quinta-feira, 30 de setembro de 2010

DAVI E GOLIAS OU SAUL E DAVI: A LUTA POR TRÁS DA LUTA

Por Rev. Tarcízio José de Freitas Carvalho

A história de Davi e Golias em 1 Samuel 17 é basicamente um clássico mundial acerca da coragem de um jovem, tendo gerado a máxima de que não importa ser pequeno; se você estiver do lado certo, você vencerá os seus gigantes.

Incontáveis dramatizações, histórias nos flanelógrafos e filmes infantis exaltam esta batalha na qual Davi derrota o gigante Golias. Em geral ouço mais acertos nas histórias infantis do que em sermões. Nas aulas as crianças aprendem corretamente que Davi venceu porque confiava no Senhor! Já nos sermões algumas das vezes nas quais ouvi explicação deste episódio, invariavelmente aprende-se a “vencer os seus gigantes”!

Minha intenção não é ser um iconoclasta, mas ressaltar a importância da leitura dos livros da Bíblia como um discurso e não apenas como boas pequenas histórias. Uma vez que se creia que Deus fala por meio de sua Palavra, deve-se tentar entender, o melhor possível, qual a finalidade da pequena história na grande história da redenção. Desta forma, é preciso estudar como a história da luta de Davi com Golias se encaixa no progresso da história da redenção, o que significa prestar mais atenção como as outras histórias acontecem no livro de 1 Samuel.

Nem precisa falar que você deve ler 1 Samuel várias vezes (convém ler 1 e 2 Samuel, mas desta vez vamos considerar somente esta parte). Isto significa que para entender a luta Davi x Golias é preciso entender a época de transição do período dos Juízes para a monarquia. Assim, vamos estar atentos ao que estava acontecendo no reino de Israel para entender o que ocorria no reino de Deus.

Apenas para adiantar um pedacinho, o contraste no primeiro livro de Samuel está entre a escolha do povo (emancipada de Deus), e a escolha de Deus para seu povo. Para esclarecer o equívoco da democracia da época os protagonistas Saul e Davi estão nas principais cenas. A escolha emancipada de Deus prefere um rei pecador que não confia nele; já a escolha de Deus recai sobre um rei pecador que confia e obedece.

A fim de descobrir pistas seguras sobre como chegar às conclusões acima, lançaremos mão do recurso de fazer perguntas ao texto. Vamos, sempre que possível, nos ater às informações dadas no próprio livro.

1. Por que o livro de 1 Samuel foi escrito?
O livro não tem uma sentença clara sobre isso, mas a forma como inicia nos auxilia a responder. A abertura marca bem ser uma época de transição do período da teocracia para a monarquia. No período teocrático Deus governava seu povo por meio de representantes (Êx 18.13-27) que julgavam o povo. Ou seja, Deus se fazia valer de alguém para resolver os problemas e estabelecer a justiça. Em geral esta tarefa de mediação era feita por um sacerdote e/ou profeta como Moisés, e agora Samuel. O livro abre suas páginas mostrando que a situação estava complicada. O sacerdócio que deveria instruir o povo estava corrompido, estéril – como aquela mãe que queria filhos. O nascimento de um menino, Samuel, é a resposta de Deus que ajuda a clarear a razão do livro. Deus continua a falar e agir em favor de seu povo.

2. Quem são os personagens do seu texto em particular?
O capítulo 17 de 1 Samuel é um episódio de batalha. De um lado os filisteus e de outro os israelitas sob o rei Saul. Entretanto, um personagem surge em cena e faz desmaiar o coração do povo de Israel: Golias. Era um, apenas um homem muito alto. Lembre-se de que Saul era um, apenas um homem mais alto do que todos em Israel.

3. O que deveria ser feito ou evitado?
Lembram-se de Levítico 18.3? “...nem fareis segundo as obras da terra de Canaã para a qual eu vos levo, nem andareis nos seus estatutos”. Aqui estava o povo de Israel ainda lutando por não ter expulsado os habitantes de Canaã, lugar que Deus disse lhes daria (Lv 25.38).

4. Há alguma rememoração importante?
Há uma rememoração importantíssima que deve ser trazida aqui conforme está em Juízes 3.1-4. Nestes versos lê-se que Deus deixou algumas nações na terra de Canaã para provar Israel: cinco príncipes dos filisteus, todos os cananeus, sidônios e heveus. Deus se utilizaria deles para saber se Israel daria ouvidos aos mandamentos que havia ordenado por intermédio de Moisés.
Por isso, um inimigo recorrente, os filisteus, aparece em todo o livro. As batalhas, portanto, devem ser vistas nesta perspectiva. Elas servem para mostrar se o povo de Israel confia em Deus ou se emancipa de seus caminhos.

Há outra rememoração importante. Compare Deuteronômio 17.14-15 com 1 Samuel 8.20. Você vai observar que a diferença é que Deus disse que seria do jeito dele, mas o povo tinha suas próprias ideias sobre o assunto.

5. Há algum artifício literário importante (sempre prestar atenção às repetições)?
O texto utiliza algumas repetições que deveriam chamar a nossa atenção. Antes de ressaltá-las, espero que tenha ficado claro alguns pontos do desenvolvimento da história no livro até aqui. Os primeiros 3 capítulos de 1 Samuel mostram como Deus não desampara seu povo propiciando um profeta e/ou sacerdote, alguém reconhecido como boca de Deus em todo Israel (1 Sm 3.20). Os capítulos 4 a 7 mostram que Samuel julgava (lembrar de Moisés aqui) o povo constantemente, e a fidelidade do povo redundava em vitória contra os inimigos. O capítulo 8 é o momento de emancipação de Deus de forma democrática, e a partir do capítulo 9 até o 12 a transição para a monarquia torna-se sedimentada com a auto-proclamada aposentadoria de Samuel. Os capítulos 13 a 15 revelam o que estava por detrás da aparência bela e da altura de Saul. Em face do perigo Saul não sabia esperar para ouvir a direção de Deus. No capítulo 16 fica claro que Deus havia rejeitado a Saul. É marcante a declaração em 16.7 quanto à rejeição de Eliabe: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejeitei; porque o SENHOR não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o SENHOR, o coração”.

Então, aparência, força e altura compõem uma observação importante. Há outra, que é o número 40. Por 40 dias o gigante Golias se mostrava. Este número é importante? Sim, ele marca, em geral, uma situação limite, o limiar de alguma coisa, e alguma forma de juízo (40 dias de chuva até que a inundação fosse completa, 40 dias Moisés ficou no monte com Deus e irrompe rebeldia porque pareceu “muito demorado”, 40 anos até que uma geração incrédula morresse no deserto, 40 dias os espias gastaram olhando a terra de Canaã, e a maioria voltasse assustada porque havia ali gigantes (Nm 13.25-33)! E o verso 33 desta última passagem fala de gigantes no plural! Como venceriam? A resposta vem da fala confiante de Josué (Nm 14.9). A ideia básica foi: não se rebelem contra Deus! Deus pode cuidar dos gigantes!

Então, o número 40, a aparência, a força e a altura compõem uma observação importante.

6. Meditando um pouco acerca do episódio central de 1 Samuel 17
Saul não era um líder ruim. Ele convenceu até mesmo Samuel inicialmente. Entretanto, o desenrolar de 1 Samuel o apresenta como desobediente e auto-confiante em relação aos caminhos de Deus (13-15). Até mesmo Samuel já havia declarado fim do reinado de Saul, e discretamente ungido o próximo rei (16). Assim, quando se chega ao capítulo 17 não temos um jovem que lutará contra um gigante! Temos, sim, o novo rei que lutará pelo seu povo confiando no Senhor Deus. Este conflito público tornará manifesto o declínio e rejeição de Saul e a ascensão e aceitação de Davi como rei. O que havia sido feito em secreto vai se tornando conhecido por todos. Assim como a família de Jessé aprendeu uma nova forma de escolha: a de Deus, a nação também aprenderá. Deus não escolhe segundo a aparência!

O contraste entre Saul e Davi é tão marcante que nada é deixado para trás. No começo do capítulo 17, com as primeiras provocações, o verso 11 mostra um rei amedrontado e acuado. Imediatamente após esta descrição do coração de Saul, os versos 12 a 23 descrevem uma pequena biografia de Davi, para então no verso 31 mostrar como reage o coração de quem confia em Deus. Observe que Golias repete o que dissera antes (17.23), e que fez com que Saul desfalecesse, e o povo responde a pergunta de Davi de novo (17.27,30), e de novo, mostrando também desfalecimento.

Observe-se ainda o encontro de Davi com Eliabe, seu irmão mais velho e mais bonito, que antecede o encontro com Saul. Não é apenas uma rivalidade entre irmãos! Eliabe fora rejeitado para ser rei (16.6,7), conquanto fosse, de fato, alto e de boa aparência. Agora, ao encontrar Saul, que era o mais alto de todos e de boa aparência (10.23,24), o leitor é informado tacitamente que o próximo rei não seria escolhido pela aparência (16.7), mas por ser um homem de acordo com o coração de Deus e que guardaria os seus mandamentos (13.14).

Há outros elementos que marcam bem este episódio neste capítulo 17, e que pouco tem a ver com Davi e Golias, mas com Saul e Davi – a luta por trás da luta. Veja, por exemplo, a conversa entre Saul e Davi nos versos 32 a 39. O que Saul oferece? Capacete, couraça e espada! Entretanto, o que Davi diz a Golias no verso 47? “o SENHOR salva, não com espada, nem com lança; porque do SENHOR é a guerra, e ele vos entregará nas nossas mãos”. Nem a lança de Golias e nem a espada de Saul são a razão da vitória, mas Deus é quem pode dar livramento. O ponto focal, portanto, é o poder de Deus por meio da fé de Davi. Saul não acreditava no poder de Deus. O restante do livro de 1 Samuel vai mostra como Deus mesmo é quem fará a transição para o rei que confia nele (capítulos 18 a 31, com a morte de Saul).

7. O Novo Testamento
A abertura dos Evangelhos com o nascimento sobrenatural de uma criança não deveria ser um espanto! É um formato conhecido, e que ocorre especificamente em nosso livro de 1 Samuel. O que o Novo Testamento mostra é que Samuel é o primeiro profeta da monarquia a anunciar os dias de Cristo (At 3.24-26). Como Samuel fez isso? Ao ungir como rei a Davi, aquele que traria livramento ao povo, além de ter julgado o povo incansavelmente. Davi foi um tipo de Cristo ao reinar sobre todo o Israel. Paulo em seu discurso confirma isto em Atos 13.16-24, quando de um só salto vai de Davi a Jesus.

Deus está no controle e utiliza meios comuns. Uma pessoa como Davi, envolvida em um trabalho corriqueiro. Depois o Deus-homem se fez carpinteiro. Em ambos os casos alguém que se importa com o nome de Deus e com seus mandamentos. Alguém que procura olhar as coisas do ponto de vista de Deus, o Senhor de toda criação. O número 40 não foi também utilizado com Jesus (Mt 4.1-11)? Depois de ser levado ao limite ele confiou em Deus e em sua Palavra.

8. Como esta passagem nos ensina algo sobre Jesus Cristo e seu ensino?
Note que Davi tinha certeza de que Deus estivera com ele quando venceu leões e ursos. Portanto, estaria com ele também contra este único gigante. Aliás, Deus já livrara seu povo de gigantes antes na história do povo. A questão central a ser aprendida ainda são as palavras de Josué ecoando: não se rebelem contra Deus. Agora, mesmo quando Deus parecer demorado, e mesmo que as aparências indiquem perigo, confiança total e absoluta em Deus.

Percebe-se, então, que a questão não é a vitória contra o gigante, mas muito mais como você lida diariamente com os afazeres confiando em Deus e obedecendo aos seus mandamentos. Em especial, não sendo rebelde à sua voz; antes, tendo prazer em ouvi-la e andar pelo caminho que ela indica, ainda que ocorram situações perigosas e a ação de Deus pareça demorada. Para que ansiedade (Mt 6.25-28; Fp 4.6)?

9. E quanto a nós?
A nossa luta, e isso ficou claro no livro de 1 Samuel, não é contra a carne ou o sangue (Ef 6.10-20). Paulo aos efésios ensina cristãos a tomarem a espada, que é a Palavra de Deus. Na luta contra Golias Davi mostrou também isso quando escolheu confiar na Palavra de Deus e não andar emancipado de sua vontade.

A força de Davi estava em Deus. Davi é descrito como alguém que se importou em confiar na Palavra de Deus, e sua experiência espiritual mostrou isso no cuidado pastoral, mesmo quando ninguém estava olhando, quando ele não estava em evidência. Isto o capacitou para um novo desafio – ser rei. Finalmente, Davi utilizou recursos com os quais estava familiarizado: funda e pedras em lugar de capacete, espada e couraça. Em uma época que discute tanto sobre liderança, o perfil adequado de um plantador de igrejas, etc., é interessante aprender que na liderança no reino de Deus requer confiança e obediência a ele. Habilidades, talentos e outros detalhes? Eles são secundários. Quando Deus escolhe alguém, esta é uma ação não-negociável, e que independe da aparência externa, seja física, seja até mesmo de habilidades específicas. O que importa é fazer a vontade de Deus. Esta é a luta por detrás da luta.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

A CAIXA DE PANDORA DO PT


Há na mitologia grega um mito conhecido como “A Caixa de Pandora”. A estória gira em torno de Pandora, aquela que, de acordo com Thomas Bulfinch, foi a “primeira mulher”[1], e que, tendo sido mandada à terra, foi oferecida a um dos titãs, chamado Epimeteu. Este possuía em casa uma caixa, que continha certos artigos malignos. Pandora, tomada por imensa curiosidade de saber o que havia na caixa, abriu-a sem olhar. Com isso, “escapou e se espalhou por toda a parte uma multidão de pragas que atingiram o desgraçado homem, tais como a gota, o reumatismo e a cólica, para o corpo, e a inveja, o despeito e a vingança, para o espírito”[2]. É por isso que, quando queremos falar de algo que contenha diversos males, fazemos referência ao mito da “caixa de Pandora”.

Semelhantemente, o famigerado e ímpio Partido dos Trabalhadores, siglado como PT, possui a sua caixa de horrores, a sua “caixa de Pandora”. Refiro-me ao, ainda desconhecido do populacho, PNDH-3 (Programa Nacional de Direitos Humanos 3)[3]. De antemão, preciso afirmar que, é perfeitamente possível que alguém me acuse de distorcer os fatos, afirmando que laboro em erro ao associar o PNDH-3 com o PT, visto que o programa é projetado e patrocinado não pelo partido, mas sim pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República. Não obstante, é fato que o Estado, infelizmente, tem sido utilizado como máquina de joguetes nas mãos do partido. Os projetos das secretarias especiais, como é o caso do PNDH-3, nada mais são do que políticas particulares e partidárias. Muitas das quimeras elencadas no texto do PNDH-3 são esposadas pelo Partido dos Trabalhadores, e, com isso, seus adeptos fazem uso da máquina estatal para obterem a consecução dos seus ideais.

O terceiro Programa de Direitos Humanos possui vários elementos e ações programáticas que são vergonhosas e inaceitáveis para todos aqueles que não estão envenenados por uma antropologia reducionista e naturalista. Diversas ações programáticas são total e completamente opostas aos princípios e afirmações da Palavra de Deus. Abaixo listo algumas das quimeras guardadas dentro da “caixa de Pandora” do PNDH-3.

01. Descriminalização do aborto[4]
No Eixo Orientador III, Diretriz 9, Objetivo Estratégico 3, que versa a respeito da “Garantia dos direitos das mulheres para o estabelecimento das condições necessárias para sua plena cidadania”, o PNDH-3 diz o seguinte na alínea “g”: “Apoiar a aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos”[5]. O texto ainda recomenda que o Poder Legislativo adéque “o Código Penal para a descriminalização do aborto”[6].

02. Legalização da Prostituição
Na alínea “h” do mesmo Eixo Orientador, o programa diz o seguinte: “Realizar campanhas e ações educativas para desconstruir os estereótipos relativos às profissionais do sexo”[7]. De forma absurda, o Ministério da Educação aparece como um dos parceiros para tal ação programática. Fica claro, então, que o discurso pró-legalização da prostituição será introduzido nas escolas, desconstruindo o pouco de moralidade que ainda resta em nossa sociedade. Imagine o leitor, por exemplo, sua filha fazendo um teste vocacional e, por fim, descobrindo que é vocacionada para atuar como “profissional do sexo”. Já pensou?

03. Promoção do Homossexualismo
Na Diretriz 10, do Eixo Orientador III, o 5º Objetivo Estratégico discorre sobre a garantia do respeito à livre orientação sexual e identidade de gênero. Trata-se de uma ação programática visando, não o combate a atitudes verdadeiramente violentas e preconceituosas contra os homossexuais, mas sim à promoção do estilo de vida homossexual, como atestam as seguintes alíneas:
a) Desenvolver políticas afirmativas e de promoção de uma cultura de respeito à livre orientação sexual e identidade de gênero, favorecendo a visibilidade e o reconhecimento social [...]
b) Apoiar projeto de lei que disponha sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo. [...] Recomendação: Recomenda-se ao Poder Legislativo a aprovação de legislação que reconheça a união civil entre pessoas do mesmo sexo [...]
c) Promover ações voltadas à garantia do direito de adoção por casais homoafetivos [...] Recomendações: Recomenda-se ao Poder Judiciário a realização de campanhas de sensibilização de juízes para evitar preconceitos em processos de adoção por casais homoafetivos. Recomenda-se ao Poder Legislativo elaboração de projeto de lei que garanta o direito de adoção por casais homoafetivos[8].


A iniquidade do programa pode ser percebida ainda no que está afirmado na alínea “d”: “Reconhecer e incluir nos sistemas de informação do serviço público todas as configurações familiares constituídas por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBT), com base na desconstrução da heteronormatividade”[9]. O texto fala em “desconstrução”. Este termo está associado ao pensamento do filósofo francês nascido na Argélia, Jacques Derrida (1930-2004), que propõe a inexistência de “uma ordem conceitual fixa entre os significantes”[10]. Nicola Abbagnano afirma que o desconstrucionismo implica na prévia construção de conceitos. Assim, tal filosofia “se fixa no nexo fenomenológico construção-desconstrução”[11]. Mas o que isso quer dizer? Isso quer dizer, que a heterossexualidade e a homossexualidade devem ser interpretadas de forma situacional ou relativa, não de forma absoluta. De forma simples, o que o programa pretende é ensinar que a heterossexualidade não é em nada melhor da homossexualidade. Trata-se de algo meramente construído pela sociedade, podendo assim, ser facilmente desconstruído. A desconstrução da heteronormatividade traz consigo a afirmação da Bíblia como um livro obscurantista, antiquado, retrógrado, não-inspirado, algo já afirmado explicitamente pelos militantes do movimento LGBT.

O que tudo isso tem a ver com o Partido dos Trabalhadores? Simplesmente, tudo! As ações programáticas listadas acima fazem parte de um compromisso partidário. Todas serão discutidas nos próximos quatro anos. E todas são defendidas pelo atual presidente da república e por sua fiel escudeira, candidata à presidência. O senhor presidente, Luís Inácio Lula da Silva, na apresentação do PNDH-3, afirma o seguinte: “Tenho reiterado que um momento muito importante de nosso mandato foi a realização da 1ª Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, travestis e transexuais, em 2008, marco histórico na caminhada para construirmos um país sem qualquer tipo de intolerância homofóbica”[12]. Além disso, o Partido dos Trabalhadores, através das resoluções do seu 3º Congresso, em 2007, reafirma o compromisso partidário de defender a “autodeterminação das mulheres, da discriminalização[sic] do aborto e regulamentação do atendimento a todos os casos no serviço público, evitando assim a gravidez não desejada e a morte de centenas de mulheres”[13]. O serviço público mencionado é o SUS (Sistema Único de Saúde). Interessantemente, o PNDH-2, datado de 13 de maio de 2002, na proposta geral 334 se compromete a “considerar o aborto como tema de saúde pública, com a garantia do acesso aos serviços públicos de saúde para os casos previstos em lei”[14].

É verdade que a eleição de outros candidatos não é garantia de que tais aberrações não serão aprovadas e regulamentadas. Não obstante, a eleição da candidata petista é garantia, se não da aprovação, pelo menos da sua ampla defesa e cerceamento dos posicionamentos contrários.

O que me espanta e me deixa profundamente alarmado, é que tais ações programáticas do atual governo, do Partido dos Trabalhadores e da sua candidata à Presidência da República não são suficientes para fazer com que os cristãos se posicionem de forma resoluta contra tais coisas. Aproxima-se o dia da eleição e são muitas as pessoas de nossas igrejas que se manifestam abertamente como apoiadoras da candidatura petista. Pior ainda, é que podemos perceber muitos cristãos que negociam seus princípios, que colocam de lado a visão de mundo bíblica em troca de estabilidade em seus empregos e outras vantagens. São evangélicos que dão seus votos a candidatos de um partido que é inimigo dos princípios e valores da Palavra de Deus. Como pode um cristão comprometido com a vontade revelada de Deus nas Sagradas Escrituras votar em candidatos de um partido carregado de uma ideologia socialista-marxista, que promove a desconstrução da verdade, da ética e da moralidade bíblica, que apóia práticas horrendas como o aborto e o homossexualismo, que intenta uma reforma constitucional, que em seu bojo traz propostas que irão prejudicar seriamente a livre pregação do evangelho em nosso país? Como um herdeiro da Reforma do século XVI, alguém comprometido em viver segundo o Sola Scriptura negocia os seus princípios e contribui com uma ideologia explicitamente anticristã?
Evangélicos de todo o país, presbiterianos, batistas, congregacionais, assembleianos, e membros de demais comunidades, que votam nos candidatos petistas, saibam que todos vocês estão contribuindo para que uma caixa repleta de males e elementos nocivos ao próprio evangelho seja aberta em nossa nação. Suas igrejas e seus pastores serão perseguidos. O evangelho que vocês dizem amar será escarnecido. O Cristo confessado por todos vocês será blasfemado. E vocês terão parte da culpa. Vocês terão responsabilidade na legalização do aborto e do PL 122/2006.
A única coisa que nos restará a fazer é clamar pela misericórdia de Deus!

NOTAS:
[1] Thomas Bulfinch, O Livro de Ouro da Mitologia, (Rio de Janeiro: Ediouro, 2006), 24.

[2] Ibid.

[3] O texto do PNDH-3 está disponível no site http://www.sedh.gov.br.

[4] Em várias ocasiões o Partido dos Trabalhadores, através do atual governo, tem manifestado o seu compromisso com a descriminalização da prática antinatalista do aborto. Em abril de 2005, no 2º Relatório do Brasil sobre o Tratado de Direitos Civis e Políticos, apresentado ao Comitê de Direitos Humanos da ONU, o atual governo se comprometeu a legalizar o aborto. Em agosto do mesmo ano, foi entregue à Comissão da ONU um documento no qual o aborto é reconhecido como direito humano da mulher. Em setembro de 2005, através da Secretaria Especial de Política das Mulheres, o atual governo apresentou ao Congresso um substitutivo do PL 1135/91, no qual é proposta a descriminalização do aborto até o nono mês de gravidez e por qualquer motivo. Em setembro de 2009, o Partido dos Trabalhadores puniu dois deputados, Luiz Bassuma e Henrique Afonso, que se manifestaram contrários à descriminalização do aborto. Cf. NOTA DA COMISSÃO EPISCOPAL REPRESENTATIVA DO CONSELHO EPISCOPAL REGIONAL SUL 1 – CNBB, disponível em http://www.cnbbsul1.org.br/index.php?link=news/read.php&id=5742.

[5] PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS, (Brasília: SEDH, 2010), 91.

[6] Ibid, 92.

[7] Ibid.

[8] Ibid, 98.

[9] Ibid, 99. Ênfase acrescentada.

[10] Philip Stokes, Filosofia: Os Grandes Pensadores, (Belo Horizonte: Cedic, 2009), 70.

[11] Nicola Abbagnano, Dicionário de Filosofia, (São Paulo: Martins Fontes, 2007), 281.

[12] PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS, 12. Ênfase acrescentada.

[13] RESOLUÇÕES DO 3º CONGRESSO NACIONAL DO PARTIDO DOS TRABALHADORES, (Porto Alegre: PT, 2007), 43. O mesmo se dá com o homossexualismo. Discorrendo sobre o socialismo petista, as resoluções do Congresso dizem o seguinte: “A democracia é, para nós, a invenção permanente de direitos e reinvenção cotidiana da política. Portanto, a superação do racismo, do machismo, da homofobia e de todas as formas de preconceito e discriminação requer comprometimento e apoio efetivo do PT, dos governantes, gestores e parlamentares, além do engajamento político dos movimentos sociais para a superação das relações desiguais de raça, gênero e classe”, pág. 21.

[14] PNDH-2, Proposta Geral 334, In: PROGRAMA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS, 218.

A RELAÇÃO ENTRE A ORAÇÃO E A VONTADE DE DEUS - 5ª PARTE

VI – A VONTADE DE DEUS E A ORAÇÃO[1]
Existem alguns textos nas Sagradas Escrituras que unem a oração à vontade de Deus, que parecem indicar que esta é dependente daquela. Por exemplo, em 1 João 5.14, está escrito: “E esta é a confiança que temos para com ele: que, se pedimos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve”. Textos como este frequentemente são usados para justificar o ensinamento de que a oração “toca o coração de Deus” a ponto de fazê-lo mudar de ideia.

Hoje em dia é comum ouvirmos coisas como promessas que devemos reivindicar, coisas que devemos fazer ou preencher para que os nossos pedidos sejam atendidos, ao passo que as exigências de Deus, os direitos de Deus, a glória de Deus são frequentemente deixados de lado.

No início citamos uma palavra de Watchman Nee a respeito da oração. A. W. Pink cita o editorial de um livro intitulado Oração ou Fatalidade, publicado em um jornal evangélico semanal. Eis um trecho:
Deus, em sua soberania, ordenou que os destinos dos homens possam ser modificados e moldados pela vontade do homem. Este é o âmago da verdade de que a oração muda as coisas, ou seja, que Deus muda as coisas quando os homens oram [2].

Essa citação parece uma cópia exata do que Watchman Nee afirmou em seu livro. E ela representa bem o espírito da nossa época. A crença dominante é exatamente esta: que a oração tem a capacidade de mudar os planos de Deus, de alterar o seu decreto eterno. No entanto, trata-se de uma aberrante e crassa heresia. Isso porque o destino humano é decidido não pela vontade do homem, mas sim pela vontade soberana de Deus. Dizer o contrário significa destronar Deus de sua soberania.

Como vimos, os planos de Deus ou o seu propósito eterno são referidos bíblica e teologicamente como sendo o seu decreto eterno. E a vontade decretiva de Deus é imutável. Ela é uma consequência lógica da imutabilidade do Ser de Deus. Se Deus, em seu Ser, é imutável, logicamente, o seu decreto, aquilo que Ele determinou desde antes da fundação do mundo também o é.

Devemos dar graças a Deus porque as coisas não são como muitas vezes queremos. Devemos render graças ao Senhor porque Ele não se dobra diante da nossa vontade. Que consolo haveria em servir um Deus volúvel, que muda de opinião ou de desígnios a partir da persuasão humana? Que encorajamento receberíamos em elevarmos diariamente nossas petições a um ser cuja atitude ontem já não é a de hoje? “Que vantagem haveria em mandarmos uma petição a um monarca terreno, se soubéssemos ser ele tão mutável, que atende petições em um dia, somente para revogá-las no dia seguinte?”[3]. A doutrina da imutabilidade de Deus, na verdade, deve ser o nosso maior incentivo na prática suplicante. A verdade da imutabilidade dos decretos divinos deve ser o nosso maior encorajamento para orarmos. O nosso Deus, diz a Sagrada Escritura, não sofre “variação ou sombra de mudança” (Tiago 1.17). Isso nos dá a convicção inabalável de que seremos ouvidos, e que Ele nos ouvirá e nos atenderá de acordo com a Sua boa, agradável e perfeita vontade. Como colocou acertadamente Martinho Lutero: “Orar não é vencer a relutância de Deus, mas é apropriar-se do beneplácito dEle”[4]. Eis uma prova bíblica adicional, de que a oração não muda os planos de Deus: “Disse-me, porém, o SENHOR: Ainda que Moisés e Samuel se pusessem diante de mim, meu coração não se inclinaria para este povo; lança-os de diante de mim, e saiam” (Jeremias 15.1). Quando a mente de Deus não se inclina a fazer o bem a alguém, a vontade dEle não pode ser alterada através das mais fervorosas e perseverantes orações, até mesmo daqueles que desfrutam da maior comunhão com Ele. Outro exemplo disso, é o relato da tríplice súplica de Paulo, para que o Senhor retirasse o espinho na carne que tanto o atormentava (2 Coríntios 12.7-9). Por três vezes o Senhor se recusou a atender o pedido de Paulo.

Com essa pequena reflexão acerca dos benefícios da doutrina da imutabilidade de Deus aplicada às orações, chegamos a um ponto de suma importância: Qual a utilidade da oração? Por que Deus ordenou que orássemos, se todas as coisas decretadas são imutáveis? Gostaria de apontar aqui algumas razões que justificam a oração como sendo uma atividade válida, genuína e útil para os filhos de Deus.

3.1. A Honra de Deus
Em primeiro e máximo lugar, a oração foi instituída para que o próprio Senhor Deus seja honrado. Quando o profeta Elias orou para que chovesse, ele reconheceu que Deus exerce controle sobre os elementos da natureza. Quando oramos para que o Senhor liberte um miserável pecador da ira vindoura, reconhecemos que “ao SENHOR pertence a salvação” (Jonas 2.9).

Deus exige que o adoremos. A oração, a verdadeira oração, é um lindo ato de adoração. Quando oramos, prostramos nossa alma em adoração diante do Rei do universo. Quando oramos invocamos o grandioso e santo nome de Deus; reconhecemos a bondade, o poder, a imutabilidade e a graça de Deus. Também reconhecemos a Sua soberania, quando, em oração, submetemos a nossa vontade à dEle.

A oração redunda em glória ao nosso Deus, pois quando oramos reconhecemos que somos completamente dependentes dEle. A oração é a confissão da debilidade do nosso potencial e da debilidade das nossas capacidades.

3.2. Um meio de bênção e de crescimento na graça
Em segundo lugar, a oração foi ordenada e designada por Deus a fim de ser uma bênção espiritual para nós, e um meio para o nosso crescimento na graça. A oração é um dos meios de graça que o Senhor concedeu ao Seu povo. Meios de graça “são aqueles meios que Deus ordenou com o propósito de comunicar as influências vivificantes e santificantes do Espírito às almas humanas. Tais são a Palavra e os Sacramentos, e tal é a oração”[5]. Wayne Grudem afirma que, “meios de graça são quaisquer atividades na comunhão da igreja que Deus usa para distribuir mais graça aos cristãos”[6]. A oração é um meio de graça porque ela nos conduz para mais perto de Deus. Através da oração temos comunhão e conversação com Ele, colocamos em ação todos os afetos graciosos, a reverência, o amor, a gratidão, a submissão, a fé e a devoção. Tais coisas sós nos fazem crescer.

O grande erro da cristandade é supor que a oração é um dispositivo pelo qual o homem obtém o suprimento das suas necessidades. Alguns imaginam a oração como uma espécie de botão que, ao ser pressionado, garante a satisfação. No entanto, a oração foi planejada pelo Senhor para nos humilhar. A oração autêntica consiste em chegarmos à presença de Deus, tendo consciência da Sua sublime majestade, o que produz em nós o reconhecimento de nossa insignificância e indignidade. Quando oramos, chegamos diante de Deus de mãos vazias.

3.3. A busca pelo suprimento das nossas necessidades
Em terceiro lugar, a oração foi designada por Deus a fim de que procuremos, da parte dEle, as coisas de que precisamos. É possível que, nesse ponto, alguém levante a seguinte objeção: “Qual é a utilidade de chegar-se alguém a Deus para dizer-Lhe aquilo que Ele já sabe? Para que eu Lhe apresentaria a minha necessidade, se Ele já tem conhecimento do que preciso? [...] Qual é o valor da oração por alguma coisa, se tudo já foi predestinado por Deus?”[7]. Mais uma vez, um dos grandes equívocos cometido pela cristandade é imaginar de forma tácita, que a oração tem a função de apresentar informações e dados que Deus ainda não possui. Jesus deixou claro, em Mateus 6.8, que o nosso Pai celestial conhece as nossas necessidades antes que Lho peçamos. Então, por que orar?

A finalidade da oração é expressar a Deus o nosso reconhecimento pelo fato que Ele já sabe aquilo que necessitamos. A oração jamais se destinou a proporcionar a Deus o conhecimento daquilo que precisamos; antes, visa a ser o meio de Lhe confessarmos o nosso senso da necessidade que temos. Ademais, é o meio de confessarmos que nossos olhos estão fitos nEle, pois sabemos que o nosso suprimento vem dEle.

Deus requer que as suas dádivas sejam buscadas. Deus é como um pai, que mesmo conhecendo as necessidades dos seus filhinhos pequenos, alegra-se quando eles lhe pedem algo. Deus deseja ser honrado através das nossas petições e ser o alvo da nossa gratidão, depois de haver concedidos as bênçãos que buscávamos.

De fato, Deus já predestinou todos os eventos do cosmos, até mesmo os aparentemente mais insignificantes (Mateus 10.29). Ainda assim, a oração é válida e necessária porque Deus nos manda orar: “Orai sem cessar” (1 Tessalonicenses 5.17). As Sagradas Escrituras declaram ainda que, “a oração da fé salvará o enfermo”, e também: “Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tiago 5.15,16). Lembremos também que, o nosso Senhor Jesus Cristo, o nosso modelo supremo e perfeito em todas as coisas, foi proeminente e zeloso na vida de oração. Com estes dados, fica evidente que a oração não é sem propósito e sem poder.

VI – CONCLUSÃO
Depois do longo arrazoado apresentado aqui, concluímos que, de fato a oração, apesar de ser uma atividade legítima, genuína, válida, benéfica e necessária, não tem a finalidade de alterar os desígnios de Deus, nem de fazer com que o Senhor formule novos planos. Deus já decretou todas as coisas que hão de suceder. Não obstante, também decretou os meios necessários para a sua concretização. Por exemplo, Deus predestinou certas pessoas para a salvação. Ele também predestinou a pregação do evangelho da graça como o meio para que a salvação se torne realidade nas vidas dos Seus eleitos. Da mesma forma, a oração é um dos meios para que a vontade de Deus seja efetivada na vida dos Seus filhos. As orações “são instrumentos, entre outros, por meio dos quais Deus cumpre os seus decretos”[8].

Eis, pois o grande desígnio da oração: não para que seja alterada a vontade do Senhor, mas, antes, para que ela seja cumprida, dentro do tempo e dos meios estabelecidos por Ele.

Louvado e glorificado seja o nosso Deus, por nos ter concedido a bênção da oração!

NOTAS:
[1] Condensado a partir de A. W. Pink, Deus é Soberano, (São José dos Campos: Fiel, 2002), 123-138.

[2] Ibid, 124.

[3] Ibid, 128.

[4] Ibid.

[5] Charles Hodge, Teologia Sistemática, (São Paulo: Hagnos, 2001), 1543.

[6] Wayne Grudem, Teologia Sistemática, (São Paulo: Vida Nova, 2002), 801. É interessante notar que, Grudem também inclui a oração como sendo um meio de graça, embora vá além da opinião de Hodge: “Há sabedoria, por exemplo, na opinião de Charles Hodge de que a oração é um quarto meio de graça”. Especificamente sobre a oração, ele afirma: “tanto a oração coletiva na igreja reunida quanto a oração dos cristãos uns pelos outros são meios poderosos que o Espírito Santo usa cotidianamente para distribuir bênçãos aos salvos”. Cf. Ibid, 806.

[7] A. W. Pink, Deus é Soberano, 130.

[8] Ibid, 131.

sábado, 18 de setembro de 2010

A RELAÇÃO ENTRE A ORAÇÃO E A VONTADE DE DEUS - 4ª PARTE

IV – A DOUTRINA DA VONTADE DE DEUS [1]

O termo “vontade”, geralmente, é definido nos dicionários etimológicos como “capacidade de escolha, de decisão”, “anseio” e “desejo” [2]. O termo quando aplicado a seres humanos é entendido como a faculdade da escolha [3]. Entretanto, quando se referindo à pessoa do Deus Todo-poderoso, o vocábulo tem o seu significado essencial ampliado para a capacidade de autodeterminação inerente à divindade. A vontade de Deus está acoplada à sua supremacia soberana. Ontologicamente, Deus é um ser volitivo, ou seja, a sua vontade soberana determina, estabelece e permeia toda a sua constituição perfeita. Com isto, todos os seus atos também são soberanos.

Deve ser entendido também que Deus é um ser tanto pessoal quanto moral. Sendo assim, a sua vontade diz respeito tanto à sua prerrogativa soberana quanto a sua moralidade. No que concerne a essa última, Deus, por ser infinitamente santo, prescreve leis e ordenanças que devem ser observadas devidamente por suas criaturas. E como governador soberano que é, Deus faz tudo o que lhe apraz na vida das suas criaturas e na administração (governo) da ordem criada. Deus é o Legislador Soberano. Essas são apenas duas formas de Deus exprimir a sua vontade [4]. A Confissão de Fé de Westminster expressa devidamente esta verdade, quando afirma:

Há um só Deus, vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeição, um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões, imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, sapientíssimo, santíssimo, soberano, absoluto, operando todas as coisas segundo o conselho de sua própria e imutável e justíssima vontade, para sua própria glória [5].

Ainda com base na afirmação confessional, pode-se perceber, com muita sensibilidade, que a expressão da vontade soberana de Deus possui um caráter teleológico, ou seja, possui um alvo a ser atingido, a saber, a manifestação de sua própria glória (cf. Romanos 11.36).

A vontade soberana de Deus possui algumas peculiaridades que devem ser mencionadas aqui sucintamente. Ela é uma vontade livre, isto é, sua expressão é livre. Essa característica possui estreita afabilidade com sua soberania; é uma vontade necessária, na qual o próprio Deus é o receptáculo da sua vontade. Por necessidade “ele ama a si próprio e tem prazer na contemplação das suas perfeições” [6]; é uma vontade eterna, pois assim como Deus é eterno, segue-se que tudo no ser divino também o é. Os seus decretos eternos são expressões da sua vontade eterna; é imutável, possuindo o mesmo princípio da característica anterior, ou seja, “a imutabilidade da vontade divina está fundada na imutabilidade do seu ser” [7]; assim como Deus é onipotente, tal é a sua vontade, isto é, ela é irresistível. Nada, nem ninguém, em todo o universo criado, tem a capacidade de se opor e contrariar a vontade soberana de Deus. Isso é perfeitamente aplicável até mesmo quando os filhos de Deus têm boas aspirações (cf. Atos 16.6-10). A vontade divina é também eficaz, contudo, essa verdade diz respeito apenas aos decretos soberanos de Deus. A vontade decretiva de Deus nunca é ineficaz, ou seja, direta ou indiretamente, Deus sempre realiza a sua vontade (Isaías 14.24-27; 55.11); a vontade de Deus é autolimitada, com isto quer-se dizer que Deus é tão poderoso que estabelece limites para Ele próprio. Sua santa vontade limita o uso do seu poder, ou, em outras palavras, “Deus pode fazer tudo o que ele deseja, porém ele não deseja fazer tudo o que pode” [8]. Com isto, cai por terra a teoria do inglês Thomas Hobbes (1588-1679) que afirmava que os déspotas humanos eram os éctipos do arquétipo Deus, pois este sempre agia de forma arbitrária [9]. Deus é a sua própria lei, o seu próprio legislador, de modo que ele faz somente o que é justo [10] (Êxodo 3.14; Números 23.19; 1 Samuel 15.29); e, por fim, sua vontade é sábia, ou seja, para que ele seja justo em tudo aquilo em que ele se apraz e se deleita, por obrigatoriedade, sua sabedoria também permeia sua vontade. A vontade de Deus é sábia porque ele sempre escolhe o que é melhor. “A operação da sabedoria de Deus envolve a expressão de sua vontade” [11], (Salmo 104.1-34; Romanos 11.33; 1 Co 2.7).

É pertinente notar que algumas diferenciações [12] podem ser aplicadas à vontade de Deus, como por exemplo, Vontade Decretiva e Vontade Prescritiva. Discorreremos sucintamente sobre cada uma delas, visando proporcionar um melhor entendimento para a nossa discussão da relação entre a vontade soberana de Deus e as orações dos seus filhos.

Por Vontade Decretiva nos referimos ao plano eterno de Deus e que Ele levará a cabo perfeitamente (Daniel 4.17,25,32,35; Romanos 9.18,19). Louis Berkhof assim define a vontade decretiva: “A primeira é a vontade de Deus pela qual ele projeta ou decreta tudo que virá a acontecer, quer pretenda realizá-lo efetivamente (causativamente), quer permita que venha a ocorrer por meio da livre ação das Suas criaturas racionais” [13]. O insight do Dr. Heber Carlos de Campos a respeito da vontade decretiva é extraordinário:

Nessa vontade Deus não permite ser resistido. Para executar essa sua vontade ele não consulta a opinião dos homens. Os homens não têm participação nessas suas decisões. Com ela nós devemos nos alegrar, porque essa vontade de Deus “é perfeita, boa, e agradável” (Rm 12.2) e por ela devemos dar graças (1 Ts 5.18) [14].

Isso significa dizer, que não há nada que o homem possa fazer que modifique o decreto divino, nem mesmo orações e súplicas. A vontade decretiva de Deus é imutável. A afirmação do autor aos Hebreus não deixa espaço para pensarmos o contrário: “Por isso, Deus, quando quis mostrar mais firmemente aos herdeiros da promessa a imutabilidade do seu propósito, se interpôs com juramento” (6.17). Deus nunca volta atrás na sua vontade decretiva, pois ela é o fundamento de toda a existência humana ao longo da história e já possui o seu clímax previsto e anunciado pelas Sagradas Escrituras. Nada do que Deus decidiu fazer mudará. Ninguém pode fazer Deus voltar atrás ou impedi-lo de concretizar os seus propósitos. Parábolas como a de Lucas 18.1-8, sobre o juiz iníquo e a viúva, não ensinam que Deus pode ser persuadido. O único propósito de Jesus é ensinar o dever da perseverança na oração. Afirmar que Deus pode ser convencido a agir a partir de parábolas como esta é afirmar algo que nunca passou pela mente dAquele que está em perfeita sintonia com o Pai.

Já a Vontade Prescritiva diz respeito ao aspecto da vontade divina, em que Deus dá às suas criaturas racionais e morais um modus vivendi (modo de vida) correto, isto é, trata-se dos seus preceitos e prescrições. Esse aspecto da vontade de Deus está perfeitamente revelado nas Sagradas Escrituras (2 Crônicas 27.6; Salmo 40.8; 143.8-10; Mateus 7.21; 12.50). É costume nos referirmos à vontade de Deus como sendo o que Ele determina em sua Palavra sobre os nossos deveres. Por exemplo, os Dez Mandamentos, que ensinam uma perfeita regra de vida podem ser entendidos perfeitamente como expressão da vontade de Deus para o seu povo. Enquanto a vontade decretiva não pode ser resistida ou desobedecida, a vontade prescritiva, com frequência é resistida e desobedecida. Nem tudo o que Deus requer de nós como norma de vida é obedecido. Heber Campos coloca isso em forma de perguntas: “Você conhece a vontade de Deus? Sim, se você lê o que está escrito na Palavra de Deus. Você faz exatamente todas as coisas que Deus quer de você? Não. Esta vontade, portanto, pode e, frequentemente, é resistida” [15].

Depois de compreendermos o ensino bíblico e sistemático sobre a vontade de Deus, podemos avançar para a sua relação com a oração.

NOTAS:
[1] Esta seção foi extraída com adaptações de: Alan Rennê Alexandrino Lima, Multiformes Manifestações da Soberania de Deus, (Monografia), (Teresina, 2005), 74-76.

[2] Antonio Geraldo da Cunha, Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa, (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997), 828.

[3] A. W. Pink, Deus é Soberano, (São José dos Campos: Fiel, 2002), 106.

[4] Heber Carlos de Campos, O Ser de Deus e os seus Atributos, (São Paulo: Cultura Cristã, 1999), 352.

[5] A. A. Hodge, A Confissão de Fé de Westminster Comentada por A. A. Hodge, (São Paulo: Os Puritanos, 2001), 75.

[6] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), 75.

[7] Heber Carlos Campos, O Ser de Deus e os seus Atributos, 354.

[8] Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, (São Paulo: Hagnos, 2002), vol. I, 287.

[9] Thomas Hobbes, O Leviatã, (São Paulo: Martin Claret, 2001), 111.

[10] A. W. Pink, Os Atributos de Deus, 40.

[11] J. I. Packer, Teologia Concisa, (São Paulo: Cultura Cristã, 1996), 46.

[12] É importante salientar a essa altura, que apesar das distinções existentes, o texto encontrado em Mateus 6.9-13, traz uma assertiva por demais interessante a respeito da vontade de Deus. O versículo 10 afirma: “venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu”. A referência à vontade soberana de Deus nesse versículo inclui tanto a sua vontade decretiva como a sua vontade prescritiva. Com isso, fica evidente, que pelo menos nesse caso, pode-se perceber uma unicidade com relação à vontade de Deus. O Dr. William Hendriksen apresenta uma posição diferente com base em que a vontade decretiva de Deus já é perfeitamente cumprida na terra, ao passo que isso não acontece com a sua vontade prescritiva. Comentário do Novo Testamento: Mateus, (São Paulo: Cultura Cristã, 2000), vol. I, 465, 466. Entretanto, o Dr. R. B. Kuiper apresenta uma interpretação que envolve estes dois aspectos da vontade divina. Evangelização Teocêntrica, (São Paulo: PES, 1996), 45.

[13] Louis Berkhof, Teologia Sistemática, 74.

[14] Heber Carlos Campos, O Ser de Deus e os seus Atributos, 354. Ênfase acrescentada.

[15] Ibid, 362.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

A RELAÇÃO ENTRE A ORAÇÃO E A VONTADE DE DEUS - 3ª PARTE

III - A ORAÇÃO DO REI EZEQUIAS

De particular interesse para o assunto da oração é a passagem de Isaías 38.1-5. Esta passagem apresenta a narrativa da doença do rei Ezequias e a sua cura maravilhosa. Os adeptos do pensamento de Watchman Nee e E. M. Bounds frequentemente recorrem a esta passagem com o objetivo de consubstanciarem a sua tese. Por exemplo, eis o que Bounds escreveu sobre a mesma: “As orações de Ezequias modificaram o propósito de Deus, então quinze anos mais foram acrescentados à sua vida” [1]. O grande problema, que leva muitas pessoas a formarem uma concepção errônea a respeito da oração, é que elas não compreendem o propósito do Senhor na doença e na cura maravilhosa do rei Ezequias. Para isso, é preciso compreender o contexto no qual se deu o episódio.

Um pouco antes, no capítulo 37, Senaqueribe, rei da Assíria invadira Judá e enviara Rabsaqué, seu servo para afrontar tanto o rei Ezequias como o Senhor Deus. Rabsaqué proferiu palavras arrogantes e fez ameaças terríveis. Quando o rei Ezequias soube das palavras do enviado do rei da Assíria, “rasgou as suas vestes, cobriu-se de pano de saco e entrou na Casa do SENHOR” (Isaías 37.1). Ezequias se apoiou em Deus, suplicou a sua misericórdia e o livramento das mãos dos assírios (37.14-20). Deus respondeu à oração do seu servo, destruindo milagrosamente todo o exército assírio. Foi nesse contexto que veio a palavra do Senhor ao rei Ezequias, no sentido de que ele deveria colocar a sua casa em ordem, porque morreria (38.1).

A intenção do Senhor desde o início era a de trabalhar mais a humildade na vida do rei Ezequias. O decreto de Deus, desde o início, era que o rei vivesse mais quinze anos. Comparemos isso com a verdade axiomática afirmada por Davi: “Os teus olhos me viram a substância ainda informe, e no teu livro foram escritos todos os meus dias, cada um deles escrito e determinado, quando nem um deles havia ainda” (Salmo 139.16). A doença mortal foi o meio que Deus usou para humilhar o seu servo e levá-lo a suplicar a misericórdia. Ezequias confiou na promessa contida no Salmo 50.15: “invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás”. Alguém pode argumentar, que se esse é o caso, então, Deus agiu com egoísmo ou outros motivos escusos. Mas, isso está longe da verdade, pois Deus também tinha o propósito de manter Ezequias livre de todo orgulho ou sentimento de auto-suficiência. Havia o perigo do rei se envaidecer por causa da grande vitória sobre o exército assírio. O Senhor estava cuidando da saúde espiritual do seu servo.

Todos os eventos da vida de uma pessoa já estão determinados pelo Senhor Deus. Não só os eventos em si, como também os meios para a consecução desses eventos. Isso quer dizer que, no caso de Ezequias, tudo já estava determinado: os dias exatos de vida, a sua doença, e a oração e a pasta de figos (2 Reis 20.7), como meios para a cura de Ezequias. O lamentável, é que mesmo depois de ter recebido inúmeros benefícios da parte do Senhor, Ezequias ainda se ensoberbeceu. Diz 2 Crônicas 32.25: “Mas não correspondeu Ezequias aos benefícios que lhe foram feitos; pois o seu coração se exaltou. Pelo que houve ira contra ele e contra Judá e Jerusalém”. A ira de Deus, nesse caso, foi o meio para humilhá-lo novamente (v. 26).

Tendo entendido estas verdades a respeito da doutrina da imutabilidade de Deus, devemos procurar compreender como a oração se enquadra na vontade de Deus.

NOTA:

[1] E. M. Bounds, O Propósito da Oração, (Belo Horizonte: Dynamus, s/d), 21.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A RELAÇÃO ENTRE A ORAÇÃO E A VONTADE DE DEUS - 2ª PARTE

II – A DOUTRINA DA IMUTABILIDADE DE DEUS

Afirmar que a oração tem a capacidade de mudar ou alterar os planos de Deus é dirigir um ataque frontal à doutrina de Deus. É atacar o atributo incomunicável da imutabilidade de Deus. O Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta 7 afirma o seguinte: “Deus é Espírito, em si e por si infinito em seu ser, glória, bem-aventurança e perfeição; todo-suficiente, eterno, imutável, insondável, onipresente, infinito em poder, sabedoria, santidade, justiça, misericórdia e clemência, longanimidade, cheio de bondade e verdade” [1]. A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo II, seção i, faz a seguinte declaração a respeito do Ser de Deus:
Há um só Deus vivo e verdadeiro, o qual é infinito em seu ser e perfeições. Ele é um espírito puríssimo, invisível, sem corpo, membros ou paixões, é imutável, imenso, eterno, incompreensível, onipotente, onisciente, santíssimo, completamente livre e absoluto, fazendo tudo para sua própria glória e segundo o conselho da sua própria vontade, que é reta e imutável. É cheio de amor, é gracioso, misericordioso, longânimo, muito bondoso e verdadeiro galardoador dos que o buscam, e, contudo, justíssimo e terrível em seus juízos, pois odeia todo pecado; de modo algum terá por inocente o culpado [2].

Por imutabilidade queremos dizer que Deus não muda em absolutamente nada. Nas palavras de Franklin Ferreira e Alan D. Myatt: “Deus não muda seu ser, planos, propósitos, promessas e perfeições” [3]. A imutabilidade de Deus está estritamente relacionada com a sua perfeição. Ora, sendo Deus perfeito, é impossível qualquer tipo de mudança, pois “qualquer mudança implicaria em que ele se tornasse mais, ou menos, perfeito” [4]. Se Deus mudasse para melhor, isso significaria que ele ainda não era perfeito. Se mudasse para pior, deixaria de ser perfeito. É o que é afirmado por Tiago: “Toda boa dádiva e todo dom perfeito são lá do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (1.17).

É importante frisar muito bem que, a imutabilidade de Deus diz respeito ao seu ser, perfeições, propósitos e promessas. Robert Reymond afirma que, “esta doutrina afirma que Deus, ontológica e decretivamente falando, não faz e não pode mudar” [5]. A. W. Pink nos provê um entendimento adequado dessa afirmação ao asseverar que Deus é imutável [6]:

1. Em sua essência. Sua natureza e seu Ser são infinitos e, assim, não sujeitos a mutação alguma (Malaquias 3.6; Êxodo 3.14);

2. Em seus atributos. Seu poder é imbatível, sua sabedoria não sofre diminuição, sua santidade é imaculada, sua veracidade é imutável, seu amor é eterno, sua misericórdia não cessa (Salmo 119.89; João 13.1; Salmo 100.5);

3. Em seu conselho. Sua vontade nunca muda, seu propósito nunca se altera (Romanos 11.29; Jó 23.13).

Pessoas como Nee e Bounds gostam de recorrer a passagens que falam do arrependimento de Deus, como por exemplo, Gênesis 6.6; Êxodo 32.14; 1 Samuel 15.35; 1 Crônicas 21.15; Jeremias 26.19; Amós 7.3,6; Jonas 3.10. Dizer, com base nestes versículos, que Deus muda de intenção e se arrepende, é dizer que as Sagradas Escrituras se contradizem, visto que Números 23.19 declara que: “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?”. Também encontramos o seguinte em 1 Samuel 15.29: “Também a glória de Israel não mente, nem se arrepende, porquanto não é homem, para que se arrependa”. O Salmo 110.4 afirma: “O SENHOR jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. Outras passagens que mostram que Deus não se arrepende são: Jeremias 4.28; Ezequiel 24.14 e Zacarias 8.14,15. Será que os defensores da teoria de que Deus se arrepende chegariam ao ponto de afirmar que as Escrituras estão cheias de contradições? Como entender, então, as passagens que falam do arrependimento de Deus? Mais uma vez evocando Pink:

Quando fala de si mesmo, Deus frequentemente acomoda a Sua linguagem às nossas capacidades limitadas. Ele Se descreve a Si mesmo como revestido de membros corporais com olhos, ouvidos, mãos, etc. Fala de Si como tendo despertado (Salmo 78.65) e como ‘madrugando’ (Jeremias 7.13), apesar de que Ele não cochila nem dorme. Quando Ele estabelece uma mudança em Seu procedimento para com os homens, descreve a Sua linha de conduta em termos de arrepender-se [7].

Se há alguma mudança em Deus, é meramente na sua forma de se relacionar conosco. E tal mudança só acontece, porque, primeiramente, há uma mudança realizada em nós. Mais uma vez, o Dr. Robert Reymond afirma de forma acertada:

Em outras palavras, Deus sempre age da mesma forma em relação ao mal moral e da mesma forma em relação ao bem moral. Em toda reação sua às respostas dos homens a Ele, a fixação moral imutável do seu caráter é evidente [8].

Caso interessante é o da passagem de 1 Samuel 15.35: “Nunca mais viu Samuel a Saul até ao dia da sua morte; porém tinha pena de Saul. O SENHOR se arrependeu de haver constituído Saul rei sobre Israel”. Seis versículos antes (1 Samuel 15.29) lemos que Deus não se arrepende. Como, então, conciliar estas duas passagens? A palavra hebraica para “se arrependeu” (nacham). Este verbo é significa “ter pena, arrepender-se, lamentar, ser consolado, consolar” [9]. M. R. Wilson afirma que quando este verbo é usado para se referir a Deus, “a expressão é antropopática” [10], ou seja, é usada com o propósito de se acomodar ao nosso entendimento limitado. Além disso, o sentido que se quer comunicar com o uso do verbo é que Deus ficou movido de compaixão ou de tristeza. Isso fica mais claro quando consideramos que o termo “arrependimento” tanto no hebraico quanto no grego significa “mudança de mente”. Deus não sofre nenhuma mudança em seu Ser, consequentemente, não sofre nenhuma mudança em sua mente.

Continua...

NOTAS:

[1] O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER, (São Paulo: Cultura Cristã, 2002), 13. Ênfase acrescentada.

[2] A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER, (São Paulo: Cultura Cristã, 2003), 26. Ênfase acrescentada.

[3] Franklin Ferreira e Alan Myatt, Teologia Sistemática: Uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual, (São Paulo: Vida Nova, 2007), 216.

[4] Ibid.

[5] Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith, (Nashville, TN: Thomas Nelson, 1998), 177. Minha tradução.

[6] A. W. Pink, Os Atributos de Deus, (São Paulo: PES, 2001), 52-57.

[7] Ibid, 54.

[8] Robert L. Reymond, A New Systematic Theology of the Christian Faith, 181. Minha tradução.

[9] Marvin R. Wilson in: R. Laird Harris, Gleason L. Archer Jr., e Bruce K. Waltke, Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, (São Paulo: Vida Nova, 2001), 951.

[10] Ibid.

A RELAÇÃO ENTRE A ORAÇÃO E A VONTADE DE DEUS - 1ª PARTE

I - INTRODUÇÃO

Existem alguns conceitos completamente equivocados a respeito da oração. Um destes conceitos é o de que a oração tem a capacidade de mudar os planos de Deus. A dinâmica seria mais ou menos a seguinte: Deus decidiu não conceder a Fulano determinada bênção. No entanto, através da perseverança na oração Fulano pode fazer o Senhor mudar de ideia, e, então, receber a tão aguardada bênção. Este pensamento é mais comum do que imaginamos. Por exemplo, o conhecido Watchman Nee publicou um livro em inglês intitulado The Prayer Ministry of the Church (O Ministério de Oração da Igreja). Tal foi vertido para o português com o sugestivo título A Oração: Quando a Terra Governa o Céu. Apesar da discrepância entre as versões do título, o conteúdo do livro se adéqua perfeitamente ao título em língua portuguesa. Eis a aberrante afirmação de Nee:

“Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra, será ligado no céu; e tudo o que desligardes na terra, será desligado no céu”. Qual é a característica desse versículo? O ponto em questão aqui é que a ação na terra precede a ação do céu. Não é no céu que as coisas são ligadas primeiro, mas sim na terra; não é no céu que são desligadas primeiro, mas sim na terra. Se algo é ligado na terra, também o será no céu; se for desligado na terra, consequentemente será desligado no céu. A ação do céu é governada pela ação da terra. Tudo o que contradiz a Deus precisa ser amarrado, e tudo o que concorda com Deus precisa ser solto. Qualquer coisa que deva ser atada ou desatada, deve começar na terra. A ação na terra precede a ação no céu. A terra governa o céu. [1]

Watchman Nee ignora de forma absurda o assunto da passagem aludida por ele (Mateus 18.15-20), que é a disciplina eclesiástica. Ele assume que se trata da oração. Uma falácia grotesca. Além dele, E. M. Bounds, conhecido escritor e autor do clássico Poder Através da Oração [2], escreveu o seguinte em outro livro: “A oração tem o poder inacreditável de cativar e mudar os propósitos de Deus, porque o vigor de seu poder arrefece diante das orações dos homens justos”. [3] Tal afirmação é, simplesmente, assustadora. O vigor do poder de Deus arrefece diante das orações de homens justos?

Fico pasmo diante do fato de que este pensamento traz sérias dificuldades e implicações para a teontologia (a doutrina do Ser e Obras de Deus), implicações essas ignoradas por um grande número de evangélicos que esposa tal pensamento. Diante disso, discorreremos, não de forma exaustiva, a respeito de uma doutrina profundamente afetada pelo tipo de raciocínio de Nee e Bounds. Logo em seguida, apresentaremos a dinâmica da oração pela perspectiva do eterno plano divino.

NOTAS:

[1] Watchman Nee, A Oração: Quando a terra governa o céu, (São Paulo: Vida, 2009), 9. Ênfase acrescentada.

[2] Publicado no Brasil pela Imprensa Batista Regular. Edição esgotada. Disponível no site http://www.monergismo.net.br/

[3] E. M. Bounds, O Propósito da Oração, (Belo Horizonte: Dynamus, s/d), 17. Ênfase acrescentada.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A URGÊNCIA DA PREGAÇÃO

Albert R. Mohler, Jr.

Será que a pregação diminui em tempos difíceis? Um debate aberto está agora sendo travado sobre o caráter e a centralidade da pregação na igreja. Está em jogo nada menos que a integridade do culto e da pregação cristã.
Como isso aconteceu? Tendo em vista a posição central da pregação na Igreja do Novo Testamento, pareceria que a prioridade da pregação bíblica seria incontestável. Afinal de contas, como John A. Broadus – um dos grandes pregadores da história cristã – observou notavelmente: “Pregação é característica do cristianismo. Nenhuma religião falsa alguma vez tomou providências para a reunião regular e frequente de grande número de pessoas para ouvir instruções e exortação religiosas” [1].

Contudo, inúmeras vozes influentes dentro do evangelicalismo sugerem que a era do sermão expositivo é agora coisa do passado. Em seu lugar, alguns pregadores contemporâneos agora substituem as mensagens intencionalmente projetadas para alcançar congregações seculares ou superficiais – mensagens que evitam pregar um texto bíblico e, assim, evitam um confronto potencialmente embaraçoso com a verdade bíblica.

Uma mudança sutil, visível no início do século 20, tornou-se um grande divisor no final desse século. A mudança da pregação expositiva para abordagens mais tópicas e centradas no ser humano tem se transformado em um debate sobre o lugar da Escritura na pregação e da natureza da pregação em si.

Duas declarações famosas sobre pregação ilustram esta crescente divisão. Refletindo poeticamente sobre a urgência e a centralidade da pregação, o pastor puritano Richard Baxter uma vez comentou: “Eu prego como se nunca fosse pregar de novo, e como um homem morrendo para outros homens morrendo” [2]. Com a expressão vívida e a consciência da importância do evangelho, Baxter compreendeu que a pregação é literalmente um caso de vida ou de morte. A eternidade está no prato da balança enquanto o pregador proclama a Palavra.

Contraste essa afirmação com as palavras de Harry Emerson Fosdick, talvez o mais famoso (ou infame) pregador das primeiras décadas do século 20. Fosdick, pastor da Igreja Riverside, na cidade de Nova York, oferece um contraste instrutivo com o venerável Baxter. “Pregação”, explicou ele, “deveria ser um aconselhamento pessoal em termos de grupo” [3].

Essas duas afirmações sobre a pregação revelam os contornos do debate contemporâneo. Para Baxter, a promessa do céu e os horrores do inferno emolduram a pesada responsabilidade do pregador. Para Fosdick, o pregador é um conselheiro gentil que oferece conselhos úteis e incentivos.

O debate atual sobre a pregação é mais comumente explicado como um argumento sobre o foco e a forma do sermão. Deveria o pregador pregar um texto bíblico por meio de um sermão expositivo? Ou o pregador deveria dirigir o sermão às “necessidades sentidas” e às preocupações observadas nos ouvintes?

Claramente, muitos evangélicos hoje favorecem a segunda abordagem. Instados pelos devotos da “pregação com base nas necessidades”, muitos evangélicos abandonaram o texto sem reconhecer o que fizeram. Esses pregadores podem, eventualmente, chegar ao texto no decorrer do sermão, mas o texto não define a pauta nem estabelece a forma da mensagem.

Ao centrar-se nas chamadas necessidades observadas e ao permitir que essas necessidades definam a pauta da pregação, chega-se inevitavelmente a uma perda da autoridade bíblica e do conteúdo bíblico do sermão. No entanto, esse padrão é cada vez mais a norma em muitos púlpitos evangélicos. Fosdick deve star sorrindo no túmulo.

Os evangélicos mais antigos reconheceram a abordagem de Fosdick como uma rejeição da pregação bíblica. Um teólogo liberal “que saiu do armário”, Fosdick exibia sua rejeição da inspiração bíblica, inerrância e infalibilidade – e rejeitava outras doutrinas centrais da fé cristã. Enamorado das tendências da teoria psicológica, Fosdick se tornou um alegre terapeuta de púlpito do protestantismo liberal. O objetivo de sua pregação foi bem captado no título de um de seus livros: On being a real person (Sobre ser uma pessoa real).

Embora chocante, essa é agora a abordagem evidente em muitos púlpitos evangélicos. A mesa sagrada se tornou um centro de aconselhamento e o banco se tornou o divã do terapeuta. Problemas psicológicos e práticos têm destronado a exegese teológica e o pregador dirige seu sermão à congregação conforme observa as necessidades dela.

O problema é, naturalmente, que o pecador não sabe qual é a sua necessidade mais urgente. Ele é cego à sua necessidade de redenção e reconciliação com Deus e centra-se em necessidades potencialmente reais, mas temporárias, tais como a realização pessoal, a segurança financeira, a paz da família e o avanço na profissão. Sermões em demasia concordam em responder estas necessidades expressas e preocupações, e deixam de proclamar a Palavra da Verdade.

Sem dúvida, os pregadores que seguem essa tendência popular têm a intenção de se afastar da Bíblia. Porém, sob o disfarce de uma intenção de alcançar os homens e as mulheres modernos e seculares “onde eles estão”, o sermão foi transformado em um seminário de sucesso. Alguns versículos da Bíblia podem ser adicionados à mistura, mas para um sermão ser genuinamente bíblico, o texto deve definir a pauta como fundamento da mensagem – não como uma autoridade citada na nota de rodapé espiritual.

Charles Spurgeon enfrentou o mesmo padrão de púlpitos vacilantes no se tempo. Em algumas das mais modernas e bem frequentadas igrejas de Londres, figuraram pregadores das mensagens baseadas em necessidades. Spurgeon – que conseguia chamar a atenção de uns milhares de ouvintes, apesar de sua insistência na pregação bíblica – confessou que “O verdadeiro embaixador de Cristo sente que está diante de Deus e que tem de lidar com as almas no serviço de Deus como um servo de Deus, e... ocupa um lugar solene – um lugar no qual a infidelidade é desumanidade ao homem, bem como traição a Deus” [4].

Spurgeon e Baxter entenderam o mandato perigoso do pregador e, portanto, foram conduzidos à Bíblia como a única autoridade e mensagem. Eles deixavam seus púlpitos tremendo com a preocupação urgente pelas almas de seus ouvintes e plenamente conscientes da responsabilidade perante Deus por pregar a sua Palavra e a sua Palavra somente. Seus sermões foram medidos pelo poder; os de Fosdick pela popularidade.

A pregação expositiva autêntica requer a apresentação da Palavra de Deus como o objetivo central. O propósito do pregador é ler, interpretar, explicar e aplicar o texto. Portanto, o texto conduz o sermão do começo ao fim. De fato, em muitos sermões de hoje em dia, o texto figura apenas como um papel subordinado a outras preocupações.

Exposição verdadeira toma tempo, preparação, dedicação e disciplina. O fundamento da pregação expositiva é a confiança de que o Espírito Santo irá aplicar a Palavra aos corações dos ouvintes – explicado pelos reformadores como o ministro da Palavra e do Espírito. Esse ministério – tão vital para o povo de Deus – está faltando ou foi minimizado em muitas congregações evangélicas.

O debate atual sobre a pregação pode abalar as congregações, as denominações e o movimento evangélico; mas saiba disto: a recuperação e a renovação da igreja nesta geração virão apenas quando, de púlpito a púlpito, o arauto pregar como se nunca fosse pregar novamente, e como um homem morrendo pregando a outros homens morrendo também.

FONTE: MOHLER, Albert. O Desaparecimento de Deus. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. pp. 139-142.

NOTAS:

[1] John A. Brodus. A treatise on the preparation and delivery of sermons, (1870; reimpressão, Nova York: Harper and Brothers Publishers, 1926), 1.
NOTA DO CRISTÃO REFORMADO: Eis o trecho do livro de John A. Broadus na íntegra: “A pregação é típica do cristianismo. Nenhuma outra religião fez da reunião regular e frequente de grupos de pessoas, para ouvir instruções e exortações religiosas, uma parte integral do culto divino. O judaísmo tinha algo semelhante a isso nos profetas e, mais tarde, nos leitores e oradores da sinagoga; mas a pregação não era uma parte essencial no culto do templo.
No mundo greco-romano do primeiro século A.D., o filósofo pregador, fazendo uso do refinado instrumento da retórica grega, não era uma figura desconhecida. Mas nem a religião judaica nem a filosofia grega atribuíram à pregação a importância que ela tem no cristianismo, no qual é função primária da igreja. Seguindo o sucesso da pregação cristã, e especialmente nos tempos modernos, outras religiões e seitas adotaram a pregação de modo limitado. No entanto, permanece verdade que, como serviço básico da igreja em sua história e importância, a pregação é uma instituição notadamente cristã”. Cf. John A. Broadus, Sobre a preparação e a entrega de sermões, (São Paulo: Hagnos, 2009), 1.

[2] Richard Baxter. Poetical fragments, (J. Dunton, 1689), 30.

[3] Harry Emerson Fosdick, The living of these days, (Nova York: Harper and Brothers, 1956), 94.

[4] Charles Spurgeon, “Negotiations for peace: A sermon delivered on the Lord’s-Day evening, de 18 de setembro de 1870”, em The metropolitan tabernacle pulpit, vol. 16, (Pasadena, TX: Pilgrim Publications, 1983).
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