 2001), 951.

[10] Ibid.

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