terça-feira, 14 de setembro de 2010

A RELAÇÃO ENTRE A ORAÇÃO E A VONTADE DE DEUS - 1ª PARTE

I - INTRODUÇÃO

Existem alguns conceitos completamente equivocados a respeito da oração. Um destes conceitos é o de que a oração tem a capacidade de mudar os planos de Deus. A dinâmica seria mais ou menos a seguinte: Deus decidiu não conceder a Fulano determinada bênção. No entanto, através da perseverança na oração Fulano pode fazer o Senhor mudar de ideia, e, então, receber a tão aguardada bênção. Este pensamento é mais comum do que imaginamos. Por exemplo, o conhecido Watchman Nee publicou um livro em inglês intitulado The Prayer Ministry of the Church (O Ministério de Oração da Igreja). Tal foi vertido para o português com o sugestivo título A Oração: Quando a Terra Governa o Céu. Apesar da discrepância entre as versões do título, o conteúdo do livro se adéqua perfeitamente ao título em língua portuguesa. Eis a aberrante afirmação de Nee:

“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra, será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra, será desligado no céu”. Qual é a característica desse versículo? O ponto em questão aqui é que a ação na terra precede a ação do céu. Não é no céu que as coisas são ligadas primeiro, mas sim na terra; não é no céu que são desligadas primeiro, mas sim na terra. Se algo é ligado na terra, também o será no céu; se for desligado na terra, consequentemente será desligado no céu. A ação do céu é governada pela ação da terra. Tudo o que contradiz a Deus precisa ser amarrado, e tudo o que concorda com Deus precisa ser solto. Qualquer coisa que deva ser atada ou desatada, deve começar na terra. A ação na terra precede a ação no céu. A terra governa o céu. [1]

Watchman Nee ignora de forma absurda o assunto da passagem aludida por ele (Mateus 18.15-20), que é a disciplina eclesiástica. Ele assume que se trata da oração. Uma falácia grotesca. Além dele, E. M. Bounds, conhecido escritor e autor do clássico Poder Através da Oração [2], escreveu o seguinte em outro livro: “A oração tem o poder inacreditável de cativar e mudar os propósitos de Deus, porque o vigor de seu poder arrefece diante das orações dos homens justos”. [3] Tal afirmação é, simplesmente, assustadora. O vigor do poder de Deus arrefece diante das orações de homens justos?

Fico pasmo diante do fato de que este pensamento traz sérias dificuldades e implicações para a teontologia (a doutrina do Ser e Obras de Deus), implicações essas ignoradas por um grande número de evangélicos que esposa tal pensamento. Diante disso, discorreremos, não de forma exaustiva, a respeito de uma doutrina profundamente afetada pelo tipo de raciocínio de Nee e Bounds. Logo em seguida, apresentaremos a dinâmica da oração pela perspectiva do eterno plano divino.

NOTAS:

[1] Watchman Nee, A Oração: Quando a terra governa o céu, (São Paulo: Vida, 2009), 9. Ênfase acrescentada.

[2] Publicado no Brasil pela Imprensa Batista Regular. Edição esgotada. Disponível no site http://www.monergismo.net.br/

[3] E. M. Bounds, O Propósito da Oração, (Belo Horizonte: Dynamus, s/d), 17. Ênfase acrescentada.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...