quinta-feira, 30 de setembro de 2010

DAVI E GOLIAS OU SAUL E DAVI: A LUTA POR TRÁS DA LUTA

Por Rev. Tarcízio José de Freitas Carvalho

A história de Davi e Golias em 1 Samuel 17 é basicamente um clássico mundial acerca da coragem de um jovem, tendo gerado a máxima de que não importa ser pequeno; se você estiver do lado certo, você vencerá os seus gigantes.

Incontáveis dramatizações, histórias nos flanelógrafos e filmes infantis exaltam esta batalha na qual Davi derrota o gigante Golias. Em geral ouço mais acertos nas histórias infantis do que em sermões. Nas aulas as crianças aprendem corretamente que Davi venceu porque confiava no Senhor! Já nos sermões algumas das vezes nas quais ouvi explicação deste episódio, invariavelmente aprende-se a “vencer os seus gigantes”!

Minha intenção não é ser um iconoclasta, mas ressaltar a importância da leitura dos livros da Bíblia como um discurso e não apenas como boas pequenas histórias. Uma vez que se creia que Deus fala por meio de sua Palavra, deve-se tentar entender, o melhor possível, qual a finalidade da pequena história na grande história da redenção. Desta forma, é preciso estudar como a história da luta de Davi com Golias se encaixa no progresso da história da redenção, o que significa prestar mais atenção como as outras histórias acontecem no livro de 1 Samuel.

Nem precisa falar que você deve ler 1 Samuel várias vezes (convém ler 1 e 2 Samuel, mas desta vez vamos considerar somente esta parte). Isto significa que para entender a luta Davi x Golias é preciso entender a época de transição do período dos Juízes para a monarquia. Assim, vamos estar atentos ao que estava acontecendo no reino de Israel para entender o que ocorria no reino de Deus.

Apenas para adiantar um pedacinho, o contraste no primeiro livro de Samuel está entre a escolha do povo (emancipada de Deus), e a escolha de Deus para seu povo. Para esclarecer o equívoco da democracia da época os protagonistas Saul e Davi estão nas principais cenas. A escolha emancipada de Deus prefere um rei pecador que não confia nele; já a escolha de Deus recai sobre um rei pecador que confia e obedece.

A fim de descobrir pistas seguras sobre como chegar às conclusões acima, lançaremos mão do recurso de fazer perguntas ao texto. Vamos, sempre que possível, nos ater às informações dadas no próprio livro.

1. Por que o livro de 1 Samuel foi escrito?
O livro não tem uma sentença clara sobre isso, mas a forma como inicia nos auxilia a responder. A abertura marca bem ser uma época de transição do período da teocracia para a monarquia. No período teocrático Deus governava seu povo por meio de representantes (Êx 18.13-27) que julgavam o povo. Ou seja, Deus se fazia valer de alguém para resolver os problemas e estabelecer a justiça. Em geral esta tarefa de mediação era feita por um sacerdote e/ou profeta como Moisés, e agora Samuel. O livro abre suas páginas mostrando que a situação estava complicada. O sacerdócio que deveria instruir o povo estava corrompido, estéril – como aquela mãe que queria filhos. O nascimento de um menino, Samuel, é a resposta de Deus que ajuda a clarear a razão do livro. Deus continua a falar e agir em favor de seu povo.

2. Quem são os personagens do seu texto em particular?
O capítulo 17 de 1 Samuel é um episódio de batalha. De um lado os filisteus e de outro os israelitas sob o rei Saul. Entretanto, um personagem surge em cena e faz desmaiar o coração do povo de Israel: Golias. Era um, apenas um homem muito alto. Lembre-se de que Saul era um, apenas um homem mais alto do que todos em Israel.

3. O que deveria ser feito ou evitado?
Lembram-se de Levítico 18.3? “...nem fareis segundo as obras da terra de Canaã para a qual eu vos levo, nem andareis nos seus estatutos”. Aqui estava o povo de Israel ainda lutando por não ter expulsado os habitantes de Canaã, lugar que Deus disse lhes daria (Lv 25.38).

4. Há alguma rememoração importante?
Há uma rememoração importantíssima que deve ser trazida aqui conforme está em Juízes 3.1-4. Nestes versos lê-se que Deus deixou algumas nações na terra de Canaã para provar Israel: cinco príncipes dos filisteus, todos os cananeus, sidônios e heveus. Deus se utilizaria deles para saber se Israel daria ouvidos aos mandamentos que havia ordenado por intermédio de Moisés.
Por isso, um inimigo recorrente, os filisteus, aparece em todo o livro. As batalhas, portanto, devem ser vistas nesta perspectiva. Elas servem para mostrar se o povo de Israel confia em Deus ou se emancipa de seus caminhos.

Há outra rememoração importante. Compare Deuteronômio 17.14-15 com 1 Samuel 8.20. Você vai observar que a diferença é que Deus disse que seria do jeito dele, mas o povo tinha suas próprias ideias sobre o assunto.

5. Há algum artifício literário importante (sempre prestar atenção às repetições)?
O texto utiliza algumas repetições que deveriam chamar a nossa atenção. Antes de ressaltá-las, espero que tenha ficado claro alguns pontos do desenvolvimento da história no livro até aqui. Os primeiros 3 capítulos de 1 Samuel mostram como Deus não desampara seu povo propiciando um profeta e/ou sacerdote, alguém reconhecido como boca de Deus em todo Israel (1 Sm 3.20). Os capítulos 4 a 7 mostram que Samuel julgava (lembrar de Moisés aqui) o povo constantemente, e a fidelidade do povo redundava em vitória contra os inimigos. O capítulo 8 é o momento de emancipação de Deus de forma democrática, e a partir do capítulo 9 até o 12 a transição para a monarquia torna-se sedimentada com a auto-proclamada aposentadoria de Samuel. Os capítulos 13 a 15 revelam o que estava por detrás da aparência bela e da altura de Saul. Em face do perigo Saul não sabia esperar para ouvir a direção de Deus. No capítulo 16 fica claro que Deus havia rejeitado a Saul. É marcante a declaração em 16.7 quanto à rejeição de Eliabe: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração”.

Então, aparência, força e altura compõem uma observação importante. Há outra, que é o número 40. Por 40 dias o gigante Golias se mostrava. Este número é importante? Sim, ele marca, em geral, uma situação limite, o limiar de alguma coisa, e alguma forma de juízo (40 dias de chuva até que a inundação fosse completa, 40 dias Moisés ficou no monte com Deus e irrompe rebeldia porque pareceu “muito demorado”, 40 anos até que uma geração incrédula morresse no deserto, 40 dias os espias gastaram olhando a terra de Canaã, e a maioria voltasse assustada porque havia ali gigantes (Nm 13.25-33)! E o verso 33 desta última passagem fala de gigantes no plural! Como venceriam? A resposta vem da fala confiante de Josué (Nm 14.9). A ideia básica foi: não se rebelem contra Deus! Deus pode cuidar dos gigantes!

Então, o número 40, a aparência, a força e a altura compõem uma observação importante.

6. Meditando um pouco acerca do episódio central de 1 Samuel 17
Saul não era um líder ruim. Ele convenceu até mesmo Samuel inicialmente. Entretanto, o desenrolar de 1 Samuel o apresenta como desobediente e auto-confiante em relação aos caminhos de Deus (13-15). Até mesmo Samuel já havia declarado fim do reinado de Saul, e discretamente ungido o próximo rei (16). Assim, quando se chega ao capítulo 17 não temos um jovem que lutará contra um gigante! Temos, sim, o novo rei que lutará pelo seu povo confiando no Senhor Deus. Este conflito público tornará manifesto o declínio e rejeição de Saul e a ascensão e aceitação de Davi como rei. O que havia sido feito em secreto vai se tornando conhecido por todos. Assim como a família de Jessé aprendeu uma nova forma de escolha: a de Deus, a nação também aprenderá. Deus não escolhe segundo a aparência!

O contraste entre Saul e Davi é tão marcante que nada é deixado para trás. No começo do capítulo 17, com as primeiras provocações, o verso 11 mostra um rei amedrontado e acuado. Imediatamente após esta descrição do coração de Saul, os versos 12 a 23 descrevem uma pequena biografia de Davi, para então no verso 31 mostrar como reage o coração de quem confia em Deus. Observe que Golias repete o que dissera antes (17.23), e que fez com que Saul desfalecesse, e o povo responde a pergunta de Davi de novo (17.27,30), e de novo, mostrando também desfalecimento.

Observe-se ainda o encontro de Davi com Eliabe, seu irmão mais velho e mais bonito, que antecede o encontro com Saul. Não é apenas uma rivalidade entre irmãos! Eliabe fora rejeitado para ser rei (16.6,7), conquanto fosse, de fato, alto e de boa aparência. Agora, ao encontrar Saul, que era o mais alto de todos e de boa aparência (10.23,24), o leitor é informado tacitamente que o próximo rei não seria escolhido pela aparência (16.7), mas por ser um homem de acordo com o coração de Deus e que guardaria os seus mandamentos (13.14).

Há outros elementos que marcam bem este episódio neste capítulo 17, e que pouco tem a ver com Davi e Golias, mas com Saul e Davi – a luta por trás da luta. Veja, por exemplo, a conversa entre Saul e Davi nos versos 32 a 39. O que Saul oferece? Capacete, couraça e espada! Entretanto, o que Davi diz a Golias no verso 47? “o SENHOR salva, não com espada, nem com lança; porque do SENHOR é a guerra, e ele vos entregará nas nossas mãos”. Nem a lança de Golias e nem a espada de Saul são a razão da vitória, mas Deus é quem pode dar livramento. O ponto focal, portanto, é o poder de Deus por meio da fé de Davi. Saul não acreditava no poder de Deus. O restante do livro de 1 Samuel vai mostra como Deus mesmo é quem fará a transição para o rei que confia nele (capítulos 18 a 31, com a morte de Saul).

7. O Novo Testamento
A abertura dos Evangelhos com o nascimento sobrenatural de uma criança não deveria ser um espanto! É um formato conhecido, e que ocorre especificamente em nosso livro de 1 Samuel. O que o Novo Testamento mostra é que Samuel é o primeiro profeta da monarquia a anunciar os dias de Cristo (At 3.24-26). Como Samuel fez isso? Ao ungir como rei a Davi, aquele que traria livramento ao povo, além de ter julgado o povo incansavelmente. Davi foi um tipo de Cristo ao reinar sobre todo o Israel. Paulo em seu discurso confirma isto em Atos 13.16-24, quando de um só salto vai de Davi a Jesus.

Deus está no controle e utiliza meios comuns. Uma pessoa como Davi, envolvida em um trabalho corriqueiro. Depois o Deus-homem se fez carpinteiro. Em ambos os casos alguém que se importa com o nome de Deus e com seus mandamentos. Alguém que procura olhar as coisas do ponto de vista de Deus, o Senhor de toda criação. O número 40 não foi também utilizado com Jesus (Mt 4.1-11)? Depois de ser levado ao limite ele confiou em Deus e em sua Palavra.

8. Como esta passagem nos ensina algo sobre Jesus Cristo e seu ensino?
Note que Davi tinha certeza de que Deus estivera com ele quando venceu leões e ursos. Portanto, estaria com ele também contra este único gigante. Aliás, Deus já livrara seu povo de gigantes antes na história do povo. A questão central a ser aprendida ainda são as palavras de Josué ecoando: não se rebelem contra Deus. Agora, mesmo quando Deus parecer demorado, e mesmo que as aparências indiquem perigo, confiança total e absoluta em Deus.

Percebe-se, então, que a questão não é a vitória contra o gigante, mas muito mais como você lida diariamente com os afazeres confiando em Deus e obedecendo aos seus mandamentos. Em especial, não sendo rebelde à sua voz; antes, tendo prazer em ouvi-la e andar pelo caminho que ela indica, ainda que ocorram situações perigosas e a ação de Deus pareça demorada. Para que ansiedade (Mt 6.25-28; Fp 4.6)?

9. E quanto a nós?
A nossa luta, e isso ficou claro no livro de 1 Samuel, não é contra a carne ou o sangue (Ef 6.10-20). Paulo aos efésios ensina cristãos a tomarem a espada, que é a Palavra de Deus. Na luta contra Golias Davi mostrou também isso quando escolheu confiar na Palavra de Deus e não andar emancipado de sua vontade.

A força de Davi estava em Deus. Davi é descrito como alguém que se importou em confiar na Palavra de Deus, e sua experiência espiritual mostrou isso no cuidado pastoral, mesmo quando ninguém estava olhando, quando ele não estava em evidência. Isto o capacitou para um novo desafio – ser rei. Finalmente, Davi utilizou recursos com os quais estava familiarizado: funda e pedras em lugar de capacete, espada e couraça. Em uma época que discute tanto sobre liderança, o perfil adequado de um plantador de igrejas, etc., é interessante aprender que na liderança no reino de Deus requer confiança e obediência a ele. Habilidades, talentos e outros detalhes? Eles são secundários. Quando Deus escolhe alguém, esta é uma ação não-negociável, e que independe da aparência externa, seja física, seja até mesmo de habilidades específicas. O que importa é fazer a vontade de Deus. Esta é a luta por detrás da luta.

2 comentários:

Tiago disse...

Excelente texto!!

Tiago Baia.

Alan Rennê disse...

Grande Tiago!
Obrigado pela visita e pelo comentário. Realmente, a interpretação do Rev. Tarcízio é extraordinária!
Saudades de tu cara!
Abração!

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